Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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Comunicação verbal pelo Sr. Morin, em sonambulismo espontâneo

(Sociedade de Paris, 13 de março de 1868)

A partir do momento que a misericórdia divina permitiu que eu, humilde criatura, recebesse a revelação dos mensageiros da imensidade, até este dia, um a um os anos caíram no abismo dos tempos, e à medida que se escoavam, aumentavam também os conhecimentos dos homens e se alargava o seu horizonte intelectual.

Desde quando me foram dadas algumas das páginas que vos foram lidas, muitas outras foram dadas no mundo inteiro, sobre o mesmo assunto e pelo mesmo meio. Não creiais que eu tenha a pretensão, eu, humilde entre todos, de ter tido a honra insigne de ser o primeiro a receber tal favor. Não. Outros, antes de mim, também tinham recebido a revelação. Mas, como eu, ah! eles compreenderam incompletamente algumas de suas partes. É que é necessário, senhores, levar em conta o tempo, o grau de instrução moral, e sobretudo o grau de emancipação filosófica dos povos.

Os Espíritos, dos quais hoje me sinto feliz em fazer parte, formam, também eles, povos e mundos, mas eles não têm raças; eles estudam, eles veem, e seus estudos podem ser incontestavelmente maiores, mais vastos que os estudos dos homens; mas, não obstante, eles partem sempre dos conhecimentos adquiridos e do ponto culminante do progresso moral e intelectual do tempo e do meio em que vivem. Se os Espíritos, esses mensageiros divinos, vêm diariamente vos dar instruções de uma ordem mais elevada, é que a generalidade dos seres que as recebem está em condições de compreendê-las. Por força de preparações que sofreram, há instantes em que os homens não necessitam deixar passar sobre si a eternidade de um século para compreender. Desde que se vê elevar-se rapidamente o nível moral, uma espécie de atração os leva para uma certa corrente de ideias que eles devem assimilar, e para o objetivo a que devem aspirar. Mas esses instantes são curtos, e cabe aos homens aproveitá-los.

Eu disse que era preciso levar em conta os tempos e sobretudo o grau de emancipação filosófica que a época comportava. Reconhecido à Divindade, que me tinha permitido adquirir, por um favor especial, mais depressa do que outros homens que partiram do mesmo ponto, certos conhecimentos, recebi comunicações dos Espíritos. Mas a primeira educação, os ensinamentos estreitos, a tradição e o costume pesaram sobre mim; malgrado as minhas aspirações a adquirir uma liberdade, uma independência de espírito que eu desejava, amante atraído pelos Espíritos que vinham comunicar-se comigo, não conhecendo a ciência que vos foi revelada depois, eu não podia atrair senão os seres de ideias similares às minhas, às minhas aspirações, e que, com um horizonte mais largo, contudo tinham a mesma visão limitada. Daí, eu confesso, alguns erros que pudestes notar no que vos veio de mim; mas o fundo, o corpo principal não está, senhores, de acordo com tudo o que posteriormente vos foi revelado por esses mensageiros dos quais eu falava há pouco?

Espírito encarnado, por instinto levado ao bem, natureza fervorosa apoderandose de um pensamento que me levava ao verdadeiro, tão rápido, ah! como aquelas que me levavam ao erro, talvez aí esteja o motivo que provocou as inexatidões de minhas comunicações, sem ter, para retificá-las, o controle dos pontos de comparação. Porque, para que uma revelação seja perfeita, é preciso que se dirija a um homem perfeito, e este não existe; não é, pois, senão do conjunto que se podem extrair os elementos da verdade. Foi o que pudestes fazer; mas, em meu tempo, podia-se formar um conjunto de algumas parcelas do verdadeiro; de algumas comunicações excepcionais? Não. Sou feliz por ter sido um dos privilegiados do século passado; obtive algumas dessas comunicações por minha intermediação direta, e a maior parte por meio de um médium, meu amigo, completamente estranho à linguagem da alma, e é preciso dizer tudo, mesmo à do bem.

Feliz por partilhar essas ideias com inteligências que eu julgava acima da minha, uma porta me foi aberta; eu a aproveitei com entusiasmo, e todas as revelações da vida de além-túmulo foram por mim levadas ao conhecimento de uma Imperatriz que, por sua vez, as levou ao conhecimento do seu círculo, e assim por diante.

Acreditai que o Espiritismo não foi revelado espontaneamente; como todas as coisas saídas das mãos de Deus, ele desenvolveu-se progressivamente, lentamente, seguramente. Ele esteve em germe no primeiro germe das coisas, e cresceu com esse germe até que estivesse bastante forte para se subdividir ao infinito e espalhar por toda parte sua semente fecunda e regeneradora. É por ele que sereis felizes, que será assegurada a felicidade dos povos; que digo eu? a felicidade de todos os mundos, porque o Espiritismo, palavra que eu ignorava, é chamado a fazer revoluções muito grandes! Mas, tende a certeza, essas revoluções não ensanguentarão jamais a sua bandeira; são revoluções morais, intelectuais; revoluções gigantescas, mais irresistíveis que as provocadas pelas armas, pelas quais tudo é de tal modo chamado a se transformar, que tudo quanto conheceis não passa de fraco esboço do que elas produzirão. O Espiritismo é uma palavra tão vasta, tão grande, por tudo o que ela contém, que me parece que um homem que lhe pudesse conhecer toda a profundeza não poderia pronunciá-la sem respeito.

Senhores, eu, Espírito muito pequeno, a despeito da grande inteligência com que me gratificais, e em face daqueles muito superiores que me é dado contemplar, venho dizer-vos: Credes, então, que seja por efeito do acaso que esta noite pudestes ouvir o que Lavater tinha obtido e escrito? Não; não é por acaso que a minha mão perispiritual as dirigiu seguramente até vós. Mas se esses poucos pensamentos vieram ao vosso conhecimento por meu intermédio, não creiais que nisto eu tenha buscado uma vã satisfação do amor-próprio. Não, longe disto. O objetivo era maior, e nem mesmo me tinha vindo o pensamento de levá-las ao conhecimento universal da Terra. Esse conhecimento tinha a sua utilidade; ele deve ter consequências graves, e é por isto que vos foi dado espalhá-lo. Nas menores coisas encontra-se o germe das maiores renovações. Estou feliz, senhores, por ter sido deixado a mim o direito de vos pressagiar o alcance que terão essas poucas reflexões, essas comunicações, muito pobres ao lado das que obtendes atualmente; e se entrevejo o seu resultado, se me sinto feliz por isto, por que não vos sentiríeis?

Eu voltarei, senhores, e o que eu disse esta noite é tão pouco em comparação com o que tenho por missão vos ensinar, que ouso apenas dizer-vos: é Lavater.

Pergunta. ─ Agradecemos as explicações que tivestes a bondade de nos dar, e ficaremos muito contentes por contar convosco, de agora em diante, no número de nossos Espíritos instrutores. Receberemos vossas instruções com o mais vivo reconhecimento. Enquanto esperamos, permiti uma simples pergunta sobre a vossa comunicação de hoje:

1º ─ Dissestes que a Imperatriz levou essas ideias ao conhecimento de seu círculo, e assim por diante. Seria por esta iniciativa, partida do ponto culminante da Sociedade, que a Doutrina Espírita deve encontrar tão numerosas simpatias entre as sumidades sociais na Rússia?

2º ─ Um ponto que me admiro não ver mencionado em vossas cartas, é o grande princípio da reencarnação, uma das leis naturais que mais testemunham a justiça e a bondade de Deus.

Resposta. ─ É evidente que a influência da Imperatriz e de alguns outros grandes personagens foi predominante para determinar, na Rússia, o desenvolvimento do movimento filosófico no sentido espiritualista, mas se o pensamento dos príncipes da Terra por vezes determina o pensamento dos grandes que se acham em sua dependência, já o mesmo não se dá com os pequenos. Os que têm chance de desenvolver no povo as ideias progressistas são os filhos do povo; são eles que farão triunfar, por toda parte, os princípios da solidariedade e da caridade, que são a base do Espiritismo.

Assim, em sua sabedoria, Deus escalonou os elementos do progresso: Eles estão no alto, embaixo, sob todas as formas, e preparados para combater todas as resistências. Eles sofrem, assim, um movimento de vai e vem constante, que não pode deixar de estabelecer a harmonia dos sentimentos entre as altas e as baixas classes, e fazer triunfar solidariamente os princípios de autoridade e de liberdade.

Como sabeis, os povos são formados de Espíritos que têm entre si uma afinidade de ideias, que os predispõem, mais ou menos, para assimilar as ideias desta ou daquela ordem, porque essas mesmas ideias neles estão em estado latente e não esperam senão uma ocasião para se desenvolverem. O povo russo e vários outros estão neste caso em relação ao Espiritismo. Por pouco que o movimento fosse secundado, em vez de ser entravado, não se passariam dez anos antes que todos os indivíduos, sem exceção, fossem espíritas. Mas esses mesmos entraves são úteis para temperar o movimento que, embora um pouco desacelerado, não deixa de ser mais refletido. A Onipotência, por cuja vontade tudo se realiza, saberá muito bem como remover os obstáculos quando for tempo. Um dia o Espiritismo será a fé universal, e admirar-se-ão de que não tenha sido sempre assim.

Quanto ao princípio da reencarnação terrestre, confesso-vos que a minha iniciação não tinha chegado até lá, e sem dúvida de propósito, porque eu não teria deixado de fazer, como das outras revelações, o assunto de minhas instruções à Imperatriz, e talvez isto tivesse sido prematuro. Os que presidem o movimento ascensional sabem muito bem o que fazem. Os princípios nascem um a um, conforme os tempos, os lugares e os indivíduos, e estava reservado à vossa época vê-los reunidos em um feixe sólido, lógico e inatacável.

LAVATER.

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