Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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O manual de Xéfolius

Este livro é uma nova prova de fermentação das ideias espíritas, muito antes que se tratasse dos Espíritos. Mas aqui não são alguns pensamentos esparsos, é uma série de instruções que se diriam calcadas sobre a doutrina atual, ou, pelo menos, bebidas na mesma fonte. Essa obra, atribuída a Félix de Wimpfen, guilhotinado em 1793, parece ter sido publicada em 1788. A princípio foram impressos apenas sessenta e seis exemplares para alguns amigos, conforme nota colocada no início da obra e, consequentemente, era excessivamente rara.

Eis o texto do prefácio, que tem a data de 1788, e cuja forma bastante ambígua bem poderia ser uma maneira de dissimular a personalidade do autor:

“Se eu dissesse como me caiu nas mãos a obra que hoje entrego ao público, o extraordinário que encerra esta história não satisfaria mais o leitor do que pode inquietá-lo o meu silêncio, e nada acrescentaria ao preço inestimável do presente que lhe faço. Surpresa e preocupada por esta singularidade, li com uma espécie de desconfiança; mas logo as conjecturas foram abafadas pela admiração; encontrei o que nenhum filósofo jamais nos havia oferecido, um sistema completo. Senti meu Espírito apoiar-se, fixar-se sobre uma base que lhe era em tudo correspondente; senti minha alma crescer e elevar-se; senti meu coração abrasar-se de um novo amor por meus semelhantes; minha imaginação foi ferida por um respeito mais profundo pelo autor de todas as coisas; vi o porquê de tantos de murmúrios contra a sabedoria eterna; encontrando-me melhor e mais venturosa, pensei que não era por acaso que eu tinha sido escolhida, e que a Providência me havia determinado para ser o instrumento da publicação deste manual, próprio a todos os cultos, que ele respeita, a todas as idades, que ele instrui, a todos os estados, que ele consola, do monarca ao mendigo. O sentimento e a razão me levaram a partilhar com meus irmãos as encorajadoras esperanças, a pacífica resignação, os impulsos para a perfeição de que me acho penetrada. Fortalecida por uma felicidade que até então me era desconhecida, enfrento o ridículo que me atirarão os espíritos fortes pela fraqueza, e de antemão lhes perdoo os pesares com que talvez queiram pagar a felicidade à qual convido o leitor e que, mais cedo ou mais tarde, será sua partilha.”

Um de nossos colegas da Sociedade Espírita de Paris, que mora em Gray, na Haute-Saône, há pouco tempo encontrou essa obra sobre sua mesa, sem que jamais tenha podido saber como nem por quem foi trazida, pois não conhece ninguém que tenha podido fazê-lo, e aliás não compreende o motivo para se ocultar. Entre as pessoas de seu conhecimento, nenhuma fez alusão a isto em conversa, nem pareceu ter conhecimento do livro, quando dele falou. Tocado pelas ideias que o mesmo encerra, ele no-lo informou em sua última viagem a Paris. Tendo sido feita uma publicação recente pela casa Hachette, apressamo-nos em obtê-lo. Seu título, que infelizmente nada diz, deve ter contribuído para deixá-lo ignorado pelo público. Cremos que os espíritas nos serão gratos por tirá-lo do esquecimento, chamando sua atenção sobre ele. Nada melhor podemos fazer do que citar algumas de suas passagens.

“Partimos todos do mesmo ponto, para chegar à mesma circunferência, seguindo por raios diferentes; e é da diversidade dos tipos que temos usado que provém a diversidade de inclinações dos homens para o seu primeiro protótipo. Quanto às inclinações dos que já usaram vários, elas têm tantas causas diversas e tantas diferentes nuanças, que querendo indicá-las nós nos perderíamos no infinito. Contentar-me-ei, pois, em dizer que enquanto nada fazemos senão girar no círculo das vaidades, a gente é sempre semelhante; mas aquele que entrou em suas leis não poderá conceber como pôde cometer certas ações tão pouco semelhantes e tão contrárias ao que é atualmente.” (pág. 87).

“O homem não passa de um protótipo disforme ou débil senão quando criminosamente abusou da força e da beleza daquele que acaba de deixar, porque depois que fazemos a sua experiência, somos privados das vantagens de que abusamos, para nos afastarmos da felicidade e da salvação, e recebemos o que novamente delas nos pode aproximar. Se, pois, foi a beleza, nasceremos feios, disformes; se a saúde, fracos, doentios; se as riquezas, pobres, desprezados; se as grandezas, escravos, vilipendiados; tais, enfim, que o jogo das leis universais no-lo mostra, já aqui embaixo, alguns exemplos constantes naqueles que, depois de haverem abusado dos bens passageiros ou de convenção, para ultrajar os seus irmãos, tornaram-se para eles objeto de desprezo e de piedade.” (pág. 89).

“Quando julgamos das penas que merece um crime, podemos variar na medida das punições. Mas todos concordamos que o crime deve ser punido. Estaremos igualmente de acordo para concordar que os castigos que de um mau sujeito fariam um bom cidadão seriam preferíveis à barbárie de supliciá-lo eternamente e inutilmente para si e para os outros, e que a Onipotência, não podendo ser ameaçada, ofendida, perturbada, não pode querer vingar-se; que assim, tudo quanto experimentamos não é senão para nos esclarecer e nos modificar; mas o preço inestimável que liga o homem a objetos de toda sorte o faz pensar que não é menos necessário um poder infinito para proporcionar o castigo ao delito do qual se tornou culpado contra ele; e em sua louca paixão, imagina que Deus não deixará de vingarse, como ele se vingaria se fosse Deus, ao passo que outros procuram persuadir-se de que o Céu não toma conhecimento de seus crimes. Mas é assim que devem raciocinar os diversos transviados, cada um tomando seu interesse diferente como base.” (pág. 134).

“Se não tivéssemos limitado o Universo ao nosso pequeno globo, a um Elísio, a um Tártaro, todo cercado de velas, teríamos sido mais justos para com Deus e para com os homens.

“Tu não sabes o que fazer desse tirano de Roma que, depois de inumeráveis erros, morreu com o pesar de não haver cometido todos aqueles que ainda se encontram na lista. Não podendo fazê-lo passar aos Elíseos, inventas as Fúrias, um Tártaro, e o precipitas num abismo de penas eternas. Mas quando souberes que aquele tirano, assassinado na flor da idade, não deixou de viver; que ele passou pelas mais abjetas condições; que foi punido pela lei de Talião; que sofreu sozinho tudo o que fez sofrerem tantos outros; quando souberes que instruído pela desgraça, essa grande mestra do homem, modificado pelos sofrimentos, desenganado, esclarecido sobre tudo o que perturba; aquele coração, no qual abundavam os erros e os vícios, e que vomitou os crimes que as leis universais fizeram servir para a modificação e salvação de uma porção de nossos irmãos; quando souberes, digo eu, que aquele mesmo coração é hoje asilo da verdade, das mais suaves e harmoniosas virtudes, quais serão teus sentimentos por ele?” (pág. 131).

“Quando os homens imaginaram um Deus vingativo, fizeram-no à sua imagem. O homem se vinga porque acredita ter sido lesado ou para provar que com ele não se brinca, isto é, ele não se vinga senão por avareza e por medo, crendo só se vingar por um sentimento de justiça. Ora, cada um sabe a que excessos podem levar-nos nossas paixões discordantes. Mas o Eterno, inacessível aos nossos ataques, o Eterno, tão bom quanto justo, só exerce sua justiça na mesma medida da sua bondade. Tendo a sua bondade nos criado para um destino feliz, ele ordenou justamente a natureza das coisas de maneira a:

“1º ─ que nenhum crime fique impune;

“2º ─ que a punição, mais cedo ou mais tarde, se torne uma luz para o infrator e para vários outros;

“3º ─ que não possamos deslocar nem infringir nossas leis sem cair num mal proporcional à nossa infração e à luxação moral do grau atual de nossa modificação. (pág. 132).

“Quanto mais avançares, mais encantos encontrarás na prece de amor, porque é pelo amor que seremos felizes e porque, sendo o amor o elo dos seres, teu bom gênio reagirá sobre ti. Esse companheiro invisível talvez seja o amigo que julgas ter perdido, ou esse outro tu mesmo que pensas existir apenas em teu desejo; mas, ainda um momento, e tu estarás com ele e com todos aqueles que houveres amado, ou que terias amado preferentemente, se os tivesses conhecido.” (pág. 265).

“Quando uma injustiça ou uma maldade despertar em ti o sentimento de indignação, antes de raciocinar sobre essa injustiça ou essa maldade, racionaliza teu sentimento, a fim de que não se transforme em cólera. Dize para ti mesmo: É para suportar isto que necessito de sabedoria. Não será isto uma velha dívida que eu pago? Se me deixar perturbar, não tardarei a cair. Não estamos todos sob a mão do grande Obreiro e não sabe ele melhor do que eu qual o utensílio de que ele deve servir-se? Que conselhos eu daria ao meu amigo se o visse na minha posição? Não é verdade que eu lhe recordaria a gradação dos seres; que eu lhe perguntaria se uma árvore silvestre produz tão bons frutos quanto uma latada de árvores frutíferas; se ele quereria achar-se tão atrasado quanto o perverso, a fim de ser semelhante a ele; se o golpe que ele sofreu não cortou um elo que ele desconhecia ou que ele próprio não tinha força de romper? Não terminaria eu por fixar o seu olhar sobre essa felicidade eterna, preço do complemento de uma harmonia na qual não fazemos progressos senão à medida que nos esclarecemos, que nos destacamos dos miseráveis interesses de onde nascem os choques contínuos e que nos elevamos acima do finito!” (pág. 310).

Estas citações dizem o suficiente para dar a conhecer o espírito dessa obra e tornar supérfluo qualquer comentário. Tendo perguntado ao guia do médium Sr. Desliens, se seria possível evocar o Espírito do autor, ele respondeu: “Sim, certamente, e com tanto mais facilidade por não ser sua primeira comunicação.

Vários médiuns já foram dirigidos por ele em diversas circunstâncias. Mas deixo a ele mesmo a tarefa de se explicar, conforme abaixo.”

Evocado e interrogado quanto às fontes onde teria colhido as ideias contidas em seu livro, o Espírito deu a seguinte comunicação, a 29 de junho de 1865:

Considerando-se que lestes uma obra cujo mérito não me atribuo com exclusividade, deveis saber que o bem da Humanidade e a instrução dos meus irmãos foram o objetivo de meus caros desejos. Isto significa que venho com prazer vos dar as informações que de mim esperais. Já vim diversas vezes às sessões da Sociedade, não só como expectador, mas como instrutor, e não vos admireis do que adianto, quando vos disser, como já o sabeis, que em suas comunicações os Espíritos tomam o nome tipo do grupo a que pertencem. Assim, tal Espírito que assina Santo Agostinho não será o próprio Espírito de Santo Agostinho, mas um ser da mesma ordem, chegado ao mesmo grau de perfeição. Isto posto, sabei que fui, em minha vida corporal, um desses médiuns inconscientes que se revelam frequentemente em vossa época. Por que logo falei, e de uma forma que parece prematura, eu vos direi:

Para cada aquisição do homem nas ciências físicas ou morais, diversas balizas, a princípio desdenhadas, repelidas para a seguir triunfarem, tiveram que ser plantadas, a fim de insensivelmente preparar os Espíritos para os movimentos futuros. Toda ideia nova, fazendo, sem precedente, sua entrada no mundo que se costuma chamar sábio, quase não tem chance de êxito, em razão do espírito de partido e das oposições sistemáticas daqueles que o compõem. Entregar-se a ideias novas, cuja sabedoria entretanto reconhecem, é para eles uma humilhação, pois seria confessar sua fraqueza e provar a insanidade de seus sistemas particulares. Eles preferem negar por amor-próprio, pelo respeito humano, mesmo por ambição, até que a evidência os force a concordar que estão errados, sob pena de se verem cobertos do ridículo que tinham querido atirar sobre os novos instrumentos da Providência.

Assim foi em todos os tempos; também o foi para o Espiritismo. Não fiqueis, pois, admirados por encontrardes em épocas anteriores ao grande movimento espiritualista, diversas manifestações isoladas, cuja concordância com as da hora presente prova, mais uma vez, a intervenção da Onipotência em todas as descobertas que a Humanidade erroneamente atribui a qualquer gênio humano particular.

Sem dúvida, cada um tem seu gênio próprio; mas, reduzido às suas próprias forças, o que fará? Quando um homem dotado de uma inteligência capaz de propagar novas instituições com alguma chance de sucesso aparece na Terra ou alhures, ele é escolhido pela hierarquia dos seres invisíveis encarregados pela Providência de velar pela manifestação da nova invenção, para receber a inspiração dessa descoberta e trazer progressivamente os incidentes que devem assegurar-lhe o êxito.

Dizer-vos o que me impeliu a escrever esse livro, verdadeira manifestação de minha individualidade, ter-me-ia sido impossível ao tempo de minha encarnação. Agora vejo claramente que fui o instrumento, em parte passivo, do Espírito encarregado de me dirigir para o ponto harmonioso sobre o qual eu me devia modelar para adquirir a soma das perfeições que me era dado esperar na Terra.

Há duas espécies de perfeições, bem distintas uma da outra: as perfeições relativas, que nos são inspiradas pelo guia do momento, guia que ainda está muito longe do topo da escada da perfectibilidade, mas que apenas ultrapassa os seus protegidos em razão da compreensão de que são capazes, e a perfeição absoluta, que para mim é uma aspiração ainda velada, porque ainda a ignoro, e à qual se chega pela sucessão das perfeições relativas.

Em cada mundo que ela transita, a alma adquire novos sentidos morais, que lhe permitem conhecer coisas das quais não tinha a menor ideia. Dir-vos-ia eu o que fui? Que posição ocupo na escala dos seres? Com que finalidade? Que utilidade teria para mim um pouco de glória terrena?... Prefiro conservar a suave lembrança de ter sido útil aos meus semelhantes na medida de minhas forças e continuar aqui a tarefa que Deus, em sua bondade, me havia imposto na Terra.

Eu me instruí instruindo os outros. Aqui faço o mesmo. Apenas vos direi que faço parte dessa categoria de Espíritos que designais pelo nome genérico de São Luís.

P. ─ Poderíeis dizer-nos: 1.º ─ se, em vossa última encarnação, fostes a pessoa designada do prefácio da reedição de vossa obra, sob o nome de Félix de Wimpfen?2.º ─ se fazíeis parte da seita dos teósofos cujas opiniões se aproximam muito das nossas? 3.º ─ se deveis reencarnar em breve e fazer parte da falange de Espíritos destinados a acabar o grande movimento a que assistimos? O Sr. Allan Kardec tem a intenção de dar a conhecer o vosso livro. Ele também gostaria de ter a vossa opinião a respeito.

R. ─ Não, não fui Félix de Wimpfen, crede-me. Se tivesse sido, não hesitaria em vo-lo dizer. Ele foi meu amigo, bem como diversos outros filósofos do século dezoito; até mesmo partilhei de seu fim cruel. Mas, repito, meu nome permanecerá desconhecido, e me parece inútil dá-lo a conhecer.

Certamente fui um teósofo, sem partilhar do entusiasmo que distinguiu alguns dos partidários daquela escola.

Tive relações com os principais dentre eles e minhas ideias, como pudestes ver, eram em tudo conformes às deles.

Sou inteiramente submisso aos desígnios da Providência, e se lhe agradar mandar-me de novo à Terra para continuar a me purificar e esclarecer, bendirei sua bondade. Aliás, é um desejo que formulei e cuja realização espero ver em breve.

Vindo o conhecimento de meu livro apoiar as ideias espíritas, só posso aprovar a atitude do nosso caro presidente por ter pensado nisto. Mas talvez não seja o primeiro instigador dessa preparação e, de minha parte, estou certo que alguns Espíritos de meu conhecimento contribuíram para colocá-lo em suas mãos e para inspirar-lhe as intenções que traçou a esse respeito.

Quando me evocardes especialmente, dar-me-ei reconhecer, mas se vier vos instruir, como no passado, não reconhecereis em mim senão um dos Espíritos da ordem de São Luís.

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