Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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Numa reunião espírita particular apresentou-se espontaneamente um Espírito, sob o nome de Baltazar, e ditou a seguinte frase por meio de batidas:

“Gosto da boa mesa e das mulheres; viva o melão e a lagosta, o café e o licor !” Pareceu-nos que tais disposições de um habitante do outro mundo poderia dar lugar a um estudo sério, do qual poderíamos tirar um ensinamento instrutivo sobre as faculdades e sensações de certos Espíritos. A nosso ver, era um interessante objeto de observação que se apresentava por si mesmo, ou, melhor ainda, que talvez tivesse sido enviado pelos Espíritos elevados, desejosos de nos fornecerem meios de instrução. Seríamos culpados se não o aproveitássemos. É evidente que aquela frase burlesca revela, da parte do Espírito, uma natureza muito especial, cujo estudo pode lançar uma nova luz sobre o que podemos chamar a fisiologia do mundo espírita.

Eis por que a Sociedade julgou dever evocá-lo, não por um motivo fútil, mas na esperança de encontrar um novo assunto para instrução.

Certas pessoas creem que só se pode aprender com o Espírito dos grandes homens. É um erro. Sem dúvida só os Espíritos de escol nos podem dar lições de alta filosofia teórica, mas o conhecimento do estado real do mundo invisível não é para nós menos importante. Pelo estudo de alguns Espíritos, surpreendemos, de certo modo, a natureza em flagrante. É vendo as chagas que podemos encontrar o meio de curá-las. Como nos daríamos conta das penas e dos sofrimentos da vida futura, se não tivéssemos visto Espíritos infelizes? Por eles compreendemos que se pode sofrer muito sem estar no fogo e nas torturas materiais do Inferno, e esta convicção, dada pelo espetáculo da ralé da vida espírita, não é uma das causas que menos contribuíram para atrair partidários à Doutrina.


1. Evocação: ─ Meus amigos, eis-me aqui, diante de uma grande mesa, mas ah! Está vazia!

2. ─ Esta mesa está vazia, é certo; mas quereis dizer-nos de que vos serviria se estivesse carregada de alimentos? Que faríeis deles? ─ Sentiria o seu aroma, como outrora lhes saboreava o gosto.

OBSERVAÇÃO: Esta resposta é todo um ensinamento. Sabemos que os Espíritos têm as nossas sensações e percebem os odores tão bem quanto os sons. Não podendo comer, um Espírito material e sensual se repasta da emanação dos alimentos; saboreia-os pelo olfato, como em vida o fazia pelo paladar. Há, pois, algo de material em seu prazer; mas como, na verdade, há mais desejo do que realidade, este mesmo prazer, aguilhoando os desejos, torna-se um suplício para os Espíritos inferiores, que ainda conservaram as paixões humanas.

3. ─ Falemos muito seriamente, peço-vos. Nosso propósito não é brincar, mas de nos instruirmos. Tende a bondade de responder seriamente às nossas perguntas e, se for necessário, servi-vos da assistência de um Espírito esclarecido. Tendes um corpo fluídico, bem o sabemos. Mas dizei, nesse corpo há um estômago? ─ Estômago também fluídico, onde só os aromas podem passar.

4 ─ Quando vedes comidas gostosas, sentis vontade de comer? ─ Ah! Comer! Eu não posso mais. Para mim, esses alimentos são o que são as flores para vós: cheirais, mas não comeis. Isto vos contenta. Pois então! Também eu fico contente.

5. ─ Sentis prazer vendo os outros comerem? ─ Muito, quando estou perto.

6. ─ Sentis necessidade de comer e beber? Notai que dizemos necessidade; há pouco havíamos dito desejo, o que não é a mesma coisa. ─ Necessidade, não; mas desejo, sim, sempre!

7. ─ Esse desejo fica plenamente satisfeito pelo cheiro que aspirais? É a mesma coisa que se realmente comêsseis? ─ É como se eu vos perguntasse se a vista de um objeto que desejais ardentemente vos substitui a posse desse objeto.

8. ─ Assim, parece que o desejo que experimentais deve ser um verdadeiro suplício, pois não há prazer real... ─ Suplício maior do que pensais. Mas eu procuro atordoar-me, criando-me a ilusão.

9. ─ Vosso estado nos parece muito material. Dizei-nos: dormis algumas vezes? ─ Não. Gosto de rodar um pouco por toda parte.

10. ─ O tempo vos parece longo? Por vezes vos aborreceis? ─ Não. Eu percorro as feiras e os mercados; vou ver chegar a pescaria e com isto me ocupo muito bem.

11. ─ Que fazíeis quando na Terra? Nota: Alguém diz que sem dúvida era cozinheiro. ─ Apreciador da boa mesa, não glutão. Advogado, filho de gastrônomo, neto de gastrônomo. Meus pais eram fermiers généraux. (Financistas que na antiga monarquia tinham o direito de cobrar impostos, mediante o pagamento de certa quantia fixa ao Tesouro). Respondendo à reflexão precedente, o Espírito acrescenta: ─ “Bem vês que eu não era cozinheiro e que não te convidaria para os meus almoços, pois não sabes comer nem beber.”

12. ─ Há muito tempo que estais morto? ─ Morri há uns trinta anos, com oitenta de idade.

13. ─ Vedes outros Espíritos mais felizes do que vós? ─ Sim. Vejo alguns cuja felicidade consiste em louvar a Deus. Ainda não conheço isto. Meus pensamentos roçam pela Terra.

14. ─ Compreendeis as causas que os tornam mais felizes do que vós? ─ Eu ainda não as aprecio, como aquele que não sabe o que é um bom prato e não o aprecia. Talvez chegue a isso. Adeus. Vou à procura de um jantarzinho muito delicado e muito suculento.
BALTAZAR

OBSERVAÇÃO: Este Espírito é um verdadeiro fenômeno. Ele faz parte dessa classe numerosa de seres invisíveis que não se elevaram em nada acima da condição da Humanidade. Só tem de menos o corpo material, mas as suas ideias são exatamente as mesmas. Este não é um mau Espírito. Ele não tem contra si senão a sensualidade, que, ao mesmo tempo, é para ele um suplício e um gozo. Como Espírito, não é, pois, muito infeliz; é até feliz ao seu modo. Mas Deus sabe o que o espera em nova existência! Uma triste volta poderá fazê-lo bem refletir e desenvolver o senso moral, ainda abafado pela preponderância dos sentidos.

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