Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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O Sr. de la Roche, membro titular, comunica o fato seguinte, de seu conhecimento pessoal: Numa pequena casa perto de Castelnaudary, havia ruídos estranhos e diversas manifestações que levavam a considerá-la como assombrada por algum mau gênio. Por isso, foi exorcizada em 1848 e nela colocaram grande número de imagens desantos. Desde então, querendo habitá-la, o Sr. D... mandou fazer reparos e retirar as gravuras. Há alguns anos, ali morreu subitamente. Seu filho, que nela mora atualmente ou que pelo menos a ocupava até há pouco, certo dia, ao entrar num quarto, recebeu forte bofetada de mão invisível. Como estivesse absolutamente só, não duvidou que ela viesse de fonte oculta. Agora não quer mais ficar lá e vai mudar-se definitivamente. Há na região uma tradição segundo a qual um grande crime foi cometido na dita casa.

Interrogado quanto à possibilidade de evocar o autor da bofetada, São Luís respondeu favoravelmente. Chamado, o Espírito se manifestou por sinais de violência. O médium foi tomado de extrema agitação, quebrou sete ou oito lápis, lançando alguns sobre os assistentes e rasgou uma página, que cobriu de traços sem sentido, feitos com cólera. Foram inúteis todos os esforços para acalmá-lo. Premido a responder às perguntas, escreveu com a maior dificuldade um não quase indecifrável.

1. (A São Luís) ─ Teríeis a bondade de nos dar algumas informações sobre este Espírito, já que ele não pode ou não quer dá-las? ─ É um Espírito da pior espécie, um verdadeiro monstro. Fizemo-lo vir, mas não foi possível obrigá-lo a escrever, malgrado tudo quanto lhe foi dito. Ele tem seu livre-arbítrio, do qual o infeliz faz triste uso.

2. ─ Há muito que morreu como homem? ─ Procurai informações. Foi ele que cometeu o crime cuja lenda existe na região.

3. ─ Quem era ele em vida? ─ Sabê-lo-eis por vós mesmos.

4. ─ É ele que assombra a casa atualmente? ─ Sem dúvida, desde que foi assim que vo-lo fiz atender.

5. ─ Então os exorcismos não o expulsaram? ─ De modo algum.

6. ─ Ele participou de algum modo da morte súbita do Sr. D...? ─ Sim.

7. ─ De que maneira contribuiu para essa morte? ─ Pelo pavor.

8. ─ Foi ele que deu a bofetada no filho do Sr. D...?─ Sim.

9. ─ Poderia ter dado outra em algum de nós? ─ Sem dúvida. Vontade não lhe faltava.

10. ─ Por que não o fez? ─ Não lhe foi permitido.

11. ─ Haveria um meio de desalojá-lo daquela casa, e qual seria? ─ Se se quiserem desembaraçar da obsessão de semelhantes Espíritos, será fácil, orando por eles. É o que sempre esquecem de fazer. Preferem aterrá-los com fórmulas de exorcismos, que os divertem muito.

12. ─ Dando aos interessados a ideia de orar por esse Espírito, e orando nós mesmos, seria possível desalojá-lo? ─ Sim. Mas notai que eu disse orar e não mandar orar.

13. ─ Tal Espírito é suscetível de melhora? ─ Por que não? Não o são todos, este como os outros? Contudo, é preciso dispor-se a encontrar dificuldades. Mas, por mais perverso que seja, o bem, em retribuição ao mal, acabará por tocá-lo. Que orem a princípio e o evoquem depois de um mês. Podereis apreciar a mudança que nele se operará.

14. ─ Esse Espírito é sofredor e infeliz. Podeis descrever o gênero de sofrimento que experimenta? ─ Ele está persuadido de que terá de ficar eternamente na situação em que se encontra. Vê-se constantemente no momento em que praticou o crime. Qualquer outra lembrança lhe foi apagada e qualquer comunicação com outro Espírito foi interdita. Na Terra, só pode ficar naquela casa, e quando no espaço, nas trevas e na solidão.

15. ─ Em que mundo vivia, antes da última encarnação? A que raça pertencia? ─ Havia tido uma existência entre as tribos mais ferozes e selvagens e, precedentemente, vinha de um planeta inferior à Terra.

16. ─ Se reencarnasse, em que categoria de indivíduos iria encontrar-se? ─ Isto dependerá dele e de seu arrependimento.

17. ─ Em sua próxima existência corporal poderia ser o que se chama um homem de bem? ─ Isto lhe será difícil; por mais que faça, ser-lhe-á difícil evitar uma vida tempestuosa. OBSERVAÇÃO: A Sra. X..., médium vidente que assistia à sessão, viu esse Espírito no momento em que queriam que escrevesse: sacudia o braço do médium; seu aspecto era aterrador; vestia uma camisa coberta de sangue e tinha um punhal. O Sr. e a Sra. F..., presentes à sessão como ouvintes, não sendo ainda sócios, desde a mesma noite cumpriram a recomendação feita em favor do infeliz Espírito, e oraram por ele. Obtiveram várias comunicações dele, bem como de suas vítimas. Damo-las na ordem em que foram recebidas, juntamente com as que, sobre o mesmo assunto, foram obtidas na Sociedade. Além do interesse ligado a essa dramática história, ressalta um ensinamento que a ninguém escapa.

18. (Ao Espírito familiar). ─ Podes dizer algo a respeito do Espírito de Castelnaudary? ─ Evoque-o.

19. ─ Ele é mau? ─ Verás.

20. ─ O que é preciso fazer? ─ Não lhe falar, se nada tens a dizer-lhe.

21. ─ Se lhe falarmos para lamentar seu sofrimento, isto lhe fará bem? ─ A compaixão sempre faz bem aos infelizes.

22. Evocação do Espírito de Castelnaudary. ─ Que querem de mim?

23. ─ Nós te chamamos a fim de te sermos úteis. ─ Oh! Vossa piedade me faz bem, porque sofro... Oh! Como sofro!... Que Deus tenha piedade de mim!... Perdão!... Perdão!...

24. ─ Nossas preces ser-te-ão salutares? ─ Sim. Orai, orai.

25. ─ Está bem! Oraremos por ti. ─ Obrigado! Tu, pelo menos, não me amaldiçoas.

26. ─ Por que não quiseste escrever na Sociedade, quando te chamaram? ─ Oh! Maldição!

27. ─ Maldição para quem? ─ Para mim, que expio muito cruelmente os crimes nos quais a minha vontade teve pequena parte.

OBSERVAÇÃO: Dizendo que sua vontade teve pequena parte nos seus crimes, quer atenuá-los, como mais tarde se ficou sabendo.

28. ─ Se te arrependeres, serás perdoado? ─ Oh! Jamais!

29. ─ Não te desesperes. ─ Eternidade de sofrimento, eis o meu destino.

30. ─ Qual é o teu sofrimento? ─ O que há de mais terrível. Não podes compreender. 31. ─ Oraram por ti desde ontem à noite? ─ Sim, mas sofro ainda mais. 32. ─ Como assim? ─ Sei eu?

OBSERVAÇÃO: Esta circunstância foi explicada mais tarde.

33. ─ Deve-se fazer algo em relação à casa onde te instalaste? ─ Não! Não! Não me falem nisso... Perdão, meu Deus! Já sofri demais!

34. ─ Tens que permanecer lá? ─ Assim estou condenado.

35. ─ Será para que tenhas teus crimes constantemente sob tua vista? ─ É isto.

36. ─ Não te desesperes. Tudo pode ser perdoado com o arrependimento. ─ Não! Não há perdão para Caim.

37. ─ Então mataste teu irmão? ─ Todos somos irmãos.

38. ─ Por que quiseste fazer mal ao Sr. D...? ─ Chega! Por favor, chega!

39. ─ Então, adeus. Tem confiança na misericórdia divina! ─ Orai.

40. Evocação. ─ Estou junto de vós.

41. ─ Começas a ter esperança? ─ Sim, meu arrependimento é grande.

42. ─ Qual era o teu nome? ─ Sabereis mais tarde.

43. ─ Há quantos anos sofres? ─ Há 200 anos.

44. ─ Em que época cometeste o crime? ─ Em 1608.

45. ─ Podes repetir as datas para confirmá-las? ─ É inútil. Uma vez basta. Adeus, eu vos falarei amanhã. Uma força me chama!

46. Evocação. ─ Obrigado, Hugo! (prenome do Sr. F...).

47. ─ Queres falar-nos do que aconteceu em Castelnaudary? ─ Não. Fazeis-me sofrer quando falais disso. Não é generoso de vossa parte.

48. ─ Sabes muito bem que se te falamos disto é com o objetivo de esclarecerte acerca da tua situação e não de agravá-la. Então, fala sem medo. Como te deixaste levar a cometer esse crime? ─ Um momento de desvario.

49. ─ Houve premeditação? ─ Não.

50. ─ Esta não pode ser a verdade. Teus sofrimentos provam que és mais culpado do que dizes. Sabes que só pelo arrependimento podes abrandar tua sorte, e não pela mentira. Vamos! Sê franco. ─ Bem! Já que é preciso, seja!

51. ─ Foi um homem ou uma mulher que mataste? ─ Um homem.

52. ─ Como causaste a morte do Sr. D...? ─ Eu lhe apareci visivelmente. Meu aspecto é tão horroroso que minha simples vista o matou.

53. ─ Fizeste-o de propósito? ─ Sim.

54. ─ Por que? ─ Ele quis me desafiar, e eu faria de novo, se me viessem tentar.

55. ─ Se eu fosse morar naquela casa, tu me farias mal? ─ Oh! Não. Certamente que não! Tu tens piedade de mim e me desejas o bem.

56. ─ O Sr. D... morreu instantaneamente? ─ Não. Foi tomado pelo medo, mas só morreu duas horas depois.

57. ─ Por que te limitaste a dar um sopro no filho do Sr. D...? ─ Era mais do que suficiente ter matado dois homens.

58. Perguntas dirigidas a São Luís. ─ O Espírito que se comunicou com o Sr. e a Sra. F... é realmente o de Castelnaudary? Sim.

59. ─ Como pôde comunicar-se com eles tão prontamente? ─ Ele ainda ignorava a Sociedade. Ele não se havia arrependido, e o arrependimento é tudo.

60. ─ As informações por ele dadas sobre o crime são exatas? ─ Cabe-vos verificar e vos entenderdes com ele.

61. ─ Ele disse que o crime foi cometido em 1608 e que morreu em 1659. Ele se acha nesse estado, portanto, há 200 anos? ─ Isto vos será explicado mais tarde.

62. ─ Podeis descrever seu gênero de suplício? ─ É-lhe atroz. Como sabeis, foi condenado a ficar no local do crime, sem poder dirigir o pensamento a outra coisa senão ao crime, sempre ante os seus olhos, e julga-se eternamente condenado a essa tortura.

63. ─ Está mergulhado na escuridão? ─ Escuridão quando quer afastar-se do lugar de exílio.

64. ─ Qual é o mais terrível gênero de suplício que pode experimentar um Espírito, neste caso? ─ Não há descrição possível das torturas morais que são a punição de certos crimes. Até mesmo aquele que as experimenta terá dificuldade em vos dar uma ideia. Mas a mais horrível é a certeza de se crer condenado sem apelo.

65. ─ Há dois séculos ele se acha em tal situação. Ele avalia o tempo da mesma maneira que em vida, isto é, o tempo lhe parece mais longo ou menos longo do que quando estava vivo? ─ Parece-lhe ainda mais longo. Para ele não há o sono.

66. ─ Foi-nos dito que para o Espírito o tempo não existia, e que para eles um século é um ponto na eternidade. Não é o mesmo para todos? ─ Certamente que não. É assim apenas para os Espíritos chegados a uma grande elevação, mas para os Espíritos inferiores o tempo é por vezes muito longo, sobretudo quando sofrem.

67. ─ Esse Espírito é punido muito severamente pelo seu crime. Ora, vós nos dissestes que antes desta última existência tinha vivido entre bárbaros. Lá deve ter cometido atos pelo menos tão atrozes quanto o último. Foi punido do mesmo modo? ─ Foi menos punido porque, sendo mais ignorante, compreendia menos o alcance.

OBSERVAÇÃO: Todas as observações confirmam este fato, eminentemente conforme à justiça de Deus, que as penas são proporcionais, não à natureza da falta, mas ao grau de inteligência do culpado e à possibilidade de compreender o mal que faz. Assim, uma falta aparentemente menos grave poderá ser mais severamente punida num homem civilizado do que um ato de barbárie num selvagem.

68. ─ O estado em que se encontra esse Espírito é o dos seres vulgarmente chamados danados? ─ Certamente, e há casos ainda muito mais horríveis. Os sofrimentos estão longe de ser os mesmos para todos, mesmo para crimes semelhantes, pois variam conforme o culpado seja mais ou menos acessível ao arrependimento. Para este, a casa onde cometeu o crime é o seu inferno; outros o levam em si mesmos, pelas paixões que os atormentam e que não podem satisfazer.

OBSERVAÇÃO: Com efeito, vimos avarentos sofrerem à vista do ouro que se lhes tornara uma verdadeira quimera; orgulhosos atormentados pela inveja das honras que viam prestadas a outros que não eles; homens que comandavam na Terra, humilhados pelo poder invisível que os constrangia a obedecer e pela visão de seus subordinados que não mais se dobravam diante deles; ateus sofrendo as angústias da incerteza, e achando-se num isolamento absoluto em meio à imensidade, sem encontrarem nenhum ser que os pudesse esclarecer. No mundo dos Espíritos, se há alegria para todas as virtudes, há penas para todas as faltas, e as que não são atingidas pela lei dos homens, sempre o serão pela lei de Deus.

69. ─ Malgrado a sua inferioridade, esse Espírito sente os bons efeitos da prece. O mesmo vimos quanto a outros Espíritos igualmente perversos e da mais bruta natureza. Como é que Espíritos mais esclarecidos, de inteligência mais desenvolvida, mostram completa ausência de bons sentimentos; riem-se de tudo quanto há de mais sagrado; numa palavra, nada os toca e não deixam nunca o seu cinismo? ─ A prece só tem efeito sobre o Espírito que se arrepende. Aquele que, levado pelo orgulho, se revolta contra Deus e persiste nos seus desvios, ainda os exagerando, como fazem os Espíritos infelizes, sobre esses nada pode a prece e nada poderá, senão quando um clarão de arrependimento neles se manifestar. Para eles, a ineficácia da prece é um castigo. Ela só alivia os não totalmente endurecidos.

70.Quando vemos um Espírito inacessível aos bons efe!tos da prece, há uma razão para nos abstermos de orar por ele?
Não, sem dúvida; pois cedo ou tarde ela poderá vencer o seu endurecimento e despertar nele pensamentos salutares.



(SEXTA SESSÃO. EM CASA DO SR. ,...)


71.Evocação: Eis-me aqui.

72.Então, agora podes deixar a casa de Castelnaudary quando quiseres? Permitem-me, porque aproveito vossos bons conselhos.

73.Experimentas algum alívio? Começo a ter esperanças.

74. Se pudéssemos ver-te, sob que aparência te veríamos? Ver-me-íeis de camisa e sem punhal.

75.Por que não mais terias o punhal? Que fizeste dele? Eu o maldigo. Deus me poupa sua vista.

76.Se o Sr. D... Filho voltasse à casa, ainda lhe farias mal? Não; estou arrependido.

77.E se ainda te quisesse desafiar? Oh! não me pergunteis isto. Não me poderia dominar: isto estaria acima de minhas forças... sou apenas um miserável.

78.As preces do Sr. D... Filho ser-te-iam mais salutares que as de outras pessoas? Sim, pois a ele é que fiz o maior mal.

79.Pois bem, continuaremos a fazer por ti o que pudermos. Obrigado. Pelo menos encontrei em vós almas caridosas. Adeus.


(SÉTIMA SESSÃO)


80.Evocação do homem assassinado: Aqui estou.

81.Que nome tínheis em vida? Eu me chamava Pierre Dupont.

82.Qual a vossa profissão? Era salsicheiro em Castelnaudary, onde fui assassinado por meu irmão, a 6 de maio de 1608; por Charles Dupont, irmão mais velho, com um punhal, no meio da noite.

83.Qual foi a causa do crime? Meu irmão pensou que eu queria cortejar uma mulher de quem ele gostava e que eu via multas vezes, Mas ele se enganava, pois eu jamais havia pensado nisso.

84.Como ele vos matou? Eu dormia. Ele me feriu na garganta, depois no coração. Ferindo, despertou-me. Quis lutar, mas sucumbi.

85.Vós o perdoastes? Sim; no momento de sua morte, há 200 anos.

86.Com que idade morreu ele? Com 80 anos.

87.Ele não foi punido em vida? Não.

88.Quem foi acusado por vossa morte? Ninguém. Naqueles tempos de confusão, prestava-se pouca atenção a essas coisas: isto não adiantaria nada.

89.Que aconteceu à mulher? Pouco depois foi morta por meu irmão, em minha casa.

90.Por que a assassinou? Amor frustrado; ele se havia casado com ela, antes de minha morte.


(OITAVA SESSÃO)


91.—Por que não fala ele do assassinato dessa mulher? Porque o meu é o pior para ele.

92.Evocação da mulher assassinada: Estou aqui.


93.Que nome tínheis em vida? Marguerite Aeder, senhora Dupont.

94.Quanto tempo esteve casada? Cinco anos.

95.— Pierre nos disse que seu irmão suspeitava de relaçõescriminosas entre vós dois. Isto é verdade? Nenhuma relação criminosa existia entre mim e Pierre. Não acrediteis nisto.

96.Quanto tempo depois da morte de seu irmão Charles elevos assassinou? Dois anos depois.

97.Que motivo o impeliu? o ciúme e o desejo de ficar com o meu dinheiro.

98.Podeis relatar as circunstâncias do crime? Ele me agarrou e feriu-me na cabeça, no local de trabalho, com sua faca de salsicheiro.

99.Como é que não foi perseguido? Para que? Naqueles tempos funestos tudo era desordem.

100. o ciúme de Charles tinha fundamento? Sim; mas isto não o autorizava a cometer semelhante crime, porque nesse mundo todos somos pecadores.

101. Há quantos anos estáveis casada, quando da morte de Pierre? Há três anos.

102. Podeis precisar a data de vossa morte? Sim: 3 de maio de 1610.

103. Que pensaram da morte de Pierre? Fizeram crer em assassinos que queriam roubar.



OBSERVAÇÃO: Seja qual for a autenticidade desses relatos, que parecem difíceis de controlar, há um fato notável: a precisão e a concordância das datas e de todos os acontecimentos. Tal circunstância é, por si só, curioso assunto de estudo, se considerarmos que os três Espíritos chamados, em intervalos diversos, em nada se contradizem. O que pareceria confirmar suas palavras é que o principal culpado no caso, evocado por outro médium, deu respostas idênticas.


(NONA SESSÃO)


104. Evocação do Sr. D...: Eis-me aqui.

105. Desejamos pedir alguns detalhes das circunstâncias da vossa morte. Quereis no-los fornecer? De boa vontade.


106. Sabíeis que a casa que habitáveis era assombrada por um Espírito? Sim. Mas eu o quis desafiar e errei. Melhor teria sido orar por ele.



OBSERVAÇÃO: Vê-se por ai que os meios geralmente empregados para nos desembaraçarmos dos Espíritos importunos não o os mais eficazes.

As ameaças mais os excitam do que os intimidam. A benevolência e a comiseração tem mais poder que o emprego de meios coercitivos, que os irritam, ou das fórmulas de que se riem.


107. Como vos apareceu esse Espírito? À minha entrada em casa ele estava visível e me olhava fixamente; não me foi possível escapar; tomou-me o pavor e eu expirei sob o olhar terrível desse Espírito que eu havia desprezado, e para com o qual me havia mostrado tão pouco caridoso.

108.— Não poderíeis pedir socorro? Impossível: minha hora havia chegado e assim eu devia morrer.

109. Que aparência tinha ele? De um furioso disposto a me devorar.

110. Sofrestes com a morte? Horrivelmente.



111. Morrestes subitamente? Não: duas horas depois.

112. Que reflexões fazíeis ao vos sentirdes morrer? Não pude refletir; fui tomado de um terror inexprimível.

113. A aparição ficou visível até o fim? Sim: não deixou meu pobre Espírito, um só instante.

114. Quando vosso Espírito se desprendeu percebestes a causa de vossa morte? Não: tudo estava acabado. Só o compreendi mais tarde.

115. Podeis indicar a data de vossa morte? Sim: 9 de agosto de 1853 (A data precisa ainda não foi verificada; mas está mais ou menos certa).


(DÉCIMA SESSÃO SOCIEDADE, 13 DE JANEIRO DE 1860)


Quando esse Espírito foi evocado, a 9 de dezembro, São Luis aconselhou a chamá-lo de novo dentro de um mês, a fim de julgar do progresso que deveria ter feito no intervalo. Já foi possível julgar, pelas comunicações do Sr. e da Sra. F..., da mudança operada em suas idéias, graças à influência das preces e dos bons conselhos. Decorrido pouco mais de um mês de sua primeira evocação, foi de novo chamado à Sociedade, a 13 de janeiro.


116. Evocação: Aqui estou.

117. Lembrai-vos de ter sido chamado aqui há cerca de um mês? Como poderia esquecê-lo?

118. Por que então não pudestes escrever? Eu não queria.


119.— Por que não o queríeis? Ignorância e embrutecimento.

120. Vossas idéias mudaram de então para cá? Muito. Vários dentre vós fostes complacentes e orastes por mim.

121. Confirmais todas as informações dadas por vós e por vossas vitimas? Se não as confirmasse, seria dizer que não as havia dado... E fui eu mesmo.

122. Entrevedes o fim de vossas penas? Oh! ainda não. Já é muito mais do que mereço, saber, graças à vossa intercessão, que não durarão para sempre.

123. Descrevei a vossa situação antes de nossa primeira evocação. Compreendeis que vo-lo pedimos para nossa instrução e não como motivo de curiosidade. Já vos disse que não tinha consciência de nada, no mundo, senão do meu crime e que não podia deixar a casa onde o cometi, senão para elevar-me no espaço, onde tudo em volta de mim era solidão e obscuridade. Não poderia vos dar uma idéia do que isto é, e jamais o compreendi. Desde que me elevava acima do ar, tudo era negro e vazio; não sei o que era. Hoje experimento muito mais remorsos; mas, como vos provam as comunicações, já não sou constrangido a ficar naquela casa fatal; é-me permitido vagar na terra e procurar esclarecer-me por minhas observações. Mas agora compreendo melhor a enormidade de meus erros. E se, por um lado, sofro menos, por outro, as torturas aumentam pelo remorso. Mas, pelo menos, tenho esperança.

124. Se tivésseis que retomar uma existência corpórea, qual escolheríeis? Ainda não vi bastante, nem refleti bastante para o saber.

125. Encontrais as vossas vitimas? Oh! que Deus me guarde!



OBSERVAÇÃO: Sempre foi dito que a presença das vítimas é um dos tormentos dos culpados. Este ainda não as viu, porque estava no isolamento e nas trevas. Era um castigo; mas ele teme essa presença e si talvez esteja o complemento de seu suplicio.


126. Durante vosso longo isolamento e, pode-se dizer, vosso cativeiro, sentistes remorsos? Nem um pouco; e é por isto que sofri tanto. Apenas comecei a experimentá-lo quando, malgrado meu, foram provocadas as circunstâncias que conduziram à minha evocação, à qual devo o começo de minha libertação. Obrigado a vós, que tivestes piedade de mim e me esclarecestes.



OBSERVAÇÃO: Esta evocação não foi casual. Como devia ser útil a asse infeliz, os Espíritos que velavam por ele, vendo que começava a compreender a enormidade de seus crimes, julgaram chegado o momento de lhe prestar socorro eficaz, e então o trouxeram às circunstâncias propicias. É um fato que vimos muitas vazes repetido.

A propósito, perguntam o que teria sido dele, se não tivéssemos podido evocá-lo, como de todos os Espíritos sofredores que, também, não o podem ser, e nos quais não se pensa. A resposta é que as vias de Deus são inumeráveis para a salvação das criaturas. A evocação pode ser um meio de as assistir, mas, certo, não é o único. E Deus não deixa ninguém esquecido. Aliás, as preces coletivas devem ter influência parcial sobre os Espíritos acessíveis ao arrependimento.

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