Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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Sob o título de Um Mistério, vários jornais de maio último relataram o seguinte fato:

“Duas senhoras do bairro de Saint-Germain apresentaram-se, num destes últimos dias, ao comissário de seu quarteirão, e denunciaram um tal de P..., que segundo elas tinha abusado de sua confiança e de sua credulidade, afirmando que as curaria de moléstias contra as quais seus cuidados tinham sido impotentes.

“Tendo aberto um inquérito a respeito, o magistrado soube que P... passava por

hábil médico, cuja clientela aumentava diariamente, e que fazia curas extraordinárias.

“Conforme suas respostas às perguntas do comissário, P... parece convencido de que é dotado de uma faculdade sobrenatural, que lhe dá o poder de curar apenas pela aposição das mãos sobre os órgãos doentes.

“Durante vinte anos ele foi cozinheiro; era mesmo citado como um dos maishábeis no seu ofício, que abandonou há um ano para consagrar-se à arte de curar.

“Se lhe quisermos dar crédito, ele teria tido várias visões e aparições misteriosas, nas quais um enviado de Deus lhe teria revelado que tinha que cumprir na Terra uma missão de humanidade à qual não devia faltar, sob pena de ser danado. Obedecendo, disse ele, a essa ordem vinda do céu, o antigo cozinheiro instalou-se num apartamento da Rua Saint-Placide, e os doentes não tardaram em sobejar em suas consultas.

“Ele não receita medicamentos; examina o paciente que deve tratar quando está em jejum, apalpa-o, procura e descobre a sede do mal, sobre a qual aplica as mãos dispostas em cruz, pronuncia algumas palavras que são, diz ele, o seu segredo; depois, à sua prece, vem um Espírito invisível e arranca o mal.

“Certamente P... é um louco, mas o que há de extraordinário, de inexplicável, é que ele provou, conforme constata o inquérito, que, por esse processo singular, ele curou mais de quarenta pessoas afetadas de doenças graves.

“Várias lhe testemunharam o seu reconhecimento por donativos em dinheiro; uma senhora idosa, proprietária nas proximidades de Fontainebleau, por um testamento encontrado em casa dele, onde foi feita uma busca, o fez seu herdeiro de uma soma de 40.000 francos.

“P... foi mantido em detenção, e seu processo, que sem dúvida não tardará na polícia correcional, promete ser curioso.”

Não somos apologista nem detrator do Sr. P..., a quem não conhecemos. Está ele em boas ou más condições? É sincero ou charlatão? Ignoramo-lo. É o futuro que o provará; não tomamos posição nem pró nem contra ele. Mencionamos o fato tal qual é relatado, porque vem juntar-se à ideia de todos os que acreditam na existência de uma dessas faculdades estranhas que confundem a Ciência e os que nada querem admitir fora do mundo visível e tangível. De tanto ouvir falar nisto e ver os fatos se multiplicando, somos forçados a convir que há qualquer coisa, e pouco a pouco fazemos a distinção entre a verdade e a charlatanice.

No relato acima, sem dúvida notaram esta curiosa passagem, e a contradição não menos curiosa que ela encerra:

“Certamente P... é um louco, mas o que há de extraordinário, de inexplicável, é que ele provou, conforme constata o inquérito, que, por esse processo singular, ele curou mais de quarenta pessoas afetadas de doenças graves.”

Assim, o inquérito constata as curas; mas, porque o meio que ele emprega é inexplicável e não é reconhecido pela Faculdade, certamente ele é um louco. Assim sendo, o abade Príncipe de Hohenlohe, cujas curas maravilhosas descrevemos na Revista de dezembro de 1866, era um louco; o venerável cura d’Ars, que, também ele, fazia curas por singulares processos, era um louco; e tantos outros. O Cristo, que curava sem diploma e não empregava medicamentos, era louco, e teria pago muitas multas em nossos dias. Loucos ou não, quando há cura, muitas pessoas preferem ser curadas por um louco do que enterradas por um homem de bom senso.

Com um diploma, todas as excentricidades médicas são permitidas. Um médico, cujo nome esquecemos, mas que ganha muito dinheiro, emprega um processo não menos bizarro: Com um pincel, ele pinta na cara de seus doentes pequenos losangos vermelhos, verdes, amarelos, azuis em torno dos olhos, do nariz e da boca, em quantidade proporcional à natureza da doença. Sobre que dado científico é baseado esse gênero de medicação? Uma troça de mau gosto de um redator pretendeu que, para poupar enormes gastos de publicidade, esse médico fazia que os doentes a levassem de graça, no rosto. Vendo nas ruas esses rostos tatuados, naturalmente pergunta-se de que se trata. E os doentes respondem: É o processo do célebre doutor fulano. Mas ele é médico; se seu processo é bom, mau ou insignificante, não vem ao caso; tudo lhe é permitido, mesmo ser charlatão; ele está autorizado pela Faculdade. Se um indivíduo não diplomado quiser imitá-lo, será perseguido por gatunice.

Eles gritam contra a credulidade do público em relação aos charlatães; admiram-se da influência exercida pelo primeiro que surge anunciando um novo método de curar, pelos sonâmbulos, algebristas e outros; da predileção pelos remédios das comadres, e se prendem à inépcia da espécie humana! A verdadeira causa se deve à vontade muito natural que têm os doentes de se curar, e ao insucesso da Medicina em grandíssimo número de casos. Se os médicos curassem com mais frequência e mais segurança, não se iria alhures. Acontece mesmo quase sempre que não se recorre a meios excepcionais senão depois de haver esgotado inutilmente os recursos oficiais. Ora, o doente que quer ser curado a qualquer preço, pouco se inquieta que seja segundo a regra ou contra a regra.

Não repetiremos aqui o que hoje está claramente demonstrado quanto às causas de certas curas, inexplicáveis apenas para os que não se querem dar ao trabalho de remontar à fonte do fenômeno. Se se dá a cura, é um fato, e esse fato tem uma causa. Será mais racional negá-la do que procurá-la? ─ Dirão que é o acaso; o doente foi curado por si só. ─ Seja, mas então o médico que o declarou incurável dava prova de grande ignorância. E depois, se há vinte, quarenta, cem curas semelhantes, é sempre o acaso? Convenhamos que seria um acaso singularmente perseverante e inteligente, ao qual poderia dar-se o nome de doutor Acaso.

Examinaremos a questão de um ponto de vista mais sério.

As pessoas não diplomadas que tratam os doentes pelo magnetismo; pela água magnetizada, que não é senão uma dissolução do fluido magnético; pela imposição das mãos, que é uma magnetização instantânea e poderosa; pela prece, que é uma magnetização mental; com o concurso dos Espíritos, o que é ainda uma variedade de magnetização, são passíveis da lei contra o exercício ilegal da Medicina?

Os termos da lei certamente são muito elásticos, porque ela não especifica os meios. Rigorosamente e logicamente não podemos considerar como exercendo a arte de curar senão aqueles que dela fazem profissão, isto é, que dela tiram proveito. Entretanto vimos ser pronunciadas condenações contra indivíduos que se ocupam desses cuidados por puro devotamento, sem qualquer interesse, ostensivo ou dissimulado. O delito é, pois, a prescrição de remédios. Contudo, o desinteresse notório geralmente é tomado em consideração, como atenuante.

Até agora não se tinha pensado que se pudesse operar uma cura sem o emprego de medicamentos; então a lei não previu o caso dos tratamentos curativos sem remédios, e não seria senão por extensão que ela seria aplicada aos magnetizadores e aos médiuns curadores. Não reconhecendo a Medicina oficial nenhuma eficácia no magnetismo e seus anexos, e ainda menos na intervenção dos Espíritos, não se poderia legalmente condenar, pelo exercício ilegal da Medicina, os magnetizadores e os médiuns curadores que nada prescrevem, ou nada além de água magnetizada, porque então seria reconhecer oficialmente uma virtude no agente magnético, e colocá-lo na classe dos meios curativos; seria compreender o magnetismo e a mediunidade curadora na arte de curar, e dar um desmentido à Faculdade. O que se faz, por vezes, em semelhantes casos, é condenar por delito de gatunice e abuso de confiança, como pela venda de uma coisa sem valor, aquele que disso tira proveito direto ou indireto, ou mesmo dissimulado sob o nome de retribuição facultativa, disfarce no qual não deve sempre confiar. A apreciação do fato depende inteiramente da maneira de encarar a coisa em si mesma; é, muitas vezes, uma questão de opinião pessoal, a menos que não haja abuso presumido, caso em que a questão de boa-fé sempre entra em consideração. Então a justiça aprecia as circunstâncias agravantes ou atenuantes.

Tudo é completamente diferente para aquele cujo completo desinteresse é constatado. Considerando-se que ele nada prescreve e nada recebe, a lei não pode atingi-lo, do contrário seria preciso dar-lhe uma extensão que não comportam nem o espírito nem a letra. Onde nada há a ganhar, não pode haver charlatanismo. Não há nenhum poder no mundo que possa opor-se ao exercício da mediunidade ou magnetização curadora, na verdadeira acepção da palavra.

Entretanto, dirão, o Sr. Jacob nada cobrava e nem por isso deixou de ser interdito. É verdade, mas não foi perseguido nem condenado pelo caso de que se tratava. A interdição era uma medida de disciplina militar, por causa da perturbação que podia causar no campo a afluência de pessoas que lá iam; e se depois ele se serviu dessa interdição, foi porque lhe convinha. Se ele não pertencesse ao exército, ninguém poderia perturbá-lo. (Vide a Revista de março de 1865: O Espiritismo e a Magistratura).

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