Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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“O Quatterly Journal of Psychological Medicine publica um relatório muito curioso sobre uma menina que substituiu a língua falada em seu redor por uma série de nomes e verbos que formam todo um idioma do qual ela se serve, e do qual não é possível desabituá-la.

“A criança tem agora quase cinco anos. Até a idade de três anos ela ficou sem falar e não sabia pronunciar senão as palavras ‘papa’ e ‘maman’. Quando se aproximou dos quatro anos, a língua se desatou de repente, e hoje ela fala com toda a facilidade e a volubilidade de sua idade. Mas de tudo quanto diz, só as duas palavras ‘papa’ e ‘maman’ que ela aprendeu a princípio, foram as únicas tiradas da língua inglesa. Todas as outras nasceram de seu pequeno cérebro e de seus pequenos lábios, e não têm nenhuma relação com essa corruptela de palavras de que se servem as crianças que com ela brincam habitualmente.

“Em seu dicionário, Gaan significa God (Deus); migno-migno, water (água); odo, to send for ou to take away (remeter ou retirar), conforme é colocada; gar, horse (cavalo).

“Um dia, diz o Dr. Hun, começou a chover. Fizeram a menina entrar e lhe proibiram de sair antes que a chuva cessasse. Ela postou-se à janela e disse:

“─ Gaan odo migno-migno, feu odo. (Deus, retire a chuva; traga o fogo do sol).

“A palavra feu aplicada no mesmo sentido que na língua a que pertenço me chocou. Soube que a criança jamais tinha ouvido falar francês, coisa muito singular, e que seria interessante verificar bem, porque a criança tomou diversas palavras da língua francesa, tais como ‘tout’, ‘moi’, e a negação ‘ne pas.’



“A menina tem um irmão mais velho com cerca de dezoito meses. Ela lhe ensinou a sua língua, sem tomar nenhuma das palavras de que ele se serve.

“Seus pais estão muito desolados com esse pequeno fenômeno. Muitas vezes tentaram ensinar-lhe inglês, dar-lhe o nome inglês das coisas que ela designa de outro modo em seu idioma. Ela se recusa terminantemente. Tentaram afastá-la das crianças de sua idade e colocá-la em contato com pessoas idosas que falam inglês e que nada conhecem do seu pequeno jargão. Era de se esperar que uma criança que se mostrava tão ávida por transmitir seus pensamentos a ponto de inventar uma língua nova, procurasse aprender o inglês quando se achasse entre pessoas que falassem essa língua. Mas não deu resultado.

“Logo que se acha com pessoas que ela não têm o hábito de ver, põe-se imediatamente a lhes ensinar a sua língua e, pelo menos momentaneamente, os pais renunciaram a desabituá-la.”

Tendo sido esse fato discutido na Sociedade Espírita de Paris, um Espírito deu a sua explicação na comunicação seguinte:

(Sociedade de Paris, 9 de outubro de 1868 ─ Médium: Sr. Nivard.) O fenômeno da pequena inglesa que fala uma língua desconhecida para os que a rodeiam, e que se recusa a servir-se da deles, é o fato mais extraordinário que se produziu desde muitos séculos.

Fatos surpreendentes ocorreram em todos os tempos, em todas as épocas, que causaram admiração aos homens, mas tinham similares ou parecidos. Isto certamente não os explicava, mas eram vistos com menos surpresa. O caso em questão talvez seja único no seu gênero. A explicação que podemos dar não é nem mais fácil nem mais difícil que as outras, mas sua singularidade é chocante, eis o essencial.

Eu disse a palavra chocante: é bem, não a causa, mas a razão do fenômeno. Ele choca de espanto, e é por isto que ele se produziu. Hoje que o progresso ganhou um certo avanço, não se contentarão em falar do fato, como se fala da chuva e do bom tempo; querem procurar-lhe a causa. Os médicos nada têm a ver com isso; a fisiologia é estranha a essa singularidade; se a menina fosse muda, ou se não pudesse senão dificilmente articular algumas palavras que não seriam compreendidas devido à insuficiência de seus órgãos vocais, os cientistas diriam que isto se deve às más disposições fisiológicas, e que fazendo desaparecerem essas más disposições, deixariam à criança o livre uso da palavra. Mas não é esse o caso. Ao contrário, a menina é loquaz, tagarela; ela fala com facilidade; chama as coisas à sua maneira; exprime-as à maneira que lhe convém e vai mais longe: ensina sua língua às suas companheiras, quando está provado que não lhe podem ensinar a língua materna e que não quer mesmo sujeitar-se.

A Psicologia é, pois, a única ciência na qual se deve buscar a explicação desse fato. A razão, o fim especial, acabo de dizer: Era preciso chocar os espíritos e solicitar as suas pesquisas. Quanto à causa, vou tentar vo-la dizer.

O Espírito encarnado no corpo dessa menina conheceu a língua, ou melhor, as línguas que ele fala, pois faz uma mistura. Não obstante, a mistura é feita conscientemente e constitui uma língua cujas diversas expressões são tomadas das que esse Espírito conheceu em outras encarnações. Em sua última existência ele tinha tido a ideia de criar uma língua universal a fim de permitir aos homens de todas as nações entender-se e assim aumentar a facilidade das relações e o progresso humano. Para esse efeito ele tinha começado a compor essa língua, que constituía de fragmentos de várias que ele conhecia e mais gostava. A língua inglesa lhe era desconhecida; ele tinha ouvido ingleses falando, mas achava sua língua desagradável e a detestava. Uma vez na erraticidade, o objetivo que se tinha proposto em vida aí continuou; pôs-se à tarefa e compôs um vocabulário que lhe é particular. Encarnou-se entre os ingleses, com o desprezo que tinha por sua língua, e com a determinação bem firme de não falar o inglês. Tomou posse de um corpo cujo organismo flexível lhe permite levar a termo sua resolução. Os laços que o prendem a esse corpo são bastante elásticos para mantê-lo num estado de semi desprendimento, que lhe deixa a lembrança bastante distinta de seu passado, e o mantém em sua resolução. Por outro lado, é ajudado por seu guia espiritual, que vela para que o fenômeno tenha lugar com regularidade e perseverança, a fim de chamar a atenção dos homens. Ademais, o Espírito encarnado estava consentindo na produção do fato. Ao mesmo tempo que demonstra o desprezo pela língua inglesa, cumpre a missão de provocar as pesquisas psicológicas.

L. NIRVAD, pai.

OBSERVAÇÃO: Se esta explicação não pode ser demonstrada, ao menos tem por si a racionalidade e a probabilidade. Um inglês que não admite o princípio da pluralidade das existências e que não tinha conhecimento da comunicação acima, arrastado pela lógica irresistível, disse, falando desse caso, que ele não se poderia explicar senão pela reencarnação, se fosse verdade que a gente pode reviver na Terra.

Eis, pois, um fenômeno que, por sua própria estranheza, cativando a atenção, provoca a ideia da reencarnação, como a única razão plausível que se lhe possa dar. Antes que este princípio estivesse na ordem do dia, ter-se-ia simplesmente achado o caso bizarro e, sem dúvida, em tempos ainda mais remotos, teriam olhado essa menina como enfeitiçada. Nós nem mesmo juraríamos que ainda hoje não fosse esta a opinião de certas pessoas. O que não é menos digno de nota é que este fato se produz precisamente num país ainda refratário à ideia da reencarnação, mas à qual será arrastado pela força das coisas.

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