Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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Nada é mais instrutivo e ao mesmo tempo mais concludente em favor do Espiritismo do que ver as ideias sobre as quais ele se apoia, professadas por pessoas estranhas à Doutrina, e antes mesmo de seu aparecimento. Um dos nossos correspondentes de Antuérpia, que já nos transmitiu preciosos documentos a tal respeito, manda-nos o seguinte extrato de uma obra inglesa, cuja tradução, feita da 5ª edição, foi publicada em Amsterdã em 1753. Talvez jamais os princípios do Espiritismo tenham sido formulados com tanta precisão. É intitulado: A amizade após a morte, contendo as cartas dos mortos aos vivos. Pela Senhora Rowe.

Página 7.

─ Os Espíritos bem-aventurados ainda se interessam pela felicidade dos mortais, e fazem frequentes visitas aos seus amigos. Eles poderiam até aparecer aos seus olhos, se as leis do mundo material não lhos impedissem. O esplendor de seus veículos[1] e o domínio que exercem sobre as forças que governam as coisas materiais e sobre os órgãos da visão poderiam facilmente lhes servir para se tomarem visíveis. Muitas vezes olhamos como uma espécie de milagre que não percebeis, porque não estamos afastados de vós em relação ao lugar que ocupamos, mas apenas pela diferença de estado em que estamos.

Página 12, Carta III: De um filho único, falecido aos dois anos, à sua mãe:

─ Desde o momento em que minha alma foi libertada de sua incômoda prisão, achei-me um ser ativo e racional. Admirado por vos ver chorar por uma pequena massa apenas capaz de respirar que eu acabara de deixar, e da qual eu estava encantado por ter-me desembaraçado, pareceu-me que estivésseis aborrecida pela minha feliz libertação. Encontrei uma tão justa proporção, tanta agilidade, e uma luz tão brilhante no novo veículo que acompanhava o meu Espírito, que fiquei muito espantado por ver que vos afligíeis tanto com a feliz troca que eu havia feito. Então eu conhecia tão pouco a diferença dos corpos materiais e imateriais, que eu me imaginava ser tão visível para vós quanto vós éreis para mim.

Página 37, carta VIII.

─ Os gênios celestes que cuidam de vós nada negligenciaram durante o vosso sono, para arrancar do vosso coração esse ímpio desígnio. Algumas vezes vos conduziram a lugares cobertos por uma sombra lúgubre; ali ouvistes os lamentos amargos dos Espíritos infortunados. Outras vezes, as recompensas da constância e da resignação desdobraram aos vossos olhos a glória que vos espera, se, fiéis ao vosso dever, vos ligardes pacientemente à virtude.

Página 50. Carta X.

─ Como, minha cara Leonora, me pudestes temer? Quando eu era mortal, isto é, capaz de loucura e de erro, jamais vos fiz mal; muito menos vo-lo farei no estado de perfeição e de felicidade em que estou. Não resta o menor resquício de vício ou de malícia nos Espíritos virtuosos; quando estes romperam sua prisão terrena, tudo neles é amável e benfazejo; o interesse que eles tomam pela felicidade dos mortais é infinitamente mais terno e mais puro que antes.

O pavor que no mundo geralmente sentem por nós nos pareceria incrível se não nos lembrássemos de nossas loucuras e de nossos preconceitos; mas não fazemos senão gracejar de vossas ridículas apreensões. Não teríeis mais razão de vos temer e de fugir uns dos outros do que nos temer, a nós que não temos nem o poder nem a vontade de vos inquietar? Enquanto desconheceis os vossos benfeitores, nós trabalhamos para desviar mil perigos que vos ameaçam e para levar adiante os vossos interesses com o mais generoso ardor. Se vossos órgãos fossem aperfeiçoados e se vossas percepções tivessem adquirido o alto grau de delicadeza a que chegarão um dia, então saberíeis que os Espíritos etéreos, ornados com a flor de uma beleza divina e de uma vida imortal, não são feitos para produzir em vós o terror, mas o amor e os prazeres. Eu vos queria curar de vossas injustas prevenções, reconciliando-vos com a sociedade dos Espíritos, a fim de estar em melhores condições de vos advertir dos perigos e dos riscos que ameaçam a vossa juventude.

Página 54. Carta XI.

─ Vosso restabelecimento surpreende os próprios anjos que, se ignoram os diversos limites que o soberano dispensador pôs à vida humana, muitas vezes não deixam de fazer justas conjecturas sobre o curso das causas secundárias e sobre o período da vida dos humanos.

Página 68. Carta XIV.

─ Desde que deixei o mundo, muitas vezes tive a felicidade de tomar o lugar do vosso anjo da guarda. Testemunha invisível das lágrimas que a minha morte vos fez derramar, enfim me foi permitido suavizar as vossas dores, informando-vos que sou feliz.

Página 73. Carta XVI.

─ Como os seres imateriais podem misturar-se em vossa companhia sem ser percebidos, na noite passada tive a curiosidade de descobrir vossos pensamentos sobre o que vos tinha acontecido na noite anterior. Para tanto, estive naquela reunião em que estáveis. Ali, ouvi que brincáveis com alguns de vossos amigos familiares a propósito do poder da prevenção e da força de vossa imaginação. Contudo, senhor, não sois tão visionário e tão extravagante quanto vos dizeis. Não há nada mais real do que aquilo que vistes e ouvistes, e deveis acreditar nos vossos sentidos, do contrário fareis degenerar em vício a vossa desconfiança e a vossa modéstia. Meu caro irmão, não tendes mais que algumas semanas de vida; vossos dias estão contados. Tive a permissão, o que acontece raramente, de vos dar algum aviso sobre o vosso destino, que se aproxima. Vossa vida, eu sei, não foi maculada por nenhuma ação baixa ou injusta; entretanto, aparecem nos vossos costumes certas leviandades que reclamam, de vossa parte, uma pronta e sincera reforma. Faltas que a princípio parecem uma bagatela, degeneram em crimes enormes.



Página 27. Epístola dedicatória.

─ A Terra em que habitais seria uma morada deliciosa se todos os homens, cheios de estima pela virtude, praticassem as suas santas máximas. Julgai, pois, o excesso de nossa felicidade, pois que, ao mesmo tempo que aproveitamos todas as vantagens de uma virtude generosa e perfeita, sentimos prazeres tão acima dos de que gozais, quanto o céu é acima da Terra, o tempo da eternidade e o finito do infinito. Os mundanos são incapazes de desfrutar dessas delícias. Que gosto encontraria, em nossas augustas assembleias, um voluptuoso? O vinho e a carne daí foram banidos; o invejoso aí seria consumido pela dor contemplando a nossa felicidade; o avarento aí não encontraria riquezas; o jogador viciado aborrecer-se-ia mortalmente por não mais encontrar meios de matar o tempo. Como uma alma interesseira poderia achar prazer na amizade terna e sincera que podemos considerar como uma das principais vantagens que possuímos no Céu, a verdadeira morada da amizade?

O tradutor diz, no prefácio, na página 7:

“Espero que a leitura de seu livro possa reconduzir à religião cristã uma certa ordem de criaturas, cujo número é muito grande neste reino, que, sem consideração aos princípios da religião natural e revelada, tratam a imortalidade da alma como pura quimera. É para estabelecer a certeza dessa imortalidade que nossa autora se aplica principalmente.”

Página 9:

“Não era propriamente para os filósofos incrédulos que ela escrevia; era, como dissemos, para uma certa classe de criaturas, muito numerosas na alta sociedade, que, ocupadas inteiramente com os divertimentos frívolos do século, acharam a arte funesta de esquecer a imortalidade da alma, de se atordoar sobre as verdades da fé, e de afastar de seu espírito ideias tão consoladoras. Bastava-lhes, pois, para realizar esse desígnio, inventar espécies de fábulas e de apólogos cheios de traços vivos etc.”

OBSERVAÇÃO: Parece que o tradutor não acredita na comunicação dos Espíritos, porquanto ele pensa que os relatos da Senhora Rowe são fábulas ou apólogos inventados pela autora em apoio à sua tese. Entretanto ele achou o livro tão útil, que o julga capaz de reconduzir os incrédulos à fé na imortalidade da alma. Mas há aí uma singular contradição, porque para provar que uma coisa existe, é preciso mostrar a sua realidade e não a sua ficção. Ora, foi precisamente o abuso das ficções que destruiu a fé nos incrédulos. Diz o simples bom-senso que não é com um romance sobre imortalidade, por mais engenhoso que seja, que se provará a imortalidade. Se, em nossos dias, as manifestações dos Espíritos combatem a incredulidade com tanto sucesso, é porque elas são uma realidade.

Segundo a perfeita concordância de forma e de fundo que existe entre as ideias desenvolvidas no livro da senhora Rowe e o atual ensino dos Espíritos, não podemos duvidar que o que ela escreveu seja produto de comunicações reais.

Como é que um livro tão singular, capaz de atiçar a curiosidade no mais alto grau, tão difundido, pois havia chegado à quinta edição e foi traduzido, produziu tão pouca sensação, e uma ideia tão consoladora, tão racional e tão fecunda em resultados, ficou no estado de letra morta, ao passo que, em nossos dias, alguns anos bastaram para fazer a volta ao mundo? Poder-se-ia dizer outro tanto de uma porção de invenções e descobertas preciosas que caem no esquecimento à sua aparição e florescem alguns séculos mais tarde, quando a necessidade se faz sentir. É a confirmação do princípio que as melhores ideias abortam, quando vêm prematuramente, antes que os espíritos estejam maduros para aceitá-las.

Dissemos muitas vezes que se o Espiritismo tivesse vindo um século mais cedo, não teria tido nenhum sucesso. Disto eis a prova evidente, porque esse livro é seguramente do mais puro e do mais profundo Espiritismo. Para que ele pudesse ser apreciado e compreendido, seriam necessárias as crises morais pelas quais passou o espírito humano nestes últimos cem anos, e que lhe ensinaram a discutir as suas crenças; mas seria necessário, também, que o niilismo, sob suas diversas formas, como transição entre a fé cega e a fé raciocinada, provasse a sua impotência em satisfazer as necessidades sociais e as legítimas aspirações da Humanidade. A rápida propagação do Espiritismo em nossa época prova que ele veio no devido tempo.

Se ainda hoje vemos pessoas que têm sob os olhos todas as provas, materiais e morais, da realidade dos fatos espíritas, e que, apesar disto, se recusam à evidência e o raciocínio, com mais forte razão deviam ser encontradas em número muito maior há um século. É que seu espírito ainda é impróprio para assimilar essa ordem de ideias; elas veem, ouvem e não compreendem, o que não denota uma falta de inteligência, mas uma falta de aptidão especial. Elas são como as pessoas a quem, embora muito inteligentes, falta o senso musical para compreender e sentir as belezas da música. É o que se deve entender quando se diz que sua hora ainda não chegou.



[1] Ver-se-á adiante que o autor entende por veículo o corpo fluídico.


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