Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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Sobre o § I

1. ─ Dizeis: Tudo o que vive, pensa, logo, não se pode viver sem pensar. A proposição nos parece algo absoluta, pois a planta vive e não pensa. Admitis isto como um princípio?
─ Sem dúvida. Só falo da vida animal e não da vida vegetal. Deveis compreendê-lo.

2. ─ Mais adiante dizeis: Vereis que o animal vive realmente, desde que pensa.
Não há inversão na frase? Parece que a proposição é: Vereis que o animal pensa, realmente, desde que vive.
─ Isto é evidente

Sobre o § II

3. ─ Lembrais o desenho feito dos animais de Júpiter. Nota-se que têm uma notável analogia com os sátiros da fábula. Essa ideia dos sátiros seria uma intuição da existência desses seres em outros mundos e, neste caso, não seria mera criação fantástica?
─ Quanto mais novo era o mundo, mais ele se lembrava. O homem tinha a intuição de uma ordem de seres intermediários, ora mais atrasados que ele, ora mais adiantados. Era o que ele chamava os deuses.

4. ─ Então admitis que as divindades mitológicas não eram senão o que chamamos Espíritos?
─ Sim.

5. ─ Foi-nos dito que em Júpiter é possível o entendimento pela simples transmissão do pensamento. Quando os habitantes desse planeta se dirigem aos animais, que são seus servidores e operários, recorrem a uma linguagem particular?
Teriam eles, para comunicar-se com os animais, uma linguagem articulada, e entre si a do pensamento?
─ Não, não há linguagem articulada, mas uma espécie de magnetismo poderoso que faz curvar-se o animal e o leva a executar os menores desejos e as ordens de seus senhores. O Espírito todo poderoso não pode curvar-se.

6. ─ Evidentemente, entre nós, os animais têm uma linguagem, pois se compreendem, mas é muito limitada. Os de Júpiter têm uma linguagem mais precisa e positiva que os nossos? Numa palavra, uma linguagem articulada?
─ Sim.

7. ─ Os habitantes de Júpiter compreendem melhor que nós a linguagem dos animais?
─ Veem através deles e os compreendem perfeitamente.

8. ─ Examinando a série dos seres vivos, encontra-se uma cadeia ininterrupta, desde a madrépora, da própria planta, até o animal mais inteligente. Mas entre o animal mais inteligente e o homem há uma evidente lacuna, que em algum lugar deve ser preenchida, porque a Natureza não deixa elos vazios. De onde vem essa lacuna?
─ Essa lacuna dos seres é apenas aparente, pois não existe na realidade. Ela provém das raças desaparecidas. (São Luís)

9. ─ Tal lacuna pode existir na Terra, mas certamente não existe no conjunto do Universo e deve ser preenchida em alguma parte. Não o seria por certos animais de mundos superiores que, como os de Júpiter, por exemplo, parecem aproximar-se muito do homem terreno pela forma, pela linguagem e por outros sinais?
─ Nas esferas superiores o germe surgido da Terra desenvolve-se e jamais se perde. Tornando-vos Espíritos, reencontrareis todos os seres criados e desaparecidos nos cataclismos do vosso globo. (São Luís)

OBSERVAÇÃO: Desde que essas raças intermediárias existiram na Terra e dela desapareceram, justifica-se o que disse Charlet pouco antes, que quanto mais novo era o mundo, mais ele se lembrava. Se elas houvessem existido apenas nosmundos superiores, o homem da Terra, menos adiantado, não lhes poderia guardar a lembrança.

Sobre o § III

10. ─ Dizeis que tudo se aperfeiçoa e, como prova do progresso do animal, dizeis que outrora ele era mais rebelde ao homem. É evidente que o animal se aperfeiçoa, mas, pelo menos na Terra, não se aperfeiçoa senão pelos cuidados do homem. Abandonado a si mesmo, retoma sua natureza selvagem, até mesmo o cão.
─ E o homem se aperfeiçoa pelos cuidados de quem? Não é pelos de Deus?
Tudo é escala na Natureza.

11. ─ Falais de recompensas para os animais que sofrem maus tratos e dizeis que é perfeitamente justo que haja compensação para eles. Assim, parece que admitis no animal a consciência do eu após a morte, com a recordação de seu passado. Isto é contrário ao que nos tem sido dito. Se as coisas se passassem como dizeis, resultaria que no mundo dos Espíritos haveria Espíritos de animais. Entãonão haveria razão para ali não existirem os Espíritos das ostras. Podeis dizer se vedes em torno de vós Espíritos de cães, de gatos, de cavalos ou elefantes, como vedes Espíritos humanos?
─ A alma do animal ─ tendes toda razão ─ não se reconhece após a morte; é um conjunto confuso de germes que podem passar para o corpo de tal ou qual animal, conforme o desenvolvimento adquirido. Não é individualizada. Contudo, direi que em certos animais, mesmo em muitos, é individualizada.

12. ─ Esta teoria, aliás, de modo algum justifica os maus tratos dos animais. O homem é sempre culpado por fazer sofrer qualquer ser sensível e a Doutrina nos diz que por isso ele será punido. Mas daí a pôr o animal numa condição superior a ele, há uma grande distância. Que pensais disto?
─ Sim, mas estabelecei que no entanto há sempre uma escala entre os animais e pensai que há distância entre certas raças. O homem é tanto mais culpado quanto mais poderoso.

13. ─ Como explicais que mesmo no mais selvagem estágio o homem se faça obedecer pelo mais inteligente animal?
─ É sobretudo a Natureza que age no caso. O homem selvagem é o homem da Natureza. Ele conhece o animal intimamente. O homem civilizado o estuda, e o animal se curva diante dele. O homem é sempre o homem frente ao animal, quer seja selvagem, quer civilizado.

Sobre o § V

14. ─ (A Charlet). Nada temos a dizer sobre este parágrafo, que nos parece muito racional. Tendes algo a acrescentar?
─ Apenas isto: os animais têm todas as faculdades que indiquei, mas neles o progresso se realiza pela educação que recebem do homem e não por si mesmos.
Abandonado ao estado selvagem, o animal retoma o tipo que tinha ao sair das mãos do Criador. Submetido ao homem, aperfeiçoa-se. Eis tudo.

15. ─ Isto é perfeitamente certo para os indivíduos e para as espécies, mas se considerarmos o conjunto da escala dos seres, há uma evidente marcha ascendente,
que não se detém, relativamente aos animais da Terra, visto que os de Júpiter são física e intelectualmente superiores aos nossos.
─ Cada raça é perfeita em si mesma e não emigra para raças estranhas. Em Júpiter são os mesmos tipos, formando raças distintas, mas não são os Espíritos dos animais mortos.

16. ─ Então em que se torna o princípio inteligente dos animais mortos?
─ Volta à massa em que cada novo animal toma a porção de inteligência que lhe é necessária. Ora, é precisamente isto que distingue o homem do animal. Nele o Espírito é individualizado e progride por si mesmo e é isso que lhe dá superioridade sobre todos os animais. Eis por que o homem, mesmo selvagem, como fizestes notar, se faz obedecer, mesmo pelos mais inteligentes animais.

Sobre o § VI

17. ─ Dais a história de Balaão como fato positivo. Seriamente, que pensais sobre isto?
─ É uma pura alegoria, ou antes, uma ficção, para castigar o orgulho. Fizeram falar o burro de Balaão, como La Fontaine fez falar muitos outros animais.

Sobre o § IX*

18. ─ Nessa passagem Charlet parece ter sido arrastado pela imaginação, pois o quadro que faz da degradação moral do animal é mais fantástico do que científico.
Com efeito, o animal é feroz por necessidade, e foi para satisfazer a essa necessidade que a Natureza lhe deu uma organização especial. Se uns devem nutrir-se de carne, é por uma razão providencial e porque era útil à harmonia geral que certos elementos orgânicos fossem absorvidos. O animal é, pois, feroz por constituição e não se conceberia que a queda moral do homem tivesse desenvolvido os dentes caninos do tigre e encurtado os seus intestinos, porque então não haveria razão para que o mesmo não tivesse acontecido com o carneiro. Antes dizemos que, na Terra, sendo o homem pouco adiantado, aqui se encontra com seres inferiores em todos os sentidos, e cujo contato lhe é causa de inquietudes, de sofrimentos e, consequentemente, uma fonte de provas que o auxiliam em seu progresso futuro.

Que pensa Charlet destas reflexões?
─ Só posso aprová-las. Eu era um pintor e não um literato ou um cientista. Por isso, de vez em quando me deixo arrastar pelo prazer, novo para mim, de escrever belas frases, mesmo em detrimento da verdade. Mas o que dizeis é muito justo e inspirado. No quadro que tracei, bordei certas ideias recebidas, para não chocar nenhuma convicção. A verdade é que as primeiras épocas eram a idade do ferro, muito afastadas das pretensas suavidades. Descobrindo diariamente tesouros acumulados pela bondade de Deus, tanto no espaço quanto na Terra, a civilização levou o homem à conquista da verdadeira terra prometida, que Deus concederá à inteligência e ao trabalho, e que não entregou pronta e acabada nas mãos dos homens crianças, que deviam descobri-la por sua própria inteligência. Aliás, este erro que cometi não poderia ser prejudicial aos olhos da gente esclarecida, que o notaria facilmente. Para os ignorantes passaria desapercebido. Contudo, concordo que errei. Agi levianamente, e isto vos prova até que ponto deveis controlar as comunicações que recebeis.


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* No original é o número XI, que é inexistente. (NT)


Observação geral

Um ensinamento importante, do ponto de vista da ciência espírita, ressalta destas comunicações. A primeira coisa que se destaca, ao lê-las, é uma mistura de ideias justas, profundas e com o cunho do observador, ao lado de outras evidentemente falsas e fundadas mais na imaginação do que na realidade. Sem sombra de dúvida, Charlet era um homem acima do vulgar, mas, como Espírito, não é mais universal do que era em vida e pode equivocar-se porque, não sendo ainda bastante elevado, só encara as coisas de seu ponto de vista. Aliás, só os Espíritos chegados ao último grau de perfeição estão isentos de erros. Os outros, por melhores que sejam, nem tudo sabem e podem enganar-se; mas, quando verdadeiramente bons, o fazem de boa-fé e concordam francamente, ao passo que há outros que o fazem conscientemente e que se obstinam nas mais absurdas ideias. É por isso que devemos guardar-nos de aceitar o que vem do mundo invisível sem havê-lo submetido ao controle da lógica. Os bons Espíritos o recomendam incessantemente e jamais se ofendem com a crítica porque, de duas uma: ou estão seguros do que dizem e então nada temem, ou não o estão e, se têm consciência de sua insuficiência, eles mesmos buscam a verdade. Ora, se os homens podem instruir-se com os Espíritos, alguns Espíritos podem instruir-se com os homens. Ao contrário, os outros querem dominar, esperando impor a aceitação das suas utopias por causa da sua condição de Espíritos. Então, seja por presunção de sua parte ou por má intenção, não suportam a contradita. Querem ser acreditados sob palavra, pois sabem muito bem que em caso de exame só podem perder. Ofendem-se à menor dúvida sobre sua infalibilidade e soberbamente ameaçam abandonar-vos, como indignos de ouvi-los.

Assim, só gostam dos que se ajoelham aos seus pés. Não há homens assim? E é de admirar que os encontremos com seus caprichos no mundo dos Espíritos? Nos homens, uma tal característica é sempre, aos olhos de gente sensata, um indício de orgulho, de vã suficiência, de tola vaidade, e portanto de pequenez nas ideias e de falso julgamento. O que seria um sinal de inferioridade moral nos homens, não poderia ser indício de superioridade nos Espíritos.

Como acabamos de ver, Charlet de boa vontade se presta à controvérsia; escuta e admite as objeções e responde com benevolência; desenvolve o que era obscuro e reconhece lealmente o que não era exato. Numa palavra, não quer passar por mais sábio do que é, e nisto prova mais elevação do que se se obstinasse nas ideias falsas, a exemplo de certos Espíritos que se escandalizam ao simples enunciado de que suas comunicações parecem susceptíveis de comentários.

O que é ainda próprio desses Espíritos orgulhosos é a espécie de fascinação que exercem sobre seus médiuns, através da qual por vezes os fazem compartilhar dos mesmos sentimentos. Dizemos de propósito seus médiuns, porque deles se apoderam e neles querem ter instrumentos que agem de olhos fechados. De modo algum se acomodariam a um médium perscrutador ou que visse bem claro. Não se dá o mesmo entre os homens? Quando o encontram, temendo que lhes escape, inspiramlhe o afastamento de quem quer que possa esclarecê-lo. Isolam-no de certo modo, a fim de estarem em liberdade, ou não o aproximam senão daqueles de quem nada têm a temer. Para melhor lhes captar a confiança, fazem-se de bons apóstolos, usurpando os nomes de Espíritos venerados, cuja linguagem procuram imitar. Mas, por mais que façam, jamais a ignorância poderá imitar o verdadeiro saber, nem uma natureza perversa a verdadeira virtude. O orgulho brotará sempre sob o manto de uma falsa humildade, e porque temem ser desmascarados, evitam a discussão e dela afastam
seus médiuns.

Não há ninguém que, julgando friamente e sem prevenção, não reconheça como má uma tal influência, porque ressalta ao mais vulgar bom-senso que um Espírito realmente bom e esclarecido jamais procura exercê-la. Pode pois dizer-se que todo médium que a ela se submete se acha sob o império de uma obsessão, da qual deve oquanto antes procurar livrar-se. O que se quer, antes de tudo, não são comunicações a todo custo, mas comunicações boas e verdadeiras. Ora, para se ter boas comunicações são necessários bons Espíritos, e para se ter bons Espíritos é preciso ter bons médiuns, livres de qualquer influência má. A natureza dos Espíritos que habitualmente assistem um médium é, pois, uma das primeiras coisas a considerar.

Para conhecê-la exatamente, há um critério infalível e não é nos sinais materiais, nem nas fórmulas de evocação ou de conjuração que será encontrada. Esse critério está nos sentimentos que o Espírito inspira ao médium. Pela maneira de agir deste último pode-se julgar a natureza dos Espíritos que o dirigem e consequentemente o grau de confiança que merecem suas comunicações.

Isto não é uma opinião pessoal, um sistema, mas um princípio deduzido da mais rigorosa lógica, se admitirmos esta premissa: um mau pensamento não pode ser sugerido por um bom Espírito. Enquanto não se provar que um bom Espírito pode inspirar o mal, diremos que todo ato que se afaste da benevolência, da caridade e da humildade, e no qual se note o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho ferido ou a simples acrimônia, não pode ter sido inspirado senão por um mau Espírito, ainda quando este hipocritamente pregasse as mais belas máximas, porque, se fosse realmente bom, prová-lo-ia pondo seus atos em harmonia com suas palavras. A prática do Espiritismo é cercada de tantas dificuldades; os Espíritos enganadores são tão astuciosos, tão sabidos e ao mesmo tempo tão numerosos, que não seria demais armar-se do máximo de precauções para frustrá-los. Importa, pois, rebuscar com o maior cuidado todos os indícios pelos quais eles se podem trair. Ora, esses indícios estão, ao mesmo tempo, em sua linguagem e nos atos que provocam.

Tendo submetido estas reflexões ao Espírito de Charlet, eis o que disse a respeito: “Não posso senão aprovar o que acabais de dizer e aconselhar a todosquantos se ocupam do Espiritismo a seguir tão sábios conselhos, evidentemente ditados por bons Espíritos, mas que não são absolutamente ─ bem podeis crê-lo ─ do gosto dos maus, pois estes sabem muito bem que é esse o meio mais eficaz de combater a sua influência. Assim, fazem tudo quanto podem para desviar disso aqueles que querem prender em suas redes”.

Charlet disse que foi arrastado pelo prazer, para ele novo, de escrever belas frases, mesmo com sacrifício da verdade. Que teria acontecido se tivéssemos publicado seu trabalho sem comentários? Teriam acusado o Espiritismo por aceitar ideias ridículas, e a nós mesmos por não sabermos distinguir o verdadeiro do falso.

Muitos Espíritos estão no mesmo caso. Encontram satisfação para o amor-próprio ao espalhar, através de médiuns, já que não podem fazê-lo diretamente, peças literárias, científicas, filosóficas ou dogmáticas de grande fôlego. Mas quando esses Espíritos têm apenas um falso saber, escrevem coisas absurdas, assim como o fariam os homens. É sobretudo nessas obras continuadas que podemos julgá-los, porque sua ignorância os torna incapazes de representar o papel por muito tempo e eles próprios revelam sua insuficiência, a cada passo, ferindo a lógica e a razão. Através de uma porção de ideias falsas, há, por vezes, algumas boas, com que contam para iludir.

Tal incoerência apenas demonstra sua incapacidade. São os pedreiros que sabem alinhar as pedras da construção, mas que são incapazes de construir um palácio. É por vezes curioso ver o dédalo inextricável de combinações e de raciocínios em que se metem, e dos quais não saem senão à força de sofismas e de utopias. Vimos alguns que, à custa de expedientes, deixaram o seu trabalho. Outros, porém, não se dão por vencidos e querem agir até o fim, rindo-se ainda à custa dos que os levam a sério.
Estas reflexões nos são sugeridas como um princípio geral, e seria erro ver nelas uma aplicação qualquer. Entre os numerosos escritos publicados sobre o Espiritismo, sem dúvida alguns poderiam dar lugar a uma crítica fundada, mas não os pomos a todos na mesma linha; indicamos um meio de apreciá-los, e cada um fará como entender. Se ainda não decidimos fazer-lhes um exame em nossa Revista é pelo receio de que se equivoquem quanto ao móvel da crítica que poderíamos fazer. Assim, preferimos esperar que o Espiritismo seja melhor conhecido e, sobretudo, melhor compreendido. Então nossa opinião, apoiada em base geralmente admitida, não poderá ser acusada de parcialidade. O que esperamos acontece diariamente, pois vemos que em muitas circunstâncias o julgamento da opinião pública precede o nosso. Assim, nos aplaudimos por nossa reserva.

Empreenderemos este exame quando julgarmos oportuno o momento, mas já se pode ver qual será a base de nossa apreciação. Essa base é a lógica, da qual cada um pode fazer uso por si mesmo, pois não temos a tola pretensão de ter o privilégio de sua posse. Com efeito, a lógica é o grande critério de toda comunicação espírita, como o é de todos os trabalhos humanos. Sabemos bem que aquele que raciocina erradamente julga ser lógico. Ele o é à sua maneira, mas só para si e não para os outros. Quando uma lógica é rigorosa como dois e dois são quatro, e as consequências são deduzidas de axiomas evidentes, o bom-senso geral, mais cedo ou mais tarde, faz justiça a todos esses sofismas. Cremos que as proposições seguintes têm esse caráter:

1. ─ Os bons Espíritos não podem ensinar e inspirar senão o bem; assim, tudo o que não é rigorosamente bem não pode vir de um bom Espírito;

2. ─ Os Espíritos esclarecidos e verdadeiramente superiores não podem ensinar coisas absurdas; assim, toda comunicação manchada de erros manifestos ou contrários aos dados mais vulgares da ciência e da observação, só por isso atesta a inferioridade de sua origem;

3. ─ A superioridade de um escrito qualquer está na justeza e na profundidade das ideias e não nos enfeites e na redundância do estilo; assim, toda comunicação espírita em que há mais palavras e frases brilhantes do que pensamentos sólidos, não pode vir de um Espírito realmente superior;

4. ─ A ignorância não pode contrafazer o verdadeiro saber, nem o mal contrafazer o bem de maneira absoluta; assim, todo Espírito que, sob um nome venerado, diz coisas incompatíveis com o título que se dá, é responsável por fraude;

5. ─ É da essência de um Espírito elevado ligar-se mais ao pensamento do que à forma e à matéria, de onde se segue que a elevação do Espírito está na razão da elevação das ideias; assim, todo Espírito meticuloso nos detalhes da forma, que prescreve puerilidades, numa palavra, que liga importância aos sinais e às coisas materiais, acusa, por isso mesmo, uma pequenez de ideias, e não pode ser verdadeiramente superior;

6. ─ Um Espírito realmente superior não pode contradizer-se; assim, se duas comunicações contraditórias forem dadas sob um mesmo nome respeitável, uma delas necessariamente é apócrifa, e se uma for verdadeira, só pode ser aquela que em nada desmente a superioridade do Espírito cujo nome a encima.

A consequência a tirar destes princípios é que fora das questões morais só se deve acolher com reservas o que vem dos Espíritos, e que, em todo caso, jamais deve ser aceito sem exame. Daí decorre a necessidade de se ter a maior circunspecção na publicação dos escritos emanados dessa fonte, sobretudo quando, pela estranheza das doutrinas que contêm, ou pela incoerência das ideias, podem prestar-se ao ridículo. É preciso desconfiar da inclinação de certos Espíritos pelas ideias sistemáticas e do amor-próprio com que buscam espalhá-las. Assim, é sobretudo nas teorias científicas que precisa haver extrema prudência e guardar-se de dar precipitadamente como verdades alguns sistemas por vezes mais sedutores do que reais e que, mais cedo ou mais tarde, podem receber um desmentido oficial. Que sejam apresentados como probabilidades, se forem lógicos, e como podendo servir de base a observações ulteriores, vá; mas seria imprudência tomá-los prematuramente como artigos de fé. Diz um provérbio: “Nada mais perigoso que um amigo imprudente.” Ora, é o caso dos que, no Espiritismo, se deixam levar por um zelo mais ardente que refletido.

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