Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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ENTRADA DE UM CULPADO NO MUNDO DOS ESPÍRITOS
(MÉDIUM, SRA. COSTEL)

Vou contar-te o que sofri quando morri. Retido no corpo pelos laços materiais, meu Espírito teve grande trabalho para se desprender, o que foi uma primeira e rude angústia. A vida que havia deixado aos vinte e quatro anos era ainda tão forte em mim, que não cria na sua perda. Procurava meu corpo e ficava admirado e apavorado por me ver perdido nessa multidão de sombras. Por fim, a consciência de meu estado e a revelação das faltas que havia cometido em todas as minhas encarnações, me feriram de repente. Uma luz implacável iluminou os mais secretos refolhos de minh’alma, que se sentiu nua e tomada de acabrunhadora vergonha. Eu buscava escapar, interessando-me por objetos novos, entretanto conhecidos, que me cercavam. Os Espíritos radiosos, flutuando no éter, me davam a ideia de uma felicidade à qual eu não podia aspirar. Formas sombrias e desoladas, umas mergulhadas em morno desespero, outras irônicas ou furiosas, deslizavam ao meu redor e sobre a região à qual eu estava pregado. Via os humanos se movimentando e lhes invejava a ignorância. Toda uma ordem de sensações desconhecidas ou reencontradas invadia-me ao mesmo tempo. Como que arrastado por uma força irresistível, buscando fugir dessa dor lancinante, eu transpunha as distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as belezas da Natureza nem os esplendores celestes pudessem acalmar por um instante o dilaceramento de minha consciência, nem o pavor que me causava a revelação da eternidade. Um mortal pode pressentir as torturas materiais pelos arrepios da carne, mas as vossas frágeis dores, suavizadas pela esperança, temperadas pelas distrações, aniquiladas pelo esquecimento, jamais vos poderão dar a compreender as angústias de uma alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem arrependimento. Passei um tempo cuja duração não posso apreciar, invejando os eleitos, cujo esplendor entrevia; detestando os maus Espíritos que me perseguiam com suas troças; desprezando os humanos, cujas torpezas eu via, passando de um profundo abatimento a uma revolta insana.

Por fim, me acalmaste. Escutei os ensinos que te dão os teus guias. A verdade me penetrou, eu orei e Deus me ouviu. Revelou-se a mim por sua clemência, como se havia revelado pela sua justiça.

Novel


CASTIGO DO EGOÍSTA
(MÉDIUM, SRA. COSTEL)

NOTA: O Espírito que ditou as três comunicações seguintes é o de uma mulher que a médium conheceu em vida, e cuja conduta e caráter justificam bem os tormentos que ela sofre. Era sobretudo dominada por um exagerado sentimento de egoísmo e de personalismo que se reflete na última comunicação, por sua pretensão em querer que a médium se ocupe somente com ela, e que por ela renuncie aos seus estudos ordinários.


I

Eis-me aqui, eu, a infeliz Clara. Que queres que te ensine? Tua resignação e tua esperança são meras palavras para quem sabe que, inumeráveis como os seixos da praia, seus sofrimentos durarão na sequência interminável dos séculos. Dizes que podes suavizá-los. Que palavras sem sentido! Onde achar a coragem, a esperança para tanto? Então, ó cérebro limitado, procura compreender o que é um dia que jamais acaba. É um dia, um ano, um século? Que sei eu? As horas não passam; as estações não variam; eterno e lento como a água que brota do rochedo, esse dia execrado, esse dia maldito pesa sobre mim como uma urna de chumbo... Sofro!... Nada vejo em volta de mim, senão sombras silenciosas e indiferentes... Sofro!

Contudo, sei que acima desta miséria reina Deus, o Pai, o Senhor, aquele para o qual tudo se encaminha. Quero pensar nisto. Quero implorar-lhe ajuda.

Debato-me e arrasto-me como um estropiado que trilha um longo caminho. Não sei que poder me arrasta para ti. Talvez tu sejas a salvação. Eu me afasto de ti um pouco acalmada, um pouco reaquecida, como um velho tiritante animado por um raio de sol. Minh’alma gelada sorve uma vida nova ao aproximar-se de ti.

Clara


II

Minha desgraça cresce dia a dia; cresce à medida que o conhecimento da eternidade se desenvolve em mim. Ó miséria! Quanto vos maldigo, horas culpadas, horas de egoísmo e de esquecimento em que, desconhecendo toda caridade, todo devotamento, eu só pensava no meu bem-estar! Sede malditas, convenções humanas! Vãs preocupações dos interesses materiais! Sede malditos, vós que me haveis enceguecido e perdido! Sou roída pelo incessante pesar do tempo escoado. Que direi a ti, que me escutas? Vigia incessantemente sobre ti; ama aos outros mais do que a ti mesma; não te demores nos caminhos do bem-estar; não engordes o teu corpo à custa de tua alma; vigia, como dizia o Salvador a seus discípulos. Não me agradeças por estes conselhos que meu espírito concebe, mas que meu coração jamais ouviu. Como um cão açoitado, o medo me faz rastejar, mas não conheço ainda o puro amor! Sua divina aurora custa muito a romper. Ora por minh’alma, ressequida e tão miserável.

CLARA


III

NOTA: Os dois primeiros ditados foram recebidos em casa da médium. Este foi dado espontaneamente na Sociedade, o que explica o sentido da primeira frase.

Venho procurar-te aqui, já que me esqueces. Crês, então, que preces isoladas e o meu nome pronunciado bastarão para acalmar o meu sofrimento? Não, cem vezes não. Tenho rugido de dor; erro sem repouso, sem asilo, sem esperança, sentindo o eterno aguilhão do castigo penetrar minh’alma revoltada. Rio quando escuto os vossos lamentos, quando vos vejo abatidos. Que são as vossas miseráveis penas?! Que são as vossas lágrimas?! Que são os vossos tormentos, que o sono interrompe?! Será que eu durmo? Eu quero, entendes, eu quero que, deixando tuas dissertações filosóficas, te ocupes de mim; que faças com que os outros também de mim se ocupem. Não encontro expressão para pintar a angústia desse tempo que se escoa sem que as horas lhe marquem os períodos. Apenas vejo um fraco raio de esperança, e essa esperança foste tu que me deste. Assim, não me abandones.

Clara


IV

NOTA: A comunicação seguinte não é do mesmo Espírito, é de um Espírito superior, nosso guia espiritual, em resposta ao pedido que lhe fizemos, para dar sua opinião sobre as comunicações precedentes.

Esse quadro é muito verdadeiro e não está absolutamente carregado. Talvez me perguntem o que fez essa mulher para estar nessa tão miserável situação! Cometeu algum crime horrível? Roubou? Assassinou? Não. Ela nada fez que tivesse merecido a justiça dos homens. Ao contrário, divertia-se com aquilo a que chamais a felicidade terrena: beleza, fortuna, prazeres, adulação. Tudo lhe sorria, nada lhe faltava, e ao vê-la diziam: Que mulher feliz! Invejavam sua sorte. Que fez ela? Foi egoísta; tinha tudo, menos um bom coração. Se não violou a lei dos homens, violou a lei de Deus, porque desconheceu a caridade, a primeira das virtudes. Só amou a si mesma. Agora ninguém a ama. Não deu nada; nada lhe dão. Está isolada, cansada, abandonada, perdida no espaço, onde ninguém pensa nela, ninguém se ocupa com ela. Isto é o seu suplício. Como só buscou os prazeres mundanos e hoje tais prazeres não mais existem, fez-se o vazio em seu redor. Só vê o nada e o nada lhe parece a eternidade. Não sofre torturas físicas; os diabos não vêm atormentá-la, mas isto não é necessário. Ela própria se atormenta, e sofre ainda mais, porque esses diabos seriam ainda seres que pensariam nela. O egoísmo constituiu sua alegria na Terra; ela o perseguiu. Agora é o verme que lhe rói o coração, é o seu verdadeiro demônio.

Ah! Se os homens soubessem quanto pagarão por terem sido egoístas! Entretanto, Deus vo-lo ensina todos os dias, pois se ele envia tantos Espíritos egoístas à Terra, é para que, desde esta vida, eles se castiguem uns aos outros e melhor compreendam, pelo contraste, que a caridade é o único contra-veneno dessa lepra da Humanidade.


ALFRED DE MUSSET
(MÉDIUM, SRTA. EUGÉNIE)

Na sessão da Sociedade, de 23 de novembro, um Espírito comunicou-se espontaneamente, escrevendo o seguinte:

Como desejo, antes de tudo, vos ser agradável, pergunto de que assunto quereis que eu trate. Se tiverdes um assunto, perguntai. Enfim, senhores, sou sempre o vosso dedicado

ALFRED DE MUSSET ─ Sendo vossa visita imprevista, não temos um assunto preparado. Pedimos, pois, a bondade de tratar de um à vossa escolha. Seja qual for, ficaremos muito reconhecidos.

─ Tendes razão. Sim, porque eu, como Espírito, em particular, bem como todos os Espíritos, em geral, conhecemos melhor as vossas necessidades e podemos escolher as comunicações melhor do que vós mesmos faríeis.

“De que vou tratar? Sinto-me embaraçado em meio a tantos assuntos interessantes. Comecemos por falar dos que desejam ardentemente ser espíritas, mas que parecem recuar ante o que julgam uma apostasia. Falemos, pois, daqueles que recuariam ante a ideia de se acharem em contradição com o Catolicismo. Escutai bem: digo Catolicismo e não Cristianismo.

Temeis renegar a crença dos vossos pais? Erro! Vossos pais, os primeiros, os que fundaram essa religião sublime em sua origem, eram mais espíritas do que vós. Eles pregavam a mesma doutrina que hoje vos ensinam. Assim como faz vossa religião, quem diz Espiritismo diz: caridade, bondade, esquecimento e perdão das injúrias. Como o Catolicismo, ele vos ensina a abnegação de si mesmo. Podeis, pois, consciências timoratas, reuni-los e vir, sem escrúpulos, sentar-vos a esta mesa e conversar com os seres que chorais. Como vossos pais, sede caridosos, bons, compassivos, e no fim da estrada tereis todos o mesmo lugar; no fim do caminho, a balança que pesará as vossas ações terá os mesmos pesos e a obra o mesmo valor. Vinde sem medo, eu vos peço. Vinde, mulheres graciosas, com o coração cheio de ilusões; vinde aqui, e elas serão substituídas por realidades mais belas e mais radiosas. Vinde, esposas de coração duro, que sofreis a vossa aridez, pois aqui está a água que amolece a rocha e estanca a sede. Vinde, mulheres amantes, que em toda a vossa vida aspirais à felicidade; que medis a profundidade do vosso coração e vos desesperais por preenchê-la. Vinde, mulheres de inteligência ávida, vinde. Aqui a Ciência flui pura e clara.Vinde beber nesta fonte que rejuvenesce. E vós, velhos que vos curvais, vinde e rireis diante de toda essa juventude que vos desdenha, porque para vós se abrem as portas do santuário; para vós o nascimento vai recomeçar e trazer a felicidade de vossos primeiros anos. Vinde, e nós vos faremos ver os irmãos que vos estendem os braços e vos esperam. Vinde, pois, todos, porque para todos há consolações.

Vedes que me presto de boa vontade. Disponde de mim, e dar-me-eis prazer.”

Aproveitando a boa vontade do Espírito de Alfred de Musset, foram-lhe dirigidas as seguintes perguntas:

1. ─ Qual será a influência da poesia no Espiritismo?

─ A poesia é o bálsamo que se aplica sobre as chagas. A poesia foi dada aos homens como o maná celeste. Todos os poetas são médiuns que Deus enviou à Terra para regenerar um pouco o seu povo e não o deixar embrutecer-se inteiramente. O que há de mais belo? O que mais fala à alma do que a poesia?

2.º ─ A pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia foram, uma por uma, influenciadas pelas ideias pagãs e cristãs. Podeis dizer-nos se depois das artes pagã e cristã haverá um dia a arte espírita?

─ Fazeis uma pergunta que se responde por si mesma: O verme é o verme; torna-se bicho da seda, depois borboleta. Que há de mais aéreo, de mais gracioso que uma borboleta? Então! A arte pagã é o verme; a arte cristã o casulo; a arte espírita será a borboleta.

(A respeito, vide artigo anterior, sobre “A arte pagã, a arte cristã e a arte espírita”).

3.º ─ Qual a influência da mulher no século dezenove?

NOTA: Esta pergunta foi feita por um jovem estranho à Sociedade.

─ Ah! É de progresso. E é um jovem que faz a pergunta. Isto é bonito, e eu mesmo seria muito amador se não me dignasse a responder. Estou certo de que todos aqui também querem ouvir.

A influência da mulher no século dezenove! Acreditais que ela tenha esperado esta época para vos trazer à trela, pobres e fracos homens que sois? Se tentastes rebaixá-la, foi porque a temíeis; se tentastes abafar a sua inteligência, foi porque temestes a sua influência. Só ao seu coração não pudestes opor barreiras. E como o coração é o presente que Deus lhe deu em particular, ele continuou senhor e soberano. Mas eis que a mulher se faz também borboleta; ela quer sair de seu casulo; quer reconquistar seus direitos, que são divinos; como aquela, lança-se na atmosfera e dir-se-ia que respira o ar de seu justo valor. Não penseis que eu as queira transformar em eruditas, letradas, poetisas. Não. Mas eu quero, aqui se quer, no mundo em que habito, que aquela que deve elevar a Humanidade seja digna de seu papel; queremos que aquela que deve formar os homens comece a se conhecer a si própria e, para lhe dar desde tenra idade o amor do belo, do grande, do justo, é necessário que ela possua esse amor num grau superior. É preciso que o compreenda. Se o agente educador por excelência é reduzido ao estado de nulidade, a Sociedade vacila. É o que deveis compreender no século dezenove.


INTUIÇÃO DA VIDA FUTURA
(MÉDIUM, SRTA. EUGÉNIE)

NOTA: A médium escreve num caderno antigo, que servira e outro médium, e no qual se achava uma comunicação escrita há tempos e assinada por Delphine de Girardin. A circunstância explica o começo da comunicação.

“Encontro justamente o meu nome; e ele servirá de assinatura antes de haver começado.

“Quero falar-vos a todos, neste momento, e vos provar que sois espiritualistas; por isso, é suficiente dirigir-me ao vosso raciocínio. Que ireis fazer num cemitério a primeiro de novembro, se ele só conserva os despojos dos seres que perdestes? Por que ides perder tempo em levar-lhes, este umas flores, aquele um pensamento de amizade e uma suave lembrança? Por que ides evocar a sua memória, se eles não vivem mais? Por que derramar lágrimas e lhes pedir que as enxuguem ou que vos levem com eles? Respondei, vós todos que dizeis ─ porque os que não dizem em voz alta, pensam baixinho ─ que dizeis: a matéria é a única coisa que existe em nós. Depois de nós, nada. Dizei: não estais em desacordo convosco mesmos? Mas alegrai-vos, pois tendes mais fé do que imaginais. Deus, que vos criou imperfeitos, quis dar-vos confiança, malgrado vosso, e sem quererdes compreender, sem disso terdes consciência, falais a esses seres queridos; pedis que cheirem as flores que lhes ofertais; suplicais amizade e proteção. Mãe! Chamas a tua filha de anjo e lhe pedes preces. Filha, pedes a proteção de tua mãe e os seus conselhos.

Muitos dentre vós dizem: Sinto em meu coração a verdade do que dizeis, mas está em desacordo com o que meus pais me ensinaram, e, espíritos timoratos que sois! vos fechais na vossa ignorância. Agi, pois, sem temor, porque a fé espírita está de acordo com todas as religiões, desde que diz o que todas repetem: Amor, caridade, humildade. Vede que se isto só decorre de vossa hesitação, deveis crer.”

DELPHINE DE GIRARDIN

OBSERVAÇÃO: A contradição de que fala o Espírito, no começo, é vista a cada instante, mesmo naqueles que mais fortemente negam a vida futura. Se tudo se acaba com a vida corpórea, para que serve, então, a comemoração dos mortos, se eles não nos ouvem mais? Falaram-nos de um senhor imbuído ao último ponto de ideias materialistas absolutas. Há pouco tempo perdeu o filho único e o pesar que sentiu foi tal que queria suicidar-se para ir juntar-se a ele. Ora, para ir juntar-se a que? Aos ossos, que não são mais ele, porque os ossos não pensam.


A REENCARNAÇÃO
(MÉDIUM, SRTA. EUGÉNIE)

NOTA: Na sessão da Sociedade em que foi recebido o ditado precedente, o Espírito da Sra. Girardin, solicitado a dar outro sobre a reencarnação, respondeu: “Oh! Bem que o quero; esta médium está acostumada a me ver fazer o que nem sempre lhe agrada, e vós tendes razão”. Esta última frase é uma alusão a certas ideias particulares da médium, relativamente à reencarnação.

“A reencarnação é uma coisa lógica; toca os nossos sentidos. Assim, pois, tratase apenas de refletir, de querer examinar bem ao nosso redor. Basta olhar para dentro de si mesmo para achar as provas da reencarnação. Vede a esta mesa um bom pai de família; tem várias crianças lindas, umas de inteligência notável, outras num estado quase abjeto. De onde essa diferença? O mesmo pai, a mesma mãe, a mesma educação e, contudo, tantos contrastes!

Atentai para as vossas memórias; não encontrais nelas a intuição de fatos dos quais não tendes o menor conhecimento e que, entretanto, se retratam para vós absolutamente como se tivessem existido? Vendo uma pessoa pela primeira vez, não ficais chocados porque vos parece já havê-lo conhecido? Sim, não é? Então! Isto vos prova uma vida anterior, da qual participastes; isso prova que o menino inteligente deve ter percorrido várias existências, e por isso se depurou, e que o outro talvez esteja na primeira; que a pessoa que encontrais talvez vos tenha sido íntima, e que o fato de que vos lembrais vos aconteceu pessoalmente em outra vida. Além disso, para entrar no reino de Deus é preciso que sejais perfeitos. Vejamos! Julgais que vos reste tão pouco a fazer para crer que depois de vossa morte uns três ou quatro meses nas esferas vos bastarão[1]? Não. Não acredito em tanta pretensão. Para adquirir é necessário trabalhar, e a fortuna moral não se lega com a fortuna material. Para vos depurardes, é preciso passar por vários corpos que levam com eles, em cada despojamento, uma parte das vossas impurezas.

“Se refletirdes, não podereis deixar de vos render à evidência.

DELPHINE DE GIRARDIN


O DIA DOS MORTOS
(MÉDIUM, SRTA. HUET)

NOTA: Na sessão da Sociedade, de 2 de novembro, Charles Nodier, solicitado a continuar o trabalho que começou, responde:

“Permiti, meus caros amigos, que nesta noite vos fale de um outro assunto. Continuarei o trabalho começado, na próxima vez.

“Hoje é uma data que nos é tão pessoalmente consagrada, que não podemos deixar de vos chamar a atenção sobre a morte e sobre as preces reclamadas pela maioria dos que vos precederam. Esta semana é um período de confraternização entre o Céu e a Terra, entre os vivos e os mortos. Deveis ocupar-vos de nós mais particularmente, e de vós também, porque meditando sobre este pensamento, de que brevemente, como para nós, os vivos oração por vossa alma, deveis tornar-vos melhores. Conforme a maneira por que tiverdes vivido aqui embaixo, sereis recebidos perante Deus. Que é a vida, afinal de contas? Uma curtíssima emigração do Espírito na Terra, tempo, entretanto, em que pode amontoar um tesouro de graças ou preparar-se para cruéis tormentos. Pensai nisto. Pensai no Céu e então a vida, seja qual for a vossa, vos parecerá bem leve.

CHARLES NODIER

A propósito de sua comunicação, foram feitas ao Espírito as seguintes perguntas:

1.º ─ Hoje os Espíritos são mais numerosos que de hábito nos cemitérios?

─ Nesta época voltamos mais espontaneamente junto aos nossos despojos terrenos, porque os vossos pensamentos, as vossas preces, ali estão conosco.

2.º ─ Os Espíritos que, nesses dias, vêm aos seus túmulos, junto aos quais ninguém ora, sofrem por se verem abandonados, enquanto outros têm parentes e amigos que lhes trazem uma prova de lembrança?

─ Não há pessoas piedosas que oram por todos os mortos em geral? Então! Essas preces se revertem ao Espírito esquecido. Elas são para ele o maná celeste, que tanto caía para o preguiçoso como para o homem ativo. A prece é para o conhecido e para o desconhecido. Deus a reparte igualmente, e os bons Espíritos que delas não mais necessitam as entregam àqueles a quem podem ser necessárias.

3.º ─ Sabemos que a fórmula das preces é indiferente; não obstante, muitas pessoas necessitam de uma fórmula para fixar as ideias. Por isso vos agradeceríamos se nos ditásseis uma a propósito. Todos nos associaremos pelo pensamento, para destiná-la aos Espíritos que dela possam necessitar.

─ Também o quero.

“Deus, criador do Universo, dignai-vos ter piedade de vossas criaturas; considerai as suas fraquezas; abreviai as suas provações terrenas, se estas estiverem acima de suas forças; apiedai-vos dos sofrimentos daqueles que deixaram a Terra e inspirai-lhes o desejo de progredir para o bem.”

4.º ─ Sem dúvida há aqui vários Espíritos aos quais podemos ser úteis. Vamos pedir que se deem a conhecer.

─ Que pedido fazeis! Sereis assaltados.

5.º ─ Não ficamos absolutamente apavorados. Se não pudermos ouvir a todos, o que dissermos a um servirá para os outros.

─ Pois bem! Fazei o que vos ditar o coração.

Tendo sido feito um apelo, sem designação individual, a um dos Espíritos presentes que quisesse comunicar-se para pedir nossa assistência, o de um personagem muito conhecido, falecido há dois anos, manifesta-se e mostra sentimentos muito diversos dos que tinha em vida, e que se estava longe de suspeitar.


ALEGORIA DE LÁZARO
(MÉDIUM, SR. ALFRED DIDIER)

O Cristo gostava de um homem chamado Lázaro. Quando soube de sua morte, sua dor foi grande e ele se fez levar até o seu túmulo. A irmã de Lázaro suplicava ao Senhor, dizendo: “É possível fazerdes voltar a vida ao meu irmão? Ó vós, que o amáveis tanto, devolvei-lhe a vida!”

Mundo do século dezenove, também estás morto. A fé, que é a vida dos povos, extingue-se dia a dia. Em vão alguns crentes quiseram acordar-te de tua agonia. É muito tarde. Lázaro está morto. Só Deus pode salvá-lo.

Então, o Cristo se fez conduzir ao túmulo. Levantaram a pedra do sepulcro; envolto em faixas, o cadáver denotava todo o horror da morte. O Cristo lançou um olhar para o céu, tomou a mão da irmã, e levantando a outra mão para o alto, exclamou: “Lázaro, levanta-te!” Apesar das faixas e a despeito do lençol, Lázaro despertou e levantou-se.

Ó mundo! Tu pareces Lázaro. Nada te pode devolver a vida. Teu materialismo, tuas torpezas, teu ceticismo são outras tantas faixas que envolvem o teu cadáver, e cheiras mal, pois há muito que estás morto. Quem te gritará como a Lázaro: Em nome de Deus, levanta-te? É o Cristo, que obedece ao apelo do Espírito Santo. Século, a voz de Deus se fez ouvir! Estarás mais podre do que Lázaro?

LAMENNAIS


O DIABRETE FAMILIAR
(MÉDIUM, SRA. COSTEL)

Jamais me comuniquei convosco e me sinto muito feliz por aumentar a vossa plêiade literária. Bem sabeis, vós que me lestes com tanto gosto, que opinião eu tinha sobre isso a que chamam o mundo fantástico. Muitas vezes só, nas longas noites de inverno, recolhido a um canto de meu lar solitário, eu escutava o gemido das notas lamentosas do vento. Enquanto o olhar distraído seguia vagamente os desenhos inflamados do fogo, certamente o diabrete familiar então me entretinha, e eu não inventava Trilby: eu repetia o que ele me havia murmurado ao ouvido atento. Que coisa encantadora, sentir que vivem em volta de nós esses hóspedes invisíveis! Com eles, nada de mistérios. Eles vos amam mesmo, malgrado vosso, e vos conhecem melhor do que vós próprios vos conheceis. Na minha vida literária, na minha vida de homem, devo a esses amigos invisíveis os meus melhores sucessos e as minhas mais caras consolações. É a minha vez, agora, de murmurar a ouvidos amigos as coisas que o coração adivinha e não repete. Quero dizer-vos, caro médium, que muitas vezes terei o suave privilégio de conversar convosco.

CHARLES NODIER



[1] Alusão à opinião de algumas pessoas relativamente à vida futura.

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