Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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São Francisco-Xavier e o Bonzo Japonês

O relato seguinte é extraído da história de São Francisco Xavier pelo Pe. Bouhours. É uma discussão teológica entre um bonzo japonês chamado Tucarondono e São Francisco Xavier, então missionário no Japão.

“─ Não sei se me conheces, ou melhor, se me reconheces, disse Tucarondono a São Francisco Xavier.

“─ Não me lembro de jamais tê-lo visto, respondeu-lhe este.

“Então o bonzo, rebentando de riso e se voltando para outros bonzos, seus confrades, que ele tinha trazido consigo, lhes disse:

“─ Bem vejo que não teria dificuldade em vencer um homem que tratou comigo mais de cem vezes, e que finge jamais me ter visto.

“Em seguida, olhando Xavier com um sorriso de desprezo, continuou:

“─ Nada te resta das mercadorias que me vendeste no porto de Frénasoma?

“─ Na verdade, replicou Xavier com uma expressão sempre serena e modesta, em minha vida não fui negociante e jamais estive em Frénasoma.

“─ Ah! Que esquecimento e que tolice! replicou o bonzo, fazendo-se de admirado e continuando suas risadas: O que! É possível que tenhas esquecido isto?

“─ Avivai-me a memória, prosseguiu docemente o Pai, vós que tendes mais memória e mais espírito que eu.

“─ Bem que eu quero, disse o bonzo, todo orgulhoso do elogio que Xavier lhe havia feito. Hoje faz exatamente mil e quinhentos anos que tu e eu, que éramos negociantes, fazíamos o nosso comércio em Frénasoma e que te comprei cem peças de seda muito barato. Lembras-te agora?

“O santo, que avaliou até onde iria a conversa do bonzo perguntou-lhe, honestamente, que idade tinha ele.

“─ Tenho cinquenta e dois anos, disse Tucarondono.

“─ Como é possível, redarguiu Xavier, que fôsseis negociante há quinze séculos, se não há senão meio século que estais no mundo, e que negociássemos naquele tempo, vós e eu, em Frénasoma, se a maioria entre vós outros bonzos ensinais que o Japão não passava de um deserto há mil e quinhentos anos?

“─ Escuta-me, disse o bonzo; tu ouvirás os oráculos e concordarás que temos mais conhecimento das coisas passadas do que vós outros o tendes das coisas presentes.

“─ Deves, pois, saber que o mundo jamais teve começo, e que as almas, a bem dizer, não morrem. A alma se desprende do corpo onde estava encerrada; ela busca um outro, novo e vigoroso, onde renascemos, ora com o sexo mais nobre, ora com o sexo imperfeito, conforme as diversas constelações do céu e os diferentes aspectos da lua. Essas mudanças de nascimento fazem que também mude a nossa sorte. Ora, é a recompensa dos que viveram santamente ter a lembrança fresca de todas as vidas que levaram nos séculos passados e de representar-se em si mesmo todo inteiro, tal qual foi há uma eternidade, sob a forma de príncipe, de negociante, de homem de letras, de guerreiro e sob outras aparências. Ao contrário, alguém como tu que sabe tão pouco de seus negócios, que ignora o que foi e o que fez no curso de uma infinidade de séculos, mostra que seus crimes o tomaram digno da morte tantas vezes que ele perdeu a lembrança das vidas que mudou.”

OBSERVAÇÃO: Não se pode supor que Francisco Xavier tivesse inventado esta história, que não lhe era favorável, nem suspeitar a boa-fé do seu historiador, o Pe. Bouhours. Por outro lado, não é menos certo que era uma armadilha preparada ao missionário pelo bonzo, pois sabemos que a lembrança das vidas anteriores é um caso excepcional e que, em todo caso, jamais comporta detalhes tão precisos. Mas o que ressalta deste fato é que a doutrina da reencarnação existia no Japão naquela época, em condições idênticas, salvo a intervenção das constelações e da Lua, as que são ensinadas em nossos dias pelos Espíritos. Uma outra similitude não menos notável é a ideia que a precisão da lembrança é um sinal de superioridade. Os Espíritos nos dizem, com efeito, que nos mundos superiores à Terra, onde o corpo é menos material e a alma está num estado normal de desprendimento, a lembrança do passado é uma faculdade comum a todos; aí eles se lembram das existências anteriores, como nos lembramos dos primeiros anos de nossa infância. É bem evidente que os japoneses não estão neste grau de desmaterialização, que não existe na Terra, mas esse fato prova que eles têm a sua intuição.

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