Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Escrevem-nos de Montauban:

“Nestes dias passou-se em nossa cidade um fato que impressionou de diferentes maneiras a população. Um pregador protestante, o Sr. Rewile, capelão do rei da Holanda, num discurso pronunciado perante duas mil pessoas, afirmou-se claramente partidário das ideias novas. Sentimo-nos feliz ao ouvir, pela primeira vez, estas sublimes verdades proclamadas do alto de um púlpito cristão, e desenvolvidas com um talento e uma eloquência excepcionais. Ele deve ter sido brilhante, pois os fanáticos se apressaram em lhe dar o título de anticristo. Lamento não poder transmitir o sermão inteiro, mas tentarei analisar algumas passagens.

“O orador tinha tomado como tema o texto: ‘Não vim destruir a lei e os profetas, mas dar-lhes cumprimento. Amai-vos de todo o vosso coração, de toda a vossa alma, de todo o vosso entendimento e ao vosso próximo como a vós mesmos.’

“Segundo o Sr. Rewile, a missão do Cristo entre os homens foi uma missão de caridade e de espiritualidade; sua doutrina parecia, pois, estar em oposição à dos judeus, cujo princípio era: ‘Observância estrita da lei’, princípio que engendraria o egoísmo. Entretanto, a expressão dar-lhes cumprimento explica essa contradição aparente, porque significa completar, tornar mais perfeita. Ora, substituir o egoísmo pela caridade e o culto da matéria pelo culto da espiritualidade era dar cumprimento, completar a lei. Em vão o Cristo tentou fazer essa nação romper as cadeias da matéria, elevando o seu pensamento e fazendo-a encarar seu destino a partir de um ponto de vista mais alto. Ela jamais pôde compreender a profundidade de sua moral. Assim, quando ele quis atacar os abusos de toda sorte, as práticas exteriores, e suavizar os rigores da lei mosaica, foi acusado e covardemente condenado. Os judeus esperavam um messias conquistador que, armado de um cetro de ferro, deveria dar-lhes em partilha o poder temporal, e não compreendiam o que havia de grande, de sublime naquele que, com um frágil caniço na mão, vinha trazer à Humanidade, como dádiva de sua força espiritual, a lei do amor e da caridade.

“Mas os desígnios de Deus sempre se realizam, malgrado todas as resistências, e se os judeus, como obreiros de má vontade, recusaram-se a trabalhar na vinha, nem por isso a Humanidade avançou menos e avançará menos, arrastando em sua passagem tudo o que constitui obstáculo para chegar ao progresso. Sob pena de fracasso, a Igreja cristã deve seguir essa marcha ascendente, porque a Humanidade não foi feita para a Igreja, mas a Igreja para a Humanidade. Infeliz de quem resistisse, pois seria pulverizado pela mão do progresso. O passado não foi construído para responder pelo futuro?

“Que os filhos do século dezenove, contrariamente à conduta dos judeus antigos, compreendam e realizem sua obra! Eles já não experimentam esse frêmito involuntário que agita todas as inteligências de escol e que as impele espontaneamente para a conquista das ideias de espiritualidade, garantia única de felicidade para a Humanidade, porque sem espiritualidade só existe matéria e sem liberdade só há escravidão? Por que, então, resistir por mais tempo a esses nobres impulsos da alma e atribuir ao demônio esses novos sinais dos tempos modernos? Por que não ver aí as inspirações dos mensageiros celestes de um Deus de amor e de caridade, anunciando-nos a renovação da Humanidade?

“Que a Igreja cristã volte ao espírito. Com efeito, que é a Igreja sem o espírito, senão um cadáver, um verdadeiro cadáver na acepção da palavra?... Quem tiver ouvidos que ouça! A verdadeira Igreja, nestes dias críticos, tem o direito de contar com seus filhos... Vamos, de pé, e à obra! Que cada um faça o seu dever. Deus assim o quer! Deus o quer!

“Se o Cristo veio para dar cumprimento, isto é, para completar a lei pela prática do amor a Deus e aos homens, é que ele considerava este preceito como resumo da perfeição humana. A lei de amor a Deus e aos homens é, como ensina o próprio Cristo, uma lei maior, à qual estão subordinadas todas as outras. É, pois, necessário praticá-la na sua mais larga acepção, a fim de se aproximar dele e, consequentemente, de Deus, de que ele foi a mais alta expressão na Terra. Para amar a Deus é preciso amar a verdade, o belo e o bem; é necessário sentir-se transportado interiormente para esses atributos da perfeição moral, mas também é preciso amar a seus irmãos, seus semelhantes, em quem Deus se reflete no que há de verdade, de belo e de bem.

“Por que o Cristo amou a Humanidade até dar a vida por ela? Porque sendo também a mais alta expressão da perfeição humana, ele sentiu no mais alto grau os efeitos dessa lei de amor a Deus e aos homens, e teve que praticá-la de maneira sublime... Praticar a caridade, amar, é marchar a passos largos no caminho da verdade, do belo, do bem. É caminhar para Deus! Amar é viver, é avançar para a imortalidade!”

Segundo estou informado, o Sr. Rewile teria abordado com sucesso a questão das manifestações, em duas conferências para os alunos da Faculdade. Teria respondido vitoriosamente a todas as objeções. Lamento não ter podido ouvi-lo nessa circunstância tão interessante.

OBSERVAÇÃO: Bem tinham dito os Espíritos que o Espiritismo iria encontrar defensores nas próprias fileiras adversárias. Um tal discurso na boca de um ministro da religião e pronunciado do alto do púlpito, é um acontecimento sério. Esperemos ver outros, porque o exemplo da coragem de opinião é contagioso. As ideias novas não tardarão mais a encontrar campeões confessos na alta ciência, na literatura e na imprensa. Elas aí já têm mais simpatias do que se crê. Só o primeiro passo é difícil. Até os dias de hoje pode-se dizer que, com exceção dos órgãos especiais do Espiritismo, que não se dirigem à massa do público indiferente, somente os nossos adversários estiveram com a palavra, e Deus sabe se a usaram! Agora trava-se a luta. Que dirão eles quando virem nomes justamente honrados e estimados saírem de suas fileiras para tomar abertamente nas mãos a bandeira da doutrina? Está dito que tudo se cumprirá.

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