Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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Escrevem-nos de Caen:

Uma senhora e suas três filhas, querendo estudar a Doutrina Espírita, não podiam ler duas páginas sem sentir um mal-estar que elas não entendiam. Um dia encontrei-me em casa dessas senhoras, com uma jovem médium sonâmbula muito lúcida. Esta adormeceu espontaneamente e viu perto de si um Espírito que reconheceu como o padre L..., antigo cura do lugar, falecido há uns dez anos.

“Pergunta: ─ Sois vós, senhor, o cura, que impedis esta família de ler?

“Resposta: ─ Sim, sou eu. Velo incessantemente sobre o rebanho confiado aos meus cuidados. Há muito tempo que vos vejo querer instruir minhas penitentes em vossa triste doutrina. Quem vos deu o direito de ensinar? Fizestes estudos para isto?

“─ Dizei-nos, senhor padre, estais no Céu?

“─ Não. Não sou bastante puro para ver a Deus.

“─ Então estais nas chamas do purgatório?

“─ Não, pois não sofro.

“─ Vistes o inferno?

“─ Fazeis-me tremer! Vós me perturbais! Não vos posso responder, porque talvez me digais que devo estar numa destas três coisas. Tremo ao pensar no que dizeis, contudo sou atraído para vós pela lógica de vossos raciocínios. Voltarei e discutirei convosco.

“Com efeito, ele voltou muitas vezes. Discutimos e ele compreendeu tão bem que foi tomado de entusiasmo. Ultimamente ele exclamava: “Sim, agora sou espírita, dizei-o a todos os que ensinam. Ah! Como eu gostaria que eles compreendessem Deus como este anjo mo fez conhecer!” Ele falava de Cárita, que tinha vindo a nós e diante da qual ele caiu de joelhos, dizendo que não era um Espírito, mas um anjo. A partir desse momento ele tomou por missão instruir os que pretendem instruir os outros.”

Nosso correspondente acrescenta o seguinte fato:

“Entre os Espíritos que vêm ao nosso círculo, temos tido o Dr. X..., que se apodera do nosso médium, e que é como uma criança. É preciso dar-lhe explicações sobre tudo. Ele avança, compreende e está cheio de entusiasmo; vai junto dos cientistas que conheceu; quer explicar-lhes o que vê, o que ele agora sabe, mas eles não o compreendem; então ele se irrita e os trata de ignaros.

Um dia, numa reunião de dez pessoas, ele se apoderou da menina, como de hábito (a mocinha médium, pela qual ele falava e agia); perguntou-me quem era eu e por que sabia tanto sem nada ter aprendido; tomou-me a cabeça com as mãos e disse: “Eis a matéria, aí me reconheço, mas como estou eu aqui? Como posso fazer falar este organismo que, entretanto, não é meu? Falais-me da alma, mas onde está a que habita este corpo?”

“Depois de lhe haver feito notar o laço fluídico que une o Espírito ao corpo durante a vida, ele exclamou de repente, falando da mocinha médium: “Conheço esta menina; eu a vi em minha casa; tinha o coração doente. Como é que não mais está? Dizei-me, quem a curou?” Fiz-lhe ver que se enganava e que jamais a tinha visto ─ “Não, disse ele, não me engano, e a prova é que lhe piquei o braço e ela não sentiu nenhuma dor.”

“Quando a jovem foi despertada, perguntamos se tinha conhecido o doutor e se tinha ido consultá-lo. ‘Não sei se foi ele, respondeu ela, mas estando em Paris, levaram-me a um célebre médico, do qual não me lembro o nome nem do endereço.’

“Suas ideias se modificam rapidamente; é agora um Espírito no delírio da felicidade do que ele sabe; ele queria provar a todo mundo que o nosso ensino é incontestável. O que sobretudo o preocupa é a questão dos fluidos. ‘Eu quero, diz ele, curar como o vosso amigo; não quero mais servir-me de venenos; não os tomeis nunca.’ Hoje ele estuda o homem, não mais no seu organismo, mas na sua alma; feznos dizer como se operava a união da alma com o corpo na concepção, o que pareceu deixá-lo feliz. O bom Dr. Demeure veio em seguida e nos disse que não nos admirássemos com as perguntas, por vezes pueris, que ele nos poderia fazer. E disse: ‘Ele é como a criança a quem se deve ensinar a ler no grande livro da Natureza; mas como é ao mesmo tempo uma grande inteligência, instrui-se rapidamente, e nós para isso concorremos do nosso lado.’”

Estes dois exemplos vêm confirmar estes três grandes princípios revelados pelo Espiritismo, a saber:

1º ─ Que a alma conserva no mundo dos Espíritos, por um tempo mais ou menos longo, as ideias e preconceitos que tinha na vida terrestre;

2º ─ Que ela se modifica, progride e adquire novos conhecimentos no mundo dos Espíritos;

3º ─ Que os encarnados podem contribuir para o progresso dos Espíritos desencarnados.

Estes princípios, resultado de inumeráveis observações, têm uma importância capital, porque derrubam todas as ideias implantadas pelas crenças religiosas sobre o estado estacionário e definitivo dos Espíritos após a morte. Desde que é demonstrado o progresso no estado espiritual, todas as crenças fundadas na perpetuidade de uma situação uniforme qualquer caem ante a autoridade dos fatos. Elas também caem ante a razão filosófica que diz que o progresso é uma lei da Natureza, e que o estado estacionário dos Espíritos seria, ao mesmo tempo, a negação dessa lei e da justiça de Deus.

Progredindo o Espírito fora da encarnação, disso resulta esta outra consequência não menos capital: Voltando à Terra, ele traz o duplo adquirido das existências anteriores e da erraticidade. Assim se realiza o progresso das gerações.

É incontestável que quando o médico e o padre do qual se falou acima renascerem, eles trarão ideias e opiniões completamente diversas das que tinham na existência que acabam de deixar; um não será mais fanático, o outro não será mais materialista, e ambos serão espíritas. Outro tanto pode-se dizer do Dr. Morel Lavallé, do bispo de Barcelona e de tantos outros. Há, pois, utilidade, para o futuro da Sociedade, em se ocupar da educação dos Espíritos.

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