Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

Voltar ao Menu
Nosso sábio confrade Sr. Jobard, de Bruxelas, nos escreve o que segue, a propósito de nosso artigo sobre os pré-adamitas, publicado na Revista do mês passado:

“Permiti-me algumas reflexões sobre a criação do mundo, com o fito de reabilitar a Bíblia aos vossos olhos e aos dos livres-pensadores. Deus criou o mundo em seis dias, quatro mil anos antes da era cristã. Eis o que os geólogos contestam, pelo estudo dos fósseis e pelos milhares de caracteres incontestáveis de vetustez, que fazem remontar a origem da Terra a milhares de milhões de anos. Entretanto, a Escritura diz a verdade e os geólogos também, e é um simples camponês que os põe de acordo, ensinando que a nossa Terra não passa de um planeta incrustado, muito moderno, composto de materiais muito antigos.

“Depois da elevação do planeta desconhecido, chegado à maturidade ou em harmonia com o que existia no lugar que ocupamos hoje, a alma da Terra recebeu ordem de reunir seus satélites para formar nosso globo atual, segundo as regras do progresso em tudo e por tudo. Apenas quatro desses astros consentiram na associação que lhes era proposta; só a Lua persistiu em sua autonomia, porque os globos também possuem o livre-arbítrio. Para proceder a essa fusão, a alma da Terra dirigiu a esses satélites um raio magnético atrativo, que cataleptizou todo o seu componente vegetal, animal e hominal que eles trouxeram à comunidade. A operação só teve por testemunhas a alma da Terra e os grandes mensageiros celestes que a ajudaram nessa grande obra, abrindo os seus globos para compartilhar suas entranhas. Operada a soldagem, as águas se escoaram para os vazios deixados pela ausência da Lua, da qual se tinha o direito de esperar uma apreciação melhor de seus interesses.

As atmosferas se confundiram e o despertar, ou ressurreição dos germes cataleptizados, começou. O homem foi tirado em último lugar de seu estado de hipnotismo e se viu cercado da vegetação luxuriante do paraíso terrestre e dos animais que pacificamente pastavam ao seu redor. Concordareis que tudo isto poderia fazer-se em seis dias, com operários tão poderosos quanto aqueles que Deus havia encarregado da tarefa. O planeta Ásia nos trouxe a raça amarela, a de mais antiga civilização; o África, a raça negra; o Europa, a raça branca e o América, a raça vermelha. Certamente a Lua nos teria trazido a raça verde ou azul.

“Assim, certos animais, dos quais só se encontram os restos, jamais teriam vivido em nossa Terra atual, mas teriam sido deslocados de mundos envelhecidos para o nosso. Os fósseis que se encontram em climas onde não poderiam sobreviver, certamente viviam em zonas diferentes, nos globos onde nasceram. Esses restos, entre nós, se encontram nos polos, quando em seu mundo viviam no equador. Ademais, essas enormes massas cuja existência não podemos conceber no ar, viviam no fundo dos mares, sob a pressão de um meio que lhes facilitava a locomoção. Os futuros levantamentos dos mares nos trarão outros restos, muitos outros germes que despertarão de sua longa letargia para nos mostrar espécies desconhecidas de plantas, de animais e de autóctones contemporâneos do dilúvio, e ficareis muito admirados ao descobrirdes no meio do vasto oceano novas ilhas povoadas de plantas e animais que não podem vir de parte alguma, nem transportadas pelos ventos, nem pelas ondas.

“Nossa ciência, que acha a Bíblia errada, acabará lhe restituindo o seu mérito, como foi forçada a fazê-lo a propósito da rotação da Terra, porque não é erro da Bíblia, mas dos que não a compreendem. Eis a prova:

“Josué parou o sol, dizendo-lhe: Sta, sol! Ora, desde então ele está parado, pois em parte alguma encontrais que ele lhe tenha ordenado que se movesse; e se desde a derrota dos amalecitas a noite sucede ao dia, é preciso que a Terra se mova. Então não é Galileu, mas os inquisidores que devem ser censurados por não terem tomado a Bíblia ao pé da letra.

“Também se negava a existência do unicórnio bíblico e acabam de ser mortos dois nas montanhas do Tibet. Negava-se a aparição do espectro de Saul e, graças a Deus, estais a ponto de convencer os negadores. Lembremo-nos sempre deste aviso das Escrituras: Noli esse incredulus sicut equus et mulus, quibus non est intellectus. “Saudação cordial e respeitosa ao autor da Etnologia do Mundo Espírita.
“JOBARD.”
A teoria da formação da Terra pela incrustação de vários corpos planetários já foi dada em várias épocas, por certos Espíritos e através de médiuns desconhecidos uns dos outros. Não somos adeptos dessa doutrina, que confessamos não ter sido ainda suficientemente estudada para sobre ela nos pronunciarmos, mas reconhecemos que merece um sério exame. As reflexões que ela nos sugere não passam de hipóteses, até que dados mais positivos venham confirmá-las ou desmenti-las. Enquanto se espera, é uma baliza que pode pôr a caminho de uma grande descoberta, guiar nas buscas, e talvez um dia os cientistas encontrem nela a solução de muitos problemas.

Mas, dirão certos críticos, não tendes confiança nos Espíritos e duvidais de suas afirmações? Como inteligências desprendidas da matéria, não podem remover todas as dúvidas da Ciência e lançar a luz onde reina a obscuridade?

Esta é uma questão séria, que se liga à própria base do Espiritismo, e que não poderíamos resolver no momento, sem repetir o que já temos dito a respeito. Acrescentaremos apenas algumas palavras, a fim de justificar nossas reservas. Para começar, responderemos que nos tornaríamos sábios muito facilmente se tratássemos apenas de interrogar os Espíritos para conhecer tudo quanto se ignora. Deus quer que adquiramos o conhecimento pelo trabalho, e não encarregou os Espíritos de no-lo trazer preparado, favorecendo a nossa preguiça. Em segundo lugar, a Humanidade, como os indivíduos, tem sua infância, sua adolescência, sua juventude e sua idade viril. Encarregados por Deus de instruir os homens, devem, pois, os Espíritos proporcionar-lhes ensinos para o desenvolvimento da inteligência. Não dirão tudo a todos e, antes de semear, esperam que a terra esteja pronta para receber a semente, a fim de fazê-la frutificar. Eis por que certas verdades que nos são ensinadas hoje não o foram aos nossos pais, que também interrogavam os Espíritos; eis por que, ainda, verdades para as quais não estamos maduros só serão ensinadas aos que vierem depois de nós. Nosso equívoco está em nos julgarmos chegados ao topo da escada, quando apenas nos achamos a meio caminho.

Digamos de passagem que os Espíritos têm duas maneiras de instruir os homens. Podem fazê-lo tanto se comunicando diretamente, o que ocorreu em todos os tempos, como o provam todas as histórias sagradas e profanas, quanto encarnando-se entre eles, para o desempenho das missões de progresso. Tais são esses homens de bem e de gênio que aparecem, de tempos em tempos, como fachos para a Humanidade, fazendo-a avançar alguns passos. Vede o que acontece quando esses mesmos homens vêm antes da era propícia para as ideias que devem espalhar: são desconhecidos em vida, mas seu ensino não se perde. Depositado nos arquivos do mundo, como precioso grão posto de reserva, um belo dia sai do pó, no momento em que pode frutificar.

Desde então, compreende-se que, se não tiver chegado o tempo necessário para disseminar certas ideias, será em vão que interrogaremos os Espíritos. Eles não podem dizer senão o que lhes é permitido. Há, porém, outra razão, que compreendem perfeitamente todos os que têm alguma experiência do mundo espírita.

Não basta ser Espírito para possuir a ciência universal, pois assim a morte nos faria quase iguais a Deus. Aliás, o simples bom-senso se recusa a admitir que o Espírito de um selvagem, de um ignorante ou de um malvado, desde que separado da matéria, esteja no nível do cientista ou do homem de bem. Isto não seria racional. Há, pois, Espíritos adiantados, e outros mais ou menos atrasados, que devem superar ainda várias etapas, passar por numerosas peneiras antes de se despojarem de todas as imperfeições. Disso resulta que, no mundo dos Espíritos, são encontradas todas as variedades morais e intelectuais existentes entre os homens, e outras mais. Ora, a experiência prova que os maus se comunicam tanto quanto os bons. Os que são francamente maus, são facilmente reconhecíveis, mas há também os meio sábios, os falsos sábios, os presunçosos, os sistemáticos e até os hipócritas. Estes são os mais perigosos, porque afetam uma aparência séria, de ciência e de sabedoria, em favor da qual frequentemente proclamam, em meio a algumas verdades e boas máximas, as mais absurdas coisas. Para melhor enganar, não receiam enfeitar-se com os mais respeitáveis nomes. Separar o verdadeiro do falso; descobrir a trapaça oculta numa cascata de palavras bonitas; desmascarar os impostores, eis, sem contradita, uma das maiores dificuldades da ciência espírita. Para superá-la, faz-se necessária uma longa experiência; conhecer todas as sutilezas de que são capazes os Espíritos de baixa classe; ter muita prudência; ver as coisas com o mais imperturbável sangue frio e guardar-se principalmente contra o entusiasmo que cega. Com o hábito e um pouco de tato chega-se fàcilmente a ver as mãozinhas de fora, mesmo sob a ênfase da mais pretensiosa linguagem. Mas infeliz do médium que se julga infalível, que se ilude com as comunicações que recebe. O Espírito que o domina pode fasciná-lo a ponto de fazê-lo achar sublime aquilo que, por vezes, é apenas absurdo e salta aos olhos de todos, menos aos seus.

Voltemos ao assunto. A teoria da formação da Terra por incrustação não é a única que foi dada pelos Espíritos. Em qual acreditar? Isto nos prova que, fora da moral, que não pode ter duas interpretações, não devem ser aceitas teorias científicas dos Espíritos, senão com muitas reservas, porque, uma vez mais, não estão encarregados de nos trazer a Ciência acabada; estão longe de tudo saber, sobretudo no que concerne ao princípio das coisas; enfim, é preciso desconfiar das ideias sistemáticas, que alguns dentre eles querem que prevaleçam e às quais não têm escrúpulo de dar uma origem divina. Examinando essas comunicações a sangue frio, e sobretudo sem prevenção; pesando maduramente todas as palavras, facilmente descobrimos os traços de uma origem suspeita, incompatível com o caráter do Espírito que supomos falar. São, por vezes, heresias científicas tão patentes, que seria preciso ser cego ou muito ignorante para não percebê-las. Ora, como supor que um Espírito superior cometa tais absurdos? Outras vezes são expressões triviais, de formas ridículas, pueris, e mil outros sinais que traem a inferioridade, para quem quer que não esteja fascinado. Que homem de bom senso poderia jamais crer que uma doutrina contrária aos mais positivos dados da Ciência pudesse emanar de um Espírito sábio, ainda quando tivesse o nome de Arago? Como crer na bondade de um Espírito que desse conselhos contrários à caridade e à benevolência, ainda que assinados por um apóstolo da beneficência? Dizemos mais, há uma profanação em mesclar nomes venerados a comunicações com evidentes traços de inferioridade. Quanto mais elevados os nomes, tanto mais devem ser acolhidos com circunspecção e mais se deve temer ser joguete de uma mistificação. Em resumo, o grande critério do ensino dado pelos Espíritos é a lógica. Deus nos deu a capacidade de julgamento e a razão, para delas nos servirmos. Os bons Espíritos no-las recomendam, no que nos dão uma prova de sua superioridade. Os outros delas se afastam. Eles querem ser acreditados sob palavra, pois sabem que têm tudo a perder, em caso de exame.

Como se vê, temos muitos motivos para não aceitarmos levianamente todas as teorias dadas pelos Espíritos. Quando surge uma, fechamo-nos no papel de observador. Fazemos abstração de sua origem espírita, sem nos deixarmos ofuscar pelo brilho de nomes pomposos. Examinamo-la como se emanasse de um simples mortal e vemos se é racional, se dá conta de tudo, se resolve todas as dificuldades. Foi assim que procedemos com a doutrina da reencarnação, que não adotamos, embora vinda dos Espíritos, senão depois de havermos reconhecido que ela só, e só ela, podia resolver aquilo que nenhuma filosofia jamais havia resolvido, e isto abstração feita das provas materiais que diariamente dela são dadas, a nós e a muitos outros. Pouco nos importam, pois, os contraditores, ainda que fossem Espíritos. Desde que ela é lógica, conforme à justiça de Deus; que nada podem apresentar de mais satisfatório, não nos inquietamos mais do que com os que afirmam que a Terra não gira em torno do Sol ─ porque há Espíritos que defendem essa ideia e que se julgam sábios ─ ou que pretendem que o homem veio perfeitamente formado de outro mundo, carregado nas costas de um elefante alado.

Menos ainda concordamos com o ponto de vista da formação e, sobretudo, do povoamento da Terra. Por isto dissemos, de começo, que para nós a questão não estava suficientemente elucidada. Encarada do ponto de vista exclusivamente científico, dizemos apenas que, à primeira vista, a teoria da incrustação não nos parecia despida de fundamento e, sem nos pronunciarmos pró nem contra, dizemos haver nela matéria para exame. Com efeito, estudados os caracteres fisiológicos das diversas raças humanas, não é possível lhes atribuir uma origem comum, porque a raça negra não é um abastardamento da raça branca. Ora, adotando a letra da Bíblia, que faz todos os homens procederem da família de Noé, dois mil e quatrocentos anos antes da Era Cristã, seria preciso admitir não só que em alguns séculos essa única família teria povoado a Ásia, a Europa e a África, mas que se havia transformado em negros. Sabemos muito bem que influência o clima e os hábitos podem exercer sobre a economia orgânica. Um sol ardente avermelha a epiderme e escurece a pele, mas em parte alguma se viu, mesmo sob o mais intenso ardor tropical, famílias brancas procriando negros, sem cruzamento de raças. Portanto, para nós é evidente que as raças primitivas da Terra provêm de origens diferentes. Qual é o princípio? Eis a questão, e até provas concretas, não é permitido a respeito fazer mais do que conjecturas. Aos sábios, pois, compete ver as que melhor concordam com os fatos constatados pela Ciência.

Sem examinar como foi possível a junção e a soldagem de vários corpos planetários para formarem o nosso globo atual, devemos reconhecer que a coisa não é impossível, e desde então estaria explicada a presença simultânea de raças heterogêneas, tão diferentes em costumes e em línguas, de que cada globo teria trazido os germes ou os embriões; e quem sabe, talvez os indivíduos já formados. Nesta hipótese, a raça branca proviria de um mundo mais adiantado que o que teria trazido a raça negra. Em todos os casos, a junção não se teria operado sem um cataclismo geral, o que só teria permitido a sobrevivência de alguns indivíduos.

Assim, conforme essa teoria, nosso globo seria, ao mesmo tempo, muito antigo por suas partes constituintes, e muito novo por sua aglomeração. Como se vê, tal sistema em nada contradiz os períodos geológicos, que assim remontariam a uma época indeterminada e anterior à junção. Seja como for, e diga o que quiser dizer a respeito o Sr. Jobard, se as coisas assim se passaram, parece difícil que tal acontecimento se tenha realizado e, sobretudo, que o equilíbrio de semelhante caos tenha podido estabelecer-se em seis dias de 24 horas. Os movimentos da matéria inerte estão submetidos a leis eternas, que não podem ser derrogadas senão por milagres.

Resta-nos explicar o que se deve entender por alma da Terra, porque não entra na cabeça de ninguém atribuir uma vontade à matéria. Os Espíritos sempre disseram que alguns entre eles têm atribuições especiais. Agentes e ministros de Deus, dirigem, conforme o seu grau de elevação, os fatos de ordem física, bem como os de ordem moral. Assim como alguns velam pelos indivíduos, dos quais se constituem gênios familiares ou protetores, outros tomam sob seu patrocínio reuniões de indivíduos, grupos, cidades, povos e mesmo mundos. A alma da Terra deve, pois, ser entendida como o Espírito chamado por sua missão a dirigi-la e fazê-la progredir, tendo sob suas ordens as inumeráveis legiões de Espíritos encarregados de velar pela realização de seus desígnios. O Espírito diretor de um mundo deve ser, necessariamente, de uma ordem superior, e tanto mais elevado quanto mais adiantado for o mundo.

Se insistimos sobre vários pontos que poderiam parecer estranhos ao assunto, foi precisamente por se tratar de uma questão científica eminentemente controvertida. Importa que seja bem constatado, pelos que julgam as coisas sem conhecê-las, que o Espiritismo está longe de tomar como artigo de fé tudo o que vem do mundo invisível e que, ao contrário do que pretendem, ele não se apoia numa crença cega, mas sobre a razão.

Se todos os seus partidários não mantêm a mesma circunspecção, a falha não é da Ciência, mas dos que não se dão ao trabalho de aprofundá-la. Ora, não seria mais lógico emitir um julgamento com base no exagero de alguns indivíduos do que condenar a religião pela opinião de alguns fanáticos.

TEXTOS RELACIONADOS

Mostrar itens relacionados
Aguarde, carregando...