Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1865

Allan Kardec

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Poesias espíritas

O Espiritismo



O Espiritismo é o desenvolvimento do Evangelho, a extensão e a expansão da vida.



É pois verdade!


Sua sombra querida


Vem ajudar e sustentar meus cantos,


E penetrar de ebriez infinita


A vaga feliz dos pressentimentos.


Como um reflexo que envolve minh’alma,


Seu nobre Espírito derrama luzes,


Enche-me os dias de invisível chama,


E minhas noites de encantados sonhos.


Então dos Céus se as idades invoco,


Uma lembrança me traz o seu sopro


E dissipando as nuvens do presente,


Transforma meu passado em meu futuro.


“Criança, me diz, abandona a Terra;


“De novo terás os dias do passado,


“E o que te foi pai estará ao teu lado,


“E eternos amores no coração.





MARIE-CAROLINE QUILLET
Membro da Sociedade dos Escritores.

Pont-L’Évêque (Calvados).



A Sra. Quillet, autora de Églantine solitaire, acaba de publicar um volumezinho encantador com o título de Une heure de poésie, que será apreciado por todos os amantes dos bons versos. Sendo a obra estranha à Doutrina Espírita, embora de modo algum a ela contrária, sua apreciação escapa da especialidade de nossa Revista. Limitar-nos-emos a dizer que a autora prova uma coisa, é que, contrariamente à opinião de alguns de seus confrades em literatura, pode-se ter espírito e acreditar nos Espíritos.

A Sra. Quillet nos escreve o que segue, a respeito das comunicações da Sra. Foulon, publicadas no número de março.

“A Sra. Foulon pensa que os homens não compreenderiam a poesia do Espiritismo. Ela deve ter razão do seu ponto de vista luminoso. Sem dúvida os poetas sentem suas asas pesadas pelas trevas de nossa atmosfera. Mas o instinto, a dupla vista, de que são dotados, vêm auxiliar-lhes a inteligência. Eu creio que cada um é chamado, conforme suas aptidões, ao grande trabalho da renovação terrestre: os poetas, os filósofos, pela inspiração dos Espíritos; os mártires, os trabalhadores, pelo gênio dos filósofos e pelos cantos do poeta. Esses cantos não passam de um suspiro, é verdade, mas no exílio dos suspiros formam a base e o complemento do concerto.”


Em apoio às palavras ela junta as seguintes estrofes:



Aos poetas



Despertai, apóstolos e poetas;


Escutai os oráculos do tempo.


O ar carrega o sopro dos profetas


Retine o Hosana nas asas do vento.


O Sinai de nuvens está coberto;


Ruge o Etna no horror de seus fogos;


No entanto o Eterno dispensa as tormentas,


E para a Terra ilumina os céus.


A verdade ressurge da parábola;


Seu puro brilho toca-nos a fronte,


De nova luz o símbolo clareia,


E os raios da fé vem aquecer.


A fé, o amor, o vero sol das almas,


Aos mais obscuros mostra a claridade;


E as chamas de seu disco ela alimenta,


Pelo labor e pela caridade.


Vinde, mártires de sublime canto;


Abri a voz a estranhos lutadores.


Aos quatro ventos, sobre os nobres cimos,


Ide plantar de Jesus a humilde cruz.



A Sra. Quillet está certa quando diz que todos são chamados a concorrer à obra da renovação terrestre. Ninguém contesta a influência da poesia, mas ela se equivoca quanto ao pensamento da Sra. Foulon, quando esta diz: “O entusiasmo invadiu-me a alma e espero que seja um pouco tarde para vos entreter com o Espiritismo sério, e não com o Espiritismo poético, que não é bom para os homens. Eles não o compreenderiam.” O Espírito não entende por Espiritismo poético as ideias espíritas traduzidas pela poesia, mas o Espiritismo ideal, produto de uma imaginação entusiasta; e por Espiritismo sério, o Espiritismo científico, apoiado nos fatos e na lógica, que melhor convém à natureza positiva dos homens de nossa época, o que é objeto de nossos estudos.

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