Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1866

Allan Kardec

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Morte do Sr. Didier, livreto - editor

O Espiritismo acaba de perder um de seus adeptos mais sinceros e dedicados, na pessoa do Sr. Didier, falecido sábado, 2 de dezembro de 1865. Ele era membro da Sociedade Espírita de Paris desde a sua fundação, em 1858 e, como se sabe, editor de nossas obras sobre a Doutrina. Na véspera, assistia à sessão da Sociedade e, no dia seguinte, às seis da tarde, morria subitamente numa estação de ônibus, a alguns passos de sua residência, onde, felizmente, se achava um de seus amigos, que fez transportá-lo para casa. Suas exéquias foram feitas terça-feira, 5 de dezembro.

O Petit Journal, ao anunciar a sua morte, acrescentou: “Nestes últimos tempos o Sr. Didier tinha editado o Sr. Allan Kardec e tinha se tornado, por polidez de editor, ou por convicção, um adepto do Espiritismo.”

Não pensamos que a mais esquisita polidez obrigue um editor a esposar as opiniões de seus clientes nem que deve tornar-se judeu, por exemplo, porque edita as obras de um rabino. Tais restrições não são dignas de um escritor sério. O Espiritismo é uma crença, como qualquer outra, que conta com mais de um livreiro em suas fileiras. Por que seria mais estranho que um livreiro fosse espírita do que ser católico, protestante, judeu, sansimonista, fourierista ou materialista? Quando, pois, os senhores livres pensadores admitirão a liberdade de consciência para todo mundo? Por acaso teriam eles a singular pretensão de explorar a intolerância em proveito próprio, depois de havê-la combatido nos outros? As opiniões espíritas do Sr. Didier eram conhecidas e ele jamais delas fez mistério, pois muitas vezes discutia com os incrédulos. Sua convicção era profunda e antiga, e não, como supõe o autor do artigo, uma questão de circunstância ou uma polidez de editor. Mas é tão difícil a esses senhores para quem a Doutrina Espírita está inteirinha no armário dos irmãos Davenport, conceber que um homem de notório valor intelectual creia nos Espíritos! Entretanto, será preciso que se acostumem a essa ideia, pois há mais do que eles pensam, do que não tardarão a ter a prova.

O Grand Journal o registra nestes termos:

“Falecido também o Sr. Didier, editor que lançou muitos livros bonitos e bons, na sua modesta loja do Quai des Grands-Augustins. Nestes últimos tempos o Sr. Didier era adepto ─ e o que mais vale ainda ─ um fervoroso editor dos livros espíritas. O pobre homem deve saber agora a que se ater sobre as doutrinas do Sr. Allan Kardec.”

É triste ver que nem mesmo a morte é respeitada pelos senhores incrédulos e que eles perseguem com suas troças os mais honrados adeptos, até no além-túmulo. O que, em vida, pensava o Sr. Didier da Doutrina? Um fato lhe provava a impotência dos ataques de que ela é objeto: é que no momento de sua morte ele imprimia a 14ª edição do Livro dos Espíritos. O que pensa ele agora? É que haverá grandes desapontamentos e mais de uma defecção entre os seus antagonistas!

O que poderíamos dizer nesta circunstância está resumido na alocução seguinte, pronunciada na Sociedade de Paris, em sua sessão de 8 de dezembro.

Senhores e caros colegas,

Mais um dos nossos acaba de partir para a Pátria celeste! Nosso colega, o Sr. Didier, deixou na Terra seus despojos mortais para revestir o envoltório dos Espíritos.

Embora há muito tempo sua saúde vacilante por diversas vezes tenha colocado sua vida em perigo, e conquanto a ideia da morte para nós, espíritas, nada tinha de apavorante, seu fim, que chegou tão inopinadamente no dia imediato ao em que assistia à nossa sessão, causou entre todos nós uma profunda emoção.

Há, nesta morte, por assim dizer fulminante, um grande ensinamento, ou melhor, uma grande advertência: é que nossa vida se mantém por um fio que pode romper-se quando menos esperamos, porque muitas vezes a morte vem sem aviso. Assim ela adverte os sobreviventes para que estejamos sempre preparados para respondermos ao chamado do Senhor, para darmos conta do emprego da vida que ele nos deu.

Embora o Sr. Didier pessoalmente não tomasse parte muito ativa nos trabalhos da Sociedade, onde raramente tomava a palavra, não deixava de ser um dos membros mais considerados por sua ancianidade como membro fundador, por sua assiduidade e sobretudo por sua posição, sua influência e os incontestáveis serviços prestados à causa do Espiritismo, como propagador e como editor. As relações que com ele tive durante sete anos permitiram-me apreciar a sua correção, a sua lealdade e as suas capacidades especiais. Sem dúvida, como cada um de nós, ele tinha suas pequenas particularidades que não agradavam a todos, por vezes mesmo um gesto brusco, com o qual era preciso familiarizar-se, mas que nada tirava de suas eminentes qualidades; e o mais belo elogio que lhe poderiam fazer é dizer que se podia fazer negócios com ele de olhos fechados.

Comerciante, ele deveria encarar as coisas comercialmente, mas não o fazia com mesquinhez e parcimônia. Ele era grande, generoso, sem mesquinharia nas suas operações; a atração do ganho não o teria levado a empreender uma publicação que não lhe conviesse, por mais vantajosa que fosse. Numa palavra, o Sr. Didier não era o negociante de livros que calculava seu lucro vintém a vintém, mas o editor inteligente, justo apreciador, consciencioso e prudente, como era preciso para fundar uma casa séria como a sua. Suas relações com o mundo culto, pelo qual era amado e estimado, haviam desenvolvido suas ideias e contribuído para dar à sua livraria acadêmica o caráter sério que dela fez uma casa de primeira ordem, menos pela cifra dos negócios do que pela especialidade das obras que ela explorava e a consideração comercial de que, a justo título, desfrutava há longos anos.

No que me concerne, felicito-me por tê-lo encontrado em meu caminho, o que devo, sem dúvida, à assistência dos bons Espíritos, e é com toda a sinceridade que digo que nele o Espiritismo perde um apoio e eu um editor tanto mais precioso quanto, entrando perfeitamente no espírito da doutrina, tinha verdadeira satisfação em propagá-la.

Algumas pessoas se surpreenderam que eu não tivesse tomado a palavra em seu enterro. Os motivos de minha abstenção são muito simples.

Para começar, direi que não tendo sua família manifestado o desejo, eu não sabia se isto lhe seria ou não agradável. O Espiritismo, que censura aos outros impor-se, não deve incorrer na mesma censura. Ele jamais se impõe; espera que venham a ele.

Ademais, eu previa que a assistência seria numerosa e que entre essas pessoas encontrar-se-iam muitas pouco simpáticas ou mesmo hostis às nossas crenças. Além de que poderia ter sido pouco conveniente vir nesse momento solene chocar publicamente convicções contrárias, isso poderia fornecer aos nossos adversários um pretexto para novas agressões. Neste tempo de controvérsias, talvez tivesse sido uma ocasião de dar a conhecer o que é a Doutrina, mas não teria sido esquecer o piedoso motivo que nos reunia, e faltar ao respeito devido à memória daquele que acabávamos de saudar à sua partida? Era sobre um túmulo aberto que convinha contraditar aqueles que nos desafiam? Concordareis, senhores, que o momento teria sido mal escolhido. O Espiritismo ganhará sempre mais com a estrita observação das conveniências do que perderá em deixar escapar uma ocasião de se mostrar. Ele sabe que não precisa de violência; visa ao coração: seus meios de sedução são a doçura, a consolação e a esperança; é por isto que encontra cúmplices até nas fileiras inimigas. Sua moderação e seu espírito conciliador nos põem em relevo pelo contraste. Não percamos essa preciosa vantagem. Procuremos os corações aflitos, as almas atormentadas pela dúvida, cujo número é grande. Aí teremos nossos mais úteis auxiliares; com eles faremos mais prosélitos do que com propaganda ou exibição.

Sem dúvida eu poderia ter-me limitado a generalidades, abstração feita do Espiritismo, mas tal reticência de minha parte poderia ter sido interpretada como medo ou uma espécie de negação dos nossos princípios. Em semelhante circunstância só posso falar abertamente ou calar-me. Foi este último partido que tomei. Se se tivesse tratado de um discurso comum e sobre um assunto banal, a coisa teria sido outra. Mas aqui o que eu poderia ter dito deveria ter um caráter especial.

Eu poderia ainda ter-me limitado à prece que se acha em O Evangelho segundo o Espiritismo pelos que acabam de deixar a Terra e que, em semelhantes casos, produz sempre uma impressão profunda. Mas aqui se apresentava outro inconveniente. O eclesiástico que acompanhou o corpo ao cemitério ficou até o fim da cerimônia, contrariando os hábitos ordinários; escutou com atenção firme o discurso do Sr. Flammarion e talvez esperasse, em razão das opiniões muito conhecidas do Sr. Didier e de suas relações com os espíritas, por alguma manifestação mais explícita. Depois das preces que ele acabava de dizer e que, em sua alma e consciência são suficientes, vir em sua presença dizer outras que são toda uma profissão de fé, um resumo de princípios que não são os seus, teria parecido uma bravata que não está no espírito do Espiritismo. Talvez algumas pessoas não tivessem ficado zangadas vendo o efeito do conflito tácito que poderia daí resultar. É o que as simples conveniências mandavam evitar. As preces que cada um de nós disse em particular, e que podemos dizer entre nós, serão tão proveitosas ao Sr. Didier, se ele as necessitar, quanto se tivessem sido feitas com ostentação.

Acreditai, senhores, que eu tenho no coração, tanto quanto qualquer outro, os interesses da Doutrina e que, quando faço ou não faço uma coisa, é com madura reflexão e depois de ter bem pesado suas consequências.

Nossa colega, Sra. R..., veio, da parte de alguns assistentes, solicitar-me tomasse a palavra. Pessoas que ela não conhecia, acrescentou, acabavam de dizer-lhe que de propósito tinham vindo ao cemitério na esperança de me ouvir. Sem dúvida isto era lisonjeiro para mim, mas, da parte dessas pessoas, era enganar-se redondamente quanto ao meu caráter pensar que um estimulante do amor-próprio pudesse excitar-me a falar para satisfazer a curiosidade dos que tinham vindo por outro motivo que não o de render homenagem à memória do Sr. Didier. Essas pessoas ignoram, sem dúvida, que se me repugna impor-me, também não gosto de me exibir. É o que a Sra. R... lhes poderia ter respondido, acrescentando que me conhecia e me estimava bastante para estar certa de que o desejo de me pôr em evidência nenhuma influência teria sobre mim.

Em outras circunstâncias, senhores, eu o teria considerado um dever, teria ficado feliz ao prestar ao nosso colega um público testemunho de afeição em nome da Sociedade, representada nas exéquias por um grande número de seus membros. Mas, como os sentimentos estão mais no coração que na demonstração, sem dúvida cada um de nós já lho havia prestado do foro íntimo. Neste momento em que estamos reunidos, paguemos-lhe entre nós o tributo da saudade, da estima e da simpatia que ele merece, e esperemos que ele queira voltar para o nosso meio, como no passado, e continuar, como Espírito, a tarefa espírita que havia empreendido como homem.

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