Novembro
Respondemo-la da maneira seguinte:
Seria bom publicar tudo quanto dizem e pensam os homens?
Quem quer que possua uma noção do Espiritismo, por superficial que seja, sabe que o mundo invisível é composto de todos aqueles que deixaram na Terra o envoltório visível. Despojando-se, porém, do homem carnal, nem todos se revestiram, por isso mesmo, da túnica dos anjos. Há, portanto, Espíritos de todos os graus de conhecimento e de ignorância, de moralidade e de imoralidade. Eis o que não devemos perder de vista. Não esqueçamos que entre os Espíritos, assim como na Terra, há seres levianos, desatentos e brincalhões; falsos sábios, vãos e orgulhosos de um saber incompleto; hipócritas, malévolos e, o que nos pareceria inexplicável, se de algum modo não conhecêssemos a fisiologia deste mundo, há sensuais, vilões e devassos que se arrastam na lama. Ao lado desses, assim como na Terra, há seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos e dotados de sublimes virtudes. Como, entretanto, o nosso mundo não está na primeira nem na última posição, embora mais vizinho da última que da primeira, disso resulta que o mundo dos Espíritos abrange seres mais avançados intelectual e moralmente do que os nossos homens mais esclarecidos, e outros que estão em situação inferior à dos homens mais inferiores.
Desde que esses seres têm um meio patente de comunicar-se com os homens e de exprimir os seus pensamentos por sinais inteligíveis, suas comunicações devem ser efetivamente o reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios.
De acordo com o caráter e a elevação dos Espíritos, as comunicações poderão ser levianas, triviais, grosseiras e até mesmo obscenas, ou marcadas pela elevação intelectual, pela sabedoria e pela sublimidade. Eles se revelam por sua própria linguagem. Daí a necessidade de não aceitar cegamente tudo quanto vem do mundo oculto, e de tudo submeter a um severo controle. Com as comunicações de certos Espíritos, do mesmo modo que com os discursos de certos homens, poder-se-ia fazer uma coletânea muito pouco edificante. Temos sob os olhos uma pequena obra inglesa, publicada na América, que é prova disto. Dela pode-se dizer que uma senhora não a recomendaria como leitura à filha.
Por isso, não o recomendamos aos nossos leitores.
Há pessoas que acham isto engraçado e divertido. Que se deliciem na intimidade, mas que o guardem para si próprias. O que é ainda menos concebível é que se vangloriem de obter comunicações indecorosas. Isto é sempre indício de simpatias que não podem ser motivo de vaidade, sobretudo quando essas comunicações são espontâneas e persistentes, como acontece a certas pessoas. Isto absolutamente não permite que façamos um julgamento apressado de sua moralidade atual, pois conhecemos pessoas afligidas por esse gênero de obsessão, ao qual de modo algum se presta o seu caráter. Entretanto, como todos os efeitos, este também deve ter uma causa, e se não a encontramos na existência presente, devemos procurá-la numa experiência anterior. Se essa causa não está em nós, está fora de nós. Contudo, há sempre um motivo para estarmos nessa situação, mesmo que esse motivo seja apenas a fraqueza de caráter. Conhecida a causa, de nós depende fazê-la cessar.
Ao lado dessas comunicações francamente más, e que chocam qualquer ouvido um pouco delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas. Haverá algum inconveniente em publicá-las? Se forem divulgadas pelo que valem, haverá apenas um mal menor. Se o forem a título de estudo do gênero, com as devidas precauções e com os comentários e as restrições necessárias, poderão até mesmo ser instrutivas, na medida em que contribuam para se conhecer o mundo espírita em todas as suas nuanças. Com prudência e habilidade, tudo pode ser dito. O mal está em apresentar como sérias coisas que chocam o bom senso, a razão ou as conveniências. Neste caso, o perigo é maior do que se pensa.
Para começar, tais publicações têm o inconveniente de induzir em erro as pessoas que não estão em condições de examiná-las e discernir o verdadeiro e do falso, principalmente numa questão tão nova como o Espiritismo. Em segundo lugar, são armas fornecidas aos adversários, que não perdem a oportunidade de tirar desse fato argumentos contra a alta moralidade do ensino espírita, porque, diga-se mais uma vez, o mal está em apresentar seriamente coisas notoriamente absurdas. Alguns poderão até mesmo ver uma profanação no papel ridículo que emprestamos a certas personagens justamente veneradas, às quais atribuímos uma linguagem indigna delas. As pessoas que estudaram a fundo a ciência espírita sabem que atitude convém adotar em semelhantes casos. Sabem que os Espíritos zombeteiros não têm o menor escrúpulo de enfeitar-se com nomes respeitáveis, mas sabem também que esses Espíritos só abusam daqueles que gostam de se deixar abusar e que não sabem ou não querem destruir suas artimanhas pelos meios de controle já conhecidos. O público, que ignora isto, vê apenas uma coisa: um absurdo oferecido à sua admiração como se fosse coisa séria, e em razão disso diz para si mesmo que se todos os espíritas são como esse, não desmerecem o epíteto com que foram agraciados. Sem a menor dúvida, tal julgamento é precipitado. Vós acusais com justa razão os seus autores de leviandade e lhes dizeis: estudai o assunto e não examineis apenas uma face da medalha. Há, porém, tanta gente que julga a priori, sem se dar ao trabalho de erguer uma palha, principalmente quando não existe boa vontade, que é necessário evitar tudo quanto lhes possa dar motivos para censuras, tendo em vista que se a má vontade juntar-se à malevolência, o que é muito comum, ficarão encantadas por encontrarem o que criticar.
Mais tarde, quando o Espiritismo estiver vulgarizado, mais conhecido e compreendido pelas massas, tais publicações não terão mais influência do que hoje teria um livro de heresias científicas. Até lá, nunca seria demasiada a circunspecção, porque há comunicações que podem prejudicar essencialmente a causa que querem defender, em escala muito maior que os grosseiros ataques e as injúrias de certos adversários. Se algumas fossem feitas com tal objetivo, não teriam menor êxito. O erro de certos autores é escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundado suficientemente, dando lugar, assim, a uma crítica fundamentada. Eles se queixam do julgamento temerário de seus antagonistas, sem atentar para o fato de que muitas vezes são eles mesmos que revelam seu ponto fraco. Aliás, a despeito de todas as precauções, seria presunção suporem-se ao abrigo de toda crítica, a princípio porque é impossível contentar a todo o mundo; depois, porque há os que riem de tudo, mesmo das coisas mais sérias, uns por sua condição, outros por seu caráter. Riem muito da religião. Não é, pois, de admirar que riam dos Espíritos, que não conhecem. Se pelo menos essas brincadeiras fossem espirituosas, haveria compensação. Infelizmente, elas em geral não brilham nem pela finura, nem pelo bom gosto, nem pela urbanidade e muito menos pela lógica. Façamos, pois, o melhor que pudermos, trazendo para nosso lado a razão e a conveniência, e assim traremos para o nosso lado também os trocistas.
Essas considerações serão facilmente compreendidas por todos, mas há uma não menos importante, pois se refere à própria natureza das comunicações espíritas, e por isso não devemos omiti-la. Os Espíritos vão aonde acham simpatia e onde sabem que serão ouvidos. As comunicações grosseiras e inconvenientes, ou simplesmente falsas, absurdas e ridículas, só podem emanar de Espíritos inferiores.
O simples bom senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que se veem complacentemente escutados. Ligam-se àqueles que admiram as suas tolices e muitas vezes se apoderam deles e os dominam a ponto de fasciná-los e subjugá-los.
A importância que, pela publicidade, é dada às suas comunicações, os atrai, excita e encoraja. O único e verdadeiro meio de afastá-los é provar-lhes que não nos deixamos enganar, rejeitando impiedosamente, como apócrifo e suspeito, tudo aquilo que não for racional; tudo aquilo que desmentir a superioridade que se atribui ao Espírito que se manifesta e de cujo nome ele se serve. Então, quando vê que perde o seu tempo, ele se afasta.
Julgamos ter respondido satisfatoriamente à pergunta do nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações espíritas. Publicar sem exame, ou sem correção, tudo quanto vem dessa fonte, seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento. Esta é, pelo menos, a nossa opinião pessoal, que submetemos à apreciação daqueles que, desinteressados pela questão, podem julgar com imparcialidade, pondo de lado qualquer consideração individual. Como todo o mundo, temos o direito de dizer a nossa maneira de pensar sobre a ciência que é objeto de nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, não pretendendo impor nossas ideias a quem quer que seja, nem apresentá-las como leis. Os que partilham da nossa maneira de ver o fazem porque creem, como nós, nela estar a verdade. O futuro mostrará quem está errado e quem tem razão.
Médiuns sem o saber
Urânia
Trema o mau, brilhe o bom à luz do lampadário!
Agite-se o meu peito à santa claridade
Em cintilante flux dardejando a verdade!
E vós, ó pensadores que nas lutas coevas
Prometem-nos a luz e só nos dão as trevas,
Que em sonhos mentirosos, ilusões levianas
Embalais sem cessar as angústias humanas,
Assembleias de sábios, de orgulho a fremir,
Uma voz de mulher vos há de confundir!
Esse Deus que quereis do Universo afastar,
E que em vão pretendeis loucamente explicar,
Buscando em vãos sistemas descobrir-lhe a essência,
Malgrado vós, se revela à vossa consciência;
E aquele que se entrega a um raciocínio ledo,
Se o nega em alta voz, o proclama em segredo!
Tudo à sua vontade nasce, cresce e alterna;
Ele é a suprema base e a própria Vida Eterna;
Tudo nele repousa: o espírito e a matéria;
Que retire o seu sopro... ─ eis a morte sidérea!
Um dia disse o ateu: “Oh, Deus é uma quimera;
Filha do acaso, a vida é apenas uma espera;
O mundo, em que é lançado o ser em tenra idade,
É regido tão só pela necessidade.
Se a morte nos apaga os sentidos em chama,
O báratro do nada logo nos reclama;
A Natura imutável, em seu curso eterno,
Recolhe os nossos restos no seio materno.
Gozemos os instantes que os fados nos doem;
Nossas frontes em luz de rosas se coroem;
Só há um Deus: o prazer; em nossos desatinos
Desafiemos a fúria de incertos destinos!”
Mas logo que a consciência, a interna vingadora
Te censurar, ó louco, a culpa embriagadora,
O pobre repelido em gesto desumano,
O crime em que manchaste as tuas mãos de insano,
Será do selo escuro da matéria cega
Que no teu coração surge a luz que renega
Os teus crimes e os põe ao teu olhar ansioso,
Fazendo-te, que horror, ante ti mesmo odioso.
Então, do Soberano que a tua audácia ainda
Quer negar, sentirás a sua pujança infinda
A oprimir-te, a assediar-te, e embora teus esforços,
Em ti se revelar nos gritos do remorso!
Evitando os humanos, cheio de inquietude,
Procuras da floresta a negra solitude;
E pensas, nos selvagens dédalos que segues,
Escapar a esse Deus que sempre te persegue!
Sobre a presa em pedaços dorme o tigre em paz;
O homem vela em sangue na treva mordaz;
De olhar espavorido em fulgurante horror
Treme-lhe o corpo envolto em gélido suor;
Rumor surdo e sinistro fere-lhe os ouvidos;
Espectros ferozes cercam-no em gemidos;
E sua voz, confessando horríveis erros seus,
Exclama com terror: Graças vos dou, meu Deus!
É o remorso, o carrasco eterno da consciência,
Que nos revela em Deus nossa imortal essência;
É ele que, frequente, faz de um criminoso,
Pelo arrependimento, um mártir glorioso;
Dos brutos separando a humana criatura
Eis o remorso, a chama em que a alma se depura;
E é por seu aguilhão que o ser regenerado
Pela escala do bem se faz mais elevado.
Sim, a verdade brilha e do soberbo ateu
A audácia é repelida pelo esplendor seu.
O panteísmo vem, então, tentando expor
Do seu tolo argumento o estonteante licor.
“Oh mortais fascinados por sonho risível,
Onde ireis encontrar o Grão-Ser invisível?
Ei-lo ante o vosso olhar, o eterno Grande-Todo;
Tudo lhe forma a essência, ele resume o Todo;
Deus esplende no Sol, verdeja na folhagem,
Ruge pelo vulcão e troa na voragem,
Floresce nos jardins, murmura nos nascentes,
Suspira pela voz das aves docemente,
E tinge pelos ares diáfanos tecidos.
É ele que nos move e os órgãos entretidos
Em nós mantém; que pensa em nós, e os mais diversos
Seres são ele; enfim, eis Deus: é o Universo!”
Oh! Deus se manifesta a si mesmo contrário!
É ovelha e lobo, rola e víbora! Tão vário
Que se faz, vez a vez, pedra, planta e animal;
Sua natureza liga e funde o bem e o mal,
Percorre toda a escala, do bruto ao arcanjo!
É luz e lama, eterno, antitético arranjo!
Ele é bravo e covarde, é pequenino e ingente,
Verídico e farsante, imortal e morrente!
E ao mesmo tempo vítima e opressor, oprime;
Cultivando a virtude rola pelo crime;
Lamettrie e Platão num único epitélio,
Sócrates e Melito, Nero e Marco Aurélio,
Um servidor da glória e da ignomínia!
É a força que se afirma e que é também fulmínea!
Contra a sua própria essência afia o gume eterno,
Vota-se ao Paraíso e lança-se ao Inferno,
Invoca o nada e, para cúmulo da injúria,
Contra a sua própria obra eleva a voz em fúria!
Oh, não, mil vezes não, tal dogma monstruoso
Jamais pôde nascer num coração virtuoso.
Imerso no remorso, onde o crime se expia,
O temerário autor da doutrina doentia,
No seio do prazer sentiu-se apavorar
Pela imagem de um Deus que quisera negar;
E para o afastar, blasfemo dos blasfemos!
Uniu-o a este mundo e uniu-o a si mesmo.
Pelo menos, o ateu, premido no tumulto,
Ousando negar Deus, não lhe degrada o vulto.
..................................................................................
Deus, que esta raça humana busca sem cessar,
Deus, que embora ignoto temos de adorar,
É de todos os seres o princípio e o fim:
Mas, para o atingir, qual o caminho enfim?
Não será pela Ciência, efêmera miragem
Que nos fascina o olhar com sua brilhante imagem
E que, frustrando sempre um incapaz querer,
Esvai-se sob a mão que a julgava deter.
Sábios, acumulais escombros sobre escombros,
E os vossos vãos sistemas passam quais ribombos!
Esse Deus que ninguém pode ver sem morrer,
Cuja essência contém um terrível poder
Mas a seus filhos sabe ternamente amar,
Não podes compreendê-lo sem o igualar!
Ah, para unir-se a ele, reencontrá-lo um dia,
Deve a alma voar como o Amor o faria.
Atiremos ao vento o orgulho e a descrença,
Deus nos aplainará os caminhos da crença.
Seu amor infinito jamais afastou
Uma alma que sinceramente o procurou,
E que, calcando aos pés a riqueza e o prazer,
Aspira a confundir-se com o seu puro Ser.
Mas Deus, que ama o humilde, o coração piedoso,
Que expulsa do seu seio o déspota orgulhoso,
Que se oculta ao sábio e se abandona ao prudente,
Não admite partilha, como o amante inclemente.
E, para o agradar, é necessário opor
Às ilusões do mundo um firme desamor.
Felizes os seus filhos que, na solidão,
Ao Bom, ao Verdadeiro e ao Belo é que se dão.
Feliz o homem justo, absorvido inteiro
No tríplice clarão desse foco primeiro!
Em meio às aflições, no seu caudal profundo,
No círculo fechado deste pobre mundo,
Semelhante a um oásis em flor no deserto
O tesouro da fé à sua alma está aberto;
E Deus, sem se mostrar, o coração lhe invade
E dá-lhe uma alegria estranha à Humanidade.
Então o homem prudente aceita o seu destino
E da calma inviolável guarda o bem divino.
Quando a noite o envolve em seu véu constelado
Ele dorme tranquilo e absorve, embalado
Nos sonhos que inebriam o seu coração
Um antegozo celeste da suprema unção.
Tua alma que tem sede ardente da verdade
Quer mergulhar do Todo na profundidade?
Como um pintor, primeiro, cria pela mente
A obra-prima que o seu pincel torna patente,
O Eterno tudo tira da própria natura,
Mas sem se confundir com sua criatura,
Que recebendo a inteligência, luz dos céus,
É livre de falir ou de elevar-se a Deus.
Obra de sua mente e de sua palavra
Cada criação parte do seu seio... e lavra,
Num círculo traçado por leis imutáveis,
O destino escolhido, os fins realizáveis.
Como o artista, Deus pensa antes de produzir.
Como ele, o que produz poderá destruir.
Sim, fonte inesgotável de seres diversos
E dos globos semeados no imenso Universo,
Deus, força irrefreável, da sua Vida Eterna
Transmite às criações a chispa da luzerna.
O livro e a pintura pelo artista feitos,
São inertes produtos, jazem imperfeitos.
Mas o Verbo lançado pelo Onipotente
Destaca-se e se faz por si mesmo existente.
Sem cessar se transforma e jamais perecível
Do metal se projeta a espírito invisível.
O Verbo criador adormece na planta,
Sonha no animal, no homem se levanta;
Desce de grau em grau para logo subir,
Brilha na Criação, no conjunto a fulgir.
Forma nas ondas do éter a imensa cadeia
Que na pedra começa e no arcanjo se alteia.
Obedecendo às leis que regem os meios seus
Cada germe se achega ou se afasta de Deus,
Conforme se devota ao bem, ou o mal o atrai.
O ser inteligente, por si, sobe ou cai.
Ora, se o homem, na atmosfera do mal,
Se lança pelo crime ao plano do animal,
Já o homem puro em anjo se transforma, e esse anjo
Subindo grau a grau pode tornar-se arcanjo.
Elevado ao seu trono, o arcanjo, divindade,
Poderá conservar a personalidade
Ou fundir-se, afinal, na própria Onipotência
Que pode assimilar uma tão pura essência.
Assim, mais de um arcanjo, em celeste esplendor,
Com Deus se confundiu, num excesso de amor.
Mas outros, invejando a glória soberana,
Fascinados de orgulho, o pai da ira humana,
Quiseram discutir os desígnios de Deus
E mergulhar na noite dos segredos seus;
E esse Deus, que um olhar em pó os reduziria,
Apenas os queimou com sua luz que fulgia.
Depois, desfigurados, no Universo, errantes,
Sempre assaltados por remorsos devorantes,
Esses anjos perdidos por seu gesto incréu
Não ousam mais surgir no patamar do céu.
E a vergonha, aguçando os aguilhões ferais,
Atira a alma rebelde às penas infernais,
Enquanto o homem puro, as provas acabadas,
Se eleva ao Paraíso, atravessando escadas.
Todos esses diversos mundos no infinito,
Que firam teu olhar com seus raios benditos.
Que role pelo espaço a vaga universal
De mundos, como os seres, juntos em caudal.
Esses globos reunidos, focos luminosos,
São navios celestes, barcos fabulosos
Em que vagam no espaço, em planos distanciados,
As coortes de luz de Espíritos graduados.
Há mundos horrorosos e mundos felizes:
Nestes últimos reinam, soberanos juízes,
Três princípios divinos ─ honra, amor, justiça,
Cimentando a estrutura social sem cobiça.
Eternamente amados por seus habitantes
Constituem o penhor de venturas constantes.
Outros mundos, rodando em insolentes vertigens,
Seguiram o que os anjos em pecado exigem.
Esses mundos, autores da própria desgraça,
Trocaram por sua lei a lei de Deus sem jaça,
E em seu solo varrido por louca tormenta
A impura multidão dos seres se lamenta.
Nosso globo noviço, em seus passos primeiros,
Até hoje flutua entre esses dois roteiros.
Ultrajando a moral e a própria Natureza,
Quando um mundo de crime excede a sua devesa;
Quando os povos mergulham em prazeres frementes,
Fechando seus ouvidos à voz dos videntes;
Quando o Verbo divino, em seu mais leve traço,
Se apaga neste mundo enceguecido e baço;
Então do Onipotente a cólera a ferver
Cai sobre o condenado e o leva a perecer.
Arcanjos vingadores, com asas possantes
Batem a terra ímpia... e os mares ululantes
Alteando enormes ondas sobrepassam as fragas
E devastando o solo precipitam as águas;
Explode e ruge a chama dos vulcões rotundos
Dispersando no espaço os resíduos do mundo.
E o Soberano Ser, cuja vingança explode,
Quebra esse globo impuro que já crer não pode.
Nossa Terra mesquinha é uma região de prova
Em que o justo a sofrer em prantos se renova;
Purificando as lágrimas seu coração
Preparam-lhe o caminho de melhor mansão.
Não é portanto em vão que o sono anestesiante
Nos leva num transporte ao sonho inebriante,
E num rápido impulso somos conduzidos
A um radiante astro novo em luz entretecido,
Onde cremos errar em vastas pradarias
Percorridas por seres de sabedoria;
E vemos esse globo iluminado a sóis
Brancos, azuis e rubros, que, nos arrebóis,
Fazem cruzar no espaço os seus variados tons
E ao luar tingem os campos com seus entretons.
Se manténs neste mundo um coração virtuoso
Irás para esses globos de aspecto suntuoso,
Onde há alegria e paz, onde a sabedoria
Mora e a felicidade eterna se irradia.
Sim, tua alma vê essas radiosas regiões
Que os favores do céu embelezam em festões,
Onde o ser se depura e sobe pouco a pouco
Enquanto o mau regride em seu caminho louco,
E do reino do mal rodando em seus anéis
Cai de círculo em círculo entre os infiéis.
Espelho que reflete a imagem do Universo,
Nossa alma pressagia esses fados diversos.
A alma, essa energia que rege os sentidos,
Que logo lhe obedecem aos mínimos pedidos, ─
Que, como chama presa num vaso de argila,
Com seu ardor a frágil prisão aniquila, ─
A alma, que guarda a lembrança do passado
E às vezes sabe ler no futuro afastado,
Não é breve centelha do fogo vital.
Tu mesmo, tu compreendes que a alma é imortal.
Nas regiões espaciais, em plena eternidade,
Conservando a constância e a própria identidade,
Não, a alma não morre, apenas se transporta,
E de abrigo em abrigo ela sempre se exorta.
Nossa alma, ao isolar-se do mundo exterior,
Poderá conquistar um senso superior,
E na ebriez do sono magnético
Possuir outra visão e o dom profético.
Por instantes liberta dos liames terrestres,
Facilmente percorre as amplidões celestes,
E ágil, num salto, lançando-se ao firmamento,
Vê através dos corpos e lê no pensamento.
Swedenborg
“Dessa vez não fiquei tão apavorado, e a luz que o envolvia, embora muito viva e resplendente, não me produziu nos olhos nenhuma impressão dolorosa. Estava vestido de púrpura, e a visão durou um bom quarto de hora.
Comunicação de Swedenborg prometida na sessão de 16 de setembro
─ Já me ocupava com isso, mas de modo algum havia desejado essa revelação. Ela me veio espontaneamente.
─ Não. Acreditei no que me dizia porque nele via um ser sobre-humano e por isso fiquei lisonjeado.
─ Para ser melhor obedecido.
─ Certamente poderia, mas não o faz mais.
─ Sim, nas primeiras idades da Terra.
─ Não o fez com má intenção. Ele próprio estava enganado, pois não era bastante esclarecido. Hoje eu vejo que as ilusões do meu próprio Espírito e da minha inteligência o influenciavam, malgrado seu. Entretanto, no meio de alguns erros de sistema, fácil é reconhecer grandes verdades.
─ Não. É uma ficção.
─ Deus não é o homem: o homem é que é uma imagem de Deus.
─ Digo que o homem é a imagem de Deus, porque a inteligência, o gênio que ele por vezes recebe do céu é uma emanação da Onipotência Divina. Ele representa Deus na Terra, pelo poder que exerce sobre toda a Natureza e pelas grandes virtudes que tem a possibilidade de adquirir.
─ Não. O homem não é parte da Divindade. É apenas a sua imagem.
─ Quando eu estava em silêncio e em recolhimento, meu Espírito como que ficava deslumbrado, em êxtase, e eu via claramente uma imagem à minha frente, que me falava e ditava o que eu deveria escrever. Por vezes, minha imaginação se misturava a isso.
─ Essa revelação é verdadeira. Beylon a desnaturou.
─ Eu vos disse que estais num caminho mais seguro que o meu, visto que as vossas luzes são em geral mais amplas. Eu tinha que lutar contra uma ignorância muito maior e sobretudo contra a superstição.
A alma errante
No volume intitulado Les Six Nouvelles * de Maxime Ducamp, encontra-se uma história tocante, que recomendamos aos nossos leitores. É a de uma alma errante que conta suas próprias aventuras. Não temos a honra de conhecer o Sr. Maxime Ducamp, a quem jamais vimos.
Consequentemente, não sabemos se colheu seus ensinamentos em sua própria imaginação ou em estudos espíritas. Mas, seja como for, não podia ser mais felizmente inspirado.
Podemos julgá-lo pelo seguinte fragmento. Não falaremos do quadro fantástico no qual a novela é encaixada. Isto é um acessório sem importância e puramente formal.
“Eu sou uma alma errante, uma alma penada. Vago através dos espaços, esperando um corpo. Viajo nas asas do vento, no azul do céu, no canto dos pássaros, nas pálidas claridades do luar. Eu sou uma alma penada...
“Desde o instante em que Deus nos separou d’Ele, muitas vezes temos vivido na Terra, avançando de geração em geração, abandonando sem pesar os corpos que nos são confiados e continuando a obra do nosso próprio aperfeiçoamento através
das existências às quais nos submetemos.
“Quando deixamos este hospedeiro incômodo, que nos serve tão mal; quando ele vai fecundar e renovar a terra, de onde saiu; quando em liberdade, enfim, abrimos as asas, então Deus nos dá a conhecer o nosso objetivo. Vemos nossas existências precedentes; avaliamos o nosso progresso realizado durante séculos; compreendemos as punições e as recompensas que nos atingiram, pelas alegrias e pelas dores de nossa vida; vemos nossa inteligência crescer de nascimento em nascimento, e aspiramos ao estado supremo, pelo qual deixaremos esta pátria inferior para ganhar os planetas radiosos, onde as paixões são mais elevadas, o amor menos ambicioso, a felicidade mais constante, os órgãos mais desenvolvidos, os sentidos mais numerosos, e que serve de morada para os habitantes de mundos que, por suas virtudes, se aproximaram da beatitude, mais do que nós.
“Quando Deus nos envia novamente a corpos que devem viver para nós uma vida miserável, perdemos totalmente a consciência daquilo que antecedeu a esses novos renascimentos. O eu que havia despertado volta a dormir; não persiste mais. De nossas passadas existências restam apenas vagas reminiscências, que são para nós a causa de simpatias, de antipatias e por vezes de ideias inatas.
“Não falarei de todas as criaturas que viveram do meu sopro, mas a minha última existência sofreu uma desgraça tão grande, que é apenas dela que eu vos quero contar a história”.
Seria difícil definir melhor o princípio e a finalidade da reencarnação, a progressão dos seres, a pluralidade dos mundos e o futuro que nos espera. Eis agora, em duas palavras, a história daquela alma.
“Um moço amava uma jovem e era correspondido. Havia obstáculos opondo-se à sua união. Ele pediu a Deus que permitisse que durante o sono do corpo, sua alma se desprendesse a fim de ir visitar a bem-amada. Esse favor lhe foi concedido.
“Assim, todas as noites sua alma se evola, deixando o corpo em estado de completa inércia, estado de que não sai senão quando a alma retorna para se reincorporar. Durante esse tempo, vai visitar a sua amada.
“Ele a vê, sem que ela o suspeite. Quer falar-lhe, mas ela não o escuta. Observa-lhe os menores movimentos e surpreende-lhe o pensamento. Fica feliz com as alegrias dela e triste com as suas dores. Nada mais gracioso e mais delicado que o quadro destas cenas entre a moça e a alma invisível.
“Mas, oh! fraqueza do ser encarnado! Um dia, ou melhor, uma noite, ele esquece de si mesmo. Três dias se passam sem que pense em seu corpo, que não pode viver sem sua alma. De repente, pensa em sua mãe, que o espera e que deve estar inquieta por causa desse sono tão prolongado. Corre, mas é demasiado tarde. Seu corpo cessara de viver.
“Assiste aos seus funerais, depois consola sua mãe. Em desespero, a noiva não quer ouvir falar de nenhuma outra união. Vencida, entretanto, pelas solicitações da própria mãe, acaba cedendo, depois de longa resistência.
“A alma errante lhe perdoa uma infidelidade que não está em seu pensamento. Mas, para receber suas carícias e não mais deixá-la, pede para encarnar-se no filho que vai nascer”.
Se o autor não está convencido das ideias espíritas, devemos convir que representa muito bem o seu papel.
____________________________________________
* Librairie Nouvelle, Boulevard des Italiens.
O Espírito e o jurado
“Circunstâncias atenuantes foram admitidas pelo júri, baseadas nos motivos acima indicados, e a pena de morte foi descartada.
Advertência de além-túmulo - O oficial da Criméria
O L’Indépendance Belge, que não pode ser acusado de excessiva benevolência para com as crenças espíritas, relatou o fato seguinte, reproduzido por vários jornais, e que por nossa vez transcrevemos com todas as reservas, pois não tivemos ocasião de constatar a sua realidade.
“Seja porque a nossa imaginação inventa e povoa um mundo das almas ao nosso lado e acima de nós; seja porque o mundo no qual estamos, vivemos e agimos existe realmente, é fora de dúvida, pelo menos para mim, que se produzem acidentes inexplicáveis que provocam a ciência e desafiam a razão.
“Na guerra da Crimeia, durante uma dessas noites tristes e lentas que se prestam maravilhosamente à melancolia, ao pesadelo e a todas as nostalgias do céu e da Terra, um jovem oficial, levantando-se de repente, sai de sua tenda, vai procurar um dos seus camaradas e lhe diz:
“─ Acabo de receber a visita de minha prima, a Srta. de T...
“─ Estás sonhando.
“─ Não. Ela entrou, pálida e sorridente, apenas deslizando no chão muito duro e muito áspero para os seus pés delicados. Olhou-me, depois que a sua voz doce bruscamente me despertara, e me disse: ‘Demoras muito! Toma cuidado! Algumas vezes a gente morre na guerra sem ir à guerra!’ Eu quis falar-lhe, levantar-me e correr para ela, mas ela recuou, e pondo o dedo sobre os lábios, disse: ‘Silêncio! Tem coragem e paciência. Nós voltaremos a ver-nos’. Ah, meu amigo! Ela estava muito pálida. Tenho certeza de que ela está doente e de que me chama.
“─ Estás doido e sonhando acordado, retorquiu o amigo.
“─ É possível, mas o que é esta agitação do meu coração, que a evoca e me faz vê-la?
“Os dois moços conversaram e pela madrugada o amigo acompanhou à tenda o oficial visionário, quando este estremeceu de repente e lhe disse:
“─ Ei-la, meu amigo! Ei-la diante da minha tenda... Ela me faz sinais dizendo que eu não tenho fé nem confiança.
“O amigo, é bom que se diga, nada via. Ele fez o que pôde para animar o camarada. Raiou o dia, e com o dia vieram as ocupações suficientemente sérias para que deixasse de pensar nos fantasmas da noite. Mas, por uma precaução muito razoável, no dia seguinte uma carta partiu para a França, pedindo urgentes notícias da Srta. de T... Alguns dias depois responderam que a Srta. de T... estava gravemente doente e que se o oficial pudesse obter uma licença, pensavam que sua visita teria ótimo efeito.
“Pedir licença no momento das lutas mais rudes, talvez na véspera de um ataque decisivo, dando como razão temores sentimentais, era coisa em que não se podia pensar. Contudo, creio lembrar-me que a licença foi pedida e concedida e que o moço oficial ia partir para a França, quando teve mais uma visão. Esta era pavorosa. A Srta. de T..., pálida e muda, deslizou uma noite para dentro da tenda e lhe mostrou o longo vestido branco que arrastava. O moço oficial nem por um momento duvidou que sua noiva estivesse morta. Estendeu a mão, pegou uma de suas pistolas e arrebentou os miolos.
“Com efeito, naquela mesma noite, naquela mesma hora a Srta. de T... havia dado o último suspiro.
“Esta visão era produzida pelo magnetismo? Não sei. Era loucura? Assim fosse! Mas era qualquer coisa que escapava às zombarias dos ignorantes e às zombarias ainda mais inconvenientes dos cientistas.
“Quanto à autenticidade do fato, posso garanti-la. Interrogai os oficiais que passaram esse longo inverno na Crimeia, e não serão poucos os que vos contarão fenômenos de pressentimento, de visão, de miragem da pátria e de parentes, análogas a esta que acabo de contar.
“O que se deve concluir? Nada, a não ser que eu terminasse a minha correspondência de uma maneira muito lúgubre, e que soubesse fazer dormir sem saber magnetizar.”
THÉCEL
Como dissemos no começo, não podemos constatar a autenticidade do fato. Mas o que podemos garantir é a sua possibilidade. Os exemplos verificados, antigos e recentes, de advertências de além-túmulo são tão numerosos que este nada tem de mais extraordinário que outros, testemunhados por tantas pessoas dignas de fé. Em outros tempos podiam parecer sobrenaturais, mas hoje, que se conhece a sua causa e que estão psicologicamente explicados, graças à teoria espírita, nada têm que os afaste das leis da Natureza. Acrescentaremos apenas uma observação: Se esse oficial tivesse conhecido o Espiritismo, saberia que o meio de se ligar à sua noiva não seria o suicídio, pois essa atitude pode afastá-los por muito mais tempo do que ele teria vivido na Terra. O Espiritismo lhe teria dito, além disso, que uma morte gloriosa, no campo de batalha, lhe teria sido mais proveitosa do que essa morte voluntária por um ato de fraqueza.
* * *
Eis outro fato de advertência de além-túmulo, relatado pela Gazette d’Arad (Hungria) de novembro de 1858:
“Dois irmãos israelitas de Gyek, Hungria, tinham ido a Grosswardein, levar suas duas filhas de 14 anos a um internato. Durante a noite seguinte à sua partida, outra filha de um deles, de 10 anos de idade, que ficara em casa, levantou-se sobressaltada e, chorando, contou à mãe que vira em sonhos o pai e o tio cercados por vários camponeses que lhes queriam fazer mal.
“A princípio a mãe não ligou nenhuma importância a essas palavras. Vendo, porém, que não podia acalmar a criança, levou-a à casa do maire local, onde a menina contou novamente o sonho, acrescentando que reconhecera entre os camponeses dois de seus vizinhos, e que o fato se passara na orla de uma floresta.
“Imediatamente o maire mandou verificar na casa dos dois camponeses, que realmente estavam ausentes. Depois, para se assegurar da verdade, mandou outros emissários na direção indicada, que encontraram cinco cadáveres nos confins de um bosque. Eram os dois pais com as filhas e o cocheiro que os conduzia. Os cadáveres haviam sido atirados sobre um braseiro para se tornarem irreconhecíveis. Logo a polícia começou a fazer pesquisas. Prendeu os dois camponeses designados, no momento em que procuravam trocar dinheiro manchado de sangue. Na prisão confessaram o crime, dizendo que reconheciam o dedo de Deus na pronta descoberta do seu crime.
Os convulsionários de Saint-Médard
─ Estou às vossas ordens.
─ Errante e feliz.
─ Não. Estou constantemente ocupado em fazer o bem aos homens.
─ Intriga e magnetismo.
─ Elas se comunicam muito facilmente em certos casos, e vós não sois tão estranhos às faculdades dos Espíritos para não compreenderdes que eles nisto tiveram uma grande participação, por simpatia para com aqueles que as provocavam.
─ Nem de leve.
─ Muitos.
─ Pouco elevada.
─ Deus quis fazer cessar a coisa porque havia degenerado em abuso e escândalo. Foi preciso um meio, e ele empregou a autoridade dos homens.
─ Pensais que eu tenha sido consultado? Escolheram o meu túmulo calculadamente. Minhas opiniões religiosas, em primeiro lugar, e o pouco de bem que eu tinha procurado fazer foram explorados.
Observações a propósito do vocábulo milagre
vocábulo milagre.
Aviso
espaço.