Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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O Journal de la Haute-Saône citou, ultimamente, o seguinte fato:

“Viram-se reis destronados sepultar-se nas ruínas de seus palácios; veem-se jogadores infelizes renunciar à vida após a perda da fortuna; mas um proprietário que se suicida para não sobreviver à expropriação de um bosque, é o que talvez nunca se viu, antes do caso que relatamos. Um proprietário de Saint-Loup recebeu comunicado de que um de seus bosques seria expropriado a 14 de maio, pela Companhia de Estradas de Ferro do Leste. A informação o afetou profundamente.

Não podia suportar a ideia de separar-se de seu bosque, e deu sinais de alienação mental. A 2 de maio saiu de casa, às três da manhã, e afogou-se no ribeirão de Combeauté.”

Com efeito, é difícil suicidar-se por uma causa tão fútil. Um ato tão desarrazoado só se explica por um desarranjo no cérebro. Mas, o que foi que produziu o desarranjo? Com certeza, não foi a crença nos Espíritos. O fato da desapropriação do campo? Nesse caso, por que todos os que sofrem desapropriações não ficam loucos? Dirão que é porque nem todos têm o cérebro tão fraco. Então, admitis uma predisposição natural para a loucura. Não poderia ser de outra forma, desde que a mesma causa nem sempre produz o mesmo efeito, já o dissemos muitas vezes, em resposta aos que acusam o Espiritismo de provocar a loucura. Que digam se, antes de tratar-se de Espíritos, não havia loucos, e se há loucos apenas entre os que creem nos Espíritos? Uma causa física ou uma violenta comoção moral só produzirão uma loucura instantânea. Fora disso, se examinarmos os antecedentes, sempre serão encontrados sintomas que uma causa fortuita pode desenvolver. Então a loucura toma o caráter da preocupação principal. O louco fala do que o preocupa, mas a causa não é essa preocupação; é, de alguma maneira, uma forma de manifestação. Assim, havendo uma predisposição para a loucura, aquele que se ocupa de religião terá uma loucura religiosa; o amor produzirá a loucura amorosa; a ambição, a loucura das honras e das riquezas, etc. No caso acima referido, seria absurdo ver outra coisa além de um simples efeito que qualquer outra causa teria provocado, pois existia a predisposição. Agora, vamos mais longe: dizemos bem alto que se esse proprietário, tão impressionável em relação ao seu bosque, estivesse imbuído profundamente dos princípios do Espiritismo, não teria enlouquecido nem se afogado. Duas desgraças teriam sido evitadas, como nos mostram numerosos exemplos. A razão disso é evidente. A loucura tem como causa primeira uma relativa fraqueza moral, que torna o indivíduo incapaz de suportar o choque de certas impressões, em cujo número figuram, ao menos em três quartas partes, a mágoa, o desespero, o desapontamento e todas as tribulações da vida. Dar ao homem a força necessária para ver essas coisas com indiferença, é atenuar a causa mais frequente que o leva à loucura e ao suicídio. Ora, essa força ele tira da Doutrina Espírita bem compreendida. Ante a grandeza do futuro que ela desenrola aos nossos olhos, e de que dá prova patente, as tribulações da vida se tornam tão efêmeras, que deslizam sobre a alma como água sobre o mármore, sem deixar traços. O verdadeiro espírita não se liga à matéria senão na medida das necessidades da vida. Mas, se lhe falta alguma coisa, resigna-se, porque sabe estar aqui de passagem e que uma sorte muito melhor o aguarda. Assim, isso não o aborrece mais do que se encontrasse acidentalmente uma pedra em seu caminho. Se o nosso homem estivesse imbuído dessas ideias, em que se teria tornado o bosque aos seus olhos? A contrariedade sofrida seria insignificante ou nula, e uma desgraça imaginária não o teria arrastado a uma desgraça real. Em resumo, um dos efeitos, e nós podemos dizer um dos benefícios do Espiritismo, é o de dar à alma a força que lhe falta em muitas circunstâncias, e é nisto que ele pode reduzir as causas de loucura e de suicídio. Como se vê, os mais simples fatos podem ser uma fonte de ensinamentos para quem quer refletir. É mostrando as aplicações do Espiritismo nos mais vulgares casos que se fará compreender toda a sua sublimidade. Não está nisso a verdadeira filosofia?

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