Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1866

Allan Kardec

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É um fato constatado que a partir de quando a crítica passou a visar o Espiritismo, ela demonstrou a mais completa ignorância de seus princípios, mesmo dos mais elementares. Ela o provou superabundantemente, fazendo-o dizer precisamente o contrário do que ele diz, atribuindo-lhe ideias diametralmente opostas às que ele professa. Para ela, sendo o Espiritismo uma fantasia, disse de si para si: “Ele deve dizer e pensar tal coisa.” Numa palavra, ela julgou pelo que imaginou que ele pudesse ser, e não pelo que ele realmente é. Sem dúvida, fácil lhe era esclarecer-se. No entanto, para isso era preciso ler, estudar, aprofundar uma doutrina puramente filosófica, analisar o pensamento, sondar o alcance das palavras. Ora, eis aí um trabalho sério que não agrada a todo mundo e que é até fatigante para alguns. A maior parte dos escritores, encontrando nos escritos de alguns de seus confrades um julgamento acabado, de acordo com suas ideias cépticas, aceitaram o fundo sem mais exame, limitando-se a nelas realçar algumas variantes formais. Foi assim que as mais falsas ideias se propagaram como ecos na imprensa, e consequentemente numa parte do público.

Isto, entretanto, não poderia durar muito tempo. A Doutrina Espírita, que nada tem de oculto, que é clara, precisa, sem alegorias nem ambiguidades, sem fórmulas abstratas, devia acabar sendo melhor conhecida. A própria violência com a qual ela era atacada devia provocar o seu exame. Foi isso que aconteceu, e é isso que provoca a reação que hoje se observa. Não quer isto dizer que todos os que a estudam, mesmo seriamente, devam tornar-se seus apóstolos. Certamente não, mas é impossível que um estudo atento, feito sem ideia preconcebida, não atenue pelo menos a prevenção que haviam concebido, se não a dissipa completamente. Era evidente que a hostilidade de que era objeto o Espiritismo deveria provocar esse resultado. É por isso que jamais tivemos preocupações a respeito.

Porque o Espiritismo faz menos alarido neste momento, algumas pessoas imaginam que há uma estagnação em sua marcha progressiva. Mas então não vale nada a reviravolta que se opera na opinião? Será uma conquista insignificante ser visto com maus olhos? Desde o princípio o Espiritismo atraiu para si todos aqueles em quem essas ideias estavam, por assim dizer, no estado de intuição. Bastou mostrar-se para ser aceito com entusiasmo. É o que explica seu rápido crescimento numérico. Hoje, que colheu o que estava maduro, ele age sobre a massa refratária. O trabalho é mais demorado e os meios de ação são diferentes e apropriados à natureza das dificuldades, mas, pelas flutuações da opinião, sente-se que essa massa se abala sob os camartelos dos Espíritos que a ferem incessantemente de mil maneiras. Por ser menos aparente, o progresso não é menos real. É como o de uma construção que sobe com rapidez e que parece parar quando se trabalha no interior.

Quanto aos espíritas, o primeiro momento foi de entusiasmo. Mas um estado de superexcitação não pode ser permanente; ao movimento expansivo exterior, sucedeu um estado mais calmo; a fé também é viva, embora mais fria, mais racional, e por isto mesmo mais sólida. A efervescência deu lugar a uma satisfação íntima mais suave, dia a dia melhor apreciada, pela serenidade que proporciona a inabalável confiança no futuro.

Hoje, pois, o Espiritismo começa a ser julgado de outro ponto de vista. Não o acham mais tão estranho e tão ridículo, porque o conhecem melhor. Os espíritas não mais são apontados a dedo, como animais curiosos. Se muitas pessoas ainda repelem o fato das manifestações que não podem conciliar com a ideia que fazem do mundo invisível, não mais contestam o alcance filosófico da doutrina. Seja a sua moral velha ou nova, nem por isso deixa de ser uma doutrina moral, que não pode senão estimular à prática do bem aqueles que a professam. É o que reconhece quem a julgue com conhecimento de causa. Agora, tudo quanto censuram nos espíritas é que eles acreditem na comunicação dos Espíritos, mas lhes desculpam essa pequena fraqueza em favor do resto. Nesse caso, os Espíritos encarregar-se-ão de mostrar se eles existem.

O artigo do Sr. Bertram, de Bruxelas, acima citado, parece-nos a expressão do sentimento que tende a se propagar no mundo dos trocistas ali mencionados, e desenvolver-se-á à medida que o Espiritismo for mais conhecido.

O artigo seguinte trata do mesmo assunto, mas revela uma convicção mais completa. É extraído do Soleil de 5 de maio.

“Ao mesmo tempo que aparecia Os Apóstolos, do Sr. Ernest Renan, o Sr. J. B. Roustaing, adepto esclarecido do Espiritismo, publicava na Livraria Central uma obra considerável intitulada Os Quatro Evangelhos, seguida dos mandamentos explicados em espírito e verdade pelos evangelistas assistidos pelos apóstolos.

“A massa parisiense quase não conhece, em matéria de Espiritismo, senão as mixórdias de alguns escamoteadores que em vão tentaram abusar da credulidade de um público incrédulo. Esses charlatães foram vaiados, o que é muito bem-feito; mas os espíritas, cheios de ardor e de fé, não deixaram de continuar as experiências e sua rápida propaganda.

“Em Paris, as mais sérias coisas são tratadas da mesma forma que as coisas fúteis. É aqui que, na maioria dos casos, se pergunta se se trata de um deus, de uma mesa, ou de uma bacia. As experiências sumárias tentadas entre duas taças de chá por algumas mulheres adúlteras e alguns jovens pretensiosos bastaram à curiosidade dos parisienses. Se a mesa dava sinais de que ia mover-se, riam muito; se, ao contrário, a mesa ficava firme, riam ainda mais, e era assim que a questão era aprofundada. A coisa era diferente entre a população mais refletida do interior. O menor resultado animava os prosélitos, excitavalhes o ardor. O Espírito de seus parentes respondia à sua expectativa, e cada um deles, conversando com a alma de seu pai e seu irmão defuntos, ficava convencido de haver levantado o véu da morte que, daí por diante, não podia causar-lhe terror.

“Se jamais houve uma doutrina consoladora, certamente é esta: a individualidade conservada além do túmulo, a promessa formal de uma outra vida que é realmente a continuação da primeira. A família subsiste, a afeição não morre com a pessoa; não há separação. Cada noite, no sul e no oeste da França, as reuniões espíritas atentas tornam-se mais numerosas. Eles oram, evocam, creem. Pessoas que não sabem escrever, escrevem; sua mão é guiada pelo Espírito.

“O Espiritismo não é um perigo social. Assim, deixam-no espalhar-se sem lhe opor barreiras. Se o Espiritismo fosse perseguido, ele teria os seus mártires, como o Babismo na Pérsia.

“Ao lado das respostas mediúnicas mais sérias, encontram-se indicações e conselhos que provocam o sorriso. O autor de Os Quatro Evangelhos, Sr. Roustaing, advogado na corte imperial de Bordeaux, seu antigo presidente, não é um ingênuo ─ como não é um diletante ─ e, no seu prefácio, encontra-se a seguinte comunicação:

“É chegado o momento em que te deves pôr em condições de entregar esta obra à publicidade. Não te fixamos limites; emprega com sabedoria e ponderação as tuas horas, a fim de poupar tuas forças... A publicação pode ser começada a partir do mês de agosto próximo; a partir de agora, trabalha o mais prontamente possível, mas sem ultrapassar as forças humanas, de tal maneira que a publicação esteja terminada no mês de agosto de 1866.”

“Assinado: MOISÉS, MATEUS, MARCOS, LUCAS e JOÃO,

“Assistidos pelos Apóstolos.”

“O leitor fica surpreso por não ver Moisés, Mateus, Lucas e João levarem seu conselho ao extremo e acrescentarem: ‘Mandarás imprimir a obra na casa Lavertujon, Rue des Treilles, 7, em Bordeaux, e colocarás à venda na Livraria Central, Boulevard des Italiens, 24, em Paris.’

“Também nos detemos um instante na passagem que diz para o autor não ultrapassar as forças humanas. Então o autor as teria ultrapassado, sem essa paternal recomendação dos senhores Moisés, Mateus, Marcos, Lucas e João?

“Sem falar inicialmente no Espiritismo, o Sr. Renan faz numerosas alusões a essa nova doutrina, cuja importância parece não desconhecer. O autor dos Apóstolos lembra, à pág. 8, uma passagem capital de São Paulo que estabelece: 1.º ─ a realidade das aparições; 2.º ─ a longa duração das aparições. Só uma vez, no curso de sua obra, o Sr. Renan mete o bedelho no Espiritismo. Na pág. 22, na segunda nota, ele diz:

“Para conceber a possibilidade de semelhantes ilusões, basta lembrar as cenas de nossos dias, em que pessoas reunidas reconhecem unanimemente ouvir ruídos inexistentes, e isto com perfeita boa-fé. A espera, o esforço de imaginação, a disposição para acreditar, por vezes complacências inocentes, explicam aqueles, dentre esses fenômenos, que não são produto direto da fraude. Essas complacências, em geral, vêm de pessoas convictas, animadas de um sentimento de benevolência, que não querem que a sessão acabe mal e desejam tirar do embaraço os donos da casa. Quando se crê no milagre, sempre se ajuda sem dar-se conta disso. A dúvida e a negação são impossíveis nessa espécie de reuniões. Seria penoso para os que creem e para os que convidaram. Eis por que tais experiências, que ante pequeno grupo dão resultado, falham geralmente ante um público pagante e sempre falham ante as comissões científicas.”

“Aqui, como alhures, ao livro do Sr. Renan faltam boas razões. De estilo suave e encantador, substituindo a lógica pela poesia, Apóstolos deveria intitular-se Os Últimos Abencerages. As referências a documentos inúteis, as falsas provas de que a obra está sobrecarregada lhe dão todas as aparências da puerilidade com que foi concebida. Não há com que se enganar.

“O Sr. Renan conta que Maria de Magdala, chorando ao pé do túmulo, teve uma visão, uma simples visão. ─ Quem lhe disse isto? ─ Ela acreditou ouvir uma voz. ─ Como ele sabe que ela realmente não a ouviu? Todas as afirmações contidas na obra têm mais ou menos a mesma força.

“Se os espíritas não têm a oferecer senão sua boa-fé como explicação, o Sr. Renan não tem nem mesmo esse recurso.

“Aqui só podemos comentar o livro do Sr. Roustaing; não temos o direito de discuti-lo, nem o de ver para onde ele nos conduz. Aliás, não seria o lugar para entrar em considerações que o leitor não busca em nossas colunas. A obra é séria, o estilo é claro e firme. O autor não caiu no desvio ordinário dos comentadores, que muitas vezes são mais obscuros que o próprio texto que querem elucidar.

“O Espiritismo, que tinha o seu catecismo, terá de agora em diante seus códigos anotados e seu curso de jurisprudência. Só lhe faltará a prova do martírio.”

AURÉLIEN SCHOLL

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