Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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O ANJO DAS CRIANÇAS

(SOCIEDADE, MÉDIUM, SRA. DE BOYER)


Meu nome é Micael. Sou um dos Espíritos prepostos à guarda das crianças. Que suave missão! E que felicidade proporciona à alma! A guarda das crianças? perguntareis. Mas não tem suas mães, bons anjos prepostos a essa guarda? E por que ainda é necessário um Espírito para delas se ocupar? Mas não pensais nas que não têm mais essa boa mãe? Não as há, e muitas? E a mãe, ela mesma, por vezes não necessita de ajuda? Quem a desperta em meio ao seu primeiro sono? Quem a faz pressentir o perigo, inventar o alívio quando o mal é grave? Nós, sempre nós. Nós, que desviamos a criança do barranco, para onde corre traquinas; que dela afastamos os animais perigosos, e afastamos o fogo que poderia misturar-se aos seus cabelos louros. Nossa missão é suave! Somos ainda nós que lhes inspiramos a compaixão pelo pobre, a doçura, a bondade. Nenhuma, mesmo das piores, poderia perturbar-nos. Há sempre um instante, no qual seu coraçãozinho nos fica aberto. Quantos de vós admirar-se-ão desta missão. Mas não dizeis sempre: há um Deus para as crianças? sobretudo para as crianças pobres? Não, não há um Deus, mas anjos, amigos. E como poderíeis explicar de outro modo essas salvações miraculosas? Há ainda muitos outros poderes, cuja existência nem mesmo suspeitais, Há o Espírito das flores, dos perfumes; há mil e um outros, cujas missões mais ou menos elevadas vos pareceriam deliciosas e invejáveis, após vossa dura vida de provas. Eu os convidarei a virem ao vosso meio. Neste momento sou recompensada por uma vida inteiramente dedicada às crianças. Casada jovem, com um homem que possuía diversas, não tive a felicidade de as ter. Inteiramente devotada a elas, Deus, o bom e soberano Senhor, concedeu-me ser ainda guarda das crianças. Suave e santa missão! eu o repito, e cuja plena eficácia as mães aqui presentes não poderiam negar. Adeus, vou à cabeceira dos meus pequenos protegidos. A hora do sono é a minha hora, e é preciso que visite a todas essas lindas pálpebras fechadas. o bom anjo que vela por elas, sabei-o, não é uma alegoria, mas uma verdade.


CONSELHOS
(SOCIEDADE, 25 DE NOVEMBRO DE 1859 MÉDIUM, SR. ROZE)


Outrora vos teriam crucificado, queimado, torturado. A forca foi derrubada; a fogueira, extinta; os instrumentos de tortura, quebrados. A arma terrível do ridículo, tão poderosa contra a mentira, mover-se-á contra a verdade. Seus inimigos mais terríveis se fecharam num círculointransponível. Com efeito, negar a realidade de nossas manifestações seria negar a revelação que é a base de todas as religiões; atribuí-las ao demônio, pretender que o Espírito do mal venha vos confortar, vos desenvolver o Evangelho, exortar-vos ao bem, à prática de todas as virtudes, é simplesmente e felizmente provar que ele não existe. Todo reino dividido contra si mesmo perecerá. Restam os maus Espíritos. Jamais uma boa árvore produzirá maus frutos; jamais uma árvore má produzirá bons frutos. Nada de melhor tendes a fazer do que lhes responder o que respondia o Cristo aos seus perseguidores, quando formularam contra ele as mesmas acusações, e como ele rogar a Deus que os perdoe, pois não sabem o que fazem.

O Espírito de Verdade


(OUTRA DITADA AO SR. ROZE E LIDA NA SOCIEDADE)


A França leva o estandarte do progresso e deve guiar as outras nações: provam-no os acontecimentos passados e contemporâneos. Fostes escolhidos para serdes o espelho que deve receber e refletir a luz divina, que deve iluminar a Terra, até então mergulhada nas trevas da ignorância e da mentira. Mas se não estiverdes animados pelo amor do próximo e por um desinteresse sem limites; se o desejo de conhecer e propagar a verdade, cujas vias deveis abrir à posteridade não for o único móvel a guiar os vossos trabalhos; se a mais leve reserva mental de orgulho, de egoísmo e de interesse material achar lugar em vossos corações, não nos serviremos de vós, senão como o artista que provisoriamente emprega uma ferramenta defeituosa; viremos a vós até que tenhamos encontrado ou provocado um centro mais rico do que vós em virtudes, mais simpático à falange de Espíritos que Deus enviou para revelar a verdade aos homens de boa vontade. Pensai nisto seriamente. Descei aos vossos corações, sondai-lhes os mais íntimos refolhos e expulsai com energia as más paixões que nos afastam, senão retirai-vos, antes de comprometerdes os trabalhos de vossos irmãos pela vossa presença, ou a dos Espíritos que traríeis convosco.

O Espírito de Verdade


A OSTENTAÇÃO
(SOCIEDADE, 16 DE DEZEMBRO DE 1860 MÉDIUM. SRTA. HUET)


Por uma bela tarde de primavera, um homem rico e generoso estava sentado em seu salão; sorvia, feliz, o perfume das flores de seu jardim. Enumerava, complacente, todas as boas obras que tinha praticado durante o ano. A essa lembrança não podeimpedir um olhar quase desprezível sobre a casa de um de seus vizinhos, que não pudera dar senão módica moeda para a construção da igreja paroquial. De minha parte, disse ele, dei mais de mil escudos para essa obra pia; lancei negligentemente uma nota de 500 francos na bolsa que me apresentava aquela jovem duquesa em favor dos pobres; dei muito para as festas de beneficência, para toda sorte de loterias e creio que Deus me será grato por tanto bem que fiz. Ah! eu esquecia uma pequena esmola dada ultimamente a uma infeliz viúva com o peso de numerosa família e que ainda cria um órfão. Mas o que lhe dei é tão pouco que, certamente, não é isto que me abrirá o céu.

Tu te enganas, respondeu de repente uma voz que lhe fez voltar a cabeça: é a única que Deus aceita; e eis a prova. No mesmo instante uma mão apagou o papel que ele tinha riscado com todas as suas boas obras, deixando apenas a última: ela o levou ao céu.

Não é, pois, a esmola feita com ostentação que é a melhor, mas aquela que é feita com toda a humildade do coração.


JOINVILLE, AMY DE LOYS


AMOR E LIBERDADE

(SOCIEDADE, 27 DE JANEIRO DE 1860 MÉDIUM, SR. ROZE)


Deus é amor e liberdade. É pelo amor e pela liberdade que o Espírito se aproxima dEle. Pelo amor desenvolve, em cada existência, novas relações que o aproximam da humildade; pela liberdade escolhe o bem que o aproxima de Deus. Sede ardentes na propagação da nova fé. Que o santo ardor que vos anima Jamais vos faça atingir a liberdade alheia. Evitai, por uma insistência muito grande junto à incredulidade orgulhosa e temível, exasperar uma resistência meio vencida e prestes a render-se. O reino do constrangimento e da opressão acabou; começa o da razão, da liberdade, do amor fraterno, Não é mais pelo medo e pela força que os poderes da Terra adquirirão, de agora em diante, o direito de dirigir os interesse morais, espirituais e físicos dos povos, mas pelo amor da liberdade.

Abelardo.



A IMORTALIDADE

(SOCIEDADE, 3 DE FEVEREIRO DE 1860 MÉDIUM, SRTA. HUET)


Como pode um homem, e um homem inteligente, não crer na imortalidade da alma e, conseqüentemente, numa vida futura, que é a do Espiritismo? Em que deveriam tornar-se esse amor imenso que a mãe vota ao filho, esses cuidados com que o cerca na tenra idade, essa solicitude esclarecida que o pai dedica à educação de um ser bem amado? Tudo isto seria, então, aniquilado no momento da morte ou da separação? Seríamos, assim, semelhantes aos animais, cujo instinto é admirável, sem dúvida, mas que não cuidam de sua progênie com ternura, senão até o momento em que ela cessa de ter necessidade dos cuidados maternos? Chegado esse momento, os pais abandonam os filhos e tudo está acabado: o corpo está criado, a alma não existe. Mas o homem não teria uma alma, e uma alma imortal! E o gênio sublime que só se pode comparar a Deus, tanto dele emana, esse gênio que gera prodígios, que cria obras primas, tudo isto seria aniquilado pela morte do homem! Profanação! Não se podem aniquilar assim as coisas que vêem de Deus. Um Rafael, um Newton, um Miguel Ângelo, e tantos outros gênios sublimes, abarcam ainda o Universo em seu Espírito, embora seus corpos não mais existam. Não vos enganeis: eles vivem e viverão eternamente. Quanto a se comunicarem convosco, é menos fácil de admitir pela generalidade dos homens. Só pelo estudo e pela observação eles podem adquirir a certeza de que isso é possível.

FENELON.


PARÁBOLA
(SOCIEDADE, 9 DE DEZEMBRO DE 1859 MÉDIUM, SR. ROZE)

Em sua última travessia, um velho navio foi assaltado por terrível tempestade. Além de grande número de passageiros, transportava uma porção de mercadorias estrangeiras ao seu destino, acumuladas pela avareza e cupidez de seus donos. O perigo era iminente; reinava a bordo a maior desordem. Os chefes se recusavam a lançar a carga fora. Suas ordens eram ignoradas: tinham perdido a confiança da equipagem e dos passageiros. Era necessário pensar em abandonar o navio: puseram três embarcações ao mar. Na primeira, a maior, precipitaram-se, aturdidos, os mais impacientes e os mais inexperientes, que se apressaram a remar na direção da luz que avistavam ao longe, na costa. Caíram nas mãos de uma horda de náufragos, que os despojou dos objetos preciosos que tinham recolhido às pressas e os maltratou sem piedade.


Os segundos, mais clarividentes, souberam distinguir um farol libertador em meio às luzes enganadoras que iluminavamohorizonte. Confiantes, lançaram o barco ao capricho das ondas. Estes foram arrebentar nos arrecifes, ao pé do farol, do qual não haviam tirado os olhos. Foram tanto mais sensíveis à sua ruína e à perda de seus bens, quanto haviam entrevisto a salvação.

Os terceiros, pouco numerosos, mas sábios e prudentes, guiaram com cuidado o frágil barco em meio aos escolhos, e salvaram corpos e bens, sem outro mal além da fadiga da viagem.

Não vos contenteis, portanto em vos guardardes contra os fogos dos náufragos, contra os maus Espíritos. Mas sabei evitar o erro dos viajantes indolentes, que perderam seus bens e naufragaram no porto. Sabei guiar vosso barco em meio aos escolhos das paixões, e abordareis com felicidade o porto da vida eterna, ricos das virtudes que tiverdes adquirido em vossas viagens.

O VICENTE DE PAULO


O ESPIRITISMO
(SOCIEDADE, 3 DE FEVEREIRO DE 1860 MÉDIUM, SRA. M.)


O Espiritismo está chamado a esclarecer o mundo, mas necessita de um certo tempo para progredir. Existiu desde a Criação, mas só era reconhecido por algumas pessoas, porque, em geral, a massa pouco se ocupa em meditar sobre questões espíritas. Hoje, com o auxilio desta pura doutrina, haverá uma luz nova. Deus, que não quer deixar a criatura na ignorância, permite que os Espíritos mais elevados nos venham em auxilio, para contrabalançarem o Espírito das trevas, que tende a envolver o mundo. O orgulho humano obscurece a razão e a faz cometer muitos erros. São necessários Espíritos simples e dóceis, para comunicarem a luz e atenuarem todos os males. Coragem! Persisti nesta obra, que é agradável a Deus, porque ela é útil para a sua maior glória, e dela resultarão grandes bens para a salvação das almas.

Francisco de Sales.


FILOSOFIA
(SOCIEDADE, 3 DE FEVEREIRO DE 1860 MÉDIUM, SR. COLIN)

Escrevei isto: O homem! Que é ele? De onde velo? Aonde vai? Deus? A Natureza? A Criação? O mundo? Sua eternidade no passado, no futuro! Limite da Natureza, relações do ser infinito com o ser particular? Passagem do infinito ao finito? Perguntas que devia fazer o homem, criança ainda, quando viu pela primeira vez, com sua razão, acima da cabeça, a marcha misteriosa dos astros; sob seus pés a terra, alternativamente revestida com roupas de festa, sob o tépido sopro da primavera, ou coberta de um manto de luto, debaixo do sopro gelado do inverno; quando ele próprio, pensando, sentindo, se viu por um instante lançado nesse imenso turbilhão vital entre o ontem, dia de seu nascimento, e o amanhã, dia de sua morte. Perguntas que foram propostas a todos os povos, em todas as idades e em todas as suas escolas. E que, entretanto, não deixaram de ficar como enigmas para as gerações seguintes. Contudo, questões dignas de cativar o espírito investigador do vosso século e o gênio do vosso pais. Se, pois, houvesse entre nós um homem, dez homens, com a consciência da alta importância da missão apostólica e vontade de deixar um traço de sua passagem aqui, para vos servir de ponto de referência à posteridade, eu lhes diria: Durante muito tempo transigistes com os erros e preconceitos da vossa época; para vós, a fase das manifestações materiais e físicas é passada; aquilo a que chamais de evocações experimentais já não vos pode ensinar grandes coisas, porque, na maioria dos casos, apenas a curiosidade está em jogo. Mas a era filosófica da doutrina se aproxima. Não vos demoreis mais tempo montados nas franquias do pórtico, em breve carcomidas, e penetrai corajosamente no santuário celeste, levando com firmeza a bandeira da filosofia moderna, na qual inscrevei sem medo: misticismo, racionalismo. Fazei ecletismo no ecletismo moderno; fazei-o como os Antigos, apoiando-vos na tradição histórica, mística e legendária, sempre, porém, com o cuidado de não sair da revelação, facho que nos faltou a todos, recorrendo às luzes dos Espíritos superiores, votados missionariamente à marcha do espírito humano. Esses Espíritos, por mais elevados que sejam, não sabem tudo; só Deus o sabe; além disso, de tudo quanto sabem, nem tudo podem revelar. Onde ficaria, então, o livre arbítrio do homem, sua responsabilidade, o mérito e o demérito? E, como sanção, o castigo e a recompensa?

Contudo, podemos balizar o caminho que vos mostramos, com alguns princípios fundamentais. Portanto, escutai isto:

1.- A alma tem o poder de retirar-se da matéria;

2. De elevar-se muito acima da inteligência;

3. Esse estado é superior à razão;

4. Ele pode colocar o homem em relação com aquilo que escapa às suas faculdades;

5.O homem pode provocá-lo pela prece a Deus, por um esforço constante da vontade, reduzindo a alma, por assim dizer, ao estado de pura esncia, privada da atividade sensível e exterior; pela abstração; numa palavra, de tudo o que há de diverso, de múltiplo, de indeciso, de turbilhonamento, de exterioridade na alma;

6.Existe no Eu concreto e complexo do homem uma forçacompletamente ignorada até hoje. Procurai-a, portanto.

Moisés, PLATÃO, depois JULIANO


COMUNICAÇÕES LIDAS NA SOCIEDADE
(PELO SR. PÊCHEUR)


Meu amigo, não sabes que todo homem que segue a via do progresso, tem sempre contra si a ignorância e a inveja? A inveja é a poeira levantada por vossos passos. Vossas idéias revoltam certos homens, porque não compreendem ou abafam no orgulho o clamor da consciência, que lhes clama: Aquilo que repeles, teu juiz o lembrará um dia; é a mão que Deus te oferece, para retirar do lodaçal onde te lançaram as paixões. Escuta por um instante a voz da razão; pensa que vives no século do dinheiro, onde o Eis domina; que o amor às riquezas te resseca o coração, carregando a consciência de muitas faltas e mesmo de crimes que serão confessados. Homens sem fé, que vos dizeis hábeis, vossa habilidade vos levará ao naufrágio; nenhuma ajuda vos será oferecida; fostes surdos às misérias alheias e soçobrareis sem que uma lágrima caía sobre vós. Parai! ainda é tempo; que o arrependimento penetre vossos corações; que ele seja sincero, e Deus vos perdoará. Procurai o infeliz que não ousa lastimar-se e que a miséria mata lentamente, e o pobre que tiverdes aliviado incluirá o vosso nome em suas preces; abençoará a mão que talvez lhe tenha salvo a filha da fome que mata e da vergonha que desonra. Infelizes de vós se fordes surdos à sua voz. Deus vos disse, pela boca sagrada do Cristo: Ama a teu irmão como a ti mesmo. Não vos deu a razão para julgardes o bem e o mal? Não vos deu um coração para vos compadecerdes dos sofrimentos dos vossos semelhantes? Não sentis que abafando a consciência abafais a voz do progresso e da caridade? Não sentis que apenas arrastais um corpo vazio? Que nada bate mais em vosso peito, o que torna incerta a vossa marcha? Porque fugistes à luz e os vossos olhos se tornaram de carne; as trevas que vos cercam vos agitam e causam medo; procurais, mas muito tarde, sair dessa via que se esboroa aos vossos pés; o medo, que não podeis definir, vos torna supersticiosos; fingis caridade; esperando resgatar a vida de egoísta, dais o tostão que o medo vos arranca, mas Deus sabe o que vos leva a agir: não podeis enganá-lo; vossa vida extinguir-se-á sem esperança, e não podeis prolongá-la por um só dia; ela extinguir-se-á a despeito de vossas riquezas, que vossos filhos ambicionam por antecipação, pois lhes destes o exemplo. Como vós, eles tem um amor único, o do ouro, único sonho de felicidade para eles. E quando soar esta hora de justiça, tereis de comparecer perante o Supremo Juiz, que tendes olvidado.

Tua Filha



A CONSCIÊNCIA

Cada homem tem em si o que chamais uma voz interior. É o que o Espírita chama de consciência, juiz severo, que preside a todas as ações de vossa vida, Quando o homem está só, escuta essa consciência e se pesa no seu justo valor Por vezes envergonha-se de si mesmo. Nesse momento reconhece Deus, mas a ignorância, conselheira fatal, o impele e lhe põe a máscara do orgulho. Ele se vos apresenta cheio do seu vazio; procura enganar-vos pelo aprumo que apresenta. Mas o homem de coração reto não tem a cabeça altaneira; escuta com proveito as palavras do sábio. Sente que nada é, e que Deus é tudo. Procura instruir-se no livro da Natureza, escrito pela mão do Criador. Seu Espírito se eleva e expulsa as paixões materiais que muitas vezes vos desviam, É um guia perigoso, essa paixão que vos arrasta. Guarda, isto, amigo: deixa rir o céptico; seu sorriso extinguir-se-á. À sua hora derradeira, o homem torna-se crente. Amigo, pensa sempre em Deus, o único que não engana. Lembra-te de que há apenas um caminho que conduz a Ele: a fé e o amor aos semelhantes.

Tua Filha


A MORADA DOS ELEITOS
(PELA SRA. DESI...)


Teu pensamento ainda está absorvido pelas coisas da Terra. Se nos queres escutar, deves esquecê-las. Tentemos conversar do alto. Que teu Espírito se eleve para essas regiões, morada dos Eleitos do Senhor. Vê esses mundos que esperam a todos os mortais, e cujos lugares estão marcados conforme o merecimento. Quanta felicidade para aquele que se compras nas coisas santas, nos grandes ensinamentos dados em nome de Deus! Ó homens! Como sois pequenos, comparados aos Espíritos desprendidos da matéria, que planam nos espaços ocupados pela glória do Senhor! Felizes os que forem chamados a habitar os mundos onde a matéria é quase apenas um nome; onde tudo é etéreo e translúcido; onde não se escutam mau os passos. A música celeste é o único ruído que chega aos sentidos, tão perfeitos que captam os menores sons, desde que estes se chamem harmonia! Que leveza a de todos os seres amados por Deus! Como percorrem deliciados essas regiões encantadas, que são o seu asilo! Ali, não há mais discórdias, inveja ou ódio; o amor tornou-se o laço destinado a unir entre si todos os seres criados. E esse amor, que lhes enche o coração, só tem Deus como limite: o fim e no qual se resumem: a fé, o amor e a caridade.

Um amigo


(OUTRA, PELO MESMO MÉDIUM)

Teu esquecimento me afligia. Não me deixes mais por tanto tempo sem me chamares. Sinto-me disposto a conversar contigo e te dar conselhos. Guarda-te de acreditar em tudo quanto outros Espíritos poderiam dizer-te; talvez tenham tomado um mau caminho. Antes de tudo, sê prudente, a fim de que Deus não te tire a missão que te encarregou de cumprir, a saber: ajudar a levar ao conhecimento dos homens revelação da existência dos Espíritos ao redor deles. Nem todos estão em condições de apreciar e compreender o elevado alcance destas coisas, cujo conhecimento Deus só permite aos eleitos. Dia virá em que esta ciência, cheia de consolação e de grandeza, será a partilha da humanidade inteira, onde não mais se encontrará um incrédulo. Os homens, então, não poderão compreender que uma verdade tão palpável tenha sido posta em dúvida por um só instante pelo mais simples dos mortais. Na verdade te digo, não passará meio século, antes que os olhos e ouvidos de todos sejam abertos a essa grande verdade: que os Espíritos circulam no espaço e ocupam diferentes mundos, conforme seu mérito aos olhos de Deus; que a verdadeira vida está na morte, e que é necessário que o homem seja muitas vezes resgatado, antes de obter a vida eterna, a que todos deverão chegar, através de mais ou menos séculos de sofrimentos, conforme tenham sido mais ou menos fiéis à voz do Senhor.


Um Amigo


O ESPÍRITO E O JULGAMENTO
(PELA SRA. NETZ)

A liberdade do homem é toda individual; nasceu livre, mas essa liberdade por vezes é a sua desgraça. Liberdade moral, liberdade física, tudo ele reuniu, mas muitas vezes lhe falta o discernimento, aquilo a que chamais bom senso. Se um homem tiver muito espírito e lhe faltar esta última qualidade, é como se nada tivesse, pois o que fará o seu espírito, se não pode governá-lo, se não tem a necessária inteligência para se conduzir, se julga marchar em boa via, quando está no lodaçal, se sempre se julga com a razão, quando muitas vezes está errado? O discernimento pode tomar o lugar do espírito, mas este, jamais substituirá o discernimento, E uma qualidade necessária; e, quando não a temos, todos os esforços devem ser feitos para adquiri-la.

Um Espírito Familiar


O INCRÉDULO
(PELA SRA. L...)

Vossa doutrina é bela e santa. Sua primeira baliza está plantada; e solidamente plantada. Agora só tendes que marchar. O caminho que vos é aberto é grande e majestoso. Feliz o que chegar ao porto. Quanto mais prosélitos houver feito, mais lhe será contado. Mas para isto não se deve abraçar a doutrina friamente: é necessário ardor, e este ardor será dobrado, porque Deus está sempre convosco quando fazeis o bem. Aqueles que trouxerdes serão outras tantas ovelhas entradas no redil. Pobres ovelhas meio tresmalhadas! Crede que o mais céptico, o mais ateu, o mais incrédulo, enfim, tem sempre um cantinho no coração que eledesejaria esconder a si mesmo. Muito bem! É esse cantinho que eledeve procurar, que deve encontrar, e é esse lado vulnerável que deve atacar. E uma pequena brecha deixada intencionalmente por Deus, para facilitar à sua criatura o meio de voltar ao seu seio.

São BENTO.


O SOBRENATURAL
(PELO SR. RABACHE, DE BORDÉUS)


Meus filhos, vosso pai fez bem em vos chamar a atenção para os fenômenos produzidos nas sessões, que vos ocupam há alguns dias. A julgá-los conforme a instrução de certos Espíritos sectários, ignorantes ou dominadores, tais efeitos são sobrenaturais. Não creiais nisso, meus filhos; nada do que acontece é sobrenatural; se fosse, o bom senso diz que só aconteceria fora da Natureza e, então, não o veríeis. Para que vossos olhos e demais sentidos percebam uma coisa, é de todo necessário que essa coisa seja natural. Com um pouco de reflexão não há um Espírito sério que consinta em crer em coisas sobrenaturais. Com isto não quero dizer que não haja coisas que tal não pareçam à vossa inteligência, mas a única razão para isto é que não as compreendeis, Quando um fato vos parece fugir do que julgais natural, guardai-vos contra essa preguiça de espírito que vos induziria a crer que seja sobrenatural. Buscai compreender. Para isto vos foi dada a inteligência. Para que vos serviria ela, se tivésseis de vos contentar com aprender e crer no que ensinaram os predecessores? É preciso que cada um ponha a inteligência a serviço do progresso, que é obra coletiva de todos. Já que sois dotados de pensamento, pensai; já que tendes a razão que não existe ator examinai e julgai. Não aceiteis julgamentos acabados, senão depois de passados pelo crivo da razão. Duvidai longamente, se não tiverdes certeza, mas não negueis jamais aquilo que não compreendeis. Examinai seriamente. Só o preguiçoso, o não inteligente, o indiferente, aceitam como verdadeiro ou falso tudo quanto ouvem afirmar ou negar. Enfim, meus filhos, fazei esforços para vos tomardes sérios e úteis, a fim de bem cumprirdes a missão que vos está confiada. Nunca é demasiado cedo para vos ocupardes do bem e do que é bom.

Começai, pois, cedo, a vos ocupardes das coisas sérias, O tempo das futilidades é sempre longo: é inútil para o Vosso progresso, o qual nem por um instante deve ser perdido de vista. As coisas da Terra nada são; servem à vossa passagem para outro estado, que será. tanto mais perfeito, quanto melhor preparados estiverdes. Vossa avó.


Allan Kardec

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