Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Um assunto sobre o qual tínhamos guardado um silêncio facilmente compreensível, acaba de ter um desenlace que o coloca no domínio público. Tendo sido publicado por vários jornais das localidades vizinhas, por isso julgamos oportuno falar, a fim de prevenir as falsas interpretações da malevolência relativamente à Doutrina Espírita, e provar que esta doutrina não acoberta com seu manto nada que seja repreensível. Aliás, nosso nome estando envolvido nisso, é importante que se conheça a nossa maneira de ver. Este assunto concerne ao médium Hillaire, de Sonnac (Charente-Inférieure), sobre o qual já tivemos ocasião de falar aos nossos leitores.

Hillaire é um homem moço, casado, pai de família, simples trabalhador, quase iletrado. A Providência o dotou de notável faculdade mediúnica muito variada, cujos detalhes podem ser lidos na obra do Sr. Bez, intitulada Les Miracles de nos jours, que tem muita semelhança com a do Sr. Home. Naturalmente, essa faculdade chamou a atenção sobre ele. Ela lhe havia granjeado uma celebridade local, ao mesmo tempo que havia valido a simpatia de uns e a animadversão de outros. Os elogios um pouco exagerados de que era objeto, nele produziram sua má influência habitual. O sucesso do Sr. Home lhe havia subido à cabeça, como o atestam as cartas que ele nos escreveu. Ele sonhava com um teatro maior que a sua aldeia, contudo, a despeito de suas instâncias para que o mandássemos vir a Paris, jamais lhe quisemos dar a mão. Certamente, se nisso tivéssemos visto uma utilidade qualquer, tê-loíamos favorecido, mas estávamos convencido, com base nas suas idéias e no seu caráter, que conhecíamos, que ele não tinha a qualificação necessária para representar um papel muito preponderante em seu próprio interesse. Aliás, muito recentemente tínhamos visto um triste exemplo dessas ambições que empurram para a capital e que acabam em cruéis decepções. Colocando-o sobre um pedestal, prestaram-lhe um mau serviço. Sua missão era local. Num raio limitado, e sobre uma certa população, ele poderia prestar grandes serviços à causa do Espiritismo, com a ajuda dos notáveis fenômenos que se produziam sob sua influência. Ele os prestou propagando as ideias espíritas em sua terra, mas podia prestá-los ainda maiores, se se tivesse limitado à sua modesta esfera, sem abandonar o trabalho de que vivia, e se com mais prudência tivesse conciliado seu trabalho com o exercício da mediunidade. Infelizmente, para ele, a importância que a si mesmo atribuía o tornava pouco acessível aos conselhos da experiência. Como muita gente, ele os teria aceitado de boa vontade se estivessem de acordo com as suas idéias. Disso nos davam prova suas cartas! Vários indícios nos fizeram prever sua queda, mas estávamos longe de suspeitar a causa que a provocaria. Apenas nossos guias espirituais nos advertiram mais de uma vez para que agíssemos com ele com grande circunspecção e não nos antecipássemos, evitando sobretudo fazê-lo vir a Paris.

Por muita presunção de um lado e muita fraqueza do outro, ele destruiu sua missão no momento em que ela poderia ganhar o maior brilho. Cedendo a perigosos arrastamentos, e talvez, somos levados a crer, a pérfidas insinuações propositadas, ele cometeu uma falta, em seguida à qual deixou a região, e da qual, mais tarde, teve que prestar contas à Justiça. Longe de sofrer com isto, como se vangloriavam os nossos adversários, o Espiritismo saiu são e salvo dessa prova, como se verá em pouco. Desnecessário dizer que queriam fazer passar todas as manifestações do infeliz Hillaire como insignes trapaças.

Neste triste negócio, o lesado, um dos que mais o tinham aclamado ao tempo de sua glória passageira e que o tinha favorecido com o seu patrocínio, escreveu-nos, após a fuga dos culpados, para nos dar conta detalhada dos fatos e pedir nosso concurso e o de nossos correspondentes, a fim de que eles fossem presos. E terminou dizendo: “É preciso tirar-lhes todos os recursos, a fim de fazê-los voltarem à França, e então poderemos fazer que sejam castigados pela justiça dos homens, esperando que a desse Deus de misericórdia os castigue também, pois fazem um grande mal ao Espiritismo. Esperando uma resposta de vosso próprio punho, vou orar a Deus para que sejam descobertos. Sou todo vosso, vosso irmão em Deus, etc.”

Eis a resposta que lhe demos, sem suspeitar que se tornaria uma das peças do processo:

Senhor,

De volta de uma longa viagem que acabo de fazer, encontrei a carta que me escrevestes sobre Hillaire. Deploro tanto quanto qualquer outro esse triste fato, pelo qual, entretanto, o Espiritismo não pode receber nenhum ataque, pois ele não poderia ser responsabilizado pelos atos dos que o compreendem mal. Quanto a vós, o mais lesado nessa circunstância, compreendo vossa indignação e o primeiro momento de arroubo que vos deve ter agitado, mas espero que a reflexão tenha dado mais calma ao vosso espírito. Se fordes realmente espírita, deveis saber que devemos aceitar com resignação todas as provações que a Deus apraz enviar-nos, e que são, elas próprias, expiações que fizemos por merecer por faltas passadas. Não é pedindo a Deus, como fazeis, para nos vingar daqueles de quem temos queixas, que adquirimos o mérito das provas que ele nos manda. Dessa forma, pelo contrário, perdemos os seus frutos e atraímos provas ainda maiores. Não é uma contradição de vossa parte dizer que orais ao Deus de misericórdia para fazer que os culpados sejam presos, a fim de serem entregues à justiça dos homens? Dirigir-lhe semelhantes preces é ofendê-lo, quando nós necessitamos, uns mais, outros menos, de sua misericórdia para nós próprios, esquecendo que ele disse: Sereis perdoados como tiverdes perdoado aos outros. Tal linguagem não é cristã nem espírita, porque o Espiritismo, a exemplo do Cristo, nos ensina a indulgência e o perdão das ofensas. Esta é uma bela ocasião para nós, de mostrarmos grandeza e magnanimidade e de provar que estais acima das misérias humanas. Eu desejo, por vós, que não a deixeis escapar.

Pensais que esse acontecimento fará mal ao Espiritismo. Repito que ele não sofrerá com isto, malgrado o ardor dos seus adversários em explorar esta circunstância em seu proveito. Se devesse prejudicá-lo, seria apenas um efeito local e momentâneo, e nisso teríeis vossa parte de responsabilidade, pelo entusiasmo com que o divulgastes. Tanto por caridade quanto pelo interesse que dizeis ter pela doutrina, deveríeis ter feito o que estava em vosso poder para evitar o escândalo, ao passo que, pela repercussão que lhe destes, fornecestes armas aos nossos inimigos. Os espíritas sinceros vos teriam sido gratos por vossa moderação, e Deus vos teria levado em conta esse bom sentimento.

Lamento tenhais podido pensar que eu servisse, fosse no que fosse, aos vossos desejos de vingança, tomando providências para que os culpados fossem entregues à justiça. Era enganar-vos singularmente quanto ao meu papel, ao meu caráter e à minha compreensão dos verdadeiros interesses do Espiritismo. Se, como dizeis, sois realmente meu irmão em Deus, crede-me, implorai sua clemência e não a sua cólera, pois aquele que chama a cólera sobre outrem corre o risco de fazê-la cair sobre si mesmo.

Tenho a honra de vos saudar cordialmente, com a esperança de vos ver voltar a ideias mais dignas de um espírita sincero.

A.K.

Eis, agora, o relatório que nos foi enviado:

“Iniciado sexta-feira, o caso Hillaire terminou sábado, à meia-noite. Retirando Vitet sua queixa no momento em que ia ser pronunciado o julgamento, sua mulher foi inocentada. Só Hillaire ficava sob a espada da justiça. O ministério público concluiu pela culpabilidade e reclamou a aplicação dos artigos 336, 337, 338, etc., do Código Penal. O Tribunal, declinando de sua competência no que toca à apreciação de todos os transportes e outros fatos medianímicos, fazendo aplicação do Artigo 463, condenou Hillaire a um ano de prisão e multas. Aos nossos olhos, esse julgamento é uma justa aplicação da lei escrita, embora tenha sido reputado um pouco severo por pessoas que absolutamente não são espíritas.

“Se fomos testemunhas do desenrolar de tristes torpezas a que podem conduzir as fraquezas humanas, por outro lado assistimos a um belo espetáculo, quando ouvimos ser proclamada solenemente a ortodoxia da moral espírita; quando, nos intervalos e à saída das audiências, ouvimos estas palavras, repetidas em público: “Devemos invejar a felicidade daqueles cuja fé os põe constantemente em presença daqueles a quem amaram, e dos quais o próprio túmulo não pode mais separar.”

“Com efeito, vede essa multidão que logo o pretório não poderá conter. Aí se comprimem membros de todas as posições sociais, desde a mais ínfima até a mais alta. Pensais que esses homens vêm apenas assistir aos vulgares debates de uma sórdida ocorrência da polícia correcional? À vergonha de dois infelizes que confessaram e contaram todas as circunstâncias de sua falta? Oh! não. O assunto em questão tem um alcance muito mais alto. O Espiritismo está em jogo. Eles vêm ouvir as revelações que contra a nova doutrina terá trazido um inquérito de três meses. Eles vêm gozar o ridículo que não deixará de cair sobre esses pobres alucinados, mas suas esperanças pouco caridosas foram desvanecidas pela sabedoria do tribunal.

“O presidente começa proclamando a mais absoluta liberdade de consciência. Recomenda a todos o respeito pela crença religiosa de cada um, e vai, ele próprio, até o fim, por esse caminho. Apresenta-se o momento de ler a carta de nosso mestre a Vitet (carta publicada acima). Ele a segura e observa, após a leitura, que nela reconhece uma voz digna dos primeiros Pais da Igreja; que jamais foi pregada mais bela moral em mais bela linguagem.

“Vinte testemunhas foram unânimes sobre a veracidade dos transportes; nenhuma manifestou a menor dúvida. Daí a declaração de incompetência do tribunal. Somente Vitet e seu criado Muson contestaram a marcha miraculosa, mas, no mesmo instante, lhes foi contraposto um depoimento redigido nesse mesmo dia por Vitet, escrito de próprio punho, com as assinaturas de Vitet e Muson. Dois membros de nossa sociedade foram ouvidos. O presidente não teve receio de fazer com que surgissem discussões por causa de seus depoimentos sobre certos pontos de doutrina. Um e outro responderam perfeitamente e triunfaram, para satisfação de todos os espíritas.

“O advogado de Hillaire foi, e não podia deixar de ter sido, muito sucinto no que se referia especialmente ao objeto central da acusação. Mas sobre a doutrina, sobre os seus ensinamentos, suas consequências e seus progressos no mundo; sobre a perseverança desses homens da localidade, pelo menos nossos iguais em conhecimento, em inteligência, em moralidade e em posição social, dizia ele; sobre os fatos diariamente publicados pela imprensa; sobre a multiplicidade das obras, dos jornais especializados, ele sempre falou com eloquência e convicção. Seu último golpe foi a leitura de uma carta do Sr. Jaubert. Nessa carta o Sr. Jaubert diz que ele próprio e seus amigos, ocupando-se de manifestações físicas, viram e viram bem, à luz das lâmpadas, bem como à luz do dia, fatos análogos aos obtidos por Hillaire, fatos que ele relata nos mínimos detalhes. Essa leitura, seguida da leitura em tom solene da profissão de fé do próprio Sr. Jaubert, um magistrado, vice-presidente em exercício de um tribunal civil em capital de Departamento, essa leitura comoveu todo o auditório. (O Journal de Saint-Jean-d’Angély de 12 de fevereiro analisa essa notável defesa. Ver também a Revue de l’Ouest, de Niort, de 18 de fevereiro).

“Na sua acusação, o promotor naturalmente difama o acusado. Quanto aos fatos das manifestações, explica-os por meios vulgares: Cada um, diz ele, em sua sala, pode produzi-los à vontade, com a maior facilidade; a menor habilidade é suficiente. Ele cita fatos mediúnicos históricos, para os quais conclui pela alucinação. No que concerne à Doutrina, ele sempre foi digno e respeitoso para com os adeptos dedicados. Sobretudo aplaudiu calorosamente a coragem, a sinceridade e a boa-fé das testemunhas que vieram afirmar sua crença, sem serem detidos nem pelo temor dos sarcasmos e pilhérias, nem por seus interesses materiais, que com isto podem ser prejudicados.”

O Espiritismo não saiu apenas são e salvo desta prova, mas dela saiu com as honras da guerra. É verdade que o julgamento não proclamou a realidade das manifestações de Hillaire, mas colocou-as fora de questão, por sua declaração de incompetência, e por isto mesmo não as declarou fraudulentas. Quanto à Doutrina, ela ali obteve um sufrágio brilhante. Para nós é o ponto essencial, porque o Espiritismo está menos nos fenômenos materiais do que em suas consequências morais. Pouco nos importa que neguem fatos que são constatados diariamente em todos os pontos da Terra, porque não está longe o dia em que todos serão forçados a render-se à evidência. O principal é que a doutrina daí decorrente seja reconhecida como digna do Evangelho, sobre o qual ela se apoia. Certamente o senhor substituto não é espírita; o presidente também não o é, ao que saibamos, mas ficamos feliz por constatar que sua opinião pessoal nada tira à sua imparcialidade.

Os elogios feitos às testemunhas são uma homenagem brilhante prestada à coragem da opinião e à sinceridade da crença. Devíamos a esses firmes sustentáculos de nossa fé um testemunho especial. Apressamo-nos em dá-lo através da mensagem seguinte, que lhes remetemos.

Paris, 21 de janeiro de 1865.


DO SR. ALLAN KARDEC, AOS ESPÍRITAS DEVOTADOS NO CASO HILLAIRE

Caros Irmãos em Espiritismo,

Venho, em meu nome pessoal e no da Sociedade Espírita de Paris, pagar um justo tributo de elogios a todos quantos, na triste circunstância que nos afligiu a todos, sustentaram sua fé e defenderam a verdade com coragem, dignidade e firmeza. Um brilhante e solene testemunho lhes foi prestado pelos órgãos da justiça. O de seus irmãos em crença não lhes podia faltar. Pedi a sua lista, tão exata e completa quanto possível, para inscrever os seus nomes ao lado dos demais que bem mereceram essa homenagem do Espiritismo. Não é para lhes dar uma publicidade que feriria sua modéstia e que, aliás, na hora que passa, seria mais nociva do que útil, mas nosso século está tão preocupado que é esquecido. É preciso que a memória dos devotamentos verdadeiros, livres de qualquer segunda intenção de interesse, não fique perdida para os que vierem depois de nós. Os arquivos do Espiritismo lhes dirão os que têm direito legítimo ao seu reconhecimento.

Aproveito a ocasião, caros irmãos, para conversar um instante convosco, sobre o que nos preocupa.

Antes de mais nada, podia-se temer as consequências desse caso para o Espiritismo. Jamais me inquietei com isso, como o sabeis, porque ele não podia, em todo caso, produzir senão uma emoção local e momentânea; porque a nossa doutrina, assim como a religião, não pode ser responsável pelas faltas dos que não a compreendem. É em vão que os nossos adversários se esforçam em apresentá-la como malsã e imoral; seria necessário provar que ela provoca, desculpa ou justifica um só ato repreensível, ou que ao lado de seus ensinos ostensivos, ela os tenha secretos, sob os quais a consciência possa abrigar-se. Mas como no Espiritismo tudo se passa à luz do dia e ele não prega senão a moral do Evangelho, à prática da qual tende a conduzir os homens que dela se afastam, só uma intenção malévola lhe poderia imputar tendências perniciosas. Considerando-se que cada um pode julgar por si mesmo os seus princípios altamente proclamados e claramente formulados em obras ao alcance de todos, só a ignorância ou a má-fé poderiam desnaturá-lo, assim como fizeram com os primeiros cristãos, acusados de todas as desgraças e de todos os acidentes que atingiram Roma, e de corromper os costumes. O Cristianismo, com o Evangelho na mão, só poderia sair vitorioso de todas essas acusações e da luta terrível contra ele desencadeada. Assim se dá com o Espiritismo, que também tem por bandeira o Evangelho. Para sua justificação, basta-lhe dizer: Vede o que ensino, o que recomendo e o que condeno. Ora, o que é que eu condeno? Todo ato contrário à caridade, que é a lei ensinada pelo Cristo.

O Espiritismo não está apenas na crença na manifestação dos Espíritos. O erro dos que o condenam é crer que só consista na produção de fenômenos estranhos, e isto por que, não se dando ao trabalho de estudá-lo, só lhe veem a superfície. Esses fenômenos só são estranhos para os que não conhecem a sua causa. Mas, quem quer que os aprofunde, neles não vê senão os efeitos de uma lei, de uma força da Natureza que não se conhecia e que, por isto mesmo, não são maravilhosos nem sobrenaturais. Esses fenômenos provam a existência dos Espíritos, que outra coisa não são senão as almas dos que viveram. Consequentemente, provam a existência da alma, sua sobrevivência ao corpo, a vida futura com todas as suas consequências morais. A fé no futuro, assim apoiada em provas materiais, torna-se inabalável e triunfa sobre a incredulidade. Eis por que, quando o Espiritismo tornar-se a crença de todos, não haverá mais incrédulos, nem materialistas, nem ateus. Sua missão é combater a incredulidade, a dúvida, a indiferença. Assim, ele não se dirige aos que têm fé e a quem basta essa fé, mas aos que em nada creem, ou que duvidam. Ele não diz a ninguém que deixe a sua religião; respeita todas as crenças, quando estas são sinceras. Aos seus olhos, a liberdade de consciência é um direito sagrado; se não a respeitasse, faltaria ao seu primeiro princípio, que é a caridade. Neutro entre todos os cultos, ele será o laço que os reunirá sob uma mesma bandeira, a da fraternidade universal. Um dia eles se darão as mãos, em vez de se anatematizarem.

Longe de serem a parte essencial do Espiritismo, os fenômenos apenas são um acessório, um meio suscitado por Deus para vencer a incredulidade que invade a Sociedade, e que consiste, sobretudo, na aplicação de seus princípios morais. É nisto que se reconhecem os espíritas sinceros. Os exemplos de reforma moral provocada pelo Espiritismo já são bastante numerosos para que se possa prever os resultados que produzirá com o tempo. É preciso que sua força moralizadora seja muito grande para triunfar dos hábitos inveterados pela idade, e da leviandade da juventude.

O efeito moralizador do Espiritismo, assim, tem por causa primeira o fenômeno das manifestações, que deu a fé. Se esses fenômenos fossem uma ilusão, como o pretendem os incrédulos, seria preciso abençoar uma ilusão que dá ao homem a força para vencer seus maus pendores.

Mas se, após dezoito séculos, ainda se veem tantas criaturas que professam o Cristianismo e o praticam tão pouco, é lícito admirar que em menos de dez anos todos os que creem no Espiritismo dele não tenham tirado todo o proveito desejável? Entre eles, há os que apenas viram o fato material das manifestações e nos quais foi mais excitada a curiosidade do que tocado o coração. Eis por que nem todos os espíritas são perfeitos. Isto nada tem de surpreendente em seu começo, e se uma coisa deve causar admiração, é o número de reformas operadas nesse curto intervalo. Se nem sempre o Espiritismo vence as más inclinações de maneira completa, um resultado parcial não deixa de ser um progresso a ser levado em conta, e como cada um de nós tem seu lado fraco, isto nos deve tornar indulgentes. O tempo e as novas existências acabarão o que está começado. Felizes os que se pouparem novas provações!

Hillaire pertence a essa classe que o Espiritismo de certo modo apenas faz aflorar, por isso faliu. A Providência o havia dotado de uma notável faculdade, com cujo auxílio ele muito fez de bem. Poderia fazer ainda muito mais se não tivesse, por sua fraqueza, rompido a missão. Não podemos condená-lo nem absolvê-lo, pois só a Deus cabe julgá-lo por não haver cumprido sua tarefa até o fim. Possa a expiação que ele sofre e uma séria guinada sobre si mesmo merecer a clemência de Deus!

Irmãos, estendamos-lhe nossas mãos compassivas e oremos por ele.

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