O céu e o inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo

Allan Kardec

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Um médium, morador do Havre, evocava o Espírito de uma pessoa sua conhecida. Esse Espírito responde:

“Quero me comunicar, mas não posso vencer o obstáculo que há entre nós; sou obrigado a deixar esses desgraçados que sofrem se aproximarem de vós.” Ele recebe então a comunicação seguinte:

“Estou num horrendo abismo! Ajudai-me... Ó meu Deus! quem me tirará deste precipício?... Quem estenderá uma mão caridosa ao desgraçado que o mar está engolindo?... A noite é tão escura que tenho medo... Por toda a parte o bramido das ondas, e nenhuma palavra amiga para me consolar e me ajudar neste momento supremo; pois esta noite profunda é a morte em todo o seu horror, e eu não quero morrer!... Ó meu Deus! não é a morte que vem, é a morte passada!... Estou para sempre separado daqueles que amo... Vejo meu corpo, e o que eu sentia há pouco não é senão a recordação da horrenda angústia da separação... Tende compaixão de mim, vós que conheceis meus sofrimentos; orai por mim, pois não quero sentir, como tenho sentido desde aquela noite fatal, todos os dilaceramentos da agonia!... Entretanto, aí está minha punição; pressinto-a... Orai, suplico-vos!... Oh! o mar... o frio... vou ser engolido!...

Socorro!... Tende então compaixão; não me repilais!... Nós nos salvaremos os dois em cima deste destroço!... Oh! estou sufocando!.... As ondas vão me engolir, e os meus não terão nem mesmo a triste consolação de me rever... Mas não; vejo que meu corpo não é mais sacudido pelas ondas... As preces da minha mãe serão ouvidas... Minha pobre mãe! Se ela pudesse imaginar seu filho tão miserável quanto ele é realmente, ela oraria melhor; mas ela crê que a causa da minha morte santificou o passado; ela me chora como mártir, e não como desgraçado e castigado!... Oh! vós que sabeis, sereis sem compaixão! Não, vós orareis. FRANÇOIS BERTIN.

Esse nome, completamente desconhecido pelo médium, não lhe trazia nenhuma lembrança; pensou que era talvez o Espírito de algum infeliz naufragado que vinha se manifestar espontaneamente a ele, como já lhe acontecera várias vezes. Soube um pouco mais tarde que era, com efeito, o nome de uma das vítimas de um grande desastre marítimo que ocorrera naquelas paragens, em 2 de dezembro de 1863. A comunicação fora dada no dia 8 do mesmo mês, seis dias depois da catástrofe. O indivíduo perecera fazendo tentativas inauditas para salvar a tripulação e no momento em que acreditava ter sua salvação assegurada.

Esse indivíduo não tinha com o médium nenhum laço de parentesco e nem mesmo se conheciam; então, por que se manifestou a ele em vez de a algum membro de sua família? É que os Espíritos não encontram em todo mundo as condições fluídicas necessárias para isso; na perturbação em que se achava, não tinha, aliás, liberdade de escolha; foi conduzido instintiva e atrativamente para esse médium, dotado, ao que parece, de uma aptidão especial para as comunicações espontâneas desse gênero; talvez ele pressentisse também que encontraria aí uma simpatia particular como outros haviam encontrado em circunstâncias semelhantes. Sua família, alheia ao Espiritismo, antipática talvez para com essa crença, não teria acolhido sua revelação como esse médium podia fazer. Embora a morte remontasse a alguns dias, o Espírito ainda lhe sofria todas as angústias. É evidente que não se dava absolutamente conta de sua situação; acreditava que ainda estava vivo, lutando contra as ondas, e, no entanto, fala de seu corpo como se estivesse separado dele; chama por socorro; diz que não quer morrer, e um instante depois fala da causa de sua morte que reconhece ser um castigo; tudo isso denota a confusão das ideias que acompanha quase sempre as mortes violentas. Dois meses mais tarde, em 2 de fevereiro de 1864, ele se comunicou de novo espontaneamente com o mesmo médium, e ditou-lhe o que se segue:

“A compaixão que tivestes pelos meus sofrimentos tão horríveis me aliviou. Compreendo a esperança; entrevejo o perdão, mas depois do castigo da falta cometida. Continuo a sofrer, e se Deus permite que, durante alguns momentos, eu entreveja o fim da minha desgraça, não é senão às preces das almas caridosas, tocadas pela minha situação, que devo esse abrandamento. Ó esperança, raio do céu, como és bendita quando te sinto nascer na minha alma!... Mas, infelizmente! o abismo se abre; o terror e o sofrimento fazem apagar-se essa lembrança da misericórdia... A noite; sempre a noite!... a água, o barulho das ondas que engoliram o meu corpo, não são senão uma fraca imagem do horror que cerca meu pobre Espírito... Fico mais calmo quando posso estar junto a vós; pois assim como um terrível segredo depositado no seio de um amigo alivia aquele que se sentia oprimido por ele, do mesmo modo vossa compaixão, motivada pela confidência da minha miséria, acalma meu mal e descansa meu Espírito... Vossas preces fazem-me bem; não mas recuseis.

Não quero voltar a cair naquele horrível sonho que se torna realidade quando o vejo...Pegai no lápis com mais frequência; faz-me tanto bem comunicar-me por vós!”

Alguns dias mais tarde, tendo sido esse mesmo Espírito evocado numa reunião espírita, de Paris, dirigiram-lhe as perguntas seguintes, às quais ele respondeu por uma única e mesma comunicação, e por outro médium. Quem vos levou a vos manifestar espontaneamente ao primeiro médium com o qual vos comunicastes? – Há quanto tempo estáveis morto quando vos manifestastes? – Quando vos comunicastes, parecíeis não ter certeza se estáveis morto ou ainda vivo, e sentíeis todas as angústias de uma morte terrível; dais-vos conta melhor agora de vossa situação? – Dissestes positivamente que vossa morte era uma expiação; aceitai dizer-nos qual é a causa: será uma instrução para nós e um alívio para vós. Por essa confissão sincera atraireis a misericórdia de Deus que solicitaremos por nossas preces. Resposta. – Parece impossível no início que uma criatura possa sofrer tão cruelmente. Deus! como é penoso ver-se constantemente no meio das ondas enfurecidas, e sentir incessantemente esse amargor, esse frio glacial que sobe, que aperta o estômago!

Mas para que vos contar tais espetáculos? Não devo começar por obedecer às leis do reconhecimento agradecendo-vos, a vós todos que tendes por meus tormentos tal interesse? Perguntais se me comuniquei muito tempo após minha morte? Não posso responder facilmente. Pensai, e julgai em que horrível situação me encontro ainda! Entretanto, fui levado para junto do médium, creio eu, por uma vontade alheia à minha; e, coisa impossível de me dar conta, eu me servia de seu braço com a mesma facilidade com que me sirvo do vosso neste momento, persuadido de que ele me pertence. Sinto mesmo neste momento um gozo bem grande, assim como um alívio particular que, infelizmente! vai logo cessar. Mas, ó meu Deus! eu teria uma confissão a fazer; terei força para tal?

Após muitos encorajamentos, o Espírito acrescenta: Fui muito culpado! O que sobretudo me faz sofrer é que creem que sou um mártir; não é nada disso... Numa existência precedente, mandei pôr num saco várias vítimas e jogar no mar... Orai por mim!

Instrução de São Luís sobre esta comunicação: Esta confissão será para este Espírito uma causa de grande alívio. Sim, ele foi muito culpado! Mas a existência que ele acaba de deixar foi honrada; era amado e estimado por seus chefes; é o fruto de seu arrependimento e das boas resoluções que tomara antes de voltar à terra, onde ele quis ser humano tanto quanto fora cruel. O devotamento de que deu provas era uma reparação, mas ele precisava compensar faltas passadas com uma última expiação, a da morte cruel que suportou; quis ele mesmo purificar-se sofrendo as torturas que fizera os outros sofrer; e notai que o persegue uma ideia: a mágoa de ver que o consideram um mártir. Acreditai que será levado em conta esse seu sentimento de humildade. Doravante, ele deixou a via da expiação para entrar na da reabilitação; com vossas preces podeis apoiá-lo, e fazê-lo caminhar a passo mais firme e mais seguro.

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