Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1866

Allan Kardec

Voltar ao Menu
Vários jornais falaram de uma jovem dotada da singular faculdade de atrair a si os móveis e outros objetos que estejam a uma certa distância e de erguer, pelo simples contato, uma cadeira na qual esteja sentada uma pessoa. O Petit Journal de 4 de novembro trazia, sobre o caso, o artigo seguinte:

“A pega branca de Dinan não é mais surpreendente, como fenômeno, do que a senhorita magnética indicada na correspondência seguinte.

“Senhor,

“Venho assinalar-vos um fato que poderia apresentar muito interesse aos vossos leitores. Se quiserdes ter o trabalho de verificá-lo, nele encontrareis amplo material para numerosos artigos.

“Uma jovem, a senhorita Dumesnil, de treze anos, possui um fluido de uma força atrativa extraordinária, que faz virem a ela todos os objetos de madeira que a cercam. Assim, as cadeiras, as mesas e tudo quanto é de madeira se dirige instantaneamente para ela. Esta faculdade se revelou nela há cerca de três semanas. Até o presente este fenômeno extraordinário e ainda não explicado só se manifestou às pessoas do círculo da moça, os vizinhos, etc., que constataram o fato há poucos dias. A faculdade surpreendente da senhorita espalhou-se, e disseram-me que ela está em vias de tratar com um empresário que se propõe exibir publicamente o fenômeno.

“Ontem ela foi à casa de um grande personagem a quem a indicaram; a publicidade não tardará em apoderar-se de tal acontecimento, e eu me apresso em vos prevenir, para que tenhais a primazia.

“Esta jovem dedica-se ao trabalho de polidora e mora com seus pais, que são gente pobre.

“Na esperança de que nos explicareis este mistério inexplicável, peço-vos recebais minhas saudações muito sinceras.”

BRUNET

Empregado na Casa Christofle, Rua de Bondy, 56.

“Não sei mais do que vós, meu caro correspondente, em assunto de ciência magnética, e olho como simples curiosidade vossa encantadora do carvalho, da faia e do acaju, a quem aconselho, neste inverno, não queimar na lareira... senão carvão...”

Eis um fenômeno certamente estranho, muito digno de atenção, e que deve ter uma causa. Se for constatado que não se trata de nenhum subterfúgio, o que é fácil constatar, e se as leis conhecidas são impotentes para explicá-lo, é evidente que ele revela a existência de uma nova força. Ora, a descoberta de um princípio novo pode ser fecunda em resultados. O que é pelo menos tão surpreendente quanto este fenômeno é ver homens inteligentes não terem por semelhantes fatos senão uma desdenhosa indiferença e piadas de mau gosto. Entretanto, não se trata nem de Espíritos nem de Espiritismo. Que convicção esperar de pessoas que não têm nenhuma, que não a buscam e não a desejam? Que estudo sério é possível esperar disto? Esforçar-se por convencê-los não é perder tempo, usar inutilmente forças que poderiam ser melhor empregadas com os homens de boa vontade, que não faltam? Temos dito sempre: Com as pessoas que têm ideias preconcebidas, que não querem ver nem ouvir, o que há de melhor a fazer é deixá-las tranquilas e lhes provar que não precisamos delas. Se alguma coisa deve triunfar de sua incredulidade, os Espíritos saberão bem encontrá-la e empregá-la quando chegar o momento.

Para voltar ao caso da moça, seus pais, que estão numa posição precária, vendo a sensação que ela produzia e o concurso de pessoas notáveis que ela atraía, sem dúvida imaginaram que para eles havia uma fonte de fortuna. Não nos cabe criticá-los, porque, ignorando até mesmo o nome do Espiritismo e dos médiuns, eles não podiam compreender as consequências de uma exploração desse gênero. Sua filha era para eles um fenômeno; resolveram, pois, instalá-la nos bulevares, entre os outros fenômenos. Fizeram melhor; instalaram-na no Grand-Hotel, lugar mais conveniente para a aristocracia produtiva. Mas, ah! Os sonhos dourados logo se desvaneceram. Os fenômenos não se produziam mais senão em raros momentos e de maneira tão irregular que foi preciso abandonar quase que imediatamente a esplêndida instalação e voltar ao atelier. Exibir uma faculdade tão caprichosa que falha justamente no momento em que os espectadores que pagaram suas entradas estão reunidos e esperam que lha deem por seu dinheiro! Como fenômeno, mais vale, para especulação, ter um menino com duas cabeças, porque pelo menos ele sempre ali está. Que fazer se eles não têm cordões para substituir os atores invisíveis? A atitude mais honrosa é retirar-se. Contudo, parece, conforme uma carta publicada num jornal, que a menina não perdeu inteiramente o seu poder, mas ele está sujeito a tais intermitências que se torna difícil captar o momento favorável.

Um de nossos amigos, espírita esclarecido e profundo observador, pôde testemunhar o fenômeno e ficou mediocremente satisfeito com o resultado. Disse-nos ele: “Creio na sinceridade dessas pessoas, mas para os incrédulos o efeito não se produz, neste momento, em condições a desafiar suspeitas. Sabendo que a coisa é possível, não nego; constato minhas impressões. Como apanhei supostos médiuns de efeitos físicos em flagrante delito de fraude, dei-me conta das manobras pelas quais certos efeitos podem ser simulados, enganando as pessoas que não conhecem as condições dos efeitos reais, de sorte que não afirmo senão com conhecimento de causa, não confiando em meus olhos. No próprio interesse do Espiritismo, meu primeiro cuidado é examinar se a fraude é possível, com auxílio de habilidade, ou se o efeito pode ser devido a uma causa material vulgar. Ademais, lá é proibido ser espírita, agir pelos Espíritos e até neles acreditar.”

Vale observar que desde a desventura dos irmãos Davenport, todos os exibidores de fenômenos extraordinários rejeitam qualquer participação dos Espíritos em seus negócios, e fazem bem, porque o Espiritismo só tem a ganhar em não ser envolvido nessas exibições. É um serviço a mais, prestado por esses senhores, porque não é por tais meios que o Espiritismo recrutará prosélitos.

Uma outra observação é que toda vez que se trata de alguma manifestação espontânea ou de um fenômeno qualquer atribuído a uma causa oculta, eles geralmente contratam como peritos certas pessoas, às vezes sábios, que não sabem o a-bê-cê do que devem observar e que vêm com uma ideia preconcebida de negação. A quem encarregam de decidir se há ou não intervenção dos Espíritos ou uma causa espiritual? Precisamente aos que negam a espiritualidade, que não creem nos Espíritos e não querem que eles existam. Tem-se certeza prévia de sua resposta. Eles evitam ouvir o conselho de quem quer que seja apenas suspeito de acreditar no Espiritismo, porque, em primeiro lugar, seria dar crédito à coisa, e em segundo lugar, eles temeriam uma solução contrária ao que eles querem. Eles não se dão conta que só um espírita esclarecido é apto a julgar as circunstâncias em que os fenômenos espíritas podem produzir-se, como só um químico é apto a conhecer a composição de um corpo, e que a este respeito, os espíritas são mais cépticos do que muita gente; que longe de acreditar, por complacência, num fenômeno apócrifo, eles têm o maior interesse em o assinalar como tal e desmascarar a fraude.

Contudo, disto ressalta uma instrução: a própria irregularidade dos fatos é uma prova de sinceridade; se eles fossem o resultado de qualquer meio artificial, produzir-se-iam na hora desejada. É a reflexão que leva um jornalista convidado a ir ao Grand-Hotel. Havia naquele dia alguns convidados notáveis e, a despeito de duas horas de espera, a moça não conseguiu o menor efeito. “A pobre menina,” disse o jornalista, “estava desolada, e seu rosto traía a inquietude”. “Tranquilize-se,” disse-lhe ele, “não só este insucesso não me desencoraja, mas me leva a crer que o seu relato é sincero. Se houvesse algum charlatanismo ou truque de sua parte, o seu golpe não teria falhado. Eu voltarei amanhã”. Com efeito, voltou cinco vezes seguidas, sem mais resultados. Na sexta vez ela tinha deixado o hotel. “De onde concluo”, acrescenta o jornalista, “que a pobre senhorita Dumesnil, depois de haver construído belos castelos à custa de suas virtudes eletromagnéticas, teve que retomar seu lugar nos ateliers de polimento do Sr. Ruolz.”

Tendo sido constatados os fatos, é certo que havia nela uma disposição orgânica especial que se prestava a esse gênero de fenômenos; mas, de lado qualquer subterfúgio, é certo que se sua faculdade dependesse só do seu organismo, ela a teria à sua disposição, como se dá com um peixe-elétrico. Considerando-se que sua vontade, seu mais ardente desejo, era impotente para produzir o fenômeno, havia, então, no fato uma causa que lhe era estranha. Qual é esta causa? Evidentemente a que rege todos os fenômenos mediúnicos: o concurso dos Espíritos, sem o qual os médiuns melhor dotados nada obtêm. A senhorita Dumesnil é um exemplo de que eles não estão às ordens de ninguém. Por mais efêmera que tenha sido a sua faculdade, ela fez mais para a convicção de certas pessoas do que se tivesse produzido em dias e horas fixas, ao seu comando, diante do público, como nos golpes de prestidigitação.

É verdade que nada atesta de maneira ostensiva a intervenção dos Espíritos nesta circunstância, porque não há efeitos inteligentes, a não ser a impotência da moça de agir à sua vontade. A faculdade, como em todos os efeitos mediúnicos, é inerente a ela; o exercício da faculdade pode depender de uma vontade estranha. Mas, mesmo admitindo que aí não haja Espíritos, não deixa de ser um fenômeno destinado a chamar a atenção para as forças fluídicas que regem o nosso organismo, e que tanta gente se obstina em negar.

Se essa força fosse aqui puramente elétrica, denotaria, contudo, uma importante modificação na eletricidade, porquanto ela age sobre a madeira, com exclusão dos metais. Só isto valeria muito a pena ser estudado.

TEXTOS RELACIONADOS

Mostrar itens relacionados
Aguarde, carregando...