Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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O regime fantástico (Por Victor Dazur) [1]

Transcrevemos as passagens seguintes do relato que o Siècle faz da obra, em seu folhetim de 22 de junho de 1868:

“É uma espécie de romance filosófico, no qual a maior parte das questões que atualmente apaixonam os espíritos são tratadas de forma original e dramática; o espiritualismo e o materialismo, a imortalidade da alma e o nada, o livre-arbítrio e o fatalismo, a responsabilidade e a irresponsabilidade, as penas eternas e a expiação, depois a guerra, a paz universal, os exércitos permanentes, etc.

“Todas essas questões não são discutidas com muito método e profundeza, mas são todas discutidas com uma certa erudição, com uma evidente boa-fé, quase sempre com alegria, muitas vezes com espírito e algumas vezes com eloquência.

“Em suma, a obra é de um homem liberal, amigo do progresso, da perfectibilidade e do espiritualismo, amigo da paz, embora evidentemente militar. “Eis, portanto, como o autor fala de si próprio:

O autor, que neste livro tomou o nome de François Pamphile, tinha a insigne honra de ser cabo no exército francês, quando teve um sonho estranho, que constitui o plano da obra que ides ler, se não tiverdes nada melhor para fazer. Mais tarde o nosso militar escreveu o seu sonho, e depois se divertiu em embelezá-lo quando dispunha de tempo.”

O Regimento Fantástico, de Victor Dazur, é pois um sonho, como o Paris na América, do Sr. Laboulaye, mas é um sonho que vos transporta a um mundo absolutamente imaginário.

“O cabo François Pamphile entra em sua caserna, depois de, com alguns camaradas, ter participado dos prazeres de uma festa pública em Paris. Saturado de barulho, de música, de espetáculos ao ar livre, de iluminação, de fogos de artifício, de barriga cheia e com a consciência tranquila, não tendo tido atrito com ninguém, nem ferido nenhum civil com seu sabre, caiu em profundo sono. Ao cabo de um tempo que ele não pode avaliar, parece-lhe que o seu leito é levado, como se estivesse suspenso a um balão, à guisa de nacela.

“Ele abre os olhos e se vê no espaço; um panorama móvel estende-se abaixo dele; ele vê desaparecer Paris, depois o campo, a Terra. Parece-lhe fazer uma das viagens aerostáticas do nosso colaborador Flammarion, de quem ele se declara um assíduo leitor, do qual louva com entusiasmo o belo livro espiritualista que tem por título a Pluralidade dos Mundos Habitados.

“De repente falta-lhe o ar; ele sufoca; mas ele entra numa outra atmosfera; retoma a respiração; percebe um outro globo, que seus estudos astronômicos o fazem reconhecer como o planeta Marte. Ele se sente atraído para esse planeta, cujo globo cresce rapidamente aos seus olhos. Ele treme ao pensar que poderá ser esmagado ali caindo, segundo as leis da gravidade; receia um choque terrível, mas não, ei-lo estendido sobre uma espessa grama, aos pés de árvores maravilhosas, cheias de pássaros não menos maravilhosos.

“Ele acredita estar num mundo novo, promovido do grau de cabo ao de primeiro homem. Ele chama uma Eva. É a canção do Rei Dagoberto que lhe responde.

“A admiração do bom cabo redobra ao ver que o cantor é um grande folgazão, vestido com o uniforme de sargento-mor da infantaria de linha francesa.

“─ Quem sois vós? pergunta o sargento, que tem o ar tão surpreso quanto o seu.

“─ Major, responde François Pamphile, sou cabo; venho do planeta Terra, que deixei involuntariamente esta noite; e eu queria que tivésseis a bondade de me dizer o nome do planeta onde caí.

“─ Ora bolas! Este planeta é Soraï-Kanor!

“─ Soraï-Kanor?... Eu supunha que fosse o planeta Marte. Parece que me enganei.

“─ Não vos enganastes. Nosso planeta, que os terrícolas chamam de Marte, é chamado de Soraï-Kanor por nossos astrônomos.

“O cabo admira-se que o sargento saiba o nome dado pelos habitantes da Terra a seu planeta. Mas o sargento lhe diz que só deixou a Terra depois de sua morte terrestre, e que lá era rei da França.

“A esta resposta inesperada, o cabo se descobre, isto é, tira o boné de algodão que tem na cabeça.

“O rei sargento-mor lhe diz que não lhe preste tantas honras, porque ele não passa de um simples suboficial. Na Terra ele se chamava Francisco I; em Marte ele pertencia ao regimento fantástico, um regimento composto da maioria dos soberanos que haviam reinado no globo terrestre. O coronel é Alexandre o Grande; o tenentecoronel, Júlio César (que não reinou, a bem dizer,) e o major, Péricles (que reinou menos ainda). O Regimento tem três batalhões, e cada batalhão tem oito companhias. O comandante do primeiro batalhão é Sesostris, e o subcomandante, Átila; o comandante do segundo batalhão, Carlos Magno, e o subcomandante,

Carlos V; o comandante do terceiro batalhão, Aníbal, e o subcomandante, Mitrídates.

“Cada companhia é composta de soberanos de uma mesma nação. A companhia francesa é a primeira do segundo batalhão e tem como capitão Luís XIV, o que prova, em parênteses, que o favor domina em Marte, como na Terra, porque Francisco I, que apenas é sargento-mor, seguramente era maior capitão do que Luís XIV, e ainda tinha a seu favor a antiguidade.

“As cantineiras do regimento fantástico são Semíramis, Cleópatra, Elisabeth e Catarina II. Assim como todos os oficiais e os soldados do regimento são antigos soberanos ou homens que exerceram a soberania, todas as cantineiras e as servas da cantina são antigas soberanas. Só os músicos são antigos compositores: Beethoven, Mozart, Glück, Puccini, Haydn, Bellini. O regimento não adotou o uniforme francês senão depois do reinado de Napoleão I, cujas campanhas entusiasmaram Alexandre, o Grande. Depois o regimento seguiu todas as variações de nosso uniforme militar, o que não é pouco. Foi também desde o reinado de Napoleão I que a língua francesa foi adotada como língua oficial do regimento. Não foi, entretanto, sob o Império que a língua francesa brilhou mais. Ademais, o vencedor de Austerlitz não faz parte do regimento fantástico. Ele não está em Marte; talvez esteja num mundo superior, talvez num inferior: Francisco I não sabe.

“Outros soberanos jamais figuraram no regimento fantástico; alguns o deixaram após séculos de serviço; outros ainda após milhares de séculos. O regimento nunca muda de guarnição e jamais faz guerra. É uma espécie de regimento penitenciário, no qual os soberanos, homens e mulheres, são postos para expiar os malefícios que cometeram em seus reinos.

“Ainda bem, mas os músicos Beethoven, Mozart e os outros, que malefícios cometeram para serem retidos nesse regimento expiatório? É o que o autor esquece de explicar.

“O suplício habitual dos militares e das cantineiras do regimento é o suplício de Tântalo. Os guerreiros que na Terra se alegravam no sangue e nos massacres guardaram seus instintos belicosos que o som do clarim desperta sem cessar, e que os exercícios e os combates simulados superexcitam, sem que jamais lhes seja possível satisfazer-se, porque o poder divino que na Terra permite a guerra, a interdita em Marte.

“Os voluptuosos e as voluptuosas sofrem um suplício semelhante. Todos, homens e mulheres, conservam a beleza de que gozavam no seu belo período de vida, mas são submetidos a uma causa fisiológica que os condena a uma castidade absoluta.

“Um outro castigo, que os desola ainda mais, é o suplício das lembranças. Uma memória extraordinariamente lúcida lhes recorda os atos da vida terrena. A única coisa que os distrai é uma ocupação contínua, mas a disciplina é rigorosa. A cada instante eles são condenados à sala de polícia, à prisão ou à sala das lembranças. Na sala de polícia e na prisão ainda lhes permitem algumas distrações, mas na sala das lembranças não lhes permitem nenhuma. Ali eles ficam cercados por todos os instrumentos de tortura e de suplício usados em seus reinados; nas paredes são pintados a fresco todos os sofrimentos e todos os morticínios ordenados pelos reis.

“Quando Luís XI está encerrado na sala das lembranças, é posto numa gaiola de ferro, em uso no seu reinado, e colocado em frente ao cadafalso de Nemours, do qual o sangue goteja sobre a cabeça de seus filhos. Felipe, o Belo, é estendido sobre uma fogueira, de onde vê o suplício dos Templários.

Fernando, o Católico, é amarrado a um cavalete, com a cabeça voltada para um auto-de-fé.

“Nosso cabo ouve Nero lamentar-se nestes termos a seu camarada Calígula:

“─ Três quartos do tempo sou punido com detenção ou na sala de polícia. Se reclamo contra uma punição, eles a aumentam. Quando não estou na sala de polícia, estou no pelotão de punição, e quando não estou no pelotão de punição, estou na faxina do quartel. Enfim, sou acabrunhado por vexames de toda espécie, sem contar meus outros sofrimentos. Olha quantos séculos isto dura. Quando isto acabará?”

“─ Mas este vosso regimento fantástico é um inferno, diz o bom Pamphile a Francisco I.

“─ Não, responde-lhe este, porque as penas aqui não são eternas. O Grande Desconhecido, que é a justiça suprema, não profere condenações eternas, de vez que faltas finitas, por maiores que elas sejam, não poderiam merecer penas infinitas. Nosso planeta e alguns outros não são infernos, mas purgatórios onde os homens, numa ou em várias existências sucessivas, pagam as dívidas morais que contraíram numa existência anterior.

“Avistando, assim, ora o sargento-mor Francisco I, ora o simples infante Carlos V, ora o seu colega, o cabo Carlos VII, o cabo Pamphile recebe instruções e revelações sobre o que interessa à Humanidade no mais alto grau. Enfim, numa audiência que lhe concede o coronel Alexandre, o Grande, no círculo dos oficiais, o antigo conquistador lhe expõe um projeto de congresso internacional universal, que ele o encarrega de propor à Terra, para estabelecer para sempre, em nosso globo, a paz, a concórdia e a fraternidade.

“─ Meu coronel, exclama Pamphile entusiasmado, vosso projeto é tão lógico, parece-me de tal modo indispensável e a ideia é tão natural, que me parece que assim que for conhecido na Terra, todo mundo lá em baixo dirá: ‘Como é que não pensamos antes em estabelecer um congresso internacional?’

“A despeito da esperança do bom cabo, duvidamos que os diferentes governos do nosso planeta se apressem em acolher o projeto de Alexandre, mas o congresso da paz que reunir-se-á em Berna no próximo mês de setembro, não pode deixar de levá-lo em consideração. Nós o recomendamos especialmente ao relator encarregado de estudar qual poderia ser a constituição dos Estados Unidos da Europa.

“E. –D. DE BIÉVILLE.”

Se o Sr. Victor Dazur, nome que sem dúvida deve ser um pseudônimo, inspirou-se na Pluralidade dos Mundos Habitados do Sr. Flammarion, do qual se declara leitor assíduo, ele também rebuscou largamente nas obras espíritas. Salvo o quadro de que se serviu, sua teoria filosófica das penas futuras, da pluralidade das existências, do estado dos Espíritos desprendidos dos corpos, da responsabilidade moral, etc., evidentemente é colhida na doutrina do Espiritismo, da qual ele não só reproduz a ideia, mas muitas vezes até a forma.

As passagens seguintes não podem deixar dúvida sobre este ponto:

“Tu sonhas, meu amigo, pensei eu; tu sonhas! Todos esses soberanos da Terra que recomeçam uma nova existência no planeta Marte, esse gênio diáfano e de asas azuis, tudo isto cheira a Espiritismo... Entretanto, quando estás desperto, não acreditas nessa invenção. Depois, dirigindo-me a Francisco I, eu lhe disse:

“─ Major, vem-me ao espírito uma ideia singular; esta ideia me faz supor que tudo quanto vejo e tudo quanto ouço desde que aqui cheguei não passa do efeito de um sonho. Dizei-me, por favor, a vossa opinião. Pensais, como eu, que estou sonhando?

“─ Mas claro que não! Não estais sonhando, respondeu-me Francisco I com um ar tão indignado, como se eu lhe tivesse feito uma pergunta muito estúpida. Não, não sonhais! Se estivésseis sonhando, desfilariam diante do vosso espírito uma porção de quimeras sem pé nem cabeça. Os acontecimentos de que seríeis testemunha não teria entre si nenhuma relação razoável.

“─ Mas isto não é tudo, major. O que ainda me faz crer que estou sonhando é que eu me apalpei e não encontrei corpo... Apalpo-me ainda agora, e também não me encontro. Contudo, sinto-me viver e me vejo com braços e pernas. Desnecessário dizer que estes braços e estas pernas, sendo impalpáveis, não passam de aparências fantásticas. Eu bem poderia explicar essas aparências, mas para isso ser-me-ia necessário, a mim que não creio no Espiritismo, admitir certa teoria espírita que, certa ou errada, é, em todo caso, muito engenhosa.

“Essa teoria pretende que o Espírito de um corpo é envolvido por um perispírito, isto é, por um envoltório semimaterial que pode tomar a forma desse corpo e tornar-se visível em certos casos. Uma vez admitido o perispírito, a mesma teoria pretende que um indivíduo por vezes pode ser visto no mesmo instante em dois lugares, mesmo muito afastados um do outro, o corpo dormindo num lugar e a aparência do corpo, isto é, o perispírito, agindo noutra parte.

“Se esta asserção fosse verdadeira, eu estaria pondo em prática a teoria de que acabo de falar. Poder-se-ia ver neste momento o meu corpo dormindo em Paris, enquanto vedes o meu perispírito como se fosse o meu corpo. Mas eu não acreditaria numa coisa tão extraordinária a não ser que ela fosse comprovada.

“Seria ainda adotar o Espiritismo admitir como real essa reunião de potentados realizada aqui, como eles pretendem, para expiar os erros que cometeram quando estavam na Terra.

“─ Se quiserdes, disse-me Francisco I, não acrediteis no que tendes diante dos olhos. Suponde, por um momento, que em vez de estar neste planeta, estejais no domínio ideal da razão, e dizei-me se acreditais que os homens que fazem o mal, seja qual for a sua posição na Sociedade, podem estar isentos do purgatório depois de sua morte terrena.

“─ Major, não sei responder.

“─ Mas eu sei o que pensais. Pensais que o purgatório existe, não importa onde, mas apenas para as pessoas que ocupam posições mais elevadas na escala social. E o que vos leva a pensar assim, é que as faltas das pessoas bem colocadas no mundo são muito mais aparentes que as dos simples particulares. Mas ides modificar imediatamente esta ideia, pensando que, para o Ser supremo, não há faltas ocultas. Com efeito, o Grande Desconhecido vê constantemente, na Terra, simples particulares que relativamente fazem tanto mal na sua pequena esfera de ação, quanto fizeram, em seus Estados, certos tiranos marcados pela História. Os simples particulares de que falo, em vez de exercer a sua tirania num reino, a exercem em sua família e em seu círculo, fazendo sofrer sem piedade mulher, filhos e subordinados. Esses tiranetes só têm uma preocupação, que é gozar a vida, escapando do código penal do país que habitam. Ora, eu vos pergunto, credes que essas criaturas malfeitoras, que às vezes passam por virtuosas aos olhos de quem quer que lhes não conheça a vida, digo eu, que esses seres malfazejos logo sejam transportados a um lugar de delícias?

“─ Não, não creio.

“─ Não admitis que, fazendo o mal, tenham contraído uma certa dívida moral?

“─ Sim, major, eu admito!

“─ Pois então! Não vos deveis admirar que certos planetas sejam verdadeiros purgatórios, nos quais os homens, em uma ou em várias existências, paguem as dívidas contraídas numa existência anterior.

“─ Mas, major, os sofrimentos que todo homem experimenta no curso de sua vida não pagam suficientemente o mal que ele pôde fazer desde a idade da razão até a morte?

“─ Isto só poderia aplicar-se a um número muito pequeno de indivíduos, porque, o mais das vezes, o mal que um homem faz recai sobre certo número de seus semelhantes, o que multiplica tanto mais a soma do mal pessoal, e torna quase sempre a dívida tão grande que esse homem não poderia pagá-la no curso de sua curta existência. Ora, quando não se pode pagar suas dívidas numa vida, é forçoso pagá-las em outra, porque, no caso de dívidas criminais, o Grande Desconhecido dispôs as coisas de maneira que não há bancarrota possível.

“Admitido isto, admitireis também que é impossível que monstros como Nero, Calígula, Heliogábalo, Bórgia e tantos outros, cujos crimes não podem ser enumerados, tenham podido pagar semelhantes dívidas pelo pouco mal que sofreram em vida. Ora, de duas uma: ao morrer esses homens caíram no nada, ou recomeçaram uma nova existência; se admitirmos que tivessem caído no nada, admitiremos muito naturalmente que devem ter feito uma enorme bancarrota. Concordareis que a ideia de semelhante bancarrota revolta o espírito, ao passo que se admitirmos que cada um recomeçou uma nova existência, o espírito se acha satisfeito ao pensar que essas novas vidas não poderão ser senão existências de expiação, ou melhor, de purificação. [2]

“─ Major, não é mais simples admitir a danação eterna para os monstros de que falais?

“─ Concordo que é mais simples, mas não mais lógico. A lógica, que deve ser a alma da justiça, recusa admitir a danação eterna, porque faltas finitas não poderiam merecer castigos infinitos.”

Segue uma dissertação das mais atraentes e das mais lógicas que já lemos contra o inferno e as penas eternas, sobre a justiça da proporcionalidade das penas e sobre a doutrina do trabalho, mas a sua extensão não nos permite reproduzi-la.

“─ Major, diz o cabo Pamphile, eu vos farei notar que a negação do inferno eterno, bem como a proporcionalidade das penas, é o fundo da doutrina dos Espíritos. Ora, eu já vos disse que não acredito no Espiritismo.

“─ Então... acreditai no inferno eterno, se isto vos causa prazer.”

Entre os soberanos que o cabo Pamphile encontra no planeta Marte, há alguns que viviam na época do dilúvio; reis da Assíria, na época da Torre de Babel; faraós na época da passagem do Mar Vermelho pelos hebreus, etc., e cada um dá sobre esses acontecimentos explicações que, em sua maioria, têm o mérito, senão da prova material, pelo menos o da lógica.

Em suma, o quadro escolhido pelo autor para emitir suas ideias é feliz, até a própria negação do Espiritismo, que resulta, em definitivo, numa afirmação indireta. Nós diremos, como o Siècle, que sob uma forma aparentemente leve, todas as questões aí são tratadas com certa erudição, com uma evidente boa-fé, quase sempre com alegria, muitas vezes com espírito e algumas vezes com eloquência. Acrescentaremos que, não conhecendo o autor, se esse número lhe cair nas mãos, desejamos que ele aqui encontre a expressão de nossas sinceras felicitações, porque ele fez um livro interessante e muito útil.

CONFERÊNCIAS SOBRE A ALMA Pelo Sr. Alexandre Chaseray [3]

São inumeráveis as obras modernas nas quais o princípio da pluralidade das existências é expresso incidentalmente, mas a de que falamos nos parece uma daquelas em que ele é tratado de maneira mais completa. O autor se preocupa, além disto, em demonstrar que a ideia cresce e se impõe cada dia mais aos Espíritos esclarecidos.

Nos fragmentos que transcrevemos a seguir as notas são do autor.

“A transmigração das almas, diz o Sr. Chaseray, é uma ideia filosófica ao mesmo tempo das mais antigas e das mais modernas. A metempsicose constitui o fundo da religião dos indianos, religião muito anterior ao Judaísmo, e Pitágoras pôde haurir essa crença dos brâmanes, se for verdade que ele esteve na Índia. Mas é mais provável que ele a tenha trazido do Egito, onde viveu muito tempo. A civilização reinava às bordas do Nilo alguns milhares de anos antes do nascimento de Moisés e, segundo Heródoto, os sacerdotes egípcios foram os primeiros a anunciar que a alma é imortal e que ela passa sucessivamente por todas as espécies animais, antes de entrar num corpo de homem.

“Por seu lado, os gregos jamais abandonaram completamente a ideia da metempsicose. Aqueles que entre eles não admitiam por inteiro a doutrina de Pitágoras, acreditavam vagamente com Platão que a alma imortal tinha existido algures, antes de se manifestar sob a forma humana, ou acreditavam no rio Letes, e no renascimento do homem na Humanidade. Entre os primeiros cristãos, muitos neófitos entendiam conservar de seus antigos dogmas o que lhes parecia bem. Os maniqueístas, por exemplo, tinham conservado os dois princípios do bem e do mal, e a migração das almas. Assim é que os heresiarcas, vindo multiplicar-se, os Pais e os Concílios tanto tiveram que fazer para trazer os espíritos a uma fé uniforme. Definitivamente vitoriosa, a Igreja apostólica baniu do seu império a metempsicose, que foi substituída pelo dogma do juízo irrevogável e da divisão dos humanos em eleitos e danados. O purgatório foi introduzido mais tarde, como ajuste de uma decisão demasiado inflexível.

“Assim como não considerei como um progresso o espiritualismo de Santo Tomás, do qual não se vê nenhum traço nos livros sagrados, assim também não julgo nem feliz nem conforme à antiga doutrina do pecado original, que estabelece uma solidariedade tão estreita entre todas as gerações de homens, a afirmação dogmática que consiste em dizer que a existência de cada um de nós não tem raízes no passado e conduz a um paraíso ou a um inferno eternos. Em minha opinião, aí está uma heresia filosófica, contra a qual o espírito moderno reage com força.

“Voltam de todos os lados à transmigração das almas. Mas, em nossos dias, geralmente se concebe uma metempsicose mais larga do que aquela cuja crença atribuíam aos Antigos. O espírito de indução, tendo transposto os limites da Terra, e reconhecido nos sóis e nos planetas mundos habitáveis, não mais limitou os destinos do homem ao globo terrestre. Em vez de ver a alma percorrendo incessantemente o círculo das plantas, dos animais e da espécie humana, ou renascendo constantemente na Humanidade, pudemos imaginá-la alçando o seu voo para mundos infinitos. [4]

“Tenho dificuldade na escolha das citações para mostrar que a fé tem uma série de existências, umas anteriores, outras posteriores à vida presente, e que ela diariamente cresce mais e mais, e se impõe aos espíritos esclarecidos.

“Comecemos por Jean Reynaud. Esse filósofo insiste na ligação natural que apresentam as ideias de pré-existência e de vida futura:

Se examinarmos, diz ele, todos os homens que passaram pela Terra, a partir de quando a era das religiões cultas aqui começou, veríamos que a grande maioria viveu com a consciência mais ou menos estabelecida de uma existência prolongada por caminhos invisíveis, aquém e além dos limites desta vida. Com efeito, aí há uma espécie de simetria tão lógica que deve ter seduzido as imaginações à primeira vista; aí o passado está em equilíbrio com o futuro, e o presente não passa de um pivô entre o que já não é e o que ainda não é. O platonismo despertou esta luz precedentemente agitada por Pitágoras e dela se serviu para esclarecer as mais belas almas que honraram os tempos antigos.” [5]

“Este julgamento de Jean Reynaud se acha plenamente confirmado pela nota seguinte de Lagrange, o elegante tradutor do poema de Lucrécio:

De todos os filósofos que viveram antes do Cristianismo, nenhum sustentou a imortalidade da alma sem estabelecer previamente a sua preexistência. Um desses dogmas era considerado como a consequência natural do outro. Julgava-se que a alma devia existir sempre, porque sempre tinha existido; e, ao contrário, estavam persuadidos que, concordando que ela tinha sido gerada com o corpo, não se tinha mais o direito de negar que nela devesse morrer com ele. ‘Nossa alma, diz Platão, existia algures antes de estar nesta forma de homens. Eis porque não duvido que ela seja imortal.’”

O velho Druidismo, prossegue o autor de Terra e Céu, fala ao meu coração. Este mesmo solo que hoje habitamos comportou antes de nós um povo de heróis, que estavam todos habituados a se considerar como tendo experimentado o Universo de longa data, antes de sua encarnação atual, baseando assim a esperança de sua imortalidade na convicção de sua preexistência.

“Um dos nossos melhores historiadores também faz grandes elogios ao principal ensino dos druidas. Henri Martin é de opinião que os nossos pais, os gauleses, representavam no mundo antigo ‘a mais firme, a mais clara noção da imortalidade que jamais houve. [6]

“Por sua vez, diz Eugène Sue sobre a fé druídica:

Segundo esta crença sublime, o homem imortal, espírito e matéria, vindo de baixo e indo para o alto, transitava por esta Terra, aqui vivia passageiramente, assim como tinha vivido e devia viver nessas outras esferas que brilham, inumeráveis, no meio dos abismos do espaço. [7]

“Já no século dezessete, Cyrano de Bergerac dizia, a exemplo dos sacerdotes gauleses:

Nós morremos mais de uma vez; e como não somos senão partes deste Universo, mudamos de forma para retomar vida alhures, o que não é um mal, porque é um caminho para aperfeiçoar o seu ser e para chegar a um número infinito de conhecimentos.”

“Muitos de nossos contemporâneos, entretanto, sem parecer inspirar-se nos druidas, também anunciam que o destino da alma é viajar de mundos em mundos.

“Lê-se, por exemplo, na Profissão de fé do século dezenove, de Eugène Pelletan:

Pela irresistível lógica da ideia, creio poder afirmar que a vida mortal terá o espaço infinito como lugar de peregrinação... O homem irá, pois, sempre de Sol em Sol, subindo sempre, como na escada de Jacob, a hierarquia da existência. Passando sempre, segundo o seu mérito e o seu progresso, de homem a anjo, de anjo a arcanjo.”

“E na Renovação religiosa do Sr. Patrice Larroque, antigo reitor da Academia:

Podemos conjecturar que a maior parte dos outros globos que se movem no espaço abrigam, como a Terra, seres organizados e animados, e que esses globos serão teatros sucessivos de nossas vidas futuras.”

“Lamennais exprime a ideia do renascimento de uma maneira absolutamente precisa, conquanto mais restrita. Diz ele:

O progresso possível no indivíduo sob sua forma orgânica atual, uma vez realizado, ele devolve à massa elementar esse organismo gasto e reveste-se de outro, mais perfeito. [8]

“Assinalemos, ainda, o trecho seguinte do discurso pronunciado pelo Sr. Guéroult, da Opinion Nationale, no túmulo do Pe. Enfantin:

Ninguém foi mais religioso do que Enfantin; ninguém viveu tanto quanto ele em presença da vida eterna, da qual esta vida que nos escapa a cada instante não passa de uma das etapas inumeráveis.”

“Uma das nossas mais célebres romancistas dá a pensar que ele acredita na passagem dos seres inferiores a espécies superiores e, nomeadamente, dos animais à Humanidade. Diz George Sand:
Explique quem quiser, essas afinidades entre o homem e certos seres secundários na criação. Elas são tão reais quanto as antipatias e os terrores insuperáveis que nos inspiram certos animais inofensivos... É talvez que todos os tipos, cada um partindo especialmente de cada raça de animais, se encontrem no homem. Os fisionomistas constataram semelhanças físicas; quem pode negar as semelhanças morais? Não há, entre nós, raposas, lobos, leões, águias, besouros e moscas? A grosseria humana é muitas vezes baixa e feroz como o apetite do porco...”

“George Sand se mostra mais explícita a respeito da migração das almas, nas seguintes linhas da mesma obra: [9]

Se não devemos aspirar à beatitude dos puros Espíritos da região das quimeras; se devemos sempre entrever, além desta vida, um trabalho, um dever, provações e uma organização limitada em nossas faculdades diante do infinito, pelo menos nos é permitido pela razão e nos é ordenado pelo coração, contar com uma série de existências progressivas, em razão dos nossos bons desejos... Nós podemos olhar esta Terra como um lugar de passagem e contar com um despertar mais suave no berço que nos espera alhures. De mundos em mundos, podemos, desprendendo-nos da animalidade que aqui embaixo combate o nosso espiritualismo, tornar-nos aptos a revestirmos um corpo mais puro, mais apropriado às necessidades da alma, menos combatido e menos entravado pelas enfermidades da vida humana, tal qual a suportamos aqui.”

“Citemos ainda um romancista, Balzac. Os romancistas dessa ordem, como os poetas de primeira linha, abordam as mais elevadas questões, e sabem semear profundas mensagens em seus escritos de uma forma leve e agradável. É assim que em Os Miseráveis, Victor Hugo deixa cair de sua pena esta vaga interrogação: ‘De onde viemos? É verdade que nada fizemos antes de haver nascido?’ Não é senão pensando nisso, e sem a ideia preconcebida de estabelecer uma tese filosófica, que o autor da Comédia Humana fala das existências sucessivas. Assim, não posso deixar de captar, compulsando de relance vários de seus romances, esse pensamento.

“Eis, por exemplo, algumas linhas do Lírio do Vale:

O homem é composto de matéria e de espírito; a animalidade vem terminar nele, e nele começa o anjo. Daí essa luta que experimentamos todos entre um destino futuro que pressentimos e as lembranças de nossos instintos exteriores, dos quais não estamos inteiramente desligados: um amor carnal e um amor divino.”

“E encontro em Séraphita, esse romance místico, no qual Balzac expõe com um interesse e um encanto tão poderosos a doutrina religiosa do sueco Swedenborg:

As qualidades adquiridas e que se desenvolvem lentamente em nós são laços invisíveis que ligam cada uma das nossas existências uma à outra.”

“Enfim, nos Comediantes sem o Saber, a sibila, Sra. Fontaine, pergunta a Gazonal:


De que flor gostais? “Da rosa.
Que cor preferis? “O azul.
Que animal preferis?
O cavalo. Por que estas perguntas? pergunta ele por sua vez.
“─ O homem se liga a todas as formas por seus estados anteriores, diz ela sentenciosamente. Daí vêm os seus instintos, e os seus instintos dominam o seu destino.”

“Michelet testemunha sua simpatia pelas mesmas ideias, quando diz que o cão é um candidato à Humanidade, e quando diz, falando dos pássaros:

Que são eles? Almas esboçadas, almas especializadas ainda em tais funções da existência, candidatos à vida mais geral e mais vastamente harmônica à qual chegou a alma humana.” [10]

“Pierre Leroux não crê que o homem haja passado pelos tipos inferiores dos animais e das plantas. Segundo ele, os indivíduos se perpetuam no seio da espécie, e o homem renasce indefinidamente na Humanidade. A solidariedade entre todos os membros da família humana então é evidente; o bem que um homem faz aos seus semelhantes converte-se em sua própria vantagem, porque dele não se separa pela morte, senão para voltar em breve a misturar-se a eles. Sustentando a perpetuidade do ser no seio da espécie, Pierre Leroux afasta-se dos autores que acabo de citar e não encontra muitos aprovadores, [11] mas não deixa de ser um ardente defensor da ideia geral e de uma importância extrema, que liga a vida atual a uma série de existências.

“Depois de ter dito que a criança que vem ao mundo não é, como pretendia a escola do Locke, uma tábula rasa, e que é injuriar a Divindade supor que ela tira do nada novas criaturas, que embeleza ao acaso com seus dons ou fere ao acaso com a sua cólera, Pierre Leroux conclui por estas palavras:

Assim, por necessidade, há que admitir ou sistema indeterminado das metempsicoses, ou o sistema determinado do renascimento na Humanidade, que eu sustento.” [12]

“Estou longe de repelir de maneira absoluta o sistema de renascimento na Humanidade; mas a Humanidade teve um começo, posterior mesmo ao da maioria das espécies animais e vegetais que cobrem o nosso globo; a Humanidade terá um fim; e, desde que a alma não perece, é preciso que o ser permanente, o eu, mergulhe suas raízes alhures que não na Humanidade, e encontre seu desenvolvimento futuro alhures que não na Humanidade, forma transitória.”

As numerosas citações feitas pelo autor, e que estão longe de ser completas, provam quanto é geral a ideia da pluralidade das existências e que em pouco terá passado ao estado de verdade adquirida. Sobre outros pontos, ele se afasta completamente da Doutrina Espírita; estamos longe de partilhar de sua opinião sobre todas as questões ele que aborda em seu livro, notadamente no que concerne à divindade, à qual ele atribui um papel secundário, e à natureza íntima da alma, cuja espiritualidade contesta. Seu sistema é uma espécie de panteísmo que caminha ao lado do Espiritismo, e parece ser um termo médio para certas pessoas que não querem o ateísmo, nem o niilismo, nem o espiritualismo dogmático. Por mais incompleto que seja, não deixa de ser um notável progresso sobre as ideias materialistas, das quais está muito mais afastado do que das nossas. Salvo alguns pontos muito controvertidos, a obra contém vistas muito profundas e muito justas às quais o Espiritismo não deixa de associar-se.


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[1] Um grosso volume, in-12, Preço 3,50 francos; pelo correio, 4 francos. Esta obra foi impressa em Lyon e não traz o nome de nenhum editor; diz apenas que se encontra em todos os livreiros de Paris. Adquirimo-la na Librairie Internationale, Boulevard Montmartre, 15.

[2] Se o efeito da injustiça ou do mal que um homem comete em relação a outro homem se detém no indivíduo, a necessidade de reparação será individual; mas se, ao contrário, esse mal prejudica a uma centena de indivíduos, sua dívida será centuplicada, porque será uma centena de reparações a realizar. Quanto mais vítimas ele tiver feito, direta ou indiretamente, mais indivíduos haverá que lhe demandarão contas de sua conduta. É assim que a responsabilidade e o número de reparações, aumentando com a extensão da autoridade de que somos investidos, nos torna responsáveis perante indivíduos que jamais conhecemos, mas que nem por isso deixaram de sofrer as consequências dos nossos atos.

[3] Pequeno volume in-12. Preço 1,50 franco; pelo correio, l,75 franco. Casa Germer-Baillière, Rua de l’Ecole-de- Médecine, 17.

[4] Era tão natural aproveitar a oportunidade gloriosa aberta à alma pelas descobertas astronômicas, que não posso crer que a metempsicose de Pitágoras tenha sido realmente o que dela pensava o vulgo, porque Pitágoras conhecia o verdadeiro sistema do mundo; o duplo movimento de rotação e de translação da Terra; a relativa imobilidade do Sol; a importância das estrelas fixas, cada uma das quais é um sol e o centro de um grupo de planetas muito provavelmente habitados; a marcha e a volta dos cometas. Absolutamente nada disto era ignorado por Pitágoras. Esse filósofo, instruído pelos sábios sacerdotes egípcios, que não revelaram seus segredos senão a um pequeno número de iniciados, julgou dever, a exemplo deles, guardar segredo sobre essa parte de sua ciência. Um de seus discípulos, menos escrupuloso, a divulgou. Mas como faltaram as provas e as verdades estavam perdidas no meio de erros e de divagações místicas, a revelação passou despercebida. Não basta emitir uma ideia justa, é preciso saber fazer com que ela seja aceita. Assim, Copérnico e Galileu, os vulgarizadores do verdadeiro sistema cosmológico, são considerados como os seus descobridores, embora a noção primeira se perca na noite dos tempos.

[5] Terra e Céu.

[6] História da França, 4a ed., t. I.

[7] (Folhetim de la Presse, de 19 de outubro de 1854). Nem todos os autores antigos desconheceram o lado belo da religião dos druidas, como testemunham estes versos de Lucano:
Vobis auctoribus, umbrae
Non tacitas Erebi sedes, Ditisque profundi
Pallida regna petunt: regit idem spiritus artus
Orbe alio: longae (canitis si cognita) vitae
Mors media est.
“Segundo vós, druidas, as sombras não descem às silenciosas regiões do Erebo, aos pálidos reinos do deus do abismo. O mesmo Espírito anima um novo corpo em outra esfera. A morte (se os vossos hinos contêm a verdade) é o meio de uma longa vida.”

[8] Da Sociedade Primeira e de suas Leis. Livro III.

[9] História de minha vida.

[10] L’Oiseau.

[11] Goethe parecia partilhar desta maneira de ver, quando exclamava numa de suas cartas à encantadora Sra. de Stein: “Por que o destino nos ligou tão estreitamente? Ah! Em tempos decorridos, tu foste minha irmã ou minha esposa; tu conheceste os meus menores traços e olhaste a mais pura vibração de minhas fibras; tu soubeste ler-me num olhar, a mim que um olhar humano dificilmente penetra” (Revue Germanique, dezembro de 1865).

Victor Meunier não está longe de crer também no renascimento do homem na Terra: “A sorte dos que virão depois de nós, diz ele, não me encontra indiferente, longe disto! Tanto mais porque não me está demonstrado que nós não nos sucederemos a nós mesmos.” (La Science et les Savants em 1865, 2o semestre).

[12] De l’Humanité.


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