O céu e o inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo

Allan Kardec

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9. – Como o homem é lento para se desfazer de seus preconceitos, de seus hábitos, de suas ideias primeiras! Quarenta séculos nos separam de Moisés, e nossa geração cristã ainda vê traços dos antigos usos bárbaros consagrados, ou pelo menos aprovados pela religião atual! Foi preciso o poder da opinião dos não ortodoxos, daqueles que são vistos como hereges, para pôr
fim às fogueiras, e fazer compreender a verdadeira grandeza de Deus. Mas, no lugar das fogueiras, as perseguições materiais e morais ainda vigoram plenamente, tão enraizada está no homem a ideia de um Deus cruel. Alimentado por sentimentos que lhe são inculcados desde a infância, pode o homem se espantar de que o Deus que lhe apresentam como glorificado por atos bárbaros condene a torturas eternas, e veja sem compaixão os sofrimentos dos condenados? Sim, foram filósofos, ímpios, segundo alguns, que ficaram escandalizados de ver o nome de Deus profanado por atos indignos dele; foram eles que o mostraram aos homens em toda a sua grandeza, despojando-o das paixões e das fraquezas humanas que uma crença não esclarecida lhe emprestava. A religião ganhou em dignidade o que perdeu em prestígio externo; pois se há menos homens apegados à forma, há mais homens mais sinceramente religiosos de coração e sentimentos. Mas, ao lado desses, quantos há que, detendo-se na superfície, foram conduzidos à negação de toda providência! Por não se ter sabido pôr convenientemente as crenças religiosas em harmonia com o progresso da razão humana, fez-se nascer em alguns o deísmo, em outros a incredulidade absoluta, em outros o panteísmo, ou seja, o homem fez-se ele mesmo deus, na falta de ver um deus suficientemente perfeito.

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