Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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A Academia assim define este vocábulo: “Diz-se dos Espíritos que se supõe voltarem do outro mundo.” Ela não diz: que voltam. Só os espíritas são bastante loucos para ousarem afirmar tais coisas. Seja como for, pode-se dizer que a crença nos fantasmas é universal. Evidentemente se funda na intuição da existência dos Espíritos e na possibilidade de comunicação com eles. Sob este ponto de vista, todo Espírito que manifesta sua presença, seja pela escrita de um médium, seja apenas batendo numa mesa, seria um fantasma. Mas geralmente esse nome quase sepulcral é reservado para os que se tornam visíveis e que se supõe, como diz com razão a

Academia, vir em circunstâncias mais dramáticas. São histórias de comadres? O fato em si, não; os acessórios, sim. Sabe-se que os Espíritos podem manifestar-se à vista, e até mesmo sob uma forma tangível, eis o que é real. Mas o que é fantástico são os acessórios, onde o medo, que tudo exagera, ordinariamente acompanha esse fenômeno em si tão simples que se explica por uma lei muito natural e que, consequentemente, nada tem de maravilhoso nem de diabólico. Por que, então, temem-se os fantasmas? Precisamente por causa desses mesmos acessórios que a imaginação se compraz em tornar apavorantes, porque ela se apavorou e talvez tivesse acreditado ver o que não viu. Em geral eles são representados sob um aspecto lúgubre, vindo de preferência à noite, de preferência nas noites mais escuras, em horas fatais, em lugares sinistros, amortalhados ou vestidos de modo esquisito.

Ao contrário, o Espiritismo ensina que os Espíritos podem mostrar-se em qualquer lugar, a qualquer hora, de dia como de noite; que em geral o fazem sob a aparência que tinham em vida; que só a imaginação criou os fantasmas; que os que aparecem, longe de serem temíveis, as mais das vezes são parentes ou amigos que vêm a nós por afeição, ou Espíritos infelizes aos quais podemos ajudar. Também são, por vezes, brincalhões do mundo espírita, que se divertem às nossas custas e se riem do medo que causam. Compreende-se que com estes o melhor meio é rir também, e provar-lhes que não temos medo. Aliás, eles se limitam quase sempre a fazer barulho e raramente se tornam visíveis. Infeliz de quem os leve a sério, porque redobram as brincadeiras. Seria o mesmo que exorcizar um moleque de Paris.

Mesmo supondo seja um mau Espírito, que mal poderia ele fazer? Não seria cem vezes mais racional temer um valentão vivo do que temer um valentão morto que se tornou Espírito? Aliás, sabemos que estamos constantemente rodeados por Espíritos, que só diferem dos que chamamos fantasmas porque não os vemos.

Os adversários do Espiritismo não deixarão de acusá-lo por aceitar uma crença supersticiosa. Mas o fato das manifestações visíveis, constatado, explicado pela teoria e confirmado por inúmeras testemunhas, não se pode impedir, e nem mesmo todas as negações poderão impedir que se reproduza, porque há poucas pessoas que consultando as suas lembranças não se recordam de algum caso dessa natureza e que não podem pôr em dúvida. Então o melhor é ser esclarecido sobre o que há de verdadeiro ou de falso, de possível ou impossível nas histórias desse gênero. É explicando-se uma coisa, raciocinando sobre ela, que nos premunimos contra o medo pueril. Conhecemos muita gente que temia muito os fantasmas. Hoje que, graças ao Espiritismo, sabem o que é isto, seu maior desejo é ver um. Conhecemos outras que tiveram visões que as tinham apavorado; agora que as compreendem, não mais se abalam. Conhecem-se os perigos do mal do medo para os cérebros fracos.

Ora, um dos resultados do conhecimento do Espiritismo esclarecido é precisamente curar esse mal, o que não é um dos seus menores benefícios.

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