Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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O Sr. Jobard havia dado como título de seu artigo: Conselhos aos médiuns.

Julgamos dever dar-lhe um título menos exclusivo, visto que suas observações se aplicam, em geral, à maneira de apreciar as comunicações espíritas. Sendo os médiuns apenas instrumentos das manifestações, estas podem ser dadas a todo o mundo, quer diretamente, quer por intermediário. Todos os evocadores podem, pois, aproveitá-las, tanto quanto os médiuns.

Aprovamos esta maneira de julgar as comunicações porque é rigorosamente certa e não pode senão contribuir para prevenir contra a ilusão a que se expõem os que aceitam muito facilmente, como expressão da verdade, tudo quanto vem do mundo dos Espíritos. Contudo, pensamos que o Sr. Jobard talvez seja um tanto absoluto sobre certos pontos. Em nossa opinião, ele não leva muito em conta o progresso realizado pelo Espírito no estado errante. Sem dúvida este leva para o além-túmulo as imperfeições da vida terrena, fato constatado pela experiência.

Todavia, como se acha num meio completamente diverso; como não mais recebe as suas sensações através dos órgãos materiais; como não tem mais sobre os olhos esse véu espesso que obscurece as ideias, suas sensações, suas percepções e suas ideias devem experimentar uma sensível modificação. Eis por que vemos, todos os dias, homens que pensam, após a morte, de modo muito diferente do que em vida, pois o horizonte moral para eles se alargou. Autores criticam as próprias obras; homens mundanos censuram sua conduta; sábios reconhecem os seus erros. Se o Espírito não progredisse na vida espírita, retornaria à vida corpórea como dela tinha saído, nem mais adiantado, nem mais atrasado, o que, positivamente, é contraditado pela experiência. Certos Espíritos, pois, podem ver mais claro e mais justo do que quando estavam na Terra; assim, alguns são vistos dando excelentes conselhos, com ótimos resultados. Mas entre os Espíritos, como entre os homens, é preciso saber a quem nos dirigimos e não crer que o primeiro que chega possua a ciência infusa, nem que um sábio esteja despojado de seus preconceitos terrenos, só porque são Espíritos. A este respeito, o Sr. Jobard tem inteira razão ao dizer que só com extrema reserva se devem aceitar suas teorias e sistemas. É preciso fazer com eles o que se faz com os homens, isto é, não lhes dar crédito senão quando tiverem dado provas irrecusáveis de sua superioridade, não pelo nome que falsamente por vezes tomam, mas pela constante sabedoria de seus pensamentos, pela irrefutável lógica de seus raciocínios e pela inalterável bondade de seu caráter.

As judiciosas observações do Sr. Jobard, deixando de lado o que podem conter de exagero, sem dúvida desencantarão os que pensam encontrar nos Espíritos um meio certo de tudo saber, de fazer descobertas lucrativas, etc. Com efeito, aos olhos de certas pessoas, para que servem os Espíritos se nem nos ajudam a fazer fortuna?

Pensamos que basta ter estudado um pouco a Doutrina Espírita para compreender que nos ensinam uma porção de coisas mais úteis do que saber se ganharemos na bolsa ou na loteria. Mas, mesmo admitindo a hipótese mais rigorosa, segundo a qual seria completamente indiferente dirigir-se aos Espíritos ou aos homens para as coisas deste mundo, não representa nada o fato de nos darem a prova da existência de além-túmulo? De nos iniciarem no estado feliz ou infeliz dos que nos precederam? De nos provar que aqueles a quem amamos não estão perdidos para nós e que os reencontraremos nesse mundo que nos espera a todos, ricos ou pobres, poderosos ou escravos? Porque, em definitivo, há uma coisa certa: é que mais dia, menos dia, temos que dar aquele passo. Que é o que existe além dessa barreira?

Atrás da cortina que vela o futuro? Alguma coisa ou o nada? Ora! Os Espíritos nos ensinam que existe algo; que quando morremos, nem tudo está acabado; longe disto, que é então que começa a verdadeira vida, a vida normal. Ainda que só isto nos ensinassem, suas conversas conosco não seriam inúteis. Eles fazem mais: ensinam nos o que se deve fazer aqui para estar o melhor possível no outro mundo. E como lá teremos que ficar muito tempo, é bom nos assegurarmos o melhor lugar possível.

Como diz o Sr. Jobard, os Espíritos, em geral, pouco ligam às coisas terrenas, por uma razão simples: é que têm melhor do que isto. Seu objetivo é ensinar-nos o que devemos fazer para ali sermos felizes. Eles sabem que nos prendemos às alegrias da Terra, como crianças aos brinquedos. Eles querem fazer com que avance o nosso raciocínio. Tal a sua missão. Se somos enganados por alguns, é porque queremos tirá-los da esfera de suas atribuições; é porque perguntamos o que eles não sabem, não podem ou não devem dizer. É então que se é mistificado pela turba de Espíritos zombadores, que se divertem com a nossa credulidade. O erro de certos médiuns é crer na infalibilidade dos Espíritos que com eles se comunicam e os seduzem por belas frases, apoiados num nome emprestado, que geralmente é falso. Reconhecer a fraude é um resultado do estudo e da experiência. O artigo do Sr. Jobard, nesse sentido, só lhes pode ajudar a abrir os olhos.

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