Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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Três anos de existência foram suficientes para dar a conhecer aos leitores desta Revista o pensamento que preside à sua redação. A melhor prova de que tal pensamento tem o seu assentimento está no constante aumento de assinaturas, ainda notavelmente acrescidas neste último período. Mas o que para nós é infinitamente mais precioso são os testemunhos de simpatia e satisfação que diariamente recebemos. Seu sufrágio é para nós um encorajamento a continuarmos nossa tarefa, trazendo ao nosso trabalho todos os melhoramentos cuja utilidade a experiência nos mostrar. Como no passado, continuaremos o estudo raciocinado dos princípios da ciência do ponto de vista moral e filosófico, sem desprezar os fatos; mas, quando citamos os fatos, não nos limitamos a uma simples narração, talvez divertida, mas certamente estéril, se a eles não juntarmos a pesquisa das causas e a dedução das consequências. Por isso nos dirigimos à gente séria, que não se contenta em ver, mas que, antes de tudo, quer compreender e se dar conta do que vê. Aliás, a série dos fatos logo se esgota, se não quisermos cair nas repetições fastidiosas, pois todos giram mais ou menos no mesmo círculo e nada de novo ensinaríamos aos leitores quando lhes disséssemos que em tal ou qual casa fizeram as mesas girarem mais ou menos bem. Para nós, os fatos têm outro caráter: não são histórias, mas assuntos de estudo, e os de aparência mais simples podem por vezes dar lugar às mais interessantes observações. Aqui as coisas acontecem como na ciência comum, em que um pedacinho de erva encerra, para o observador, tantos mistérios quanto uma árvore gigante. Eis por que, nos fatos, consideramos muito mais o lado instrutivo do que o divertido e nos prendemos aos que nos podem ensinar alguma coisa, independentemente de sua maior ou menor estranheza.

Malgrado o número considerável de assuntos de que já temos tratado, estamos longe de haver esgotado a série de todos quantos se ligam ao Espiritismo, porque quanto mais se avança nesta ciência, mais se alarga o horizonte. Aqueles que temos por examinar fornecerão material por muito tempo ainda, sem contar os novos. Há muito que os adiamos de propósito, a fim de abordá-los à medida que o estado dos conhecimentos permita compreender melhor o seu alcance. Assim, por exemplo, hoje damos maior espaço às dissertações espíritas espontâneas, porque as instruções que encerram, na maioria, podem ser muito melhor apreciadas do que numa época em que apenas se conheciam os primeiros elementos da ciência. Outrora, teriam sido julgadas apenas do ponto de vista literário, e uma porção de pensamentos úteis e profundos teriam passado despercebidos, porque tratavam de pontos ainda desconhecidos ou mal compreendidos. A diversidade de assuntos não exclui o método, e a desordem é apenas aparente, pois cada coisa tem seu lugar determinado. A variedade acalma o espírito, mas a ordem lógica facilita o entendimento. O que nos esforçamos por evitar é fazer de nossa Revista uma coletânea indigesta. Por certo não temos a pretensão de fazer uma obra perfeita, mas esperamos que pelo menos seja levada em conta a nossa intenção.

NOTA: Aos senhores sócios que não queiram receber a Revista com atraso no ano de 1861, pedimos que renovem sua assinatura antes de 1.º de janeiro próximo.

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