Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1866

Allan Kardec

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Comunicação espírita

Não é só em nosso país que os jornais, não diremos ainda simpatizam, mas se humanizam com o Espiritismo, ao qual começam a conceder o direito de cidadania. Lê-se no Progrès Colonial, jornal de Port Louis, Ilha Maurícia, de 15 de junho de 1866:

“Todos os dias recebemos duas ou três destas comunicações espíritas, mas se nos abstivemos de reproduzi-las até agora, é porque ainda não estamos em condições de consagrar um lugar a essa coisa extraordinária chamada Espiritismo. Que nossos leitores, que são naturalmente curiosos, tenham um pouco de paciência, pois não esperarão muito. Se publicamos este pequeno escrito assinado Lázaro, é que se trata desse pobre Georges, falecido e enterrado tão desgraçadamente:

“Senhor,

“Li hoje uma correspondência inserta em vosso jornal, assinada ‘Uma testemunha ocular’, relatando como enterraram o cadáver do infortunado G. Lemeure.

“Há muito tempo, senhor, eu sabia perfeitamente que se a miséria não é um vício, é pelo menos uma das maiores calamidades que há no mundo. No entanto, o que eu não queria admitir é que os homens fossem adoradores do bezerro de ouro, a ponto de não mais respeitarem tudo quanto há de mais solene, de maior e de mais sagrado para nós: a morte!...

“Assim, pobre George, dotado de caráter brando, honesto e modesto, condenado a viver na maior pobreza, suportando as provações deste mundo com coragem e até com alegria, sempre pronto a prestar serviços ao próximo, foste morrer assim isolado, longe dos que te amavam e que talvez te lamentem; e ainda é necessário, para humilhar tua sombra, que homens, que irmãos, te cavem um buraco na terra, sozinho, sozinho com o nada, como se tua pobreza te tornasse indigno de partilhar, como os teus semelhantes, um terreno sagrado. Além disto, nem te fizeram a caridade de um caixão, de quatro tábuas! Apesar disto, és muito feliz, pensa esta boa Humanidade, por repousar na terra úmida e fria, esquecido de todos! Aliás, que lhes importa que teu corpo lá apodreça, sem que um amigo venha aí derramar uma lágrima, lançar uma flor e trazer uma lembrança?

“Paro aqui, pois ainda estou indignado por não terem cumprido nem mesmo as formalidades estabelecidas em semelhante ocasião para com os infelizes. Em todos os países civilizados, dão aos parentes ou amigos de uma pessoa morta encontrada pelas autoridades, vinte e quatro horas para virem reconhecê-la e reclamá-la. Se ao fim desse prazo ninguém veio, então a depositam em terreno santo, observando sempre as praxes devidas à morte. Mas aqui abstêm-se de semelhantes formalidades e contentam-se, se não tendes com que pagar as despesas do caixão, em vos atirar num recanto qualquer, como um animal, e vos cobrir com dois ou três punhados de poeira. “Repito, senhor, a miséria é um grande flagelo!

“LÁZARO.”

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