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Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1858 > Maio > Palestras familiares de além-túmulo > Mozart > Segunda palestra
Já
não é o mesmo o interlocutor. Parece, pela natureza da conversa, que se
trata de um músico, feliz por se entreter com um mestre. Depois de
diversas perguntas, que nos parece inútil reproduzir, diz Mozart:
- 1. ─ Acabemos com as perguntas de G... Falarei contigo. Dir-te-ei o que em nosso mundo entendemos por melodia. Por que não me evocaste mais cedo? Ter-teia respondido.
-
2. ─
O que é a melodia?
─ Para ti é muitas vezes uma lembrança da vida passada; teu Espírito recorda aquilo que entreviu num mundo melhor. No planeta Júpiter, onde habito, há melodia em toda parte: no murmúrio das águas, no ciciar das folhas, no canto do vento; as flores rumorejam e cantam; tudo produz sons melodiosos. Sê bom e alcança este planeta por tuas virtudes. Bem escolheste, cantando Deus. A música religiosa auxilia a elevação da alma. Como eu gostaria de vos poder inspirar o desejo de ver este mundo onde somos tão felizes! Aqui somos todos muito caridosos; tudo é belo! a Natureza tão admirável! Tudo nos inspira o desejo de estar com Deus. Coragem! Coragem! Acreditai em minha comunicação espírita. Sou eu mesmo que aqui me encontro. Desfruto do poder de vos dizer aquilo que experimentamos. Pudesse eu inspirar-vos bastante o amor ao bem, a fim de vos tornardes dignos dessa recompensa, que nada é em comparação com outras a que aspiro!
3. ─ Nossa música é a mesma em outros planetas? ─ Não. Nenhuma música vos pode dar uma ideia da que temos aqui. Ela é divina! Ó felicidade! Procura merecer o gozo de semelhantes harmonias; luta; tem coragem! Aqui não temos instrumentos: são as plantas e os pássaros os coristas. O pensamento compõe e os ouvintes gozam sem audição material, sem o concurso da palavra, e isto a uma distância incomensurável. Nos mundos superiores isto é ainda mais sublime. - 4. ─ Qual a duração da vida de um Espírito encarnado em outro planeta que não o nosso? ─ Curta nos planetas inferiores; mais longa nos mundos como este onde tenho a felicidade de estar. Em Júpiter ela é, em média, de trezentos a quinhentos anos.
- 5.. ─
Haverá grande vantagem em voltar a habitar a Terra?
─ Não, a não ser que estejamos em missão,
porque então avançamos.
6. ─ Não seríamos mais felizes se ficássemos como Espírito? ─ Não, não! Ficaríamos estacionários. Pedimos a reencarnação a fim de avançarmos para Deus.
7. ─ É a primeira vez que me encontro na Terra?
─ Não. Mas não posso falar do passado de teu Espírito. -
8. ─
Poderia eu ver-te em sonho?
─ Se Deus o permitir, far-te-ei ver em sonho a minha habitação, da qual guardarás lembrança. -
9. ─
Onde te achas aqui?
Entre ti e tua filha. Vejo-te. Estou sob a forma que tinha quando vivo. -
10. ─
Poderia eu ver-te?
─ Sim. Crê e verás. Se tivesses mais fé, ser-nos-ia permitido dizer-te por quê.
Tua própria profissão constitui uma ligação entre nós. - 11.. ─
Como entraste aqui?
─ O Espírito atravessa tudo.
12. ─ Ainda te achas muito longe de Deus? ─ Oh! Sim! - 13. ─ Compreendes melhor que nós o que é a eternidade? ─ Sim, sim. No corpo não a podeis compreender.
- 14. ─
Que entendes por Universo? Houve um começo e haverá um fim?
─ Segundo pensais, o Universo é a vossa Terra. Insensatos! O
Universo não teve começo nem terá fim. Pensai que ele é inteiramente obra de
Deus. O Universo é o infinito.
15. ─ Que devo fazer para me acalmar? ─ Não te preocupes tanto com o corpo. Tens o Espírito perturbado. Resiste a essa tendência. - 16. ─ Que é essa perturbação? ─ Temes a morte.
- 17.─ Que fazer para não temê-la? ─ Crer em Deus. Sobretudo crer que Deus não priva a família de um pai útil.
- 18.─ Como alcançar essa calma? ─ Pela vontade.
- 19.─ Onde haurir essa vontade?
- ─ Desvia o teu pensamento disso pelo trabalho.
- 20. - Que devo fazer para apurar a minha habilidade?
- ─ Podes evocar-me. Eu obtive a permissão de te inspirar.
- 21.─ Quando eu estiver trabalhando?
- ─ Certamente! Quando quiseres trabalhar, por vezes estarei ao teu lado.
- 22.─ Ouvirás a minha obra? (Uma obra musical do interpelante).
- ─ És o primeiro músico que me evoca. Venho a ti com prazer e escuto as tuas obras.
- 23.─ Como é que não te evocaram?
- ─ Fui evocado, mas não por músicos.
- 24.─ Por quem?
- ─ Por várias senhoras e amadores em Marselha.
- 25.─ Por que a Ave-Maria me comove até às lágrimas?
- ─ Teu Espírito se desprende, junta-se ao meu e ao de Pergolese, que me inspirou aquela obra, mas eu esqueci aquele trecho.
- 26.─ Como pudeste esquecer a música composta por ti mesmo?
- ─ A que tenho aqui é tão linda! Como recordar aquilo que era só matéria?
- 27. ─ Vês minha mãe?
- ─ Ela está reencarnada na Terra.
- 28.─ Em que corpo?
- ─ Nada posso dizer a respeito.
- 29.─ E meu pai?
- ─ Está errante, para ajudar no bem. Fará tua mãe progredir. Reencarnarão juntos e serão felizes.
- 30.─ Ele me vem ver?
- ─ Muitas vezes. A ele deves os teus impulsos caritativos.
- 31.─ Foi minha mãe que pediu para reencarnar?
- ─ Sim. Ela tinha grande vontade de reencarnar, a fim de progredir, por uma nova prova, e entrar num mundo superior à Terra. Já deu um passo imenso.
- 32.─ Que queres dizer com isso?
- ─ Ela resistiu a todas as tentações. Sua vida na Terra foi sublime em comparação com seu passado, que foi o de um Espírito inferior. Assim subiu vários degraus.
- 33.─ Então ela havia escolhido uma prova acima de suas forças? ─ Sim, isto mesmo.
- 34.─ Quando eu sonho que a vejo, é a ela mesmo que eu vejo? ─ Sim, sim.
- 35.─ Se tivessem evocado Bichat no dia da inauguração de sua estátua, teria ele respondido? Ele estava lá?
- ─ Sim, estava; e eu também.
- 36.─ Por que estavas lá?
- ─ Como vários outros Espíritos que apreciam o bem e que se sentem felizes quando glorificais aqueles que se preocupam com a Humanidade sofredora.
- 37.─ Obrigado, Mozart. Adeus.
- ─ Acreditai-me; acreditai que estou aqui... Sou feliz... Crede que há mundos acima do vosso... Crede em Deus... Evocai-me mais frequentemente, em companhia de músicos. Sentir-me-ei feliz em vos instruir, contribuir para o vosso progresso e vos ajudar a subir para Deus. Evocai-me. Adeus.