Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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Na sessão da Sociedade, de 23 de novembro, um Espírito comunicou-se espontaneamente, escrevendo o seguinte:

Como desejo, antes de tudo, vos ser agradável, pergunto de que assunto quereis que eu trate. Se tiverdes um assunto, perguntai. Enfim, senhores, sou sempre o vosso dedicado

ALFRED DE MUSSET ─ Sendo vossa visita imprevista, não temos um assunto preparado. Pedimos, pois, a bondade de tratar de um à vossa escolha. Seja qual for, ficaremos muito reconhecidos.

─ Tendes razão. Sim, porque eu, como Espírito, em particular, bem como todos os Espíritos, em geral, conhecemos melhor as vossas necessidades e podemos escolher as comunicações melhor do que vós mesmos faríeis.

“De que vou tratar? Sinto-me embaraçado em meio a tantos assuntos interessantes. Comecemos por falar dos que desejam ardentemente ser espíritas, mas que parecem recuar ante o que julgam uma apostasia. Falemos, pois, daqueles que recuariam ante a ideia de se acharem em contradição com o Catolicismo. Escutai bem: digo Catolicismo e não Cristianismo.

Temeis renegar a crença dos vossos pais? Erro! Vossos pais, os primeiros, os que fundaram essa religião sublime em sua origem, eram mais espíritas do que vós. Eles pregavam a mesma doutrina que hoje vos ensinam. Assim como faz vossa religião, quem diz Espiritismo diz: caridade, bondade, esquecimento e perdão das injúrias. Como o Catolicismo, ele vos ensina a abnegação de si mesmo. Podeis, pois, consciências timoratas, reuni-los e vir, sem escrúpulos, sentar-vos a esta mesa e conversar com os seres que chorais. Como vossos pais, sede caridosos, bons, compassivos, e no fim da estrada tereis todos o mesmo lugar; no fim do caminho, a balança que pesará as vossas ações terá os mesmos pesos e a obra o mesmo valor. Vinde sem medo, eu vos peço. Vinde, mulheres graciosas, com o coração cheio de ilusões; vinde aqui, e elas serão substituídas por realidades mais belas e mais radiosas. Vinde, esposas de coração duro, que sofreis a vossa aridez, pois aqui está a água que amolece a rocha e estanca a sede. Vinde, mulheres amantes, que em toda a vossa vida aspirais à felicidade; que medis a profundidade do vosso coração e vos desesperais por preenchê-la. Vinde, mulheres de inteligência ávida, vinde. Aqui a Ciência flui pura e clara.Vinde beber nesta fonte que rejuvenesce. E vós, velhos que vos curvais, vinde e rireis diante de toda essa juventude que vos desdenha, porque para vós se abrem as portas do santuário; para vós o nascimento vai recomeçar e trazer a felicidade de vossos primeiros anos. Vinde, e nós vos faremos ver os irmãos que vos estendem os braços e vos esperam. Vinde, pois, todos, porque para todos há consolações.

Vedes que me presto de boa vontade. Disponde de mim, e dar-me-eis prazer.”

Aproveitando a boa vontade do Espírito de Alfred de Musset, foram-lhe dirigidas as seguintes perguntas:

1. ─ Qual será a influência da poesia no Espiritismo?

─ A poesia é o bálsamo que se aplica sobre as chagas. A poesia foi dada aos homens como o maná celeste. Todos os poetas são médiuns que Deus enviou à Terra para regenerar um pouco o seu povo e não o deixar embrutecer-se inteiramente. O que há de mais belo? O que mais fala à alma do que a poesia?

2.º ─ A pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia foram, uma por uma, influenciadas pelas ideias pagãs e cristãs. Podeis dizer-nos se depois das artes pagã e cristã haverá um dia a arte espírita?

─ Fazeis uma pergunta que se responde por si mesma: O verme é o verme; torna-se bicho da seda, depois borboleta. Que há de mais aéreo, de mais gracioso que uma borboleta? Então! A arte pagã é o verme; a arte cristã o casulo; a arte espírita será a borboleta.

(A respeito, vide artigo anterior, sobre “A arte pagã, a arte cristã e a arte espírita”).

3.º ─ Qual a influência da mulher no século dezenove?

NOTA: Esta pergunta foi feita por um jovem estranho à Sociedade.

─ Ah! É de progresso. E é um jovem que faz a pergunta. Isto é bonito, e eu mesmo seria muito amador se não me dignasse a responder. Estou certo de que todos aqui também querem ouvir.

A influência da mulher no século dezenove! Acreditais que ela tenha esperado esta época para vos trazer à trela, pobres e fracos homens que sois? Se tentastes rebaixá-la, foi porque a temíeis; se tentastes abafar a sua inteligência, foi porque temestes a sua influência. Só ao seu coração não pudestes opor barreiras. E como o coração é o presente que Deus lhe deu em particular, ele continuou senhor e soberano. Mas eis que a mulher se faz também borboleta; ela quer sair de seu casulo; quer reconquistar seus direitos, que são divinos; como aquela, lança-se na atmosfera e dir-se-ia que respira o ar de seu justo valor. Não penseis que eu as queira transformar em eruditas, letradas, poetisas. Não. Mas eu quero, aqui se quer, no mundo em que habito, que aquela que deve elevar a Humanidade seja digna de seu papel; queremos que aquela que deve formar os homens comece a se conhecer a si própria e, para lhe dar desde tenra idade o amor do belo, do grande, do justo, é necessário que ela possua esse amor num grau superior. É preciso que o compreenda. Se o agente educador por excelência é reduzido ao estado de nulidade, a Sociedade vacila. É o que deveis compreender no século dezenove.

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