Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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Extraído do Figaro, de 12 de abril de 1868:

“Por mais extraordinário que pareça o relato seguinte, o autor, declarando tê-lo recebido do próprio vice-presidente do Corpo Legislativo (o Barão Jérôme David), dá às suas palavras uma autoridade incontestável.

“Durante sua estada em Saint-Cyr, David foi testemunha de um duelo entre dois de seus camaradas de promoção, Lambert e Poirée. Este último recebeu um golpe de espada e foi curar-se na enfermaria, onde seu amigo David subia para vê-lo todos os dias.

“Certa manhã, Poirée lhe pareceu singularmente perturbado; ele crivou-o de perguntas e acabou por lhe arrancar a confissão de que sua emoção vinha de um simples pesadelo.

“─ Eu sonhava que estávamos à beira de um rio, eu recebia uma bala na testa, acima do olho, e tu me sustinhas nos braços; eu sofria muito e me sentia morrer. Eu te recomendava minha mulher e os meus filhos, quando acordei.

“─ Meu caro, estás com febre, respondeu-lhe David sorrindo; refaze-te; estás em teu leito, não és casado e não tens bala acima do olho; é um sonho muito bobo; não me atormentes assim, se queres curar-te depressa.

“─ É singular, murmurou Poirée, jamais acreditei em sonhos, não creio, contudo, estou abalado.

“Dez anos depois o exército francês desembarcava na Crimeia. Os saintcyrianos se tinham perdido de vista. David, oficial ajudante ligado à divisão do príncipe Napoleão, recebeu ordem de ir descobrir um vau a montante do Alma. Para impedir que os russos o fizessem prisioneiro, apoiaram esse reconhecimento por uma companhia de caçadores, tomada do regimento mais próximo. Os russos faziam cair uma chuva de balas sobre os homens da escolta, que se estenderam em atiradores para responder.

“Não se tinham passado dez minutos quando um dos nossos oficiais rolou por terra, mortalmente ferido. O capitão David saltou do cavalo e correu para erguê-lo. Ele apoiou a cabeça em seu braço esquerdo e, destacando o cantil da cintura, aproximou-o dos lábios do ferido. Um buraco aberto acima do olho ensanguentavalhe o rosto; um soldado trouxe um pouco de água e a derramou sobre a cabeça do moribundo, que já estertorava.

“David olhou com atenção os traços, que parecia reconhecer. Um nome foi pronunciado ao seu lado; não havia dúvida, era ele, era Poirée! Ele o chamou; seus olhos se abriram e o agonizante por sua vez reconheceu o camarada de Saint-Cyr... “─ David! tu aqui?... O sonho... minha mulher...

“Estas palavras entrecortadas não tinham acabado e já a cabeça caía inerte no braço de David. Poirée estava morto, deixando sua mulher e seus filhos à lembrança e à amizade de David.

“Eu não ousaria contar semelhante história se eu mesmo não a tivesse ouvido do honrado vice-presidente do Corpo Legislativo.

“Vox populi.”

A que propósito o narrador ajunta as palavras vox populi? Poder-se-ia entendêlas assim: Os fatos desta natureza são de tal modo frequentes, que são atestados pela voz do povo, isto é, por um assentimento geral.

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