O céu e o inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo

Allan Kardec

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Jovem piloto da barra, pertencendo ao porto do Havre, morto com a idade de vinte anos. Morava com a mãe, pobre pequena comerciante, à qual prodigalizava os cuidados mais ternos e afetuosos, e sustentava com o produto do seu rude trabalho. Nunca foi visto frequentando cabarés, nem se entregando aos excessos tão frequentes na sua profissão, pois não queria subtrair a menor parte de seu ganho do piedoso uso ao qual o consagrava. Todo o tempo não empregado em seu serviço, ele o dava à mãe para lhe poupar a fadiga. Há muito tempo sofrendo da doença da qual sentia que devia morrer, ocultava seus sofrimentos com medo de lhe causar inquietação e que ela mesma quisesse encarregar-se do seu trabalho. Esse jovem precisava de um grande patrimônio de qualidades naturais, e de uma grande força de vontade para resistir, na idade das paixões, aos perniciosos aliciamentos do meio onde vivia. Ele tinha uma piedade sincera, e sua morte foi edificante.


Na véspera de sua morte ele exigiu da mãe que fosse repousar um pouco, dizendo que ele mesmo sentia necessidade de dormir. Esta teve então uma visão; encontrava-se, disse ela, numa grande escuridez; depois viu um ponto luminoso que crescia pouco a pouco, e o quarto ficou iluminado por uma brilhante claridade, da qual se destacou a figura de seu filho, radiosa e elevando-se no espaço infinito. Ela compreendeu que o fim dele estava próximo; com efeito, no dia seguinte sua bela alma deixara a terra, enquanto seus lábios murmuravam uma prece.


Uma família espírita que conhecia sua bela conduta e se interessava pela mãe, que ficou sozinha, tivera a intenção de evocá-lo pouco tempo após sua morte, mas ele se manifestou espontaneamente pela comunicação seguinte:


“Desejais saber o que eu sou agora: bem-aventurado, oh! bem aventurado! Não leveis em conta os sofrimentos e as angústias, pois eles são a fonte de bênçãos e de felicidade além-túmulo. Felicidade! Não compreendeis o que essa palavra significa. As felicidades da terra estão tão distantes do que nós experimentamos, quando voltamos ao Mestre com uma consciência pura, com a confiança do servidor que cumpriu bem o seu dever, e que aguarda cheio de alegria o assentimento daquele que é tudo!


Oh! meus amigos, a vida é penosa e difícil, se não olhardes o fim; mas eu vos digo em verdade, quando vierdes para o meio de nós, se vossa vida foi segundo a lei de Deus, vós sereis recompensados além, muito além dos sofrimentos e dos méritos que credes ter ganhado para o céu. Sede bons, sede caridosos, dessa caridade desconhecida por muitos homens, que se chama benevolência. Socorrei vossos semelhantes; fazei por eles mais do que gostaríeis que se fizesse por vós, pois ignorais a miséria íntima, e conheceis a vossa. Socorrei minha mãe, minha pobre mãe, meu único pesar da terra. Ela deve suportar outras provas, e é preciso que chegue ao céu. Adeus, vou vê-la.” VICTOR.


O guia do médium. – Os sofrimentos suportados durante uma encarnação terrestre não são sempre uma punição. Os Espíritos que, pela vontade de Deus, vêm cumprir uma missão na terra, como aquele que acaba de se comunicar convosco, são felizes por suportar males que, para outros, são uma expiação. O sono os retempera junto do Altíssimo, e dá-lhes a força de suportar tudo para sua maior glória. A missão deste Espírito, em sua última existência, não era uma missão brilhante; mas embora tenha sido obscura, ele só teve mais mérito por isso, porque não podia ser estimulado pelo orgulho. Ele tinha primeiro um dever de reconhecimento a cumprir para com aquela que foi sua mãe; devia em seguida mostrar que, nos piores meios, podem achar-se almas puras, de sentimentos nobres e elevados, e que com a vontade se pode resistir a todas as tentações. É uma prova de que as qualidades têm uma causa anterior, e seu exemplo não terá sido estéril.

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