Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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Os Espíritos maus, egoístas e duros, logo após a morte, são entregues a uma dúvida cruel sobre o seu destino presente e futuro. Olham em torno de si e, a princípio, não veem nenhum assunto sobre o qual possam exercer a sua influência má e o desespero se apodera deles, porque o isolamento e a inação são intoleráveis para os maus Espíritos. Não levantam o olhar para os lugares habitados pelos puros Espíritos. Consideram o que os cerca, e em breve, tocados pelo abatimento dos Espíritos fracos e punidos, lançam-se a eles como a uma presa, armando-se com a lembrança de suas faltas passadas, frequentemente reveladas por seus gestos irrisórios. Não lhes bastando esta zombaria, caem sobre a Terra como abutres esfaimados e procuram entre os homens a alma que dará mais fácil acesso às suas tentações. Dela se apoderam, exaltam-lhe a cobiça, procuram extinguir a fé em Deus e quando, enfim, donos de sua consciência, veem a presa dominada, estendem sobre tudo o que se aproxima de sua vítima o contágio fatal.

O Espírito mau que dá vazão à sua raiva é quase feliz. Ele sofre apenas nos momentos em que não age ou quando o bem triunfa sobre o mal. Entretanto, escoam-se os séculos, e o mau Espírito sente-se de súbito invadido pelas trevas. Aperta-se o seu círculo de ação, e sua consciência, até então muda, lhe faz sentir as pontas aceradas do arrependimento. Inativo, arrastado no turbilhão, vaga, sentindo, como diz a Escritura, o pelo de sua carne se eriçar de pavor. Em breve, um grande vazio se faz nele e ao seu redor. Chegado o momento, deve expiar. Lá está, ameaçadora, a reencarnação. Ele vê, como numa miragem, as provas terríveis que o esperam. Quereria recuar, mas avança e, precipitado no abismo escancarado da vida, rola apavorado até que o véu do desconhecimento lhe cai sobre os olhos. Ele vive; ele age; ele é ainda culpado. Sente em si não sei que lembrança inquieta, que pressentimentos que o fazem tremer, mas não o fazem recuar no caminho do mal. Esgotado de forças e de crimes, ele vai morrer. Estendido sobre o catre ou sobre o leito, que importa! o homem culpado, sob sua aparente imobilidade, sente mover-se e viver um mundo de sensações esquecidas! Sob as pálpebras fechadas ele vê surgir um clarão; ouve sons estranhos; sua alma, que vai deixar o corpo, agita-se impaciente, enquanto as mãos crispadas procuram agarrar-se aos lençóis. Ele quer falar, quer gritar aos que o cercam: Segurem-me! Vejo o castigo! Mas não pode. A morte se fixa sobre os lábios descorados, e os assistentes dizem: Ei-lo em paz!

Entretanto, ele ouve tudo; flutua ao redor do corpo que não quer abandonar; uma força secreta o atrai; ele vê e reconhece o que já viu. Transtornado, lança-se no espaço, onde quer esconder-se. Não há mais retiro! Não há mais repouso! Outros Espíritos lhe devolvem o mal que ele fez e, castigado, ridicularizado, confuso por sua vez, ele erra e errará até que o divino clarão deslize sobre seu endurecimento e o esclareça, para lhe mostrar o Deus vingador, o Deus triunfante de todo o mal, que ele só poderá apaziguar à força de gemidos e de expiações.

GEORGES

OBSERVAÇÃO: Nunca foi esboçado um quadro mais eloquente, mais terrível e mais verdadeiro da sorte do mau. É então necessário recorrer à fantasmagoria das chamas e das torturas físicas?

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