Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1866

Allan Kardec

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Por mais que digam e façam, as ideias espíritas estão no ar; vêm à luz de qualquer maneira, na forma de romances ou de pensamentos filosóficos, e a imprensa as acolhe desde que não seja pronunciado o nome Espiritismo. Não poderíamos citar todos os pensamentos que ela registra diariamente, assim fazendo Espiritismo sem saber. Que importa o nome, se a coisa aí está? Um dia esses senhores ficarão muito admirados de haver feito Espiritismo, como o Sr. Jourdain ficou por ter falado em prosa. Muita gente anda ao lado do Espiritismo sem o suspeitar; estão na fronteira, quando se julgam bem longe. Com exceção dos materialistas puros, que certamente são minoria, podemos dizer que as ideias da filosofia espírita correm o mundo; o que muitos ainda repelem são as manifestações mediúnicas, uns por sistema, outros porque, tendo observado mal, sofreram decepções; mas como as manifestações são fatos, mais cedo ou mais tarde terão que aceitá-las. Eles se negam a ser espíritas unicamente pela ideia falsa que ligam a essa palavra. Que aqueles que aí não chegam pela porta larga, aí cheguem pela lateral, o resultado é o mesmo; hoje o impulso está dado e o movimento não pode ser detido.

Por outro lado, como é anunciado, uma porção de fenômenos se produzem, que parecem afastar-se das leis comuns e atordoam a Ciência, na qual em vão buscam a sua explicação; passá-los em silêncio, quando têm certa notoriedade, seria difícil. Ora, esses fenômenos, que se apresentam sob os mais variados aspectos, à força de se multiplicarem, acabam despertando a atenção e pouco a pouco familiarizam com a ideia de uma força espiritual fora das forças materiais. É sempre um meio de chegar ao objetivo. Os Espíritos batem de todos os lados e de mil maneiras diferentes, de sorte que os golpes sempre alcançam uns ou outros.

Entre os pensamentos espíritas que encontramos em diversos jornais, citaremos os seguintes:

No discurso pronunciado a 11 de novembro último pelo Sr. Eichthal, um dos redatores do Temps, no túmulo do Sr. Charles Duveyrier, assim se exprime o orador:

“Duveyrier morreu numa calma profunda, cheio de confiança em Deus e de fé na eternidade da vida, orgulhoso de seus longos anos consagrados à elaboração e ao desenvolvimento de uma crença que deve resgatar todos os homens da miséria, da desordem e da ignorância, certo de haver pago a sua dívida, de ter dado à geração que o segue mais do que tinha recebido da que o precedeu. Parou como um valente operário, acabada a sua tarefa, deixando a outros o trabalho de continuá-la.

“Se seus despojos mortais não atravessaram os templos consagrados para chegar ao campo de repouso, não foi por um injusto desdém contra as crenças imortais, mas é que nenhuma das fórmulas que tivessem sido pronunciadas sobre seus despojos teriam dado a ideia que ele fazia da vida futura. Duveyrier não desejava, não acreditava ir para o Céu gozar de uma beatitude pessoal sem fim, enquanto a maioria dos homens ficaria condenada a sofrimentos sem esperança. Cheio de Deus e vivendo em Deus, mas ligado à Humanidade, é no seio da Humanidade que ele esperava reviver para concorrer eternamente nessa obra de progresso que a aproxima incessantemente do ideal divino.” ─ (O Temps, 14 de novembro de 1866).

O Sr. Duveyrier tinha feito parte da seita sansimonista. É a crença da qual falamos acima, a cujo desenvolvimento ele tinha consagrado vários anos de sua vida; mas as suas ideias sobre o futuro da alma, como se vê, aproximavam-se muito das que a Doutrina Espírita ensina. Contudo, não se deve inferir das palavras: “É no seio da Humanidade que ele esperava reviver” que ele acreditasse na reencarnação. Sobre este ponto ele não tinha qualquer ideia definida; entendia por isto que a alma, em vez de se perder no infinito, ou ser absorvida numa beatitude inútil, ficava na esfera da Humanidade, a cujo progresso concorria por sua influência. Mas esta ideia é precisamente o que também ensina o Espiritismo; é a do mundo invisível que nos rodeia. As almas vivem em meio a nós como vivemos em meio a elas. O Sr. Duveyrier era, pois, ao contrário da maioria de seus confrades da imprensa, não só profundamente espiritualista, mas três quartas partes espírita. O que lhe faltava para ser completamente espírita? Provavelmente ter sabido o que era o Espiritismo, porque lhe possuía as bases fundamentais: a crença em Deus, na individualidade da alma, na sua sobrevivência e na sua imortalidade, em sua presença no meio dos homens após a morte e em sua ação sobre eles. O que diz a mais o Espiritismo? Que essas mesmas almas revelam sua presença por uma ação direta, e que estamos incessantemente em comunicação com elas. Vem provar pelos fatos o que no Sr. Duveyrier e em muitos outros não estava senão no estado de teoria e de hipótese.

Concebe-se que aqueles que só acreditam na matéria tangível repilam tudo, mas é mais surpreendente ver espiritualistas rejeitando a prova do que constitui o fundo de sua crença. Aquele que assim relatava os pensamentos do Sr. Duveyrier sobre o futuro da alma, o Sr. Eichthal, seu amigo e seu correligionário em sansimonismo, que provavelmente partilhava até certo ponto das suas opiniões, não é menos adversário declarado do Espiritismo do que ele. Ele quase não suspeitava que o que dizia em louvor do Sr. Duveyrier não era nada mais nada menos que uma profissão de fé espírita.

As palavras seguintes, do Sr. Louis Jourdan, do Siècle, a seu filho, foram reproduzidas pelo Petit Journal de 3 de setembro de 1866.

“Eu te sinto vivo, de uma vida superior à minha, meu Prosper, e quando soar a minha última hora, eu me consolarei em deixar os que amamos juntos, pensando que vou encontrar-te e unir-me a ti. Sei que esta consolação não me virá sem esforços; sei que será preciso conquistá-la trabalhando corajosamente por meu próprio melhoramento, como pelo dos outros; farei pelo menos tudo quanto estiver ao meu alcance para merecer a recompensa que ambiciono: reencontrar-te. Tua lembrança é o farol que nos guia e o ponto de apoio que nos sustenta através das trevas que nos envolvem. Percebemos um ponto luminoso na direção do qual avançamos resolutamente; esse ponto é aquele onde vives, meu filho, em companhia de todos aqueles que amei aqui embaixo e que partiram antes de mim para sua vida nova.”

Que de mais profundamente espírita do que estas suaves e tocantes palavras! O Sr. Louis Jourdan está ainda mais perto do Espiritismo que o Sr. Duveyrier, porque há muito tempo crê na pluralidade das existências terrenas, como se pôde ver pela citação que fizemos na Revista de dezembro de 1862. Ele aceita a filosofia espírita, mas não o fato das manifestações, que não repele absolutamente, mas sobre o qual não está suficientemente esclarecido. É, entretanto, um fenômeno bastante sério quanto às suas consequências, porque só ele pode explicar tantas coisas incompreensíveis que se passam aos nossos olhos, para merecer ser aprofundado por um observador como ele; porque se as relações entre o mundo visível e o mundo invisível existem, é toda uma revolução nas ideias, nas crenças, na filosofia; é a luz projetada sobre uma porção de questões obscuras; é o aniquilamento do materialismo; é, enfim, a sanção de suas mais caras esperanças em relação a seu filho. Que elementos os homens que se fazem campeões das ideias progressistas e emancipadoras colheriam na doutrina se soubessem tudo quanto ela encerra para o futuro! Não resta dúvida que surgirão aqueles que compreenderão o poder desta alavanca e saberão dela tirar proveito!

O Événement de 4 de novembro último relatava a seguinte anedota concernente ao célebre compositor Glück. Quando da primeira representação de Ifigênia, a 19 de abril de 1774, a que assistiam Luís XVI e a rainha Maria Antonieta, esta quis, em pessoa, coroar seu antigo professor de música. Depois da representação, chamado ao camarote do rei, Glück ficou de tal modo comovido que não pôde proferir uma palavra e apenas teve forças para agradecer à rainha com o olhar. Vendo Maria Antonieta, que naquela noite usava um colar de rubis, Glück inteiriçou-se:

─ Grande Deus! exclamou ele, salvai a rainha! Salvai a rainha! Sangue! Sangue!

─ Onde? perguntaram de todos os lados.

─ Sangue! Sangue! No pescoço! gritou o músico.

Maria Antonieta estava trêmula.

─ Depressa, um médico, disse ela, meu pobre Glück está enlouquecendo.

O músico tinha caído numa poltrona.

─ Sangue! Sangue, murmurava ele... Salvai a arquiduquesa Maria... Salvai a rainha!

─ O infeliz maestro toma o vosso colar por sangue, disse o rei a Maria Antonieta. Ele tem febre.

A rainha levou a mão ao pescoço, arrancou o colar e tomada de terror atirou-o longe. Levaram Glück desfalecido.

O autor do artigo termina assim:

Eis, caro leitor, a história que me contou na ópera o músico alemão, e que reli no dia seguinte numa biografia do imortal autor de Alceste. É verdadeira? É fantasia? Ignoro-o. Mas não seria possível que homens de gênio, cujo espírito elevado plana acima da Humanidade, tivessem, em certas horas de inspiração, essa faculdade misteriosa que se chama a segunda vista? (Albert Wolff).

O Sr. Albert Wolff arremessou mais de uma flecha no Espiritismo e nos espíritas, e eis que ele próprio admite a possibilidade da segunda vista, e mais do que isto, a previsão pela segunda vista. Provavelmente ele não se dá conta a que consequências conduz o reconhecimento de tal faculdade. Mais um que se acotovela com o Espiritismo sem se aperceber, sem talvez ousar confessá-lo, e que nem por isso deixa de atirar pedras contra ele. Se lhe dissessem que é espírita, ele daria pulos, indignado, exclamando: Eu! Crer nos irmãos Davenport! Porque, para a maioria desses senhores, o Espiritismo está todo inteiro no golpe das cordas. Lembramo-nos que um deles, a quem um correspondente censurava por falar do Espiritismo sem conhecê-lo, respondeu em seu jornal: “Enganai-vos. Eu estudei o Espiritismo na escola dos irmãos Davenport, e a prova é que isto me custou l5 francos.” Cremos haver citado o fato nalguma parte da Revista. Que se lhes pode mais pedir? Eles não sabem mais do que isso.

O Siècle de 27 de agosto de 1866 citava as seguintes palavras da Sra. George Sand, a propósito da morte do Sr. Ferdinand Pajot:

“A morte do Sr. Ferdinand Pajot é um fato dos mais dolorosos e lamentáveis. Esse jovem, dotado de notável beleza e pertencente a excelente família, era, além disso, um homem de coração e de ideias generosas. Pudemos mesmo apreciá-lo, cada vez que invocamos a sua caridade para os pobres do nosso círculo. Dava largamente, mais largamente talvez do que o autorizavam os seus recursos, e dava com espontaneidade, com confiança, com alegria. Ele era sincero, independente, bom como um anjo. Casado há pouco com uma jovem encantadora, será lamentado como o merece. Depois desta cruel morte, devo dar-lhe uma terna e maternal bênção: ilusão, se quiserem, mas creio que entramos melhor na vida que se segue a esta quando aí chegamos escoltados pela estima e a afeição dos que acabamos de deixar.”

A Sra. Sand é ainda mais explícita em seu livro Mademoiselle de la Quintinie. Na página 318 lê-se: “Senhor padre, quando quiserdes que demos um passo para a vossa igreja, começai por nos fazer ver um concílio reunido e decretando que o inferno das penas eternas é uma mentira e uma blasfêmia, e tereis o direito de exclamar: ‘Vinde a nós vós todos que quereis conhecer Deus.’

Na página 320: “Pedir a Deus para extinguir nossos sentidos, para endurecer o nosso coração, para tornarmos odiosos os mais sagrados laços, é pedir-lhe que renegue e destrua a sua obra; é pedir que ele volte sobre seus passos, fazendo-nos voltar nós mesmos, fazendo-nos retrogradar para as existências inferiores, abaixo do animal, abaixo da planta, talvez abaixo do mineral.”

Na página 323: “Entretanto, seja qual for a vossa sorte entre nós, vereis claro um dia além da tumba, e como não creio mais nos castigos sem fim, bem como nas provações sem fruto, anuncio-vos que nos encontraremos em qualquer parte onde nos entenderemos melhor e onde nos amaremos em vez de nos combatermos; mas, como vós, não creio na impunidade do mal e na eficácia do erro. Creio, pois, que expiareis o endurecimento do vosso coração por grandes dilacerações de coração numa outra existência.”

Ao lado destes pensamentos eminentemente espíritas, aos quais só falta o nome que se obstinam em lhes recusar, por vezes se encontram outros, um pouco menos sérios, que lembram o belo tempo das troças mais ou menos espirituosas sob as quais pensavam que poderiam sufocar o Espiritismo. Pode-se julgar pelas amostras seguintes, que são como os foguetes perdidos do fogo de artifício.

O Sr. Ponson du Terrail, em seu Dernier mot de Rocambole, publicado em folhetim no Figaro, assim se exprime:

“Contudo os ingleses superariam os americanos em matéria de superstição. As mesas girantes, antes de fazer entre nós a felicidade de cem mil imbecis, passaram estações em Londres e aí receberam uma hospitalidade das mais corteses. Pouco a pouco o relato do coveiro tinha feito o giro de Hampstead, cidade célebre por seus jumentos e seus criadores, e os magnatas da região não tinham hesitado um só instante em decidir que a casa de campo, à noite, era assombrada por Espíritos.”

O Sr. Ponson du Terrail, que outorga tão generosamente um diploma de imbecilidade a cem mil indivíduos, naturalmente julga ter mais espírito do que eles, mas não crê ter um espírito em si mesmo, sem o que é provável que não os enviasse ao país dos jumentos.

Sem dúvida ele perguntará: Que relação pode haver entre as mesas girantes e os sublimes pensamentos que citastes há pouco? Há, respondemos nós, a mesma relação que existe entre o vosso corpo, quando valsa, e o vosso espírito, que o faz valsar; entre a rã, que dançava no prato de Galvani e o telégrafo transatlântico; entre a maçã que cai e a lei da gravitação que rege o mundo. Se Galvani e Newton não tivessem meditado sobre esse fenômenos tão simples e tão vulgares, hoje não teríamos tudo o que a indústria, as artes e a Ciência deles tiraram. Se cem mil imbecis não tivessem buscado a causa que faz girar as mesas, ainda hoje ignoraríamos a existência e a natureza do mundo invisível que nos rodeia; não saberíamos de onde viemos antes de nascer e para onde iremos ao morrer. Entre esse cem mil imbecis, muitos talvez acreditassem ainda em demônios cornudos, nas chamas eternas, na magia, nos feiticeiros e nos sortilégios. As mesas girantes são para os pensamentos sublimes sobre o futuro da alma o que o gérmen é para a árvore que dele saiu: são os rudimentos da ciência do homem.

Lia-se no Écho d’Oran de 24 de abril de 1866:

“Acaba de se passar em El-Afroun um fato que afetou penosamente a nossa população. Um dos mais antigos habitantes de nossa aldeia, o Sr. Pagès, acaba de morrer. Sabeis que ele estava imbuído das ideias ─ eu ia dizer das loucuras ─ do Sr. Allan Kardec e que fazia profissão do Espiritismo. Fora desta extravagância, era um perfeito cavalheiro, estimado por todos os que o conheciam. Assim, ficaram muito admirados ao saber que o senhor cura se havia recusado a enterrá-lo, sob o pretexto que o Espiritismo é contrário ao Cristianismo. Não está no Evangelho: ‘Fazei o bem pelo mal’, e se esse pobre Sr. Pagès é culpado por ter crido no Espiritismo, não é uma razão a mais para orar por ele?”

O Sr. Pagès, que conhecíamos por correspondência há muito tempo, escrevia-nos o seguinte:

“O Espiritismo fez de mim um outro homem. Antes de conhecê-lo eu era como muitos outros: não acreditava em nada, e contudo, sofria ao pensamento de que, morrendo, tudo está acabado para nós. Por vezes experimentava um profundo desencorajamento, e me perguntava para que serve fazer o bem. O Espiritismo me fez o efeito de uma cortina que se levanta para nos mostrar uma decoração magnífica. Hoje vejo claro; o futuro não é mais duvidoso e por isto estou muito feliz. Dizer-vos da felicidade que experimento me é impossível; parece que estou como um condenado à morte, a quem acabam de dizer que não morrerá e que vai deixar sua prisão para ir a um belo país, viver em liberdade. Não é esse efeito, caro senhor, que isto deve produzir? A coragem me voltou com a certeza de viver para sempre, porque compreendi que o que com isto adquirimos em bem não é pura perda; compreendi a utilidade de fazer o bem; compreendi a fraternidade e a solidariedade que ligam todos os homens. Sob o império deste pensamento me esforcei por melhorar-me. Sim, posso dizer sem vaidade, corrigi-me de muitos defeitos, embora me restem ainda muitos. Agora sinto que morrerei tranquilo, porque sei que não farei senão trocar uma roupa estragada por uma nova, com a qual me sentirei mais à vontade.”

Eis, pois, um homem que, aos olhos de certas pessoas, era razoável, sensato, quando não acreditava em nada, e que é taxado de loucura pelo único fato de ter crido na imortalidade da alma pelo Espiritismo. E são essas mesmas pessoas, que não creem nem na alma nem na prece, que lhe atiraram pedras por suas crenças em vida e o perseguem com seus sarcasmos até depois de sua morte, e que invocam o Evangelho contra o ato de intolerância e a recusa de preces de que ele foi objeto, ele que só acreditou no Evangelho e na ação da prece graças ao Espiritismo!

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