Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1866

Allan Kardec

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(Sono dos Espíritos) Pelo Dr. Cailleux
(Sociedade espírita de Paris, 11 de maio de 1866 - Médium: Sr. Morin)

Vosso bom acolhimento e as boas preces que fizestes em minha intenção obrigam-me a vos agradecer vivamente e vos assegurar o meu eterno devotamento. Desde a minha entrada na verdadeira vida, bem depressa familiarizei-me com todas as novidades, nas muito suaves exigências de minha situação atual. Hoje me chamam de todos os lados, não mais, como outrora, para dar meus cuidados aos corpos doentes, mas para levar alívio às doenças da alma. A tarefa é suave para desempenhar, e com mais rapidez do que outrora eu chegava à cabeceira dos doentes, hoje atendo ao chamado das almas sofredoras. Posso mesmo ─ e isto nada tem de admirável para mim ─ transportar-me quase que instantaneamente de um a outro ponto, com a mesma facilidade com que o meu pensamento passa de um a outro assunto. Apenas o que me admira é que eu possa fazê-lo, eu mesmo!...

Meus bons amigos, tenho que vos falar de um fato espiritual que me acontece, e que venho submeter ao vosso julgamento, para que me ajudeis a reconhecer o meu erro, se eu estiver enganado em minhas apreciações a respeito. Sabeis que como médico, em minha última encarnação, eu tinha-me dedicado com ardor aos estudos de minha profissão. Tudo quanto se referia à Medicina era para mim assunto de observação. Devo dizer, sem orgulho, que tinha adquirido alguns conhecimentos, talvez porque nem sempre seguisse ao pé da letra a rota traçada pela rotina. Muitas vezes buscava no moral o que pudesse trazer perturbação ao físico; talvez seja por isto que eu conhecia minha profissão um pouco melhor do que certos colegas. Enfim, eis o caso: Há alguns dias senti uma espécie de torpor apoderar-se de meu Espírito, e embora conservando a consciência de mim mesmo, senti-me transportado no espaço; quando cheguei a um lugar que para vós não tem nome encontrei-me numa reunião de Espíritos que em vida tinham adquirido alguma celebridade pelas descobertas que haviam feito.

Lá fiquei muito surpreso ao reconhecer nesses anciãos de todas as idades, nesses nomes de todas as épocas, uma semelhança perispiritual comigo. Perguntei-me o que tudo aquilo significava; dirigi-lhes as perguntas que me sugeria a minha posição, mas minha admiração foi ainda maior, ouvindo-me responder a mim mesmo. Voltei-me, então, para eles, e encontrei-me só. Eis minhas deduções...

DR. CAILLEUX


NOTA: Tendo parado aí, o Espírito continuou na sessão seguinte.

A questão dos fluidos, que constitui o fundo dos vossos estudos, representou um papel muito grande no fato que eu vos relatava na última sessão. Hoje posso explicar-vos melhor o que aconteceu e, em vez de vos dizer quais eram as minhas conjecturas, posso dizer-vos o que me revelaram os bons amigos que me guiam no mundo dos Espíritos.

Quando meu Espírito sofreu uma espécie de entorpecimento, eu estava, por assim dizer, magnetizado pelo fluido de meus amigos espirituais; por uma permissão de Deus, daí devia resultar uma satisfação moral que, dizem eles, é a minha recompensa e, ademais, um encorajamento para marchar num caminho que meu Espírito percorre há um bom número de existências.

Eu estava, pois, adormecido num sono magnético-espiritual; vi o passado formar-se num presente fictício; reconheci individualidades desaparecidas na esteira do tempo, ou melhor, que tinham sido um mesmo indivíduo. Vi um ser começar uma obra médica; um outro, mais tarde, continuar a obra que o primeiro deixara esboçada, e assim por diante. Cheguei a ver em menos tempo do que levo para vos dizer, de geração em geração, formar-se, crescer e tornar-se ciência, o que, no princípio, não passava dos primeiros ensaios de um cérebro ocupado em estudos para o alívio da Humanidade sofredora. Vi tudo isso, e quando cheguei ao último desses seres que sucessivamente tinham trazido um complemento à obra, então me reconheci. Então tudo se extinguiu e eu voltei a ser o Espírito ainda atrasado do vosso pobre doutor. Ora, eis aqui a explicação. Não vo-la dou para me envaidecer, longe disso, mas principalmente para vos fornecer um assunto de estudo, falando-vos do sono espiritual que, sendo elucidado por vossos guias, só me pode ser útil, pois assisto a todos os vossos trabalhos.

Nesse sono, vi os diferentes corpos que meu Espírito animou em algumas encarnações e todos trabalharam na ciência médica, sem jamais se afastar dos princípios que o primeiro havia elaborado. Esta última encarnação não era para aumentar o conhecimento, mas simplesmente para praticar o que ensinava a minha teoria.

Com tudo isto, fico sempre vosso devedor. Mas, se o permitirdes, virei pedir-vos lições, e eventualmente dar minha opinião pessoal sobre certas questões.

DR. CAILLEUX


Estudo

Há aqui um duplo ensinamento: para começar, há o fato da magnetização de um Espírito por outros Espíritos, e do sono que se lhe segue; e, em segundo lugar, da visão retrospectiva dos diferentes corpos que ele animou.

Há, pois, para os Espíritos, uma espécie de sono, o que é um ponto de contato a mais entre o estado corporal e o estado espiritual. É verdade que aqui se trata de um sono magnético; mas existiria para eles um sono natural semelhante ao nosso? Isto nada teria de surpreendente, quando se veem ainda Espíritos de tal modo identificados com o estado corporal que tomam seu corpo fluídico por um corpo material, que creem trabalhar como o faziam na Terra, e que sofrem fadiga. Se sentem fadiga, devem experimentar a necessidade de repouso, e podem crer deitar-se e dormir, como creem trabalhar e viajar em estrada de ferro. Dizemos que eles o creem, para falar do nosso ponto de vista, porque tudo é relativo, e em relação à sua natureza fluídica, a coisa é tão real quanto as coisas materiais o são para nós.

Não são senão Espíritos de ordem inferior que têm semelhantes ilusões; quanto menos avançados, mais o seu estado se aproxima do estado corporal. Ora, este não pode ser o caso do Dr. Cailleux, Espírito adiantado que tem perfeita noção de sua situação. Mas não é menos verdade que ele teve consciência de um entorpecimento análogo ao sono, durante o qual viu suas diversas individualidades.

Um membro da Sociedade explica esse fenômeno da seguinte maneira: No sono humano, só o corpo repousa, mas o Espírito não dorme. Deve dar-se o mesmo no estado espiritual; o sono magnético, ou outro, só deve afetar o corpo espiritual ou perispírito, e o espírito deve achar-se num estado relativamente análogo ao do Espírito encarnado durante o sono do corpo, isto é, conservar a consciência de seu ser. As diferentes encarnações do Sr. Cailleux, que os seus guias espirituais queriam fazê-lo ver, para sua instrução, puderam apresentar-se a ele como lembrança, da mesma maneira que as imagens se oferecem nos sonhos.

Essa explicação é perfeitamente lógica. Ela foi confirmada pelos Espíritos que, provocando o relato do Dr. Cailleux, quiseram dar-nos a conhecer uma nova fase da vida de além-túmulo.

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