Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Transmite-nos uma senhora o seguinte:

“Uma de minhas filhas tem um menino de três anos que desde o nascimento lhe tem dado as mais vivas inquietudes. Restabelecida sua saúde em fins de agosto último, ele caminhava com dificuldade e dizia papá, mamã, e o resto de sua linguagem era uma mistura de sons inarticulados. Há cerca de um mês, depois de infrutíferas tentativas para que pronunciasse as palavras mais usuais, tentativas sempre renovadas sem sucesso, estando minha filha deitada, muito triste com essa espécie de mutismo, desolada sobretudo porque seu marido, capitão de longo curso, retornando após uma ausência que terá durado mais de um ano, não acharia mudança na maneira de falar de seu filho, quando, às cinco da manhã, foi despertada pela voz da criança, que articulava distintamente as letras A, B, C, D, que jamais tinham tentado fazer que ele pronunciasse. Crendo sonhar, sentou-se na cama e com a cabeça inclinada para o berço, o rosto perto da criança que dormia, ouviu-a repetir em voz alta, por diversas vezes, marcando cada uma por um leve movimento da cabeça, as letras A, B, C, e, após um pequeno intervalo, carregando a pronúncia, D.

“Quando entrei em seu quarto, às seis horas, a criança ainda dormia, mas a mãe, toda feliz ainda e comovida por ter ouvido o filho pronunciar essas letras, não tinha dormido. Quando o menino acordou, e a partir de então, em vão tentamos fazêlo dizer essas letras (que ele jamais tinha ouvido dizer, quando as disse no sono, pelo menos nesta existência), todas as nossas tentativas foram inúteis. Mesmo ainda hoje ele diz A e B, mas tem sido impossível obter para o C e o D mais que dois sons, um da garganta, outro do nariz, que de modo algum lembram as letras que queríamos que ele dissesse.

“Não é a prova de que esse menino já viveu? Paro aqui e não me sinto bastante instruída para ousar concluir. Preciso aprender mais e ler muito tudo quanto trata do Espiritismo, não para me convencer: o Espiritismo responde a tudo, ou, pelo menos, a quase tudo; mas, repito, senhor, não sei o suficiente. Isto virá, pois não me falta o desejo. Deus, que não me abandonou desde que fiquei viúva, há dezessete anos; Deus, que me ajudou a educar os filhos e encaminhá-los; Deus, em quem tenho fé, proverá o que me falta, porque nele espero e lhe peço com todo o coração para que permita aos bons Espíritos que me esclareçam e me guiem para o bem. Orai também por mim, senhor, que estou em comunhão de pensamento convosco, e que acima de tudo desejo trilhar o bom caminho.”

Este fato é, sem sombra de dúvida, resultado de conhecimentos adquiridos anteriormente. Se há uma aptidão inata, é aquela que se revela espontaneamente durante o sono do corpo, quando nenhuma circunstância tinha podido desenvolvê-la no estado de vigília. Se as ideias fossem um produto da matéria, por que uma ideia nova iria surgir quando a matéria estivesse entorpecida, ao passo que não só é nula, mas impossível de exprimir quando os órgãos estão em atividade? A causa primeira não pode, pois, estar na matéria. É assim que a cada passo o materialismo se choca contra os problemas cuja solução ele não pode dar. Para que uma teoria seja verdadeira e completa, é preciso que ela não seja desmentida por nenhum fato. O Espiritismo não formula nenhuma teoria prematuramente, a menos que o faça a título de hipótese, caso em que se furta a dá-la como verdade absoluta, mas que dá apenas como assunto de estudo. É por essa razão que ele marcha com passo firme.

No caso de que se trata, é, pois, evidente que não tendo o Espírito aprendido durante a vigília o que diz durante o sono, é preciso que tenha aprendido algures. Se não foi nesta vida, deve ter sido em outra e, além do mais, numa existência terrena, na qual falava francês, pois pronuncia letras francesas. Como explicarão este fato os que negam a pluralidade das existências ou a reencarnação na Terra?

Mas resta saber como é que o Espírito, desperto, não pode dizer o que articula no sono. Eis a explicação dada por um Espírito à Sociedade de Paris:


(24 de novembro de 1864 – Médium Sra. Cazemajour)


“É uma inteligência que poderá ainda ficar velada por algum tempo, pelo sofrimento material da reencarnação, à qual esse Espírito teve muita dificuldade em submeter-se, e que momentaneamente lhe aniquilou suas faculdades. Mas o seu guia o ajuda com terna solicitude a sair desse estado pelos conselhos, o encorajamento e as lições que lhe dá durante o sono do corpo, lições que não são perdidas e que se acharão vivazes quando essa fase de entorpecimento houver passado, e que será determinada por um choque violento, uma emoção extrema. Para isto é necessária uma crise desse gênero. Há que esperar, mas não temer a idiotia, pois não é o caso.”

Há aqui um ensinamento importante e, até certo ponto, novo: o da primeira educação dada a um Espírito encarnado por um Espírito desencarnado. Sem dúvida certos cientistas desdenhariam esse fato como muito pueril e sem importância, pois nele veriam apenas uma bizarria da Natureza, ou o explicariam por uma superexcitação cerebral que momentaneamente dilata as faculdades, pois é assim que explicam todas as faculdades mediúnicas. Sem dúvida em certos casos poder-seia conceber a exaltação numa pessoa adulta, cuja imaginação aumenta em razão do que ela vê ou ouve, mas não se compreenderia o que pudesse excitar o cérebro de uma criança de três anos, que dorme. Eis, pois, um fato inexplicável por essa teoria, ao passo que ele acha solução natural e lógica pelo Espiritismo. O Espiritismo não desdenha nenhum fato, por insignificante que seja em aparência. Ele os espia, observa-os e os estuda todos. É assim que progride a ciência espírita, à medida que os fatos se apresentam para confirmar ou completar sua teoria. Se eles a contradizem, ele lhes busca outra explicação.

Uma carta de 30 de dezembro de 1864, escrita por um amigo da família, diz o seguinte:

“Disseram os Espíritos que uma crise, determinada por um choque violento, uma emoção extrema livrará a criança do entorpecimento de suas faculdades. Os Espíritos disseram a verdade. A crise ocorreu, por um choque violento, e eis como. A criança deu causa a um tombo terrível de sua avó, no qual ela por pouco não partiu a cabeça, esmagando a criança. Desde esse abalo o menino surpreende os pais a cada instante, pronunciando frases inteiras como, por exemplo, esta: “Cuidado, mamã, para não cair.”

A articulação das letras durante o sono do menino era, muito evidentemente, um efeito mediúnico, pois resultava do exercício que o Espírito fazia com ele. Numa sessão posterior da Sociedade, na qual não se ocupavam do caso em questão, foi dada espontaneamente a dissertação seguinte, que vem confirmar e desenvolver o princípio desse gênero de mediunidade.

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