Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1860

Allan Kardec

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Acontece com o vocábulo maravilhoso o mesmo que com o vocábulo alma; há em ambos um sentido elástico, que se presta a interpretações diversas. Eis por que julgamos útil estabelecer alguns princípios gerais no artigo precedente, antes de abordar o exame da história dada pelo Sr. Figuier. Quando essa obra apareceu, os adversários do Espiritismo bateram palmas, dizendo que sem dúvida iríamos ter pela frente uma forte resistência. Em seu caridoso pensamento já nos viam mortos ser retorno. Tristes efeitos da cegueira apaixonada e irrefletida, porque se eles se dessem ao trabalho de observar o que querem demolir, veriam que o Espiritismo será um dia, e mais cedo do que pensam, a salvaguarda da Sociedade, e talvez eles próprios lhe devam a salvação, não dizemos no outro mundo, com o qual pouco se preocupam, mas neste mesmo! Não é levianamente que dizemos estas palavras.

Ainda não chegou o momento de desenvolvê-las. Muitos, porém, já nos compreendem.

Voltando ao Sr. Figuier, nós mesmos tínhamos pensado encontrar nele um adversário realmente sério, com argumentos peremptórios que valessem a pena de uma refutação séria. Sua obra compreende quatro volumes. Os dois primeiros contêm uma exposição de princípios num prefácio e numa introdução, depois uma relação de fatos perfeitamente conhecidos, mas que, não obstante, ler-se-á com interesse, dadas as pesquisas eruditas a que deram lugar da parte do autor.

Acreditamos ser o relato mais completo já publicado sobre o assunto. Assim, o primeiro volume é quase que inteiramente consagrado à história de Urbain Grandier e das religiosas de Loudun. Vêm a seguir as convulsionárias de Saint-Médard, a história dos profetas protestantes, a varinha mágica, o magnetismo animal. O quarto volume, agora publicado, trata especialmente das mesas girantes e dos Espíritos batedores. Mais tarde voltaremos a este último volume, limitando-nos, por hora, a uma apreciação sumária do conjunto.

A parte crítica das histórias que constituem os dois primeiros volumes consiste em provar, por testemunhos autênticos, que a intriga, as paixões humanas e o charlatanismo tiveram grande papel no assunto, e que certos fatos têm um evidente cunho de prestidigitação, mas é isto o que ninguém contesta. Ninguém jamais garantiu a integridade de todos esses fatos, menos que quaisquer outros os espíritas, os quais devem ser gratos ao Sr. Figuier por ter coletado provas que evitarão numerosas compilações. Eles têm interesse em que a fraude seja desmascarada, e todos os que as descobrirem nos fatos falsamente qualificados de fenômenos espíritas lhes prestarão serviço. Ora, para prestar semelhante serviço, ninguém melhor que os inimigos. Vê-se, pois, que estes servem para alguma coisa. Acontece apenas que o desejo da crítica às vezes arrasta para muito longe e, no ardor de descobrir o mal, muitas vezes o veem onde não está, por não terem examinado com bastante atenção e imparcialidade, o que é ainda mais raro. O verdadeiro crítico deve afastar-se das ideias preconcebidas, despojar-se de qualquer preconceito, pois do contrário julgará de seu ponto de vista, que talvez nem sempre seja justo. Tomemos um exemplo: suponhamos a história política de acontecimentos contemporâneos escrita com a maior imparcialidade, isto é, com inteira verdade, e suponhamos essa história comentada por dois críticos de opiniões contrárias. Considerando-se que todos os fatos são exatos, melindrarão forçosamente a opinião de um deles. Daí, dois julgamentos contraditórios: um que levará a obra às nuvens; o outro, que a julga boa apenas para ser jogada no fogo. Contudo, a obra não contém nada mais que a verdade. Se assim é com os fatos patentes, como os da História, com mais forte razão será quando se tratar da apreciação de doutrinas filosóficas. Ora, o Espiritismo é uma doutrina filosófica, e os que apenas o veem nas mesas girantes, ou que o julgam pelas histórias absurdas e pelos abusos que dele fazem e que o confundem com os meios de adivinhação, provam que não o conhecem. Está o Sr. Figuier nas condições exigidas para julgá-lo com imparcialidade? É o que deve ser examinado.

Assim começa o Sr. Figuier o seu prefácio:

“Em 1854, quando as mesas girantes e falantes, importadas da América, apareceram na França, aqui produziram uma impressão que ninguém esqueceu. Muitos espíritos sábios e prudentes ficaram alarmados com esse desbordamento imprevisto da paixão pelo maravilhoso. Não podiam compreender um tal desatino em pleno século dezenove, com uma filosofia adiantada e em meio a esse magnífico movimento científico que hoje dirige tudo para o positivo e para o útil.”

Seu julgamento foi pronunciado: a crença nas mesas girantes é um desvario.

Como o Sr. Figuier é um homem positivo, deve pensar-se que antes de publicar seu livro, viu tudo, estudou tudo, aprofundou tudo; numa palavra, que fala com conhecimento de causa. Se assim não fosse, cairia no erro dos Srs. Schiff e Jobert (de Lamballe) com a sua teoria do músculo que range. (Ver a Revista de junho de 1859). Contudo, sabemos que há um mês apenas ele assistiu a uma sessão, onde provou ignorar os mais elementares princípios do Espiritismo. Dir-se-á suficientemente esclarecido porque assistiu a uma sessão? Certo que não pomos em dúvida a sua perspicácia; mas, por maior que esta seja, não podemos admitir possa ele conhecer e sobretudo compreender o Espiritismo numa sessão, assim como não aprendeu a Física numa única aula. Se o Sr. Figuier pudesse fazê-lo, tomaríamos o fato como um dos mais maravilhosos. Quando ele tiver estudado o Espiritismo com o mesmo cuidado que se tem no estudo de uma ciência; quando lhe tiver consagrado um tempo moral necessário; quando tiver assistido a milhares de experiências; quando se tiver dado conta de todos os fatos, sem exceção; quando tiver comparado todas as teorias, só então poderá fazer uma crítica judiciosa. Até lá o seu julgamento é uma opinião pessoal, sem nenhum peso pró ou contra.

Tomemos a coisa sob outro ponto de vista. Dissemos que o Espiritismo repousa inteiramente na existência, em nós, de um princípio imaterial ou, por outras palavras, na existência da alma. Quem não admite um Espírito em si não pode admiti-lo fora de si. Consequentemente, não admitindo a causa, não pode admitir o efeito. Gostaríamos de saber se o Sr. Figuier colocaria no princípio de seu livro a seguinte profissão de fé:

1. ─ Creio num Deus, autor de todas as coisas, todo-poderoso, soberanamente justo e bom e infinito em suas perfeições;

2. ─ Creio na providência de Deus;

3. ─ Creio na existência da alma, que sobrevive ao corpo, e em sua individualidade após a morte. Creio nisto, não como uma probabilidade, mas como uma coisa necessária e consequente dos atributos da Divindade;

4. ─ Admitindo a alma e a sobrevivência, creio que nem seria conforme a justiça, nem segundo a bondade de Deus, que o bem e o mal fossem tratados em pé de igualdade após a morte, de vez que, durante a vida, muito raramente recebem o prêmio ou o castigo que merecem;

5. ─ Se a alma do mau e a do bom não são tratadas do mesmo modo, umas são felizes, outras infelizes, isto é, são punidas ou recompensadas segundo as suas obras.

Se o Sr. Figuier fizesse tal profissão de fé, nós lhe diríamos: Esta confissão é a de todos os espíritas, porque sem isto o Espiritismo não teria razão de ser, apenas com a diferença de que aquilo em que credes teoricamente, o Espiritismo o demonstra pelos fatos, porque todos os fatos espíritas são consequência destes princípios. Os Espíritos que povoam o espaço, não sendo mais do que as almas dos que viveram na Terra ou em outros mundos, a partir do momento em que e se admita a alma, sua sobrevivência e sua individualidade, por isso mesmo se admitem os Espíritos. Reconhecida a base, toda a questão é de saber se esses Espíritos ou essas almas podem comunicar-se com os vivos; se têm ação sobre a matéria; se influem no mundo físico e no mundo moral; ou então se são votados a uma perpétua inutilidade, ou a não se ocuparem senão de si mesmos, o que é pouco provável, desde que se admita a providência de Deus e se considere a admirável harmonia que reina no Universo, onde os menores seres desempenham o seu papel.

Se a resposta do Sr. Figuier fosse negativa ou apenas polidamente dubitativa, a fim de, para nos servirmos da expressão de certas pessoas, não chocar muito bruscamente respeitáveis preconceitos, nós lhe diríamos: Não sois juiz mais competente em matéria de Espiritismo do que um muçulmano em matéria de religião católica; vosso julgamento não poderia ser imparcial e em vão buscaríeis evitar ideias preconcebidas, desde que tais ideias estão na vossa opinião mesma, no que toca o princípio fundamental que repelis a priori e antes de conhecer o assunto.

Se um dia um corpo de cientistas nomeasse um relator para examinar a questão do Espiritismo e esse relator não fosse francamente espiritualista, seria o mesmo que um concílio escolher Voltaire para tratar de uma questão de dogma. Diga-se de passagem que a gente se admira de que as corporações científicas não tenham dado sua opinião, mas a gente esquece que a sua missão é o estudo das leis da matéria e não dos atributos da alma e, menos ainda, o de decidir se a alma existe. Sobre tais assuntos podem eles ter opiniões individuais, como as podem ter sobre a religião; mas, como corporação científica, jamais terão que se pronunciar.

Não sabemos o que o Sr. Figuier responderia às perguntas formuladas na profissão de fé acima, mas o seu livro permite pressenti-lo. Com efeito, o segundo parágrafo está assim vazado:

“Um conhecimento exato da História do passado teria prevenido ou pelo menos diminuído muito tal espanto. Com efeito, grande erro seria imaginar-se que as ideias que em nossos dias geraram a crença nas mesas falantes e nos Espíritos batedores, são de origem moderna. Esse amor do maravilhoso não é particular à nossa época: está em todos os tempos e países, porque ligado à própria natureza do espírito humano. Por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças, o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, que se exercem numa esfera inacessível. Esta disposição congênita existiu em todos os períodos da História da Humanidade e, conforme o tempo, os lugares e os costumes, revestindo aspectos diferentes, deu origem a manifestações variáveis na forma, porém tendo, no fundo, um princípio idêntico.”

Dizer que é por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças que o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, que se exercem numa esfera inacessível, é reconhecer que o homem é tudo, pode tudo, e que acima dele nada há. Se não nos enganamos, isso não é apenas materialismo, mas ateísmo.

Aliás, essas ideias ressaltam de uma porção de outras passagens de seu prefácio e da introdução, para as quais chamamos toda a atenção de nossos leitores e estamos persuadidos de que estes as julgarão como nós. Dir-se-á que tais palavras não se aplicam à Divindade, mas aos Espíritos? Responderemos que, então, ele ignora a primeira palavra do Espiritismo, pois que negar os Espíritos é negar a alma.

Espíritos e almas são uma única e mesma coisa, e os Espíritos não exercem sua força numa esfera inacessível, pois estão ao nosso lado, tocam-nos, agem sobre a matéria inerte à maneira de todos os fluidos imponderáveis e invisíveis que, não obstante, são os mais poderosos motores e os mais ativos agentes da Natureza. Só Deus exerce o seu poder numa esfera inacessível aos homens. Negar esse poder é, pois, negar Deus. Dirá ele, enfim, que esses efeitos que nós atribuímos aos Espíritos, certamente são devidos a alguns desses fluidos? Seria possível. Mas então lhe perguntaremos como fluidos ininteligentes podem produzir efeitos inteligentes?

O Sr. Figuier constata um fato capital ao dizer que esse amor do maravilhoso está em todos os tempos e países, porque ligado à própria natureza do espírito humano. Aquilo a que chama amor do maravilhoso é, muito simplesmente, a crença instintiva, inata, como o diz, na existência da alma e na sua sobrevivência ao corpo, crença que revestiu formas diversas, conforme o tempo e os lugares, mas tendo no fundo um princípio idêntico. Esse sentimento inato, universal no homem, Deus lho teria inspirado para dele zombar? Para lhe dar aspirações impossíveis de realizar?

Crer que assim possa ser é negar a bondade de Deus. É mais, é negar o próprio Deus.

Querem outras provas do que adiantamos? Eis ainda algumas passagens do seu prefácio:

“Na Idade Média, quando uma religião nova transformou a Europa, o maravilhoso se instala nessa mesma religião. Acredita-se nas possessões diabólicas, nos feiticeiros e nos magos. Durante vários séculos tal crença é sancionada por uma guerra sem quartel e sem misericórdia, feita aos infelizes acusados de comércio secreto com os demônios, ou com os magos, seus prepostos.

“Pelo fim do século dezessete, na aurora de uma filosofia tolerante eesclarecida, o diabo envelheceu e a acusação de magia começa a ser um argumento gasto, mas nem por isto o maravilhoso perde os seus direitos. Os milagres floresceram à vontade nas igrejas das diversas comunhões cristãs; ao mesmo tempo, acredita-se na varinha mágica e se reporta aos movimentos de uma forquilha a fim de localizar objetos do mundo físico e de esclarecer-se sobre as coisas do mundo moral. Em diversas ciências continua-se a admitir a intervenção de influências sobrenaturais, precedentemente introduzidas por Paracelso.

“No século dezoito, apesar de estar em voga a filosofia cartesiana a respeito das matérias filosóficas, ao mesmo tempo que todos os olhos se abrem às luzes do bomsenso e da razão, nesse século de Voltaire e da Enciclopédia, só o maravilhoso resiste à queda de tantas crenças até então veneradas e abundam ainda os milagres.”

Se a filosofia de Voltaire, que abriu os olhos à luz do bom-senso e da razão e abalou os alicerces de tantas superstições, não pôde erradicar a idéia inata de um poder oculto, não seria porque tal ideia é inatacável? A filosofia do século dezoito flagelou os abusos, mas estacou ante a base. Se essa ideia triunfou sobre os golpes desferidos pelo apóstolo da incredulidade, o Sr. Figuier espera ser mais feliz?

Permitimo-nos duvidar.

O Sr. Figuier faz uma confusão singular das crenças religiosas, dos milagres e da varinha mágica. Para ele, tudo isto sai da mesma fonte: a superstição, a crença no maravilhoso. Não tentaremos aqui defender essa pequena forquilha que teria a propriedade singular de servir à pesquisa do mundo físico, porque não nos aprofundamos no assunto e porque temos por princípio só louvar ou criticar aquilo que conhecemos. Mas, se quiséssemos argumentar por analogia, perguntaríamos ao Sr. Figuier se a pequena agulha de aço com a qual o navegante acha a sua rota, não tem uma virtude tão maravilhosa quanto à da pequena forquilha. Não, direis vós, porque conhecemos a causa que a move e essa causa é inteiramente física. De acordo. Mas quem diz que a causa que age sobre a forquilha não é inteiramente física? Antes que se conhecesse a teoria da bússola, que teríeis pensado, se tivésseis vivido naquela época, quando os marinheiros só tinham como guia as estrelas, que por vezes lhes faltavam; que teríeis pensado, dizemos nós, de um homem que tivesse vindo dizer: Tenho aqui numa caixinha do tamanho de uma caixa de bombons e uma agulha pequenina, com a qual os maiores navios podem guiar-se com segurança; que indica a rota com qualquer tempo, com a precisão de um relógio? Ainda uma vez, não defendemos a varinha mágica, e menos ainda o charlatanismo que dela se apoderou. Apenas perguntamos o que haveria de mais sobrenatural se um pedaço de madeira, em dadas circunstâncias, fosse agitado por um eflúvio terrestre invisível, como a agulha imantada o é pela corrente magnética que também não se vê? Será que essa agulha também não serve para a procura das coisas do mundo físico? Não será ela influenciada pela presença de uma mina de ferro subterrânea? O maravilhoso é a ideia fixa do Sr. Figuier; é o seu pesadelo; ele o vê por toda parte onde haja algo que não compreende. Mas poderá ele, só ele, sábio, dizer como germina e se reproduz o menor grão? Qual é a força que faz a flor voltar-se para aluz? Quem, em baixo da terra, atrai as raízes para um terreno propício, mesmo através dos mais duros obstáculos? Estranha aberração do espírito humano, que pensa tudo saber e nada sabe; que calca aos pés maravilhas sem número, e nega um poder sobre-humano!

Sendo baseada na existência de Deus, esse poder sobre-humano que é exercido numa esfera inacessível; sobre a existência da alma que sobrevive ao corpo conservando a sua individualidade e consequentemente a sua ação, a religião tem por princípio aquilo que o Sr. Figuier chama de maravilhoso. Se ele se tivesse limitado a dizer que entre os fatos qualificados de maravilhosos há uns ridículos e absurdos, ao que a razão faz justiça, nós o aplaudiríamos com todas as forças, mas não poderíamos concordar com a sua opinião quando confunde na mesma reprovação o princípio e o abuso do princípio; quando nega a existência de qualquer poder acima da Humanidade. Aliás, essa conclusão é formulada de maneira inequívoca na passagem seguinte:

“Dessas discussões, cremos que resultará para o leitor a perfeita convicção da não-existência de agentes sobrenaturais e a certeza de que todos os prodígios que, em muitas épocas, provocaram a surpresa ou a admiração do homem, se explicam apenas pelo conhecimento de nossa organização fisiológica. A negação do maravilhoso, eis a conclusão a tirar deste livro, que poderia chamar-se o maravilhoso explicado. Se atingirmos o objetivo a que nos propusemos, teremos a convicção de ter prestado um verdadeiro serviço para o bem de todos.”

Dar a conhecer os abusos e desmascarar a fraude e a hipocrisia por toda parte onde se encontrem é, sem contradita, prestar um serviço muito grande. Mas cremos que é fazer um serviço muito prejudicial à Sociedade, assim como aos indivíduos, atacar o princípio pelo fato de terem dele abusado. É querer cortar uma boa árvore porque deu um fruto bichado.

O Espiritismo bem compreendido, dando a conhecer a causa de certos fenômenos, mostra o que é possível e o que não é. Por isto mesmo, tende a destruir as ideias realmente supersticiosas; mas, ao mesmo tempo, demonstrando o princípio, dá um objetivo ao bem; fortifica as crenças fundamentais que a incredulidade tenta fender sob o pretexto do abuso; combate a chaga do materialismo, que é a negação do dever, da moral e de toda esperança, e é por isto que dizemos que um dia ele será a salvaguarda da Sociedade.

Aliás, estamos longe de nos lamentarmos pela obra do Sr. Figuier. Sobre os adeptos ela não poderá ter nenhuma influência, pois que eles reconhecerão imediatamente todos os pontos vulneráveis. Sobre os outros, terá o efeito de todas as críticas: o de provocar a curiosidade. Depois da aparição, ou melhor, da reaparição do Espiritismo, muito se escreveu contra ele. Não lhe pouparam sarcasmos nem injúrias. Apenas de uma coisa ele não teve a honra, a da fogueira, graças aos costumes do tempo. Isto o impediu de progredir? De modo algum, pois hoje conta seus adeptos aos milhões em todas as partes do mundo e estes aumentam diariamente. Para isto, e sem o querer, muito contribuiu a crítica, porque, como dissemos, seu efeito é o de provocar o exame. As pessoas querem ver os prós e os contras e ficam admirados por encontrarem uma doutrina racional, lógica,consoladora, que acalma as angústias da dúvida, resolvendo o que nenhuma filosofia pode resolver, quando pensavam apenas encontrar uma crença ridícula. Quanto mais conhecido o nome do contraditor, mais repercussão tem a sua crítica e mais bem pode ela fazer, chamando a atenção dos indiferentes. A esse respeito, a obra do Sr. Figuier está nas melhores condições. Além do mais, foi escrita de maneira muito séria, e não se arrasta na lama das injúrias grosseiras e do personalismo, únicos argumentos dos críticos de baixo nível. Considerando-se que ele pretende tratar o assunto do ponto de vista científico, e sua posição lho permite, ver-se-á nisso a última palavra da Ciência contra esta doutrina e então o público saberá a que se ater.

Se a sábia obra do Sr. Figuier não tiver o poder de lhe dar o golpe de misericórdia, duvidamos que outras sejam mais felizes. Para combatê-la com eficácia, ele só tem um meio, que lhe indicamos com prazer. Não se destrói uma árvore cortando-lhe os galhos, mas a raiz. É necessário, pois, atacar o Espiritismo pela raiz e não pelos ramos, que renascem à medida que são cortados. Ora, as raízes do Espiritismo, deste desvario do século dezenove, para nos servirmos de sua expressão, são a alma e os seus atributos. Que prove, portanto, que a alma não existe e não pode existir, porque sem almas não há mais Espíritos. Quando tiver provado isto, o Espiritismo não terá mais razão de ser e nós nos confessaremos vencidos. Se o seu ceticismo não vai a tanto, que prove, não por uma simples negação, mas por uma demonstração matemática, física, química, mecânica, fisiológica ou qualquer outra:

1. ─ Que o ser que pensa durante a vida não mais pensa após a morte;

2. ─ Que, se pensa, não mais deve querer comunicar-se com aqueles a quem amou;

3. ─ Que, se pode estar em toda parte, não pode estar ao nosso lado;

4. ─ Que, se está ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco;

5. ─ Que, por seu envoltório fluídico, não pode agir sobre a matéria inerte;

6. ─ Que, se pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser animado;

7. ─ Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir-lhe a mão para escrever;

8. ─ Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder às suas perguntas e lhe transmitir o seu pensamento.

Quando os adversários do Espiritismo nos tiverem demonstrado ser isto impossível, baseados em razões tão patentes quanto aquelas pelas quais Galileu demonstrou que não é o Sol que gira em torno da Terra, então poderemos dizer que suas dúvidas são fundadas. Infelizmente, até este dia, toda a sua argumentação se reduz a isto: Não creio; logo, é impossível. Sem dúvida dirão que a nós cabe provar a realidade das manifestações; nós lhas provamos pelos fatos e pelo raciocínio. Se não admitem nem uns nem o outro e se negam o que veem, a eles cabe provar que o nosso raciocínio é falso e que os fatos são impossíveis.

Em outro artigo examinaremos a teoria do Sr. Figuier. Fazemos votos que ela seja de melhor teor que a teoria do músculo que range, do Sr. Jobert (de Lamballe).

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