Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1862

Allan Kardec

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Os dois Voltaires

(Sociedade espírita de Paris, Faucherand - Médium: Sr. E. Vézy)


Sou eu mesmo, mas não mais aquele Espírito trocista e cáustico de outrora; o reizinho do século dezoito, que dominava pelo pensamento e pelo gênio tantos grandes soberanos, hoje já não tem nos lábios aquele sorriso mordaz que fazia tremer inimigos e até amigos! Meu cinismo desapareceu diante da revelação das grandes coisas que eu queria alcançar e que só conheci além-túmulo!


Pobres cérebros demasiado estreitos para conter tantas maravilhas! Humanos, calai-vos e humilhai-vos diante do poder supremo; admirai e contemplai: eis o que podeis fazer. Como quereis aprofundar Deus e sua grande obra? Apesar de todos os seus recursos, vossa razão não se quebra diante do átomo e do grão de areia que não consegue definir?

Empreguei minha vida a procurar e a conhecer Deus e seu princípio, minha razão se enfraqueceu nisso, e eu chegara, não a negar Deus, mas sua glória, seu poder e sua grandeza. Eu o concebia como desenvolvendo-se no tempo. Uma intuição celeste me dizia que rejeitasse esse erro, mas eu não a escutava e me fiz apóstolo de uma doutrina mentirosa… Sabeis por quê? Porque, no tumulto e no estrondo de meus pensamentos que se entrechocavam incessantemente, eu só via uma coisa: meu nome gravado no frontão do templo da memória das nações! Eu só via a glória que me prometia essa juventude universal que me cercava e parecia saborear, com suavidade e deleite, a essência da doutrina que eu lhe ensinava.

Entretanto, impelido por não sei que remorso de minha consciência, quis parar, mas era tarde; como toda utopia, todo sistema que se abraça nos arrasta; A princípio, seguimos a torrente, depois ela nos arrasta e nos quebra, tão violenta e rápida é, por vezes, a sua queda.

Crede-me, vós que aqui estais à procura da verdade, encontrá-la-eis quando tiverdes desprendido de vosso coração o amor às lantejoulas que um tolo amor-próprio e um tolo orgulho fazem brilhar aos vossos olhos.

Na nova via por onde marchais, não temais combater o erro e derrotá-lo quando ele se erguer diante de vós. Não é uma monstruosidade preconizar uma mentira contra a qual não ousamos nos defender, porque formamos discípulos que se adiantaram a nós em nossas próprias crenças?

Vedes, meus amigos, que o Voltaire de hoje não é mais aquele do século dezoito; eu sou mais cristão, porque aqui venho fazer-vos esquecer a minha glória e vos lembrar o que eu fui na juventude e o que eu amava em minha infância.

Oh! Como eu gostava de me perder no mundo do pensamento! Minha imaginação ardente e viva percorria os vales da Ásia seguindo os passos daquele que chamais Redentor… Eu gostava de percorrer os caminhos que ele tinha percorrido; e como me parecia grande e sublime esse Cristo em meio à multidão! Eu julgava ouvir sua voz poderosa, instruindo os povos da Galileia, das margens do lago de Tiberíades e da Judeia!…

Mais tarde, nas minhas noites de insônia, quantas vezes me ergui para abrir uma velha Bíblia e reler suas páginas santas! Então minha fronte se inclinava diante da cruz, esse sinal eterno da redenção que une a Terra ao Céu, a criatura ao Criador!… Quantas vezes admirei esse poder de Deus, subdividindo-se, por assim dizer, e do qual uma centelha se encarna para fazer-se tão pequena, vindo entregar a alma no Calvário para a expiação!… Vítima augusta cuja divindade eu negava, e que, entretanto, me fez dizer a seu respeito:

Teu Deus que tu trais, teu Deus que tu blasfemas,

Por ti, pelo universo, morreu nesses mesmos lugares!

Sofro, mas expio a resistência que opunha a Deus. Eu tinha a missão de instruir e esclarecer. A princípio o fiz, mas o meu facho se extinguiu nas minhas mãos na hora marcada para a luz!…

Felizes filhos dos séculos dezenove e vinte, a vós é que é dado ver luzir o facho da verdade; fazei que vossos olhos vejam bem a sua luz, porque para vós ela terá raios celestes e sua claridade será divina!

VOLTAIRE

Filhos, deixei que em meu lugar falasse um dos vossos grandes filósofos, principal chefe do erro; quis que ele viesse dizer-vos onde está a luz; que vos parece? Todos virão repetir-vos: ‘Não há sabedoria sem amor nem caridade’; e, dizei-me, que doutrina seria mais suave para ensinar esse princípio do que o Espiritismo? Nunca seria demasiado repetir-vos: o amor e a caridade são as duas virtudes supremas que unem, como diz Voltaire, a criatura ao Criador. Oh! Que mistério e que laço sublime! Pequeno verme, verme da terra que pode tornar-se tão poderoso, que sua glória tocará o trono do Eterno!…

SANTO AGOSTINHO

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