O que é o Espiritismo?

Allan Kardec

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CAPÍTULO I
PEQUENA CONFERÊNCIA ESPÍRITA

PRIMEIRO DIÁLOGO.
O CRÍTICO.

Visitante. — Confesso-vos, caro senhor, que a minha razão recusa admitir a realidade dos fenômenos estranhos atribuídos aos Espíritos, persuadido que estou de estes não terem senão uma existência imaginária. Entretanto, eu me curvaria diante da evidência, se disso tivesse provas incontestáveis; por isso desejo merecer-vos a permissão de assistir somente a uma ou duas experiências, para não ser indiscreto, a fim de convencer-me, caso seja possível.

Allan Kardec. — Desde que a vossa razão repele o que nós consideramos irrecusável, vós a credes superior às de todos quantos não compartilham de vossas opiniões.

Longe de mim o pensamento de duvidar do vosso talento e a pretensão de supor minha inteligência superior à vossa; admiti, pois, que eu esteja iludido, é a vossa razão quem vo-lo diz: e não falemos mais nisso.

V. — Entretanto, se conseguísseis convencer-me, conhecido que sou como antagonista das vossas ideias, isto seria um milagre eminentemente favorável à causa que defendeis.

A. K. — Lamento-o, caro senhor, porém não tenho o dom de fazer milagres. Julgais que uma ou duas sessões bastariam para adquirirdes convicção?

Seria, realmente, um verdadeiro prodígio; eu precisei de mais de um ano de trabalho para ficar convencido; o que prova que não cheguei a esse estado inconsideradamente.

Além disso, não realizo sessões públicas e parece-me que vos enganastes sobre o fim das nossas reuniões, visto não fazermos experiências com o fito de satisfazer à curiosidade de ninguém.

V. — Não procurais, pois, fazer prosélitos?

A. K. — Para que buscarmos fazer-vos prosélito, quando não o quereis ser?

Não pretendo forçar convicção alguma. Quando encontro pessoas que sinceramente desejam instruir-se e dão-me a honra de pedir-me esclarecimentos, folgo e cumpro um dever respondendo-lhes nos limites dos meus conhecimentos; quanto aos antagonistas, porém, que, como vós, têm convicções arraigadas, não tento arredar-lhes um passo, atento a que é grande o número dos que se mostram bem dispostos, para que possamos perder o nosso tempo com aqueles que o não estão.

Estou certo de que, diante dos fatos, a convicção há de vir, mais tarde ou mais cedo, e que os incrédulos hão de ser arrastados pela torrente; por ora, alguns partidários, de mais ou de menos, nada alteram na pesagem; pelo que nunca me vereis incomodado para atrair, às nossas ideias, aqueles que, como vós, sabem as razões que têm para fugir delas.

V. — Há mais interesse em convencer-me do que o supondes. Permitis que me explique com franqueza e prometeis-me não ver ofensa alguma nas minhas palavras? Trata-se das minhas ideias sobre a coisa em si e não sobre a pessoa a quem me dirijo; posso respeitar a pessoa, sem participar de suas opiniões.

A. K. — O Espiritismo me tem ensinado a desprezar essas mesquinhas suscetibilidades do amor-próprio, e a me não ofender com palavras. Se as vossas expressões saírem dos limites da urbanidade e das conveniências, apenas concluirei que sois um homem mal-educado, mas não irei além.

Quanto a mim, antes quero que os outros fiquem com os defeitos, do que compartilhar deles.

Vedes, só por isso, que o Espiritismo já serve para alguma coisa.

Já vos disse, senhor, não tenho a pretensão de vos fazer adotar a minha opinião; respeito a vossa, se é sincera, como desejo que respeiteis a minha.

Acreditando ser o Espiritismo um sonho sem sentido, dissestes, sem dúvida, vindo à minha casa: Vou ver um louco. Confessai-o francamente, pois com isso não me escandalizarei.

Todos os espíritas são loucos, é coisa sabida. Pois bem! se julgais assim, eu tenho escrúpulo de transmitir-vos a minha enfermidade mental; e causa-me espanto ver-vos, com tal pensamento, buscar uma convicção que vos vai colocar no número dos loucos. Se já estais persuadido de que não conseguiremos convencer-vos, o passo que destes é inútil, visto que só terá por fim a curiosidade. Abreviemos, pois, por favor, porque me falta tempo para perder em conversações sem objeto.

V. — O homem pode enganar-se, deixar-se iludir, sem que, por isso, seja louco.

A. K. —Dizei logo: acreditais, como muitos, que isto é moda que durará certo tempo; mas deveis convir que um passatempo que, em alguns anos, tem conquistado milhões de partidários, em todos os países, que conta entre seus adeptos sábios de toda ordem, que se propaga de preferência nas classes mais esclarecidas, é mania singular, que merece examinada.

V. — Tenho minhas ideias a respeito, é certo, porém elas não se acham tão absolutamente firmadas, que não consinta em sacrificá-las à evidência.

Disse-vos que teríeis certo interesse em me convencer.

Confesso-vos que tenciono publicar um livro em que me proponho demonstrar ex professo (sic) a minha opinião sobre o que considero um erro; e como esse livro deve produzir efeito, dando um golpe no Espiritismo, eu deixaria de publicá-lo, caso ficasse convencido da realidade da vossa doutrina.

A. K. — Eu sentiria que ficásseis privado do que vos pode proporcionar um livro que deve produzir tanto efeito; além disso, não tenho interesse algum em impedir a sua publicação: ao contrário, desejo-lhe grande circulação, porque assim ele nos servirá de prospecto e anúncio.

A nossa atenção é sempre chamada sobre aquilo que vemos atacado; há muita gente que quer ver os prós e os contras, e a crítica faz aparecer a verdade, mesmo aos olhos daqueles que não a procuravam aí; é assim que muitas vezes, sem querer, se faz propaganda do que se quer combater.

A questão dos Espíritos é, por outro lado, tão palpitante de interesse, choca a tal ponto a curiosidade, que basta assinalá-la à atenção, para que nasça o desejo de aprofundá-la ¹.

V. — Então, no vosso entender, a crítica para nada serve, a opinião pública nada vale?

A. K. — Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas como juízo individual, que bem pode enganar-se.

Lede a história e vereis quantos trabalhos importantes foram, ao aparecer, criticados, sem que isso os excluísse do número das grandes obras; quando, porém, uma coisa é má, não há elogio que a torne boa.

Se o Espiritismo é uma falsidade, ele cairá por si mesmo; se, porém, é uma verdade, não há diatribe que possa fazer dele uma mentira.

Ao nosso modo de ver, vosso livro não será mais que uma apreciação pessoal; a verdadeira opinião pública decidirá da justeza dos vossos conceitos.

Procurarão examinar. Se mais tarde reconhecerem que vos enganastes, vosso livro se tornará ridículo, como os que, não há muito, foram publicados contra as teorias da circulação do sangue, da vacina, etc., etc.

Esquecia-me, porém, que íeis tratar a questão ex professo , o que equivale a dizer que a estudastes sob todas as suas faces; que vistes tudo o que se pode ver, lestes tudo o que sobre a matéria se tem escrito, analisastes e comparastes as diversas opiniões; que vos achastes nas melhores condições de observação pessoal; que durante anos lhe consagrastes vigílias; em suma: que nada desprezastes para chegar à verdade. Devo crer que tal se deu, se sois um homem sério, porque somente aquele que fez tudo isso pode dizer que fala com conhecimento de causa.

Que juízo formaríeis de um homem que, sem conhecimento de literatura, sem ter estudado a pintura, se erigisse em censor de uma obra literária ou de um quadro?

É de lógica elementar que o crítico conheça, não superficialmente, mas, a fundo, aquilo de que fala, sem o que, sua opinião não tem valor.

Para combater um cálculo é necessário opor-se-lhe outro cálculo, o que exige saber calcular. O crítico não se deve limitar a dizer que tal coisa é boa ou má; é preciso que justifique a opinião por uma demonstração clara e categórica, baseada sobre os princípios da arte ou ciência a que pertence o objeto da crítica. Como poderá fazê-lo, quando não conhecer esses princípios?

Não tendo ideia da mecânica, podereis apreciar as qualidades, ou os defeitos de determinada máquina?

Não. Pois bem: o vosso juízo acerca do Espiritismo, que aliás não conheceis, não pode ter mais valor que o que, nas condições acima, emitísseis sobre a aludida máquina. A cada passo sereis apanhado em flagrante delito de ignorância, porque aqueles que têm estudado a matéria verão logo que a desconheceis; donde concluirão que não sois um homem sério ou que agis de má-fé; expondo-vos, portanto, a receber, quer num, quer noutro caso, desmentido pouco lisonjeiro ao vosso amor-próprio.

V. — É precisamente para evitar esse perigo que vim pedir-vos permissão para assistir a algumas experiências.

A. K. — E julgais que isto vos baste para poder, ex professo , falar de Espiritismo?

Como podereis compreender essas experiências e, ainda mais, julgá-las, quando não estudastes os princípios em que elas se baseiam?

Como apreciaríeis o resultado, satisfatório ou não, de ensaios metalúrgicos, por exemplo, não conhecendo a fundo a metalurgia?

Permiti-me dizer-vos, senhor, que vosso projeto é absolutamente a mesma coisa que, não tendo estudado a Matemática, nem a Astronomia, vos apresentásseis a um dos membros do Observatório, dizendo-lhe:

“Senhor, quero escrever um livro sobre Astronomia e provar que o vosso sistema é falso; mas, como desconheço os menores rudimentos dessa ciência, deixai que, por uma ou duas vezes, me sirva de vossa luneta; o que será suficiente para ficar sabendo tanto quanto vós.”

É somente por extensão que a palavra criticar se tornou sinônima de censurar; em sua acepção própria e segundo a etimologia, ela significa julgar, apreciar. A crítica pode, pois, ser aprobativa ou desaprobativa.

Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo; quem empreende essa tarefa, deve fazê-lo sem ideias preconcebidas; porém, se antes de abrir o livro já o condena em pensamento, o exame não pode ser imparcial.

Tal o caso da maioria dos que têm falado contra o Espiritismo. Apenas sobre o nome formaram uma opinião, fazendo qual juiz que proferisse uma sentença sem antes examinar as peças do processo.

A consequência foi que seu julgamento feriu em falso, e que, em vez de persuadir, ocasionaram riso.

A maior parte dos que seriamente têm estudado a questão mudou de ideia, e mais de um adversário se tem tornado adepto do Espiritismo, quando reconhece que o seu objetivo é muito diverso daquele que supunha.

V. — Falais do exame dos livros em geral; acreditais que seja materialmente possível a um jornalista ler e estudar todos os que lhe passam pelas mãos, sobretudo quando se ocupam com teorias novas, que lhe seria preciso aprofundar e verificar?

Seria o mesmo que exigir de um impressor que ele lesse todas as obras saídas de sua prensa.

A. K. — A tão judicioso raciocínio não tenho outra resposta a dar senão que, quando nos falta o tempo para fazer conscienciosamente uma coisa, é melhor não fazê-la; é preferível produzir um só trabalho bom a fazer dez maus.

V. — Não acrediteis que minha opinião se tenha formado levianamente. Vi mesas girarem e produzirem sons como de pancadas; vi pessoas escreverem o que, segundo diziam, lhes ditavam os Espíritos; estou, porém, convencido de que nisso há charlatanismo.

A. K. — Quanto vos cobraram para mostrar-vos essas coisas?

V. — Nada, por certo.

A. K. — Ora, aí tendes charlatães de uma espécie singular, que vão reabilitar o nome da sua classe. Até ao presente não se tinha ainda visto charlatães desinteressados.

Suponhamos que um gaiato de mau gosto tenha querido uma vez divertir-se assim; será crível que as outras pessoas presentes pactuassem com ele? Demais, com que fim se fariam elas cúmplices de uma mistificação? Direis que com o fim de recrear a sociedade...

Concordo em que uma vez se prestassem a tal brinquedo; porém, quando esse brinquedo dura meses e anos, julgo que o mistificado é o próprio mistificador. Não é provável que, só pelo gosto de fazer que creiam em uma coisa que ele sabe ser falsa, alguém vá passar horas inteiras imóvel, agarrado a uma mesa. O gosto não equivaleria à pena.

Antes de julgar isso uma fraude, é preciso indagar que interesse havia em enganar; ora, não deixareis de convir que há pessoas que se não coadunam com a mais leve suspeita de embuste; pessoas cujo caráter já é uma garantia de probidade.

Coisa muito diversa seria se se tratasse de uma especulação, porque a tentação do ganho é má conselheira; mas, admitindo mesmo que, neste último caso, ficasse bem comprovado um manejo fraudulento, isso em nada ofenderia a realidade do princípio, porque de tudo se pode abusar.

Por vender-se vinho falsificado, não se deve concluir que não existe vinho puro.

O Espiritismo não é mais responsável pelos atos daqueles que abusam desse nome e o exploram, do que o é a ciência médica pelos atos dos charlatães que impingem suas drogas, ou a religião pelos dos sacerdotes que iludem seu ministério.

Por sua novidade e mesmo por sua natureza, o Espiritismo se presta a abusos; ele, porém, fornece os meios para que os reconheçam, definindo claramente seu verdadeiro caráter e afastando de si toda a solidariedade com aqueles que viriam a explorá-lo ou desviá-lo de seu fim exclusivamente moral para transformá-lo em meio de vida, em instrumento de adivinhação ou de investigações fúteis.

Desde que o Espiritismo mesmo traça os limites em que se encerra, define o que pode ou não dizer ou fazer, o que está ou não em suas atribuições, o que aceita e o que repudia, toda a falta recai sobre aqueles que, não se dando ao trabalho de estudá-lo, o julgam pelas aparências e que, por terem encontrado saltimbancos adornando-se sob o nome de Espíritas para chamar concorrência, dizem com gravidade: eis o que é o Espiritismo.

Sobre quem, em definitiva, cairá o ridículo? Será sobre o saltimbanco que usa do seu ofício? Será sobre o Espiritismo, cuja doutrina escrita desmente tais asserções? Ou, antes, sobre os críticos que falam do que não sabem ou de, cientemente, alterarem a verdade?

Aqueles que atribuem ao Espiritismo o que é contrário à sua mesma ciência, fazem-no por ignorância ou má intenção; no primeiro caso há leviandade, no segundo, má-fé. E, neste último caso, eles se colocam na posição do historiador que, no interesse de sustentar um partido ou uma opinião, alterasse os fatos históricos. Quando usa desses meios, o partido fica desacreditado e não consegue o seu fim.

Notai bem, cavalheiro, que eu não pretendo que a crítica deva necessariamente aprovar nossas ideias, mesmo depois de as haver estudado; não nos revoltamos de forma alguma contra os que não pensam como nós.

O que é evidente, para nós, pode não ser para vós outros; cada qual julga as coisas debaixo de certo ponto de vista, e do fato mais positivo nem todos tiram as mesmas consequências.

Se um pintor, por exemplo, pinta em seu quadro um cavalo branco, não faltará quem diga que essa cor faz aí mau efeito, que a cor negra conviria mais, e nisto não se comete erro; cometer-se-á, porém, se, vendo que o cavalo é branco, afirmar que é negro; é o que faz a maioria dos nossos adversários.

Em resumo, senhor, todos têm completa liberdade de aprovar ou censurar os princípios do Espiritismo, de deduzir deles as consequências boas ou más que lhes aprouver; porém, a consciência impõe ao crítico a obrigação de não dizer o contrário do que ele sabe que é; ora, para isso, a primeira condição é não falar do que não conhece.

V. — Voltemos, por favor, às mesas que se movem e falam; não será possível que elas sejam preparadas com algum artifício?

A. K. — É sempre a mesma questão de boa-fé, a que já respondi.

Quando a fraude for provada, eu vo-la reconhecerei; se descobrirdes fatos demonstrados embuste, charlatanismo, especulação ou abuso de confiança, fustigai-os e eu desde já vos declaro que não irei defendê-los, porque o Espiritismo sério é o primeiro a repudiá-los; e quem assinalar tais abusos o auxilia no trabalho de preveni-los e lhe presta importante serviço. Porém, generalizar essas acusações, lançar sobre elevado número de pessoas honradas a reprovação que só cabe a alguns indivíduos isolados, é um abuso de outro gênero, porque é uma calúnia.

Admitindo, como dissestes, que as mesas estivessem preparadas, era preciso que o mecanismo empregado fosse bem engenhoso para fazê-las produzir movimentos e sons tão variados. Ora, como não é ainda conhecido o nome do hábil artista que os fabrica? Entretanto, ele deveria gozar de grande celebridade, visto que seus aparelhos estão espalhados pelas cinco partes do mundo.

Devemos também convir que o seu processo é assaz delicado e sutil, para poder adaptar-se à primeira mesa que se apresenta, sem deixar sinal exterior algum que o denuncie.

Como é que, desde Tertuliano, que já tratava das mesas giratórias e falantes, até o presente ninguém conseguiu ver e descrever tal mecanismo?

V. — Eis o que vos ilude. Um célebre cirurgião reconheceu que certas pessoas podem, pela contração de um músculo da perna, produzir um ruído semelhante ao que atribuís à mesa; donde concluiu que os médiuns se divertem à custa da credulidade dos assistentes.

A. K. — Se é um estalido do músculo, não é então a mesa que está preparada. Uma vez que cada qual explica a seu modo essa pretendida fraude, fica reconhecido que a verdadeira causa não lhe é sabida.

Respeito a ciência desse sábio cirurgião, e somente acho que se apresentam algumas dificuldades na aplicação, às mesas falantes, da teoria indicada.

A primeira é que é singular que essa faculdade, até o presente excepcional e olhada como um caso patológico, se tenha tornado comum; a segunda, que é preciso ter-se robustíssima vontade de mistificar, para fazer estalar o músculo durante duas ou três horas consecutivas, quando disso não resulte a quem assim procede senão fadiga e dor; a terceira, que eu não compreendo bem como pode esse músculo responder pelas portas e paredes em que as pancadas se fazem ouvir; a quarta, finalmente, que é necessário dar-se a esse músculo estalador uma propriedade bem maravilhosa, para que ele possa mover uma pesada mesa, levantá-la, abri-la, fechá-la, conservá-la suspensa sem ponto de apoio, e, finalmente, fazê-la despedaçar-se ao cair.

Ninguém, por certo, desconfiava que esse músculo possuísse tanta virtude ( Revue Spirite, junho de 1859, pág. 141: Le muscle craqueur).

O célebre cirurgião, de que falais, teria estudado o fenômeno da tiptologia sobre os indivíduos que os produzem? Não; ele observou um efeito fisiológico anormal em alguns indivíduos que nunca se ocuparam de mesas batedoras; e, notando certa analogia entre esse efeito e o que essas mesas produzem, sem mais amplo exame concluiu, com toda a autoridade de sua ciência, que todos os que concorrem, para que as mesas falem, devem ter a propriedade de fazer estalar o músculo curto-perônio, e não são mais que embusteiros, sejam eles príncipes ou artífices, recebam ou não um pagamento.

Estudou ele, ao menos, o fenômeno da tiptologia em todas as suas fases? Verificou, por meio desse estalido muscular, se podia produzir todos os efeitos tiptológicos? Não; porque, do contrário, ele ficaria convencido da insuficiência do seu processo; apesar disso, julgou-se no caso de proclamar a sua descoberta, em pleno Instituto.

Não será esse juízo assaz comprometedor para um sábio? Quem pensa hoje nessa opinião?

Confesso-vos que, se me tivesse de sujeitar a uma operação cirúrgica, hesitaria muito em confiar-me a esse médico, porque recearia que ele não julgasse o meu mal com mais perspicácia.

Já que esse juízo é uma das autoridades em que pareceis querer apoiar-vos para esmagar o Espiritismo, fico completamente inteirado da força dos outros argumentos que quereis validar, a menos que os não vades beber em fontes mais autênticas.

V. — Entretanto, bem vedes que já passou a moda das mesas girantes que durante certo tempo fizeram furor; hoje já ninguém se ocupa com elas.

Por que se dá isso, quando é uma coisa séria?

A. K. — Porque das mesas girantes saiu uma coisa ainda mais séria: uma ciência completa, uma perfeita doutrina filosófica, do máximo interesse para os homens que refletem. Quando estes nada mais tiveram a aprender no giro das mesas, não mais com elas se ocuparam.

Para as pessoas fúteis, que nada querem aprofundar, esse fenômeno era um passatempo, um divertimento que abandonaram quando dele se aborreceram; são pessoas com as quais a ciência não conta.

O período de curiosidade teve seu tempo; sucedeu-lhe o da observação. O Espiritismo entrou, então, no domínio da gente séria, que não o toma como objeto de divertimento, mas, sim, como meio de instruir-se.

Porém, essas pessoas que o consideram como coisa grave, não se prestam a qualquer experiência de curiosidade, e ainda menos a satisfazer a daqueles que se apresentam com pensamentos hostis; como não brincam, não se prestam a servir de brinquedo para os outros; eu pertenço a esse número.

V. — No entanto, somente a experiência pode convencer, mesmo aquele que, em começo, seja movido pela curiosidade.

Se só trabalhais na presença de pessoas convictas, deixai que vos diga, ensinais a quem já sabe.

A. K. — Uma coisa é estar convencido e outra estar disposto a convencer-se; é aos desta última classe que me dirijo, e não aos que julgam humilhação vir escutar o que eles chamam ilusões. Com estes eu não me ocupo, absolutamente.

Quanto aos que manifestam sincero desejo de esclarecer-se, o melhor modo que têm, para prová-lo, é mostrar perseverança; são reconhecidos por outros sinais que não apenas o desejo de ver uma ou duas experiências: esses querem trabalhar seriamente.

A convicção só se adquire com o tempo, por meio de uma série de observações feitas com um cuidado todo particular.

Os fenômenos espíritas diferem essencialmente dos das ciências exatas: não se produzem à vontade; é preciso que os colhamos de passagem; é observando muito e por muito tempo que se descobre uma porção de provas que escapam à primeira vista, sobretudo, quando não se está familiarizado com as condições em que se pode encontrá-las, e ainda mais quando se vem com o espírito prevenido.

As provas abundam para o observador assíduo e refletido: uma palavra, um fato aparentemente insignificante, é para ele um raio de luz, uma confirmação; ao passo que tais fatos não têm sentido para quem os observa superficialmente ou por simples curiosidade; eis por que não me presto a fazer experiências sem resultado provável.

V. — Enfim, tudo deve ter começo. O aprendiz, que nada sabe, que nada viu ainda, mas que deseja esclarecer-se, como poderá fazê-lo, quando não lhe facultais os meios para isso?

A. K. — Eu faço grande distinção entre o incrédulo por ignorância e o incrédulo por sistema; quando descubro alguém com disposições favoráveis, nada me custa esclarecê-lo; há, porém, pessoas em quem a vontade de instruir-se não é senão aparente; com estas perde-se o tempo; porque, se elas não encontram logo o que parecem buscar, e que talvez as incomodasse, se aparecesse, o pouco que veem não é suficiente para lhes destruir as prevenções; julgam mal os resultados obtidos e os transformam em objeto de zombaria, pelo que não há utilidade em lhos fornecer.

A quem deseja instruir-se, direi: “Não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um de Física ou de Química, atento que nunca se é senhor de produzir os fenômenos espíritas à vontade, e que as inteligências desses agentes fazem, muitas vezes, frustrarem-se todas as nossas previsões. Aqueles que acidentalmente poderíeis ver, não apresentando nexo algum, nem ligação necessária, seriam pouco inteligíveis para vós.

Instruí-vos primeiramente pela teoria, lede e meditai as obras que tratam dessa ciência; nelas aprendereis os princípios, encontrareis a descrição de todos os fenômenos, compreendereis a possibilidade deles pela explicação que elas vos darão, e, pela narrativa de grande número de fatos espontâneos de que pudestes ser testemunha sem os compreender, mas que vos voltarão à memória, vós vos fortificareis contra todas as dificuldades que possam surgir e formareis, desse modo, uma primeira convicção moral.

Então, quando se vos apresentar a ocasião de observar ou operar pessoalmente, compreendereis, qualquer que seja a ordem em que os fatos se mostrem, porque nada vereis de estranho.”

Eis, meu caro senhor, o que aconselho a todos que dizem querer instruir-se, e, pela resposta que dão, é fácil ver se neles há alguma coisa mais que curiosidade!

SEGUNDO DIÁLOGO
O CÉPTICO



V. — Compreendo, cavalheiro, a utilidade do estudo preliminar de que acabais de falar.

Como predisposição pessoal, dir-vos-ei que não sou a favor nem contra o Espiritismo, mas esse assunto me excita o interesse no mais alto grau.

Entre as pessoas de meu conhecimento, há partidários e adversários dele; a seu respeito tenho ouvido argumentos muito contraditórios, e propunha-me submeter-vos algumas das objeções que foram feitas em minha presença e que me parecem de certo valor, para mim ao menos, que vos confesso a minha ignorância a respeito.

A. K. — Terei grande satisfação, meu amigo, em responder às perguntas que me quiserdes dirigir, sempre que forem feitas com sinceridade e sem pensamento oculto; não tenho a pretensão, entretanto, de poder responder a todas.

O Espiritismo é uma ciência que acaba de nascer e da qual resta ainda muito a aprender; seria, pois, grande presunção de minha parte pretender levar de vencida todas as dificuldades; não poderei dizer mais do que sei.

O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e da Moral; é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas.

Compreendeis que me seria materialmente impossível repetir de viva voz e a cada pessoa, em particular, tudo quanto tenho escrito sobre essa matéria, para uso geral.

Em prévia leitura cada qual encontrará, além disso, uma resposta à maior parte das questões que lhe venham à mente; essa leitura tem a dupla vantagem de evitar repetições inúteis e de provar um desejo sincero de instruir-se.

Se, depois dela, ainda existirem dúvidas ou pontos obscuros, o esclarecimento não oferecerá mais dificuldade, porque já se possui um ponto de apoio e não se tem necessidade de perder tempo em rever os princípios mais elementares da Doutrina.

Se o permitirdes, limitar-nos-emos, por ora, a algumas questões genéricas.

V. — Seja; tende a bondade de chamar-me à ordem, sempre que eu dela me afaste.


Espiritismo e Espiritualismo


Pergunto-vos, em primeiro lugar, qual a necessidade da criação de novos termos: espírita e espiritismo, para substituir: espiritualista e espiritualismo, que são da língua vulgar e por todos compreendidos?

Já ouvi alguém classificar tais termos de barbarismos.

A. K. — De há muito tem já a palavra espiritualista uma acepção bem determinada; é a Academia que no-la dá: Espiritualista, aquele ou aquela cuja doutrina é oposta ao materialismo.

Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo. Aquele que crê que em nós existe outra coisa, além da matéria, é espiritualista, o que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. Como o podereis distinguir daquele que tem esta crença? Ver-vos-eis obrigado a servir-vos de uma perífrase e dizer: É um espiritualista que crê ou não crê nos Espíritos.

Para as novas coisas são necessários termos novos, quando se quer evitar equívocos. Se eu tivesse dado à minha Revista a qualificação de espiritualista, não lhe teria especificado o objeto, porque, sem desmentir-lhe o título, bem poderia nada dizer nela sobre os Espíritos, e até combatê-los.

Já há algum tempo, li num jornal, a propósito de uma obra filosófica, um artigo em que se dizia tê-la o autor escrito do ponto de vista espiritualista; ora, os partidários dos Espíritos ficariam singularmente desapontados se, confiantes nessa indicação, acreditassem encontrar alguma concordância entre o que ela ensina e as ideias por eles admitidas.

Se adotei os termos espírita, espiritismo, é porque eles exprimem, sem equívoco, as ideias relativas aos Espíritos.

Todo espírita é necessariamente espiritualista, mas nem todos os espiritualistas são espíritas.

Ainda que os Espíritos fossem uma quimera, haveria utilidade em adotar termos especiais para designar o que a eles se refere; porque as falsas ideias, como as verdadeiras, devem ser expressas por termos próprios.

Além disso, essas palavras não são mais bárbaras que as outras que as ciências, as artes e a indústria diariamente estão criando; com certeza, elas não o são mais do que aquela que Gall imaginou para a sua nomenclatura das faculdades, como: Secretividade, alimentividade, afecionividade, etc.

Há pessoas que, por espírito de contradição, criticam tudo que não provém delas, tomando ares de oposicionistas; aqueles que assim provocam tão pequeninas chicanas, só revelam o acanhamento de suas ideias. Agarrar-se a tais bagatelas é demonstrar falta de boas razões.

As palavras espiritualismo e espiritualista são inglesas, e têm sido empregadas nos Estados Unidos desde que começaram a surgir as manifestações dos Espíritos; no começo e por algum tempo, também delas se serviram na França; logo, porém, que apareceram os termos espírita, espiritismo, compreendeu-se a sua utilidade, e foram imediatamente aceitos pelo público.

Hoje, seu uso está tão generalizado que os próprios adversários, aqueles que no princípio os classificavam de barbarismos, não empregam outros. Os sermões e as pastorais que fulminam o Espiritismo e os espíritas viriam produzir enorme confusão, se fossem dirigidos ao espiritualismo e aos espiritualistas.

Bárbaros ou não, esses termos estão hoje incluídos na língua usual e em todas as línguas da Europa; são os únicos empregados em todas as publicações, favoráveis ou contrárias, feitas em todos os países. Eles ocupam o vértice da coluna da nomenclatura da nova ciência; para exprimir os fenômenos especiais dessa ciência, tínhamos necessidade de termos especiais; o Espiritismo hoje possui a sua nomenclatura, tal como a Química².

As palavras espiritualismo e espiritualista, aplicadas às manifestações dos Espíritos, não são hoje mais empregadas senão pelos adeptos da escola dita americana.


Dissidências


V. — Essa diversidade, na crença do a que chamais uma ciência, é, parece-me, a sua condenação.

Se ela se baseasse em fatos positivos, não deveria ser a mesma na América e na Europa?

A. K. — A isso responderei, primeiramente, que tal divergência só existe na forma, sem afetar o fundo; realmente, ela apenas se limita ao modo de encarar alguns pontos da doutrina, e não constitui um antagonismo radical nos princípios, como afirmam os nossos adversários, sem ter estudado a questão.

Dizei-me, porém, qual a ciência que, em seu começo, não deu nascimento a dissidências, até que seus princípios ficassem claramente assentados?

Não encontramos as mesmas dissidências nas ciências melhormente constituídas?

Estarão os sábios de perfeito acordo sobre todos os pontos?

Não tem cada qual seus sistemas particulares?

As sessões das Academias apresentam sempre o quadro de perfeito e cordial entendimento?

Em Medicina não há a Escola de Paris e a Escola de Montpellier?

Cada descoberta, em qualquer ciência, não tem produzido cismas entre os que querem adiantar-se e os que desejam estacionar?

Referindo-nos ao Espiritismo, não será natural que, ao surgirem os primeiros fenômenos, quando eram ignoradas as leis que os regem, cada pessoa tivesse um sistema e houvesse encarado os fatos de um modo particular?

Onde estão hoje esses sistemas primitivos? Caíram todos ante uma observação mais completa. Bastaram apenas alguns anos para que ficasse estabelecida a unidade grandiosa que hoje prevalece na Doutrina, e que prende a imensa maioria dos adeptos, com exceção de algumas individualidades que, nesta como em todas as coisas, se apegam às ideias primitivas e morrem com elas. Qual a ciência, qual a doutrina filosófica ou religiosa que oferece um exemplo igual?

Apresentou o Espiritismo a centésima parte das cisões que, durante tantos séculos, dilaceraram a Igreja e que ainda hoje a dividem?

É realmente curioso ver as puerilidades a que recorrem os adversários do Espiritismo; não indicará isso uma falta de argumentos sérios?

Se eles os tivessem, não deixariam de fazê-los valer.

Qual o recurso de que lançam mão? Zombarias, negações, calúnias, porém, nunca de um só argumento peremptório; e a prova de ainda lhe não terem achado um ponto vulnerável, é que nada pôde deter-lhe a marcha ascendente e que, apenas com dez anos de vida, ele já conta tal número de adeptos como ainda nenhuma seita contou depois de um século de existência. É fato verificado e reconhecido por seus próprios adversários.

Para aniquilá-lo, não era bastante dizer: isto não se dá, isto é um absurdo; seria necessário demonstrar categoricamente que os fenômenos não se produzem, não podem produzir-se; e é o que ninguém ainda fez.

Fenômenos espíritas simulados


V. — Não estará provado que, fora do Espiritismo, esses mesmos fenômenos podem produzir-se? E disso não podemos concluir que eles não têm a origem que os espíritas lhes atribuem?

A. K. — Por ser uma coisa suscetível de imitação, segue-se que ela não exista?

Que direis da lógica daquele que pretendesse, por se fabricar com água de Seltz vinho de Champanha, ser todo vinho desta espécie apenas de água de Seltz?

Isto é privilégio de todas as coisas que apresentam a possibilidade de engendrar falsificações.

Acreditaram alguns prestidigitadores que o nome de espiritismo, por causa da sua popularidade e das controvérsias de que era objeto, podia servir a explorações, e para atrair a multidão simularam, mais ou menos grosseiramente, alguns fenômenos de mediunidade, como já tinham simulado a clarividência sonambúlica; e todos os gaiatos os aplaudiram, bradando: Eis aí o que é o Espiritismo!

Quando se mostrou em cena a engenhosa aparição dos espectros, não se proclamou que naquilo recebia o Espiritismo um golpe mortal?

Antes de pronunciar tão positiva sentença, deve-se refletir que as asserções de um escamoteador não são palavras de um evangelho, e certificar se há identidade real entre a imitação e a coisa imitada.

Ninguém compra um brilhante sem primeiro estar convencido de não ser uma pedra d'água.

Um estudo, mesmo pouco acurado, tê-los-ia certificado de serem completamente outras as condições em que se dão os fenômenos espíritas; eles, além disso, ficariam sabendo que os espíritas não se ocupam de fazer aparecer espectros nem de ler a buena-dicha.

Só a malevolência e uma rematada má-fé puderam confundir o Espiritismo com a magia e a feitiçaria, quando aquele repudia o fim, as práticas, as fórmulas e as palavras místicas destas. Alguns chegaram mesmo a comparar as reuniões espíritas às assembleias do sabbat, nas quais se espera o soar da meia-noite, para que os fantasmas apareçam.

Um espírita, meu amigo, assistia um dia a uma representação de Macbeth, ao lado de um jornalista que ele não conhecia. Quando chegou a cena das feiticeiras, ele ouviu o vizinho dizer:

— “Belo! Vamos assistir a uma sessão espírita; é justamente o que precisava para o meu próximo artigo; vou saber agora como as coisas se passam. Se eu encontrasse por aqui algum desses loucos, perguntar-lhe-ia se ele se reconhece no quadro que tem ante os olhos.”

— “Eu sou um deles, disse-lhe o espírita, e posso asseverar-vos que nada vejo que se lhe pareça; tenho assistido a centenas de reuniões espíritas, e nelas nada encontrei que se assemelha a isto. Se é aqui que vindes colher argumentos para o vosso artigo, assevero-vos que ele não primará pela veracidade.”

Muitos críticos não têm bases mais sólidas.

Sobre quem cairá o ridículo, a não ser sobre aqueles que caminham tão estonteadamente?

Quanto ao Espiritismo, seu crédito, longe de sofrer com tais ataques, tem crescido pelos reclamos que lhe fazem, chamando para ele a atenção de muita gente que nem sequer nele pensava; os reclamos provocaram o exame e contribuíram para lhe aumentar o número de adeptos; porque se reconheceu, então, que, em vez de brincadeira, ele era coisa séria.


Impotência dos detratores


V. — Convenho que, entre os detratores do Espiritismo, há muita gente inconsciente, como esses que acabais de citar; mas, ao lado deles, não se encontrarão também homens de real valor, cujas opiniões têm certo peso?

A. K. — Não o contesto. A isso respondo que o Espiritismo também conta em suas fileiras muitos homens de valor não menos real; digo-vos mais: a imensa maioria dos espíritas se compõe de homens inteligentes e de estudo; só a má-fé pode dizer que seus adeptos são recrutados entre as mulheres simples e as massas ignorantes.

Um fato peremptório responde, além disso, a essa objeção; é que, apesar de todo o saber, de todo o poder oficial, ninguém consegue deter o Espiritismo na sua marcha; e, entretanto, não há um só dos seus contrários, seja ele o mais obscuro folhetinista, que se não tenha lisonjeado com a ideia de dar-lhe um golpe mortal; sem querê-lo, todos, sem exceção, concorreram para a sua vulgarização.

Uma ideia que resiste a tantos assaltos, que avança impávida através da chuva de dardos que lhe atiram, não provará a sua força máscula e a segurança das bases em que se firma? Não será esse fenômeno digno da atenção dos pensadores?

Também, já hoje, muitos deles avançam em que deve haver nisso alguma coisa de real, que talvez seja um desses grandes movimentos irresistíveis que, de tempos a tempos, abalam as sociedades para transformá-las.

Isto se tem dado sempre com todas as ideias novas, chamadas a revolucionar o mundo; forçosamente elas encontram obstáculos, porque lutam contra os interesses, os prejuízos, os abusos que elas vêm destruir; porém, como estão nos desígnios de Deus, para que se cumpra a lei do progresso da humanidade, chegada a hora, nada as poderá deter; é a prova de serem a expressão da verdade.

Essa impotência dos adversários do Espiritismo prova primeiramente, como já disse, que lhes faltam boas razões; pois que as que lhe opõem não são convincentes; ela dimana ainda de outra causa, que inutiliza todas as suas combinações. Admiram-se de ver o desenvolvimento dessa doutrina, apesar de tudo o que fazem para contê-la, e não podem achar o motivo por não o buscarem onde ele realmente está. Uns creem encontrá-lo no grande poder do diabo, que assim se apresenta mais forte que eles, e, mesmo, mais forte que Deus; outros, no aumento da alucinação humana.

O erro de todos está em crerem que a fonte do Espiritismo é uma só, e que se baseia na opinião de um só homem; daí a ideia de que poderão arruiná-lo, refutando essa opinião; eles procuram na Terra uma coisa que só achariam no espaço; essa fonte do Espiritismo não se acha num ponto, mas em toda parte, porque não há lugar em que os Espíritos se não possam manifestar, em todos os países, nos palácios e nas choupanas.

A verdadeira causa está, pois, na própria natureza do Espiritismo, cuja força não provém de uma só fonte, mas permite a cada qual receber diretamente comunicações dos Espíritos e por elas certificar-se da veracidade do fato.

Como persuadir a milhões de indivíduos de que tudo isso não é mais que comédia, charlatanismo, escamoteação, prestidigitação, quando, sem o concurso de estranhos, são eles próprios que obtêm tais resultados?

É possível fazê-los crer que eles se mistifiquem a si mesmos, que a si mesmos procurem enganar fazendo o papel de charlatães e escamoteadores?

Essa universalidade das manifestações dos Espíritos, que surgem em todos os pontos do globo para desmentir os detratores e confirmar os princípios da Doutrina, é uma força que não podem explicar aqueles que desconhecem o mundo invisível, assim como os que desconhecem as leis dos fenômenos elétricos não compreendem a rapidez com que se transmite um despacho telegráfico; é de encontro a essa força que todas as negações se vêm quebrar, porque elas se equiparam às asserções de quem pretendesse afirmar, aos que sentem a ação dos raios solares, que o Sol não existe.

Fazendo abstração das qualidades da doutrina, que agrada muito mais que as que se lhe opõem, vede nisso a causa dos insucessos dos que tentam deter-lhe a marcha; para que triunfassem, era-lhes mister impedir que os Espíritos se manifestassem.

Eis o motivo por que os espíritas ligam tão pouca importância às manobras dos seus adversários; eles têm por si a experiência e o peso dos fatos.



O maravilhoso e o sobrenatural


V. — O Espiritismo tende, evidentemente, a fazer reviver as crenças fundadas no maravilhoso e no sobrenatural; ora, no século positivo em que vivemos, isto me parece difícil, porque é exigir que se acredite nas superstições e nos erros populares, já condenados pela razão.

A. K. — Uma ideia só é supersticiosa quando falsa; mas cessa de o ser desde que passe a ser uma verdade reconhecida.

A questão está em saber se os Espíritos se manifestam, ou não; ora, isso não pode ser tachado de superstição, antes de ficar provado que não existem Espíritos.

Direis: a minha razão não aceita essas comunicações; porém, os que creem e que não são nenhuns mentecaptos invocam também as suas razões e, além disso, os fatos; para que lado se deve pender? O grande juiz, nesta questão, é o futuro — como tem sido em todas as questões científicas e industriais classificadas como absurdas e impossíveis em sua origem.

Pretendeis julgar a priori segundo a vossa opinião; nós só o fazemos depois de, por muito tempo, ter visto e observado. Acresce que o Espiritismo esclarecido, como o é hoje, procura, ao contrário, destruir as ideias supersticiosas, mostrando o que há de real ou de falso nas crenças populares, denunciando o que nelas existe de absurdo, fruto da ignorância e dos preconceitos.

Vou mais longe e digo que é precisamente o positivismo do nosso século que faz com que adotemos o Espiritismo, e que este deve, em parte, àquele a rapidez da sua propagação, antes que, como alguns pretendem, a uma recrudescência do amor ao maravilhoso e ao sobrenatural.

O sobrenatural desaparece à luz do facho da ciência, da filosofia e da razão, como os deuses do paganismo ante o brilho do Cristianismo. Sobrenatural é tudo o que está fora das leis da natureza. O positivismo nada admite que escape à ação dessas leis; mas, porventura, ele as conhece a todas?

Em todos os tempos foram reputados sobrenaturais os fenômenos cuja causa não era conhecida; pois bem: o Espiritismo vem revelar uma nova lei, segundo a qual a conversação com o Espírito de um morto é um fato tão natural, como o que se dá por intermédio da eletricidade entre dois indivíduos separados por uma distância de cem léguas; o mesmo acontece com os outros fenômenos espíritas.

O Espiritismo repudia, nos limites do que lhe pertence, todo efeito maravilhoso, isto é, fora das leis da natureza; ele não faz milagres nem prodígios, antes explica, em virtude de uma dessas leis, certos efeitos, demonstrando, assim, a sua possibilidade. Ele amplia, igualmente, o domínio da ciência, e é nisto que ele próprio se torna uma ciência; como, porém, a descoberta dessa nova lei traz consequências morais, o código das consequências faz dele, ao mesmo tempo, uma doutrina filosófica.

Deste último ponto de vista, ele corresponde às aspirações do homem, no que se refere ao seu futuro; e como a sua teoria do futuro repousa sobre bases positivas e racionais, ela agrada ao espírito positivo do nosso século.

É o que compreendereis, quando vos derdes ao trabalho de estudá-lo. (O Livro dos Médiuns, cap. II, e Revue spirite, dezembro de 1861, pág. 393, e janeiro de 1862, pág. 21. Ver também o cap. II abaixo.)


Oposição da ciência


V. — Vós vos apoiais em fatos, dissestes; mas opõe-se-vos a opinião dos sábios que os contestam, ou os explicam de modo diferente do vosso.

Por que não fixaram eles sua atenção sobre o fenômeno das mesas girantes?

Se nisso tivessem notado alguma coisa de sério, parece-me que não desprezariam fatos tão extraordinários e nem os repeliriam com desdém; no entanto, são todos eles contra vós.

Os sábios não serão o farol das nações, e não têm o dever de esclarecê-las?

A que atribuís que tenham deixado de fazê-lo, quando se lhes apresentava tão bela ocasião de revelar ao mundo a existência de uma nova força?

A. K. — Traçastes o dever dos sábios de modo admirável; é pena, porém, que eles o tenham esquecido em mais de uma circunstância.

Mas, antes de responder à vossa judiciosa observação, cumpre-me corrigir um grave erro que cometestes dizendo que todos os sábios são contra nós.

Como vos disse há pouco, é precisamente na classe ilustrada que o Espiritismo faz maior número de prosélitos, isto em todos os países; já ele conta entre seus adeptos grande número de médicos de todas as nações, e ninguém nega que os médicos sejam homens de ciência; os magistrados, os professores, os artistas, os homens de letras, os oficiais, os altos funcionários, os grandes dignitários, os eclesiásticos, etc., que se agrupam ao redor da sua bandeira, não são pessoas em quem se não deva reconhecer uma certa dose de ilustração. Admite-se erroneamente que os sábios só se encontram na ciência oficial e nos corpos constituídos.

Pelo fato de ainda não ter o Espiritismo adquirido direito de cidade na ciência oficial, merecerá ser condenado?

Se nunca a ciência se houvesse enganado, sua opinião nesse sentido teria grande peso na balança; infelizmente, a experiência prova o contrário.

Não repeliu ela como quimeras tantas descobertas que, mais tarde, se tornaram título de glória para os seus autores?

Não foi devido a um parecer do nosso primeiro corpo sábio que a França se absteve da iniciativa do vapor?

Quando Fulton veio ao campo de Bolonha apresentar o seu plano a Napoleão I, que confiou o exame imediato ao Instituto, não decidiu este que aquilo era uma utopia, com o que se não devia ocupar?

Devemos daí concluir que os membros do Instituto são ignorantes e que sejam justificados os epítetos triviais que, à força de mau gosto, certas pessoas se comprazem em prodigalizar-lhes?

Certo que não; não há pessoa sensata que não faça justiça ao seu saber eminente, sem, contudo, deixar de reconhecer que eles não são infalíveis e, portanto, que as suas sentenças não estão isentas de apelação, sobretudo no que se refere a ideias novas.

V. — Admito perfeitamente que eles não sejam infalíveis; mas não é menos verdade que, em virtude do seu saber, sua opinião vale alguma coisa, e que, se ela estivesse do vosso lado, daria grande peso ao vosso sistema.

A. K. — Concordai, também, que ninguém pode ser bom juiz naquilo que está fora da sua competência.

Se quiserdes edificar uma casa, confiareis esse trabalho a um músico?

Se estiverdes enfermo, far-vos-eis sangrar por um arquiteto?

Quando estais a braços com um processo, ides consultar um dançarino?

Finalmente, quando se trata de uma questão de teologia, alguém irá pedir a solução a um químico ou a um astrônomo?

Não; cada um tem a sua especialidade.

As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode, à vontade, manipular; os fenômenos que ela produz têm por agentes forças materiais.

Os do Espiritismo têm, como agentes, inteligências que têm independência, livre-arbítrio e não estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam aos nossos processos de laboratório e aos nossos cálculos, e, desde então, ficam fora dos domínios da ciência propriamente dita.

A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos, como experimenta uma pilha voltaica; foi mal sucedida como devia sê-lo, porque agiu visando uma analogia que não existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela negação, juízo temerário que o tempo se encarregou de ir emendando diariamente, como já tem emendado outros; e, àqueles que o preferiram, restará a vergonha do erro de se haverem levianamente pronunciado contra o poder infinito do Criador.

As corporações sábias não podem nem jamais poderão pronunciar-se nesta questão; ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus existe ou não; é, pois, um erro fazê-las juiz dela.

O Espiritismo é uma questão de crença pessoal que não pode depender do voto de uma assembleia, porque esse voto, embora lhe fosse favorável, não tem o poder de forçar convicções.

Quando a opinião pública se tiver formado a respeito, os membros dessas corporações a aceitarão sob o poder dos fatos.

Deixai passar esta geração, levando os prejuízos do seu obstinado amor-próprio, e vereis que se há de dar com o Espiritismo o mesmo que se deu com tantas outras verdades, tão combatidas e de que hoje seria ridículo duvidar. Hoje, chamam loucos aos crentes; amanhã, será a vez dos que não crerem; foi o mesmo que se deu com os que acreditavam no movimento de rotação da Terra. Nem todos os sábios, porém, julgaram do mesmo modo; e notai que agora chamo sábios aos homens de estudo e saber, tenham ou não tenham um título oficial.

Muitos fizeram o seguinte raciocínio:

“Não há efeito sem causa, e os efeitos mais vulgares podem conduzir-nos à solução dos mais difíceis problemas.

“Se Newton não tivesse prestado atenção à queda de uma maçã; se Galvani tivesse repelido sua serva e lhe chamasse visionária e louca, quando esta lhe falou das rãs que dançavam no prato, talvez ainda estivéssemos sem conhecer a admirável lei da gravitação universal e as fecundas propriedades da pilha elétrica.

“O fenômeno, burlescamente designado sob o nome de dança das mesas, não é mais ridículo que a dança das rãs, e talvez encerre alguns desses segredos da natureza, que, quando se tem a chave para explicá-los, revolucionam a humanidade.”

Eles disseram ainda:

“Já que tanta gente se ocupa com eles, e homens notáveis fizeram deles o objeto do seu estudo, é preciso que alguma coisa de verdade se encontre em tais fenômenos; uma ilusão, uma farsa, se o quiserem, não pode ter esse caráter de generalidade; seria divertimento para certo círculo, para certa sociedade, mas não daria a volta ao mundo.

“Guardemo-nos, pois, de negar a possibilidade do que não compreendemos, com receio de receber, mais cedo ou mais tarde, o desmentido que desabonaria nossa perspicácia.”

V. — Perfeitamente; eis aí um sábio raciocinando com sabedoria e prudência; e, sem ser sábio, eu penso igualmente; notai, porém, que ele nada afirma, mas duvida; ora, qual é a base em que se firma a crença na existência dos Espíritos e, sobretudo, na sua comunicação conosco?

A. K. — Essa crença apoia-se sobre o raciocínio e sobre os fatos. Eu próprio não a adotei senão depois de meticuloso exame. Tendo adquirido, no estudo das ciências exatas, o hábito das coisas positivas, sondei, perscrutei esta nova ciência nos seus mais íntimos refolhos; busquei explicar-me tudo, porque não costumo aceitar ideia alguma sem lhe conhecer o como e o porquê.

Eis o raciocínio que me fazia um sábio médico, outrora incrédulo e hoje fervoroso adepto:

“Dizem que seres invisíveis se comunicam; por que negá-lo?

“Antes de inventar-se o microscópio, suspeitava alguém que existissem esses milhares de animálculos que causam tantos estragos à economia?

“Onde a impossibilidade material de haver no espaço seres que escapem aos nossos sentidos?

“Teremos, acaso, a ridícula pretensão de saber tudo, e de dizer que Deus nada mais nos pode revelar?

“Se esses seres invisíveis que nos rodeiam, são inteligentes, por que não poderão comunicar-se conosco? Se estão em relação com os homens, devem desempenhar um papel no seu destino, nos acontecimentos da vida destes. Quem sabe se eles não constituem uma das potências da Natureza, uma dessas forças ocultas de que nem suspeitávamos?

“Que novo horizonte vai abrir-se ao pensamento! Que campo tão vasto de observação!

“A descoberta do mundo dos invisíveis tem muito mais alcance que a dos infinitamente pequenos; ela é mais que uma descoberta, é uma revolução nas ideias.

“Quanta luz pode projetar essa descoberta? Quantas coisas misteriosas explicadas?

“Os crentes são ridiculizados, mas que valor tem isso, quando o mesmo se tem dado a respeito de todas as grandes descobertas?

“Cristóvão Colombo não foi repelido, sobrecarregado de desgostos, tratado como insensato?

“São ideias tão estranhas, dizem, que não se lhes deve dar crédito; mas a isso se pode responder que data de meio século a possibilidade de, em alguns minutos, estabelecer-se correspondência entre dois pontos opostos do nosso planeta; em algumas horas, atravessar-se a França; com o vapor produzido por um pouco de água fervente, um navio avançar contra o vento; e tirarmos da água os meios de iluminar-nos e aquecer-nos.

“Quem, há meio século, se tivesse proposto iluminar toda a cidade de Paris em um instante e com um só reservatório de uma substância invisível, apenas conseguiria fazer rir de si.

“Será isso, porventura, coisa mais prodigiosa que o espaço ser povoado pelos seres pensantes que, depois de haverem vivido na Terra, nela deixaram seu invólucro material?

“Não se achará neste fato a explicação de tantas crenças que existem desde os mais remotos tempos?

“São coisas que bem merecem estudo aprofundado.”

Eis as reflexões de um sábio, mas de um sábio sem pretensão; elas são igualmente feitas por muitos outros homens esclarecidos; estes viram, não superficialmente e de ânimo prevenido; estudaram seriamente, sem partido fixo, e tiveram a modéstia de não dizer: não compreendemos, isto não pode ser verdade. Sua convicção formou-se pela observação e pelo raciocínio. Se essas ideias fossem uma quimera, acreditais que todos esses homens sisudos as tivessem adotado? Que, por tanto tempo, pudessem ser vítimas de uma ilusão?

Não há, pois, impossibilidade material de existirem seres invisíveis para nós, povoando o espaço, e esta só consideração devia bastar para exigir mais circunspeção.

Quem, há bem pouco, poderia pensar que uma só gota de água límpida encerrasse milhares de seres, cuja pequenez extrema nos confunde a imaginação?

Ora, eu digo que há mais dificuldade em conceber a nossa razão seres de tal tenuidade, providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós, do que admitir aqueles a quem damos o nome de Espíritos.

V. — Sem dúvida, mas por ser uma coisa possível, não devemos concluir que exista.

A. K. — É exato; mas não podeis deixar de convir que, desde que uma coisa não é impossível, já ela avançou, porque a razão não a repele. Resta, pois, averiguá-la pela observação dos fatos. Ora, essa observação não é nova: tanto a história sagrada quanto a profana provam a antiguidade e a universalidade dessa crença, que se perpetuou através de todas as vicissitudes por que tem passado o mundo, e se mostra, entre os mais selvagens povos, no estado de ideias inatas e intuitivas, e tão gravadas no pensamento como a do Ser supremo e a da existência futura.

O Espiritismo, pois, não é uma criação moderna; tudo prova que os antigos o conheciam tão bem, ou talvez melhor que nós; somente ele não era ensinado, senão com precauções misteriosas que o tornavam inacessível ao vulgo, abandonado de propósito no lamaçal da superstição.

Quanto aos fatos, eles são de duas naturezas: uns espontâneos e outros provocados. Entre os primeiros estão as visões e as aparições, tão frequentes; os ruídos, barulhos e movimentações de objetos, sem causa material, e grande número de efeitos insólitos que olhávamos como sobrenaturais e hoje nos parecem simples, porque não admitimos o sobrenatural, visto como tudo se submete às leis imutáveis da natureza. Os fatos provocados são os obtidos por intermédio de médiuns.



Falsas explicações dos fenômenos


Alucinação. — Fluido magnético. — Reflexo do pensamento. — Superexcitação cerebral. — Estado sonambúlico dos médiuns.

V. — É contra os fenômenos provocados que principalmente a crítica se levanta.

Ponhamos de lado toda suposição de charlatanismo, e admitamos a mais completa boa-fé; não será possível que os médiuns sejam vítimas de uma alucinação?

A. K. — Ignoro que já se tenha claramente explicado o mecanismo da alucinação.

Da forma como querem defini-la, ela não deixa de ser um efeito singularíssimo e digno de estudo.

É pena, porém, que aqueles que por meio dela pretendem dar conta dos fenômenos espíritas não possam antes apresentar a explicação deles.

Há, além disso, fatos que escapam a essa hipótese: quando a mesa ou outro objeto se move, se ergue, ou bate; quando a dita mesa, à vontade, passeia por uma câmara, sem que pessoa alguma lhe toque; quando ela se destaca do solo e se suspende no espaço, sem ponto de apoio; enfim, quando, ao cair, se despedaça, tudo isso não pode ser o efeito de uma alucinação.

Suponho que o médium, por um produto da sua imaginação, creia ver o que não existe. Será admissível que todos os presentes sejam, ao mesmo tempo, vítimas da mesma vertigem? E quando o mesmo fato se reproduz por toda parte, em todos os países? A ser assim, essa alucinação seria prodígio maior que o próprio fato.

V. — Admitindo a realidade do fenômeno das mesas que giram e falam, não será mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer, do magnético, por exemplo?

A. K. — Tal foi o primeiro pensamento que tive, como tantos outros.

Se tudo se limitasse a esses efeitos materiais, não há dúvida de que poderiam ser assim explicados; porém, quando esses movimentos e golpes nos deram provas de inteligência; quando se reconheceu que respondiam ao pensamento com inteira liberdade, foi-se levado a tirar a seguinte conclusão:

Se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente tem uma causa inteligente.”

Poderão tais fenômenos ser produzidos por um fluido, sem se admitir que esse fluido seja dotado de inteligência?

Quando vedes os aparelhos do telégrafo fazerem sinais transmitindo o pensamento, bem compreendeis que esses aparelhos, de ferro ou de madeira, não são inteligentes, mas que é uma inteligência quem os faz mover. Dá-se o mesmo com as mesas a que nos referimos. Dão-se, ou não, efeitos inteligentes? Esta a questão.

Os que contestam, são pessoas que nada viram ainda e se apressam a concluir, segundo suas ideias particulares e baseadas, quando muito, em observação superficial.

V. — Pode-se responder que, se há um efeito inteligente, este pode ser um reflexo da inteligência, seja do médium, seja de quem interroga, ou mesmo dos assistentes; porque, dizem, a resposta recebida estava sempre no pensamento de alguém.

A. K. — É ainda um erro, filho da falta de observação.

Se os que assim pensam se tivessem dado ao trabalho de estudar o fenômeno em todas as suas fases, não deixariam de reconhecer, a cada passo, a independência absoluta da inteligência que se manifesta.

Como conciliar essa tese com as respostas obtidas, tão fora do alcance intelectual e da instrução do médium? Respostas que vão de encontro às suas ideias, desejos e opiniões, ou que destroem completamente as previsões dos assistentes? Quando os médiuns escrevem em uma língua que não conhecem, ou escrevem na sua própria quando não sabem ler nem escrever? À primeira vista, essa opinião nada tem de irracional, convenho, mas é desmentida por um conjunto de fatos tão concludentes que, diante deles, é impossível duvidar. Além disso, mesmo admitindo-se essa teoria, o fenômeno, longe de ser simplificado, seria muito mais prodigioso.

Pois quê! o pensamento poderá refletir-se sobre uma superfície, como a luz, o som, o calórico?!

Em verdade, havia nisto um motivo para a ciência exercer a sua sagacidade.

E depois ainda o maravilhoso seria maior, porque, achando-se presentes vinte pessoas, será o pensamento desta ou daquela que é refletido, ou o desta ou daquela outra? Tal sistema é insustentável.

É realmente curioso ver-se os contraditores empenharem-se na busca de causas cem vezes mais extraordinárias e incompreensíveis do que aquelas que se lhes apresenta.

V. — Não será admissível, segundo querem alguns, que o médium se ache em estado de crise e goze certa lucidez, que lhe dá a percepção sonambúlica — espécie de dupla vista —, que aliás nos pode explicar a ampliação momentânea de suas faculdades intelectuais? Por que, dizem, as comunicações obtidas pelos médiuns não vão além do alcance das que nos dão os sonâmbulos?

A. K. — É ainda esse um desses sistemas que não resistem a um exame aprofundado. O médium nem se acha em crise nem dorme, mas está perfeitamente acordado, agindo e pensando como os outros, sem nada apresentar de extraordinário. Certos efeitos particulares deram lugar a essa suposição; porém, quem se não limitar a julgar as coisas, por uma só face, reconhecerá sem dificuldade que o médium é dotado de uma faculdade particular, que não permite confundi-lo com o sonâmbulo, sendo a independência do seu pensamento demonstrada por fatos da maior evidência.

Abstraindo das comunicações escritas, qual o sonâmbulo que fez alguma vez sair um pensamento de um corpo inerte? Qual deles pôde produzir aparições visíveis e, mesmo, tangíveis? Qual fez que um corpo pesado se mantivesse suspenso no ar, sem ponto de apoio?

Será por efeito sonambúlico que certo médium desenhou, um dia, em minha casa e na presença de vinte testemunhas, o retrato de uma jovem, morta havia dezoito meses e a quem ele não conhecera, retrato reconhecido pelo próprio pai da jovem, presente então à sessão? Será por efeito do mesmo gênero que uma mesa responde com precisão às questões propostas, mesmo feitas mentalmente? Certamente, se admitirmos que o médium se ache em estado magnético, parece-me difícil crer que a mesa seja sonâmbula.

Dizem, ainda, que os médiuns só falam com clareza daquilo que é conhecido. Como explicar o fato seguinte e cem outros da mesma espécie? — Um dos meus amigos, muito bom médium escrevente, perguntou a um Espírito se uma pessoa que ele tinha perdido de vista, havia quinze anos, era ainda deste mundo.

“Sim, ainda vive, foi-lhe respondido; mora em Paris, rua tal, número tanto.”

Ele foi e encontrou a pessoa no lugar indicado. Seria isso uma ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe tal resposta, quando, por causa da idade da pessoa por quem ele perguntava, havia toda a probabilidade de ela não existir mais?

Se, em certos casos, vemos respostas combinarem com o pensamento de quem pergunta, será racional concluirmos que isso seja uma lei geral?

Nisso como em todas as coisas, são sempre perigosos os juízos precipitados, porque eles podem ser desmentidos pelos fatos que ainda se não observaram.



Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam


V. — O que os incrédulos desejam ver, pedem, e na maioria das vezes não se lhes fornece, são os fatos positivos. Se todos testemunhassem esses fatos, a dúvida não mais seria permitida. Como é que tanta gente, apesar de sua vontade, nada tem conseguido ver?

Apresentam-lhes como motivo, dizem eles, a sua falta de fé; ao que respondem, e com razão: que não podem ter fé antecipada e que se lhes deve dar os meios para poderem crer.

A. K. — É simples a razão. Eles querem que os fatos obedeçam à sua ordem e a Espíritos não se pode dar ordens; é preciso esperar pela boa-vontade deles.

Não basta dizer: Mostrai-me tal fato e eu crerei; é necessário ter-se a vontade de perseverar, deixar que os fatos se produzam espontaneamente, sem pretender forçá-los ou dirigi-los; aquele que mais desejais será, talvez, precisamente o que não obtereis; virão, porém, outros, e o que quereis se apresentará, quando menos o esperardes.

Aos olhos do observador atento e assíduo surgem eles inumeráveis, corroborando-se uns aos outros; mas quem acreditar que basta tocar a manivela, para fazer que a máquina ande, engana-se redondamente.

Que faz o naturalista quando quer estudar os hábitos de um animal? Mandá-lo-á fazer tal ou qual coisa, para com vagar observá-lo à sua vontade? Não; porque bem sabe que o animal não lhe obedecerá; mas espreita as manifestações espontâneas do instinto do animal; espera-as e colhe-as na passagem. O simples bom-senso mostra que, com mais forte razão, deve proceder-se do mesmo modo com os Espíritos, que são inteligências muito mais independentes que as dos animais.

É erro crer que se exija fé antecipada de quem quer estudar; o que se exige é boa-fé, aliás coisa diversa; ora, há cépticos que negam até a evidência e aos quais os próprios prodígios não convenceriam.

Quantos deles, depois de haverem visto, não persistem ainda em explicar os fatos a seu modo, dizendo que o que viram nada prova? Essas pessoas só servem para trazer perturbação ao seio das reuniões, sem que elas mesmas lucrem coisa alguma; por isso, deixamo-las à margem, por não querermos com elas perder nosso tempo.

Muitos até ficariam incomodados, se se vissem forçados a crer, por terem de ferir seu amor-próprio com a confissão de se haverem enganado.

Que se pode responder a quem não vê por toda parte senão ilusão e charlatanismo? Nada; é melhor deixá-los tranquilos e dizerem tanto quanto quiserem, que nada viram, e, mesmo, que nada se pôde ou se quis mostrar-lhes.

Ao lado desses cépticos endurecidos estão os que querem ver a seu modo, que, tendo formado uma opinião, pretendem por ela explicar tudo; estes não compreendem que os fenômenos se possam dar contrariamente ao seu desejo; não sabem ou não querem colocar-se nas condições precisas para obtê-los.

Quem de boa-fé deseja observar deve, não digo crer sob palavra, mas abandonar toda ideia preconcebida e não querer comparar coisas incompatíveis; cumpre-lhe aguardar, seguir, observar com paciência infatigável; esta condição é também favorável aos que se tornam adeptos, pois que ela prova não haverem formado levianamente a sua convicção. Dispondes vós de tal paciência? Não, e direis: por falta de tempo. Então não vos ocupeis, não faleis mais nisso, pois ninguém a tal vos obriga.


Boa ou má vontade dos Espíritos para convencer


V. — Os Espíritos devem almejar fazer prosélitos; por que não se prestam, melhormente, aos meios de convencer certas pessoas, cuja opinião teria grande influência?

A. K. — É por julgarem que, naquele momento, não devem fornecer provas às pessoas a quem não ligam a importância que elas pretendem ter.

É isso pouco lisonjeiro, convenho, porém não temos o direito de impor-lhes a nossa opinião; os Espíritos têm sua maneira de julgar as coisas, a qual nem sempre se coaduna com a nossa; eles veem, pensam e agem segundo outros elementos; ao passo que a nossa vista é circunscrita pela matéria, limitada pela estreiteza do círculo em que vivemos, eles abrangem o conjunto; o tempo, que nos parece tão longo, é para eles um instante; a distância, um simples passo, e certos pormenores, para nós de importância extrema, são futilidades a seus olhos; em compensação, ligam às vezes importância a coisas cujo verdadeiro alcance nos escapa.

Para compreendê-los é preciso nos elevarmos pelo pensamento acima do horizonte material e moral, colocarmo-nos no seu ponto de vista, pois que não são eles que devem descer ao nosso nível, mas subirmos nós até eles, é o que nos ensinam o estudo e a observação.

Os Espíritos gostam dos observadores assíduos e conscienciosos; para estes multiplicam eles as fontes de luz; o que os afugenta não é a dúvida que nasce da ignorância, é a fatuidade desses pretensos observadores que nada observam, que desejam colocá-los no banco dos réus e fazê-los moverem-se como títeres; é o sentimento de hostilidade e descrédito que exista em seus pensamentos, quando o não traduzam por palavras.

Por sua causa os Espíritos nada fazem, pouco se importando com o que possam dizer ou pensar, porque o seu dia também chegará.

Por isso vos dizia eu que não é a fé antecipada o que pedimos, mas, sim, a boa-fé.


Origem das ideias espíritas modernas


V. — Uma coisa que eu desejava saber, meu amigo, é o ponto de partida das ideias espíritas modernas; serão elas filhas de uma revelação espontânea dos Espíritos, ou o resultado de uma crença prévia na existência deles?

Compreendei a importância de minha pergunta; porque, neste último caso, é admissível que a imaginação possa nisso ter desempenhado seu papel.

A. K. — Como dissestes, essa questão tem importância, no ponto de vista em que vos achais, ainda que seja difícil acreditar-se, supondo essas ideias nascidas de uma crença antecipada, que a imaginação pudesse produzir todos os resultados materiais observados.

De fato, se o Espiritismo fosse fundado no pensamento preconcebido da existência dos Espíritos, poder-se-ia, com alguma aparência de razão, duvidar da sua veracidade; porque, se o princípio fosse uma quimera, as consequências dele emanadas também o seriam; mas as coisas não se passaram assim. Notai, em primeiro lugar, que essa marcha seria totalmente ilógica; os Espíritos são a causa e não o efeito; quando se vê um efeito, pode-se procurar-lhe a causa, mas não é natural imaginar-se uma causa antes de lhe ter visto os efeitos. Não era, pois, possível conceber o pensamento da existência dos Espíritos, se efeitos não se tivessem mostrado, que achassem explicação provável na existência de seres invisíveis.

Pois bem! Não foi mesmo deste modo que nasceu tal pensamento; isto é, não foi ele uma hipótese imaginada com o fim de explicar certos fenômenos; a primeira suposição feita, foi a de uma causa material.

Assim, longe de que os Espíritos fossem uma ideia preconcebida, partiu-se, para chegar a eles, do ponto de vista materialista. Não se podendo, porém, por este meio explicar tudo, somente a observação conduziu à causa espiritual.

Falo das ideias espíritas modernas; pois sabemos que essa crença é tão velha quanto o mundo.

Eis a marcha das coisas: fenômenos espontâneos se produziram, tais como ruídos estranhos, pancadas, movimentos de objetos, etc., sem causa ostensiva conhecida, realizando-se sob a influência de certas pessoas. Nada, até aí, autorizava a buscar-se-lhes a causa fora da ação de um fluido magnético ou outro qualquer, de propriedade ainda desconhecida. Não se tardou, porém, a reconhecer nesses ruídos e movimentos um caráter intencional e inteligente, do que se concluiu, como já o disse, que: Se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. Esta inteligência não podia estar no objeto, porque a matéria não é inteligente. Seria o reflexo da pessoa ou das pessoas presentes?

Assim se julgou no começo, como já igualmente vo-lo disse; só a experiência podia pronunciar-se, e ela demonstrou por provas irrecusáveis, em muitas circunstâncias, a completa independência da inteligência que se manifesta. Ela não pertencia, pois, nem ao objeto nem à pessoa. Quem era então? Ela própria respondeu, declarando pertencer aos seres incorpóreos chamados Espíritos.

A ideia dos Espíritos não preexistia, nem mesmo lhe foi consecutiva; em uma palavra, não nasceu do cérebro de ninguém, mas nos foi dada pelos Espíritos mesmos, e tudo o que soubemos depois, a seu respeito, foi-nos por eles ensinado.

Uma vez revelada a existência dos Espíritos e estabelecidos os meios de nos comunicarmos com eles, pôde-se entreter conversações seguidas e obter informações sobre a natureza desses seres, condições de sua existência e seu papel no mundo visível.

Se assim pudéssemos interrogar os seres do mundo dos infinitamente pequenos, quantas coisas curiosas não ficaríamos sabendo sobre eles!

Suponhamos que, antes da descoberta da América, um fio elétrico estivesse estabelecido através do Atlântico, e que na sua extremidade europeia se houvessem produzido alguns sinais inteligentes, e ter-se-ia logo concluído que na outra extremidade se achavam seres inteligentes, que desejavam comunicar-se; teríamos interrogado e eles teriam respondido. Ficaríamos assim com a certeza da sua existência, e podia-se adquirir o conhecimento dos seus costumes, usos e modos de ser, apesar de nunca os havermos visto.

Foi o que se deu nas relações com o mundo invisível: as manifestações materiais foram sinais e meios de aviso que nos conduziram a comunicações mais regulares e mais seguidas.

E — coisa notável — à medida que meios de mais fácil comunicação se acham ao nosso dispor, os Espíritos abandonam os primitivos, insuficientes e incômodos, qual o mudo que, recuperando a palavra, renuncia à linguagem dos sinais.

Quem eram os habitantes desse mundo? Eram seres à parte, estranhos à humanidade? Eram bons ou maus?

Foi ainda a experiência quem se encarregou da solução de tais problemas; mas, até que observações numerosas tivessem derramado luz sobre o assunto, o campo das conjeturas e dos sistemas esteve aberto, e Deus sabe quantos surgiram! Uns creram ser os Espíritos superiores em tudo, outros, neles só viram demônios; era só por suas palavras e atos que podiam julgá-los.

Suponhamos que dentre os desconhecidos habitantes transatlânticos, de que acabamos de falar, uns tenham dito muito boas coisas, ao passo que outros se faziam notar pelo cinismo da linguagem; ter-se-ia logo concluído que entre eles havia bons e maus.

Foi o que aconteceu com os Espíritos; foi assim que se reconheceu entre eles todos os graus de bondade e malvadez, de saber e ignorância.

Uma vez bem informados acerca dos defeitos e das boas qualidades que entre eles se encontram, cabe à nossa prudência distinguir o que é bom do que é mau, o verdadeiro do falso em suas relações conosco, absolutamente como procedemos a respeito dos homens.

A observação não nos esclareceu somente sobre as qualidades morais dos Espíritos, mas, também, sobre a sua natureza e sobre o que poderíamos chamar estado fisiológico. Ficou-se sabendo, por eles mesmos, que uns são muito felizes e outros muito desgraçados; que não são seres à parte, de natureza excepcional e, sim, as almas daqueles que já viveram na Terra, onde deixaram seu invólucro corpóreo, e que hoje povoam os espaços, nos cercam, nos acotovelam sem cessar, e, dentre eles, cada qual pode, por sinais incontestáveis, reconhecer seus parentes e amigos e os que conhecera na Terra; pode-se acompanhá-los em todas as fases de sua existência de além-túmulo, desde o instante em que abandonam o corpo, e observar sua situação segundo o gênero de morte e modo pelo qual viveram na Terra.

Enfim, soube-se que eles não são entes abstratos, imateriais, no sentido absoluto da palavra; possuem um invólucro, a que chamamos perispírito, espécie de corpo fluídico, vaporoso, diáfano, invisível no estado normal, mas que, em certos casos e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular, pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível, e, desde então, ficou explicado o fenômeno das aparições e do contato.

Enquanto dura o corpo, esse invólucro é um laço que o prende ao Espírito; quando, porém, o corpo morre, a alma ou o Espírito, que é a mesma coisa, abandona-o, sem, contudo, deixar o primeiro envoltório, do mesmo modo como despimos as peças exteriores da nossa roupa, para só conservarmos as interiores; assim como o fruto despojado do invólucro cortical conserva ainda o perisperma.

É esse invólucro semimaterial do Espírito que lhe serve de meio para a produção de diferentes fenômenos, pelos quais ele se nos manifesta.

Tal é, em poucas palavras, cavalheiro, a história do Espiritismo; bem vedes, e reconhecereis ainda melhor quando o tiverdes estudado a fundo, que tudo nele é o resultado da observação e não de um sistema preconcebido.



Meios de comunicação


V. — Falastes de meios de comunicação; podereis dar-me disso uma ideia, porquanto é difícil compreender como podem esses seres invisíveis conversar conosco?

A. K. — De boa-vontade; vou fazê-lo, contudo, abreviadamente, porque isto exigiria prolongado desenvolvimento, que encontrareis minuciosamente em O Livro dos Médiuns. Mas o pouco que eu vos disser, agora, bastará para facilitar-vos a compreensão do mecanismo e servirá, sobretudo, para vos dar uma ideia de algumas das experiências, a que podereis assistir, antes de começar a vossa iniciação. A existência desse envoltório semimaterial é já uma chave para a explicação de muitas coisas e mostra-vos a possibilidade de certos fenômenos.

Quanto aos meios, são muito variados e dependem tanto da natureza, mais ou menos apurada dos Espíritos, quanto das disposições peculiares às pessoas que lhes servem de intermediárias. O mais vulgar — o que se pode chamar universal — consiste na intuição, isto é, nas ideias e pensamentos que eles nos sugerem; é este, porém, um meio pouco apreciável, na generalidade dos casos; outros existem mais materiais. Certos Espíritos se comunicam por pancadas, respondendo por sim ou por não, ou designando as letras que devem formar as palavras. As pancadas podem ser obtidas pelo movimento de oscilação de um objeto, de uma mesa, por exemplo, que bate com o pé. Muitas vezes se fazem ouvir nas próprias substâncias dos corpos, sem que estes se movimentem. Esse modo primitivo é demorado e dificilmente se presta a comunicações de certo desenvolvimento; a escrita substituiu-o, e é obtida de diferentes maneiras.

Serviu-se no começo, e serve-se ainda algumas vezes, de um objeto móvel, como uma prancheta, uma cestinha, uma caixa, ao qual se adapta um lápis, cuja ponta pousa sobre o papel. A natureza e a substância do objeto são indiferentes. O médium coloca as mãos sobre esse objeto, ao qual transmite a influência que recebe do Espírito, e o lápis traça os caracteres. O objeto assim empregado não é, propriamente falando, mais que um apêndice da mão, uma espécie de porta-lápis.

Depois, reconheceu-se a inutilidade desse intermediário, que não é senão uma complicação de meios, cujo único mérito está em demonstrar, de modo mais palpável, a independência do médium; este último pode escrever, segurando, ele mesmo, o lápis.

Os Espíritos manifestam-se ainda e podem transmitir seus pensamentos por sons articulados, que se fazem ouvir, seja no ar, seja no interior do órgão auditivo, pela voz do médium, pela vista, por desenhos, pela música e por muitos outros meios que um estudo completo torna conhecidos.

Os médiuns possuem, para esses diferentes modos de comunicação, aptidões especiais que dependem de sua organização. Assim, temos médiuns de efeitos físicos, isto é, aptos para produzir fenômenos materiais, como pancadas, movimentos de corpos, etc.; há médiuns auditivos, falantes, videntes, desenhadores, músicos, escreventes. Esta última faculdade é a mais comum, a que melhor se desenvolve pelo exercício e também a mais preciosa, por ser a que permite comunicações mais frequentes e rápidas.

O médium escrevente apresenta numerosas variedades, das quais duas são muito distintas. Para compreendê-las, é necessário saber-se o modo pelo qual se opera o fenômeno. O Espírito atua, algumas vezes, diretamente sobre a mão do médium, à qual dá um impulso totalmente independente da vontade deste, e sem que ele tenha consciência do que escreve: é o médium escrevente mecânico. Outras vezes, atuando sobre o cérebro do médium, seu pensamento se comunica com o deste, que, então, se bem que escrevendo, de modo, involuntariamente, tem consciência mais ou menos nítida do que obtém: é o médium intuitivo; seu papel é exatamente o de um intérprete, que transmite um pensamento que não é o seu e que, portanto, ele deve compreender. Ainda que, neste caso, o pensamento do Espírito e o do médium se confundam algumas vezes, a experiência ensina a distingui-los com facilidade.

Obtêm-se comunicações igualmente boas por esses dois gêneros de médiuns; a vantagem dos que são mecânicos é serem proveitosos sobretudo para as pessoas que ainda não estão convencidas. Demais, a qualidade essencial de um médium está na natureza dos Espíritos que o assistem, nas comunicações que recebe, antes que nos meios de execução.

V. — O processo parece-me dos mais simples. Poderia eu mesmo experimentá-lo?

A. K. — Perfeitamente; digo mais: se possuirdes a faculdade mediúnica, tereis o melhor meio de vos convencer, porque não podeis duvidar da vossa boa-fé. Somente, aconselho-vos vivamente a não tentardes ensaio algum antes de acurado estudo. As comunicações do além-túmulo são cercadas de mais dificuldades do que se pensa; elas não estão isentas de inconvenientes e, mesmo, de perigos, para os que não têm a necessária experiência. É o mesmo que aconteceria àquele que, sem saber Química, tentasse fazer manipulações químicas; correria o risco de queimar os dedos.

V. — Há algum sinal pelo qual se possa reconhecer a posse dessa aptidão?

A. K. — Até ao presente não se conhece um diagnóstico para a mediunidade; todos os que julgamos descobrir são sem valor; experimentar é o único meio de saber se a faculdade existe.

Além disso, os médiuns são muito numerosos e é raríssimo, quando não o sejamos, não se encontrar algum em qualquer dos membros de nossa família, ou nas pessoas que nos cercam.

O sexo, a idade e o temperamento são indiferentes; eles aparecem entre os homens e mulheres, entre crianças, velhos, doentes e pessoas sadias.

Se a mediunidade se traduzisse por um sinal exterior qualquer, isto implicaria a permanência da faculdade, ao passo que ela é essencialmente móbil e fugidia. Sua causa física está na assimilação, mais ou menos fácil, dos fluidos perispirituais do encarnado e do Espírito desencarnado; sua causa moral está na vontade do Espírito que se comunica, quando isto lhe apraz, e não segundo a nossa vontade, donde resulta: 1.°, que nem todos os Espíritos podem comunicar-se indiferentemente por todos os médiuns; 2.°, que todo médium pode perder ou ver suspender-se a sua faculdade, quando ele menos o esperar.

Estas poucas palavras bastam para mostrar que há nisto um sério estudo a fazer-se, a fim de se poder explicar as variações que esse fenômeno apresenta. Seria, pois, um erro crer que todo Espírito possa vir responder ao apelo que lhe é feito, e se comunicar pelo primeiro médium de que se lance mão. Para que um Espírito se comunique, é preciso: 1.°, que lhe convenha fazê-lo; 2.°, que sua posição ou suas ocupações lho permitam; 3.°, que encontre no médium um instrumento apropriado à sua natureza.

Em princípio, podemos comunicar-nos com os Espíritos de todas as categorias, com os nossos parentes e amigos, com os mais elevados como com os mais vulgares; porém, independente das condições individuais de possibilidade, eles vêm mais ou menos de boa-vontade segundo as circunstâncias e, sobretudo, segundo a sua simpatia pelas pessoas que os chamam, e não pelo pedido do primeiro que tenha a fantasia de evocá-los por um sentimento de curiosidade; nestas circunstâncias, se eles, quando na Terra, não se incomodariam com elas, depois da morte não o fazem também.

Os Espíritos sérios só comparecem nas reuniões sérias, para onde os chamam com recolhimento e para coisas sérias; não se prestam a responder a perguntas de curiosidade, de prova, ou com um fim fútil, nem também a experiência alguma.

Os Espíritos frívolos andam por toda parte; porém, nas reuniões sérias, calam-se e conservam-se afastados para escutar, como fariam estudantes em uma assembleia de doutos. Nas reuniões frívolas eles tomam a desforra, fazendo de tudo divertimento, zombando, muitas vezes, dos assistentes, e respondendo a tudo sem se importarem com a verdade.

Os Espíritos denominados batedores e, geralmente, todos os que produzem manifestações físicas, são de ordem inferior, sem por isso serem essencialmente maus; possuem uma aptidão, de alguma sorte especial, para os efeitos materiais; os Espíritos superiores não se ocupam com essas coisas, assim como os sábios da Terra não se entregam a exercícios de força muscular; quando aqueles precisam que tais efeitos se deem, lançam mão dos atrasados, como nós nos servimos dos trabalhadores para os serviços pesados.


Médiuns interesseiros


V. — Antes de empreender um estudo de longo fôlego, há muita gente que deseja ter certeza de que não vai perder o tempo, certeza que lhe poderia provir do fato concludente, mesmo obtido a peso de ouro.

A. K. — Aquele que não se quer dar ao trabalho de estudar, é antes guiado pela curiosidade, que pelo desejo real de se instruir; ora, os Espíritos, assim como eu, não gostam dos curiosos. Além disso, a cobiça é-lhes, sobretudo, antipática, e eles recusam-se a prestar-lhe qualquer serviço; crer que Espíritos superiores como Fénelon, Bossuet, Pascal, Santo Agostinho, se ponham às ordens do primeiro que os chame, a tanto por hora, é fazer ideia bem falsa das nossas relações com o mundo espiritual.

Não, senhor. As comunicações de além-túmulo são assunto muito grave e respeitabilíssimo para serem assim exibidas.

Sabemos que os fenômenos espíritas não se produzem como o movimento das rodas de um mecanismo, porquanto dependem da vontade dos Espíritos; mesmo admitindo-se que um indivíduo possua aptidão mediúnica, nada lhe garante obter uma manifestação em dado momento.

Se os incrédulos são inclinados a suspeitar da boa-fé dos médiuns em geral, muito pior seria se neles encontrassem o estímulo do interesse; com razão se poderia suspeitar que o médium retribuído simulasse quando o Espírito não o auxiliasse, pois que ele desejaria de qualquer forma ganhar dinheiro.

Além de que o desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade, repugnaria à razão evocar por dinheiro os Espíritos das pessoas que nos são caras, supondo que eles consintam nisso, o que é mais que duvidoso; em todos os casos só se prestariam a isso Espíritos de classe inferior, pouco escrupulosos a respeito de meios, e que não merecem confiança alguma; e estes mesmos, muitas vezes, encontram um divertimento maldoso em frustrar as combinações e os cálculos do seu evocador. A natureza da faculdade mediúnica opõe-se, pois, a que ela sirva de profissão, à vista de sua dependência de vontade estranha à do médium, e de lhe poder ela, no momento preciso, deixá-lo em falta, salvo se ele a suprir pela astúcia.

Porém, admitindo mesmo inteira boa-fé, desde que os fenômenos não se produzem à vontade, seria puro acaso se, em sessão paga, se produzisse exatamente aquele que desejávamos ver para nos convencermos.

Dai cem mil francos a um médium e não conseguireis que ele obtenha que os Espíritos façam o que não querem; essa dádiva, que viria desnaturar a intenção e transformá-la em violento desejo de lucro, seria antes um motivo para que ele fosse mal sucedido. Quando se está bem compenetrado desta verdade — que a afeição e a simpatia são os mais poderosos móveis de atração para os Espíritos —, não se pode deixar de compreender que não lhes agradam as solicitações de alguém que tenha a ideia de servir-se deles para ganhar dinheiro.

Aquele, pois, que precisa de fatos que o convençam, deve provar aos Espíritos sua boa-vontade por uma observação séria e paciente, se deseja ser auxiliado; pois se é uma verdade que a fé não se impõe, não o é menos, que se não pode comprá-la.

V. — Compreendo esse raciocínio do ponto de vista moral; entretanto, não é justo que aquele que emprega seu tempo, a bem da causa, não seja indenizado quando esse tempo é roubado ao trabalho de que precisa para viver?

A. K. — Primeiro: será mesmo no interesse da causa que ele o faz, ou no seu próprio?

Se ele deixou seu modo de vida, é porque não lhe satisfazia, e por esperar ganhar mais, em um novo, ou ter menos fadigas. Não há sacrifício algum no empregar o tempo em uma coisa de que se espera tirar lucro. É absolutamente o mesmo que se se dissesse ser no interesse da humanidade que o padeiro fabrica o pão. A mediunidade não é o único recurso; se ele não a tivesse, procuraria ganhar a vida de outro modo.

Os médiuns verdadeiramente sérios e devotados, quando não possuem uma existência independente, procuram recursos no trabalho ordinário e não abandonam suas profissões; eles não consagram à mediunidade senão o tempo que lhe podem dar, sem prejuízo de outras ocupações; empregando parte do tempo destinado aos divertimentos e repouso, nesse trabalho mais útil, eles se mostram devotados, tornam-se apreciados e respeitados.

A multiplicidade dos médiuns nas famílias torna, ao demais, inúteis os médiuns de profissão, ainda que estes ofereçam todas as garantias desejáveis, o que é muito raro.

Se não fosse o descrédito que acompanha esse gênero de exploração, para o que me felicito de muito haver concorrido, os médiuns mercenários pululariam e os jornais viriam sempre cheios de seus reclamos; ora, para um que fosse leal, apresentar-se-iam cem charlatães que, abusando de uma faculdade real ou simulada, fariam o maior dano ao Espiritismo.

É, pois, um princípio: todos quantos veem no Espiritismo coisa diferente de uma exibição de fenômenos curiosos, que compreendem e tomam a peito a dignidade, consideração e os verdadeiros interesses da doutrina, reprovam toda espécie de especulação, qualquer que seja a forma ou disfarce com que se apresente.

Os médiuns sérios e sinceros — e eu dou este nome aos que compreendem a santidade do mandato que Deus lhes confiou — evitam até as aparências do que poderia fazer pairar sobre eles a menor suspeita de cobiça; eles consideram uma injúria a acusação de tirarem qualquer lucro da sua faculdade.

Convinde, senhor, apesar de serdes incrédulo, que um médium nessas condições faria sobre vós uma impressão totalmente diversa da que sentiríeis, se lhe tivésseis pago para vê-lo trabalhar, ou, quando mesmo fosseis admitido por favor, se soubésseis que atrás de tudo aquilo havia uma questão de dinheiro; concordai que vendo-o antes animado de um verdadeiro sentimento religioso, estimulado pela fé somente e não pelo desejo do ganho, involuntariamente o respeito por ele se vos impunha; seja embora ele o mais humilde proletário, inspirar-vos-á mais confiança, porque não há motivo algum para suspeitardes da sua lealdade.

Pois bem! caro senhor, encontrareis mil como este, contra um que não esteja nas mesmas condições, e é esta uma das causas que mais têm concorrido para o crédito e propagação da doutrina; ao passo que, se ela só tivesse intérpretes interessados, não contaria a quarta parte dos adeptos que possui hoje.

É perfeitamente compreensível que os médiuns de profissão sejam excessivamente raros, pelo menos em França; eles são desconhecidos na maioria dos centros espíritas da província, onde a reputação de mercenários bastaria para que os excluíssem de todos os grupos sérios, e onde para eles o ofício não seria lucrativo, por causa do descrédito de que se tornariam objeto e da concorrência de médiuns desinteressados, que se encontram por toda parte.

Para suprir, seja a faculdade que lhes falta, seja a insuficiência da clientela, há falsos médiuns que tudo aproveitam, servindo-se das cartas, da clara de ovo, da borra de café, etc., a fim de contentar a todos os gostos, esperando por esse meio, na falta de Espíritos, atrair os que ainda creem nessas tolices.

Se eles unicamente a si prejudicassem, o mal não seria grande; porém, há pessoas que, sem nada aprofundarem, confundem o abuso com a realidade, e disso se aproveitam os mal-intencionados, para dizer que é nisso que consiste o Espiritismo. Já vedes, pois, senhor, que se a exploração da mediunidade conduz a cometer abusos prejudiciais à doutrina, o Espiritismo sério tem razão de não aceitá-la, de repelir o seu auxílio.

V. — Tudo isso é muito lógico, concordo, mas os médiuns desinteressados não se acham ao dispor de qualquer e sentimo-nos constrangidos de incomodá-los; escrúpulos que não nos embaraçam, quando buscamos aquele que recebe uma paga, convencido de que não lhe vamos roubar o tempo. Muita gente que se deseja convencer, acharia muito mais facilidade se existissem médiuns públicos.

A. K. — Se os médiuns públicos, como lhes chamais, não oferecem as garantias precisas, como poderiam ser úteis para levar alguém à convicção? O inconveniente que assinalais, não destrói os de muito mais gravidade, que vos citei.

Buscá-los-iam antes como divertimento, para ouvir a buena-dicha, do que como meio de instrução. Aquele que, seriamente, deseja convencer-se encontra os meios, mais tarde ou mais cedo, se tiver perseverança e boa-vontade; porém, quando não se está preparado para tal, não é por assistir a uma sessão que se ficará convencido.

Prova a experiência que, por se trazer dessas sessões uma impressão desfavorável, sai-se menos disposto à convicção, e talvez sem vontade alguma de prosseguir num estudo em que nada se viu de sério.

Ao lado, porém, das considerações morais, os progressos da ciência espírita, fazendo-nos melhor conhecer as condições em que se produzem as manifestações, mostram-nos, hoje, a dificuldade material que se apresenta à sua produção, coisa de que ninguém a princípio suspeitava: a necessidade de afinidades fluídicas entre o Espírito evocado e o médium.

Ponho de lado todo pensamento de fraude e embuste, e suponho que exista a mais completa lealdade.

Para que um médium de profissão possa oferecer toda segurança às pessoas que o venham consultar, é necessário que ele possua uma faculdade permanente universal, isto é, que ele se possa comunicar facilmente com qualquer Espírito e a todo momento, para estar constantemente à disposição do público, como um médico, e satisfazer a todas as evocações que lhe sejam pedidas; ora, isto é o que não se encontra em médium algum, seja entre os desinteressados, seja entre os outros, e isto por causas independentes da vontade do Espírito, o que não posso desenvolver aqui, porque não estou fazendo um curso de Espiritismo.

Limito-me a dizer-vos que as afinidades fluídicas, princípio do qual dimanam as faculdades mediúnicas, são individuais e não gerais, podendo existir do médium para tal Espírito, e não para tal outro; que, sem essas afinidades, cujas variantes são múltiplas, as comunicações são incompletas, falsas ou impossíveis; que, as mais das vezes, a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece depois de algum tempo, ou somente uma vez em dez acontece que ela seja completa desde a primeira vez.

A mediunidade, como vedes, cavalheiro, é subordinada a leis, de alguma sorte orgânicas, às quais todo médium está sujeito; ora, não se pode negar que isto é um obstáculo para a mediunidade de profissão, pois que a possibilidade e a exatidão das comunicações são um produto de causas que não dependem do médium nem do Espírito. (Ver abaixo, no cap. II, o parágrafo dos médiuns.)

Se, pois, repelimos a exploração da mediunidade, não é nem por capricho, nem por sistema, mas porque os próprios princípios que regem as nossas relações, com o mundo invisível, se opõem à regularidade e precisão necessárias naquele que se põe à disposição do público, e a quem o desejo de satisfazer à clientela, que lhe paga, arrasta ao abuso.

Não concluo, do que tenho dito, que todos os médiuns interesseiros sejam charlatães; digo somente que a ambição do ganho impele ao charlatanismo e autoriza a suspeita de velhacaria.

Quem deseja convencer-se deve, primeiro que tudo, procurar elementos de sinceridade.



Médiuns e feiticeiros


V. — Desde que a mediunidade não é mais que um meio de entrar em relação com as potências ocultas, médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma coisa.

A. K. — Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que, pelo simples fato de produzirem fenômenos insólitos e incompreendidos, foram qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo; foi o mesmo que se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do vulgar. A ignorância exagerou seu poder e, muitas vezes, eles mesmos abusaram da credulidade pública, explorando-a; daí a justa reprovação que os feriu.

Basta-nos comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos verdadeiros médiuns, para conhecermos a diferença, mas a maioria dos críticos não se quer dar a esse trabalho.

Longe de fazer reviver a feitiçaria, o Espiritismo a aniquila, despojando-a do seu pretenso poder sobrenatural, de suas fórmulas, engrimanços, amuletos e talismãs, e reduzindo a seu justo valor os fenômenos possíveis, sem sair das leis naturais.

A semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer provém do erro em que estão, julgando que os Espíritos estão às ordens dos médiuns; repugna à sua razão crer que um indivíduo qualquer possa, à vontade, fazer comparecer o Espírito de tal ou tal personagem, mais ou menos ilustre; nisto eles estão perfeitamente com a verdade, e, se antes de apedrejarem o Espiritismo, se tivessem dado ao trabalho de estudá-lo, veriam que ele diz positivamente que os Espíritos não estão sujeitos aos caprichos de ninguém, que ninguém pode, à vontade, constrangê-los a responder ao seu chamado; do que se conclui que os médiuns não são feiticeiros.

V. — Neste caso, todos os efeitos que certos médiuns acreditados obtêm, à vontade e em público, não são, ao vosso ver, senão charlatanice?

A. K. — Não o digo em absoluto. Tais fenômenos não são impossíveis, porque há Espíritos de baixa categoria que se podem prestar à sua produção e que se divertem, talvez por já terem sido prestidigitadores na vida terrena; também há médiuns especialmente próprios para esse gênero de manifestações; porém, o vulgar bom senso repele a ideia de virem os Espíritos, por menos elevados que sejam, representar palhaçadas e fazer escamoteações para divertimento dos curiosos. A obtenção desses fenômenos à vontade, e sobretudo em público, é sempre suspeita; neste caso a mediunidade e a prestidigitação se tocam tão de perto que é difícil muitas vezes distingui-las; antes de vermos nisso a ação dos Espíritos, devemos observar minuciosamente e ter em conta, quer o caráter e os antecedentes do médium, quer um grande número de circunstâncias que só o estudo da teoria dos fenômenos espíritas nos pode fazer apreciar.

Deve-se notar que esse gênero de mediunidade, quando mediunidade nisso exista, limita-se a produzir sempre o mesmo fenômeno, salvo pequenas variantes, o que não é muito próprio para dissipar dúvidas. O desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade.

Qualquer que seja o grau de veracidade desses fenômenos, como efeitos mediúnicos, eles produzirão bom resultado, por darem voga à ideia espírita. A controvérsia que se estabelece a respeito provoca em muitas pessoas um estudo mais aprofundado.

Não é certamente aí que se deve ir beber instruções sérias sobre o Espiritismo, nem sobre a filosofia da doutrina; porém, é um meio de chamar a atenção dos indiferentes e obrigar os recalcitrantes a falarem dele.



Diversidade dos Espíritos


V. — Falais de Espíritos bons ou maus, sérios ou frívolos; confesso-vos que não compreendo essa diferença; parece-me que, deixando o envoltório corporal, os Espíritos se despojam das imperfeições inerentes à matéria; que a luz se deve fazer para eles, sobre todas as verdades que nos são ocultas, e que eles ficam libertos dos prejuízos terrenos.

A. K. — Sem dúvida eles ficam livres das imperfeições físicas, isto é, das dores e enfermidades corporais; porém, as imperfeições morais são do Espírito e não do corpo. Entre eles há alguns que são mais ou menos adiantados, moral e intelectualmente.

Seria erro acreditar que os Espíritos, deixando o corpo material, recebem logo a luz da verdade.

É possível admitirdes que, quando morrerdes, não haja distinção alguma entre o vosso Espírito e o de um selvagem? Assim sendo, de que vos serviria ter trabalhado para a vossa instrução e melhoramento, quando um vadio, depois da morte, será tanto quanto vós?

O progresso dos Espíritos faz-se gradualmente e, algumas vezes, com muita lentidão. Entre eles alguns há que, por seu grau de aperfeiçoamento, veem as coisas sob um ponto de vista mais justo do que quando estavam encarnados; outros, pelo contrário, conservam ainda as mesmas paixões, os mesmos preconceitos e erros, até que o tempo e novas provas os venham esclarecer. Notai bem que o que digo é fruto da experiência, colhido no que eles nos dizem em suas comunicações. É, pois, um princípio elementar do Espiritismo que existem Espíritos de todos os graus de inteligência e moralidade.

V. — Por que não são perfeitos todos os Espíritos? Tê-los-á Deus assim criado em tão diversas categorias?

A. K. — É o mesmo que perguntar por que todos os alunos de um colégio não estão cursando filosofia.

Todos os Espíritos têm a mesma origem e o mesmo destino; as diferenças que os separam, não constituem espécies distintas, mas exprimem diversos graus de adiantamento. Os Espíritos não são perfeitos, porque não são mais do que as almas dos homens, que não atingiram também a perfeição; e, pela mesma razão, os homens não são perfeitos por serem encarnações de Espíritos mais ou menos adiantados. O mundo corporal e o mundo espiritual estão em contínuo revezamento; pela morte do corpo, o mundo corporal fornece seu contingente ao espiritual; pelos nascimentos, este alimenta a humanidade.

Em cada nova existência, o Espírito dá maior ou menor passo no caminho do progresso, e, quando adquiriu na Terra a soma de conhecimentos e a elevação moral que o nosso globo comporta, ele o deixa, para ir viver em mundo mais elevado onde vai aprender novas coisas.

Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são, de alguma sorte, o reflexo do mundo corporal; neles se encontram os mesmos vícios e as mesmas virtudes; há entre eles sábios, ignorantes e charlatães, prudentes e levianos, filósofos, raciocinadores, sistemáticos; como se não se despissem de seus prejuízos, todas as opiniões políticas e religiosas têm entre eles representantes; cada um fala segundo suas ideias, e o que eles dizem é, muitas vezes, apenas a sua opinião pessoal; eis o motivo por que se não deve crer cegamente em tudo o que dizem os Espíritos.

V. — Sendo assim, apresenta-se imensa dificuldade: nesses conflitos de opiniões diversas, como distinguir-se o erro da verdade? Não descubro a utilidade dos Espíritos, nem o que ganhamos em conversar com eles.

A. K. — Quando eles apenas servissem para dar-nos a prova de sua existência e de serem as almas dos homens, só isto seria de grande importância para quantos ainda duvidam que tenham uma alma e ignoram o que será deles depois da morte.

Como todas as ciências filosóficas, esta exige longos estudos e minuciosas observações; é só assim que se aprende a distinguir a verdade da impostura, e que se adquire os meios de afastar os Espíritos enganadores. Acima dessa turba de baixa esfera, existem os Espíritos superiores, que só têm em vista o bem, e cuja missão é guiar os homens pelo bom caminho; cumpre-nos sabê-los apreciar e compreender. Estes nos vêm ensinar grandes coisas; mas não julgueis que o estudo dos outros seja inútil; para bem conhecer um povo é necessário estudá-lo sob todas as faces. Vós mesmos tendes a prova disso; pensáveis que bastava aos Espíritos deixarem seu envoltório corpóreo para que ficassem isentos de todas as suas imperfeições; ora são as comunicações com eles que nos ensinaram que isto não se dá, e fizeram-nos conhecer o verdadeiro estado do mundo espiritual, que a todos nós interessa no mais alto ponto, pois que todos temos que ir para lá.

Quanto aos erros que se podem originar da divergência de opiniões entre os Espíritos, eles desaparecem por si mesmos, à medida que se aprende a distinguir os bons dos maus, os sábios dos ignorantes, o

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