Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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Estando em Worcester, há algumas semanas, encontrei casualmente, em casa de um banqueiro daquela cidade, uma senhora que lá conheci, e de sua própria boca ouvi uma história tão surpreendente que necessitei de mais de uma testemunha para lhe dar crédito. Quando interroguei o banqueiro sobre aquela senhora, disse-me ele que a conhecia há mais de trinta anos. “Ela é tão verídica, acrescentou, e sua correção é tão conhecida por todos, que não tenho a menor dúvida quanto à realidade do que contou. É uma senhora de reputação sem mancha, de costumes irrepreensíveis, detentora de um espírito forte e inteligente, e de uma instrução variada.” Ele acha impossível, portanto, que ela procurasse enganar os outros ou que ela própria se enganasse. Tinha-lhe ouvido várias vezes contar aquela história, e sempre de maneira clara e precisa, de modo que se achava muito embaraçado. Repugnava-lhe admitir semelhantes fatos, mas, por outro lado, não ousava duvidar de sua boa-fé.

Minhas próprias observações tendiam a confirmar tudo o que me haviam dito acerca daquela dama. Havia no seu ar, nas suas maneiras, mesmo no som de sua voz, um não-sei-quê incapaz de enganar e que leva em si a convicção da verdade.

Assim, era-me impossível julgá-la insincera, tanto mais quanto parecia falar dessas coisas com evidente repugnância. O banqueiro me havia dito ser muito difícil levá-la a falar do assunto, porque, em geral, achava os ouvintes mais dispostos a rir do que a acreditar. Adicione-se que nem ela nem o banqueiro conheciam o Espiritismo ou dele tinham ouvido falar.

Eis o relato da senhora:

“Por volta de 1820, tendo deixado nossa casa de Suffolk, fomos morar na cidade de..., porto de mar, na França. Nossa família era composta de meu pai, minha mãe, uma irmã, um irmão de uns doze anos, eu e um criado inglês. Nossa casa era muito retirada, um pouco fora da cidade, bem no meio da praia. Não havia outras casas ou construções na vizinhança.

“Uma noite, meu pai viu, a poucas jardas da porta, um homem envolto num grande manto, sentado num fragmento de rochedo. Meu pai aproximou-se para lhe dar boa noite, mas não tendo resposta, voltou. Antes de entrar, contudo, teve a ideia de se voltar e, para seu grande espanto, não viu mais ninguém. Ficou ainda mais surpreendido quando, ao aproximar-se novamente e bem examinar em redor do rochedo, não encontrou o menor traço do indivíduo que estava sentado um instante antes, e nenhum abrigo havia onde ele pudesse ter-se escondido. Quando meu pai entrou na sala, ele nos disse: ‘Meus filhos, acabo de ver uma aparição’.

“Como é fácil compreender, rimos às gargalhadas.

“Contudo, naquela noite e em várias noites seguintes, ouvimos ruídos estranhos em diversos pontos da casa: ora eram gemidos vindos de baixo de nossas janelas, ora parecia que arranhavam as próprias janelas e, em outros momentos, dir-se-ia que várias pessoas trepavam no telhado. Diversas vezes abrimos as janelas, perguntando em voz alta: ‘Quem está ai?’ Mas não obtivemos resposta.

“Alguns dias depois, ao anoitecer, os ruídos se fizeram ouvir no quarto onde dormíamos eu e minha irmã. Ela estava com 20 anos e eu com 18. Acordamos toda a casa, mas ninguém queria escutar-nos. Censuraram-nos e chamaram-nos de loucas. Ordinariamente os ruídos consistiam em pancadas: às vezes eram 20 ou 30 por minuto; outras vezes, uma por minuto.

“Por fim, tanto os ruídos internos quanto os externos foram ouvidos por nossos pais, que se viram forçados a admitir que não se tratava de imaginação. Então, recordaram-se da aparição. Mas, em suma, não estávamos tão apavoradas, e acabamos por habituar-nos a todo esse barulho.

“Uma noite, quando batiam, como de hábito, veio-me a ideia de perguntar: ‘Se és um Espírito, bate seis pancadas.’ Imediatamente ouvi os seis golpes, um por um. Com o tempo, os ruídos se tornaram tão familiares que não só não tínhamos medo como deixaram de ser desagradáveis.

“Agora vou contar a parte mais curiosa da história, e hesitaria em vo-lo fazer, se todos os membros de nossa família não a tivessem testemunhado. Meu irmão, então menino, mas agora um homem muito distinto na sua profissão, poderá, se necessário, vo-la confirmar em todos os detalhes.

“Além das batidas em nosso dormitório, começamos a ouvir, principalmente na sala de visitas, como que uma voz humana. A primeira vez que a ouvimos, minha irmã estava ao piano; cantávamos uma romanza e eis que o Espírito se pôs a cantar conosco. Podem imaginar a nossa admiração. Não havia como duvidar da realidade, porque, pouco depois, a voz começou a falar-nos de maneira clara e inteligível, metendo-se, de vez em quando, em nossa conversa. A voz era baixa, os tons lentos, solenes e muito distintos. O Espírito sempre nos falava em francês. Disse chamar-se Gaspard, mas quando queríamos interrogá-lo sobre sua história pessoal, não respondia; também jamais quis explicar por que motivo tinha sido levado a pôr-se em contato conosco. Geralmente pensávamos que fosse espanhol. Contudo, não me lembro de onde nos veio tal ideia. Chamava cada membro da família pelo nome de batismo; às vezes, recitava versos e constantemente procurava inculcar-nos sentimentos de moral cristã, sem, contudo, jamais tocar em questões de dogmas.

Parecia desejoso de nos fazer compreender o que há de grandeza na virtude, o que há de belo na harmonia reinante entre os membros de uma família. Uma vez em que minha irmã e eu tivemos uma ligeira discussão, ouvimos a voz dizer: ‘M... está errada; S... tem razão.’ Desde que se tornou conhecido, ocupou-se constantemente em nos dar bons conselhos. Uma vez, meu pai estava muito inquieto a propósito de certos documentos que julgava ter perdido e queria encontrar. Gaspard lhe disse onde estavam, em nossa velha casa de Suffolk. Procuraram e os encontraram no exato lugar indicado.

“As coisas continuaram a passar-se assim por mais de três anos. Todas as pessoas da família, inclusive os empregados, tinham ouvido sua voz. A presença do Espírito, pois dela não duvidávamos, era sempre uma grande felicidade para todos nós; era considerado, ao mesmo tempo, como companheiro e protetor. Um dia nos disse: ‘Durante alguns meses não estarei convosco’. Com efeito, suas visitas cessaram durante vários meses. Uma noite, ouvimos aquela voz, tão nossa conhecida dizer: ‘Eis-me ainda entre vós.’ Seria difícil descrever a nossa alegria.

“Até aqui tínhamos sempre ouvido, mas nunca visto. Uma noite meu irmão disse: ‘Gaspard, eu gostaria muito de ver-te.’ E a voz respondeu: ‘Eu vos satisfarei.

Ver-me-eis, se quiserdes ir até o outro lado da praça.’ Meu irmão nos deixou, mas logo voltou, dizendo: ‘Eu vi Gaspard; tinha um grande manto e um chapéu de abas largas; olhei por baixo do chapéu e ele sorriu.’ ─ ‘Sim, disse a voz, entrando na conversa, era eu.’

“A maneira por que nos deixou, de repente, foi-nos muito terna. Voltamos a Suffolk e ali, como na França, durante várias semanas após a nossa chegada, Gaspard continuou a conversar conosco.

“Uma noite nos disse: ‘Vou deixar-vos para sempre; acontecer-vos-ia uma desgraça se eu ficasse junto de vós nesta terra, onde nossas comunicações seriam mal compreendidas e mal interpretadas.’

“Desde então, ─ acrescentou a senhora, com um tom de tristeza, como quando se fala de um ser amado que a morte levou, ─ não mais ouvimos a voz de Gaspard”.

Eis os fatos, como nos foram contados. Tudo isto me faz refletir e, talvez, aos vossos leitores. Não pretendo dar qualquer explicação, qualquer opinião. Direi apenas que tenho inteira confiança na boa-fé da pessoa de quem os ouvi, e subscrevo o meu nome, como garantia da exatidão de meu relato.

S. C. HALL

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