Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1866

Allan Kardec

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O Espiritismo acaba de perder uma de suas mais fervorosas adeptas na pessoa da Sra. Dozon, viúva do Sr. Henri Dozon, autor de várias obras sobre o Espiritismo, falecido a l.º de agosto de 1865. Ela faleceu em Passy, a 23 de novembro de 1866.

A Sra. Dozon, atingida por uma moléstia orgânica incurável, estava há muito tempo num estado de enfraquecimento e de sofrimento extremos, e a cada dia via a morte se aproximar; encarava-a com a serenidade de uma alma pura que tem a consciência de só haver feito o bem, e profundamente convencida de que não era senão a passagem de uma vida de provações a uma vida melhor, no limiar da qual ela ia encontrar, para recebê-la, seu caro marido e aqueles a quem ela havia amado. Suas previsões não foram frustradas; a vida espiritual, na qual ela que estava iniciada, realizou todas as suas esperanças e ainda mais. Ela aí recolhe os frutos de sua fé, de seu devotamento, de sua caridade para com os que lhe fizeram mal, de sua resignação no sofrimento e da coragem com que sustentou suas crenças contra os que consideravam-na um crime. Se nela o corpo estava enfraquecido, o Espírito tinha conservado toda a sua força, toda a sua lucidez até o último momento. Ela morreu com plena lucidez, como alguém que parte em viagem, não levando consigo nenhum traço de fel contra aqueles dos quais tinha de que se lamentar. Seu desprendimento foi rápido e a perturbação de curta duração. Assim, pôde manifestar-se antes da inumação. Sua morte e seu despertar foram os de uma espírita de coração, que se esforçou para pôr em prática os preceitos da doutrina.

Sua única apreensão era de ser enterrada viva, e esse pensamento a perseguiu até o fim. Ela dizia: “Parece que me vejo na fossa e que sufoco debaixo da terra, que escuto cair sobre mim.” Depois de sua morte ela explicou esse medo, dizendo que na sua precedente existência tinha sido morta assim e que a terrível impressão que seu Espírito tinha sentido havia despertado no momento de morrer de novo.

Nenhuma prece espírita foi feita ostensivamente em seu túmulo, para não chocar certas suscetibilidades, mas a Sociedade Espírita de Paris, da qual ela havia feito parte, reuniu-se no lugar de suas sessões, após a cerimônia fúnebre, para renovar-lhe o testemunho de suas simpatias.

O Espiritismo viu partir um outro de seus representantes na pessoa do Sr. Fournier-Duplan, antigo negociante, falecido em Rochefort-sur-Mer, a 22 de outubro de 1866. O Sr. Fournier-Duplan era há muito tempo um adepto sincero e devotado, compreendendo o verdadeiro objetivo da doutrina, cujos ensinos se esforçava para pôr em prática. Era um homem de bem, amado e estimado por todos os que o conheciam, um daqueles que o Espiritismo se honra de contar em suas fileiras. Os infelizes nele perdem um sustentáculo. Ele tinha bebido nas suas crenças o remédio contra a dúvida sobre o futuro, a coragem nas provas da vida e a calma de seus últimos instantes. Como a Sra. Dozon e tantos outros, partiu cheio de confiança em Deus, sem apreensão do desconhecido, porque sabia para onde ia, e sua consciência lhe dava a esperança de aí ser acolhido com simpatia pelos bons Espíritos. Sua esperança também não foi enganada, e as comunicações que deu provam que lá ocupa o lugar reservado aos homens de bem.

Uma morte que nos surpreendeu tanto quanto nos afligiu foi a do Sr. d’Ambel, antigo diretor do jornal Avenir, ocorrida a 17 de novembro de 1866. Suas exéquias se realizaram na Igreja de Notre-Dame de Lorette, sua paróquia. A malevolência dos jornais que dele falaram revelou-se, nesta circunstância, de maneira lamentável, por sua afetação em ressaltar, exagerar, envenenar, como se tivessem prazer em revolver o ferro na ferida, tudo quanto esta morte poderia ter de penoso, sem consideração pelas suscetibilidades de família, esquecendo até o respeito que se deve aos mortos, sejam quais forem suas opiniões e suas crenças em vida. Esses mesmos jornais teriam gritado escândalo e profanação contra quem quer que dessa maneira tivesse falado de um dos seus. Mas nós vimos, pela citação que fizemos acima, a propósito da morte do Sr. Pagès, que o túmulo não é respeitado pelos adversários do Espiritismo.

Os homens imparciais, contudo, prestarão aos espíritas a justiça de reconhecer que jamais estes se afastaram do respeito, das conveniências e das leis da caridade, na morte dos que tinham sido seus maiores inimigos e que os tinham atacado sem o mínimo de consideração. Contentam-se em orar por eles.

Vimos com prazer o jornal le Pays, de 25 de novembro, embora num artigo pouco simpático à doutrina, responder com energia essa falta de consideração de alguns confrades, e censurar, como ela merece, a mistura de publicidade nas coisas íntimas da família. O Siècle de 19 de novembro também tinha noticiado o acontecimento com todas as conveniências desejáveis. Acrescentaremos que o morto não deixa filhos e que sua viúva retirou-se para a sua família.

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