Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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Pelo fim de 1864 foi pregada uma perseguição contra o Espiritismo em várias cidades do sul, e seguida de alguns efeitos. Eis um resumo de um desses sermões que nos foi enviado na ocasião, com todas as indicações necessárias para constatar sua autenticidade. Apreciarão a nossa reserva não citando os lugares, nem as pessoas:

“Fugi, cristãos; fugi desses homens perdidos e dessas mulheres más que se entregam a práticas que a Igreja condena! Não tenhais nenhuma relação com esses loucos e essas loucas; abandonai-os a um isolamento absoluto. Fugi deles como de criaturas perigosas. Não os suporteis ao vosso lado e expulsai-os do lugar santo, cujo acesso é interdito à sua indignidade.

“Vede esses homens perdidos e essas mulheres más que se ocultam na sombra e que se reúnem em segredo para propagar suas ignóbeis doutrinas; segui-os como eu em seus covis. Não se diriam conspiradores de baixo escalão, satisfazendo-se nas trevas para aí formar seus infames conchavos? Eles conspiram com audácia, com efeito, ajudados por Satã, contra a nossa santa madre Igreja, que Jesus estabeleceu para reinar na Terra. Que fazem eles ainda, esses homens ímpios e essas mulheres sem-vergonha? Eles blasfemam contra Deus; eles negam as sublimes verdades que durante séculos inspiraram o mais profundo respeito aos seus antepassados; eles se enfeitam com uma falsa caridade, do que só conhecem o nome, e dela se servem como manto para ocultar sua ambição! Eles se introduzem, como lobos rapaces, em vossas residências para seduzir vossas filhas e vossas mulheres e para vos perder a todos para sempre; mas vós os expulsareis de vossa presença como seres malfazejos!

“Compreendestes, cristãos, quais são os que assinalo à vossa reprovação! São os espíritas! E por que eu não os nomearia? É tempo de os repelir e de amaldiçoar as suas doutrinas infernais!”

Os sermões deste gênero estavam na ordem do dia naquela época. Se exumamos este documento dos nossos arquivos, após quatro anos, é para responder à qualificação de partido perigoso dada aos espíritas, nestes últimos tempos, por certos órgãos da imprensa. Na circunstância precitada, de que lado estava a agressão, a provocação, numa palavra, o espírito de partido? Seria possível levar mais longe a excitação ao ódio dos cidadãos uns contra os outros, à divisão das famílias? Tais pregações não lembram as da época desastrosa em que essas mesmas regiões eram ensanguentadas pelas guerras de religião, em que o pai estava armado contra o filho e o filho contra o pai? Nós não os julgamos do ponto de vista da caridade evangélica, mas do da prudência. É mesmo político assim excitar as paixões fanáticas numa região onde o passado ainda está vivaz? Onde a autoridade muitas vezes tem dificuldade em prevenir os conflitos? É prudente aí exibir de novo os fachos da discórdia? Queriam então aí renovar a cruzada contra os albigenses e a guerra das Cévennes? Se semelhantes sermões tivessem sido pregados contra os protestantes, represálias sangrentas seriam inevitáveis. Hoje se lançam contra o Espiritismo porque, não tendo ainda existência legal, julgam que tudo é permitido contra ele.

Pois bem! Qual tem sido, em todos os tempos, a atitude dos espíritas, em presença dos ataques de que têm sido objeto? A da calma, da moderação. Não deveriam bendizer uma doutrina cuja força é bastante grande para pôr um freio às paixões turbulentas e vingativas? Notai, entretanto, que em parte alguma os espíritas formam um corpo constituído; que eles não estão arregimentados em congregações obedientes a uma palavra de ordem; que não há entre eles qualquer filiação patente ou secreta; eles sofrem muito simplesmente e individualmente a influência de uma ideia filosófica, e essa ideia, livremente aceita pela razão, e não imposta, basta para modificar suas tendências, porque eles têm consciência de estar com a verdade. Eles veem esta ideia crescer sem cessar, infiltrar-se em toda parte, ganhar terreno diariamente; eles têm fé no seu futuro, porque ela está em harmonia com os princípios da eterna justiça; porque ela responde às necessidades sociais e porque se identifica com o progresso, cuja marcha é irresistível. Eis por que eles são calmos ante os ataques de que ela é objeto; eles acreditariam dar uma prova de desconfiança em sua força, se a sustentassem pela violência e por meios materiais. Eles riem-se desses ataques, pois os mesmos não resultam senão em propagá-la mais rapidamente, atestando a sua importância.

Mas os ataques não se limitam à ideia. Embora a cruzada contra os espíritas já não seja pregada abertamente como era há alguns anos, seus adversários não se tornaram nem mais benevolentes, nem mais tolerantes; a perseguição não é menos exercida sorrateiramente, quando se oferece a ocasião, contra os indivíduos que ela atinge, não só na sua liberdade de consciência, que é um direito sagrado, mas mesmo em seus interesses materiais. Em falta de razão, os adversários do Espiritismo ainda esperam derrubá-lo pela calúnia e pela repressão. Sem dúvida se equivocam, mas enquanto esperam, há algumas vítimas. Ora, desnecessário dissimular que a luta não está terminada; os adeptos devem, pois, armar-se de resolução para avançar com firmeza pela via que lhes é traçada.

É não só com vistas ao presente, mas sobretudo prevendo o futuro, que julgamos conveniente reproduzir a instrução que se segue, sobre a qual chamamos a séria atenção dos adeptos. Além disto, ela constitui um desmentido aos que buscam apresentar o Espiritismo como um partido perigoso para a ordem social. Praza a Deus que todos os partidos não obedeçam senão a semelhantes inspirações, porquanto a paz não tardaria a reinar na Terra.

(Paris, 10 de dezembro de 1864 - Médium: Sr. Delanne)

“Meus filhos, estas perseguições, como tantas outras, cairão e não podem ser prejudiciais à causa do Espiritismo. Os bons Espíritos velam pela execução das ordens do Senhor: nada tendes a temer. Nada obstante, é uma advertência para vos manterdes em guarda e agir com prudência. É uma tempestade que rebenta, como tendes que esperar e ver rebentar muitas outras, conforme vos temos anunciado, porque não deveis pensar que os vossos inimigos facilmente se darão por vencidos. Não, eles lutarão passo a passo, até se convencerem de sua impotência. Assim, deixai-os lançar o seu veneno, sem vos inquietardes com o que possam dizer, porque bem sabeis que nada podem contra a Doutrina, que deve triunfar, apesar de tudo. Eles bem o sentem, e é isto o que os exaspera e redobra o seu furor.

É preciso esperar que na luta eles façam algumas vítimas, mas aí estará a prova pela qual o Senhor reconhecerá a coragem e a perseverança de seus verdadeiros servidores. Que mérito teríeis em triunfar sem esforço? Como valentes soldados, os feridos serão os mais recompensados; e que glória para os que saírem da luta mutilados e cobertos de honrosas cicatrizes! Se um povo inimigo viesse invadir o vosso país, não sacrificaríeis os vossos bens, a vossa vida por sua independência? Por que, então, vos lamentaríeis de alguns arranhões que recebeis numa luta cujo desfecho inevitável conheceis, e na qual estais certos da vitória? Agradecei, pois, a Deus por vos haver posto na linha de frente, para que sejais dos primeiros a recolher as palmas gloriosas que serão o prêmio de vosso devotamento à santa causa. Agradecei aos vossos perseguidores, que vos dão oportunidade de mostrar a vossa coragem e de adquirir mais mérito. Não vades ao encontro da perseguição; não a busqueis, mas se ela vier, aceitai-a como uma das provas da vida, porque é uma delas, e uma das mais proveitosas ao vosso adiantamento, conforme a maneira pela qual a suportardes. Acontece com esta prova o mesmo que acontece em todas as outras: por vossa conduta podeis fazer que ela seja fecunda ou sem frutos para vós.

Vergonha aos que tiverem recuado e preferido o repouso da Terra àquele que lhes estava preparado, porque o Senhor fará a conta de seus sacrifícios. Ele lhes dirá: “Que pedis, vós que nada perdestes, nada sacrificastes; que não renunciastes nem a uma noite do vosso sono, nem a um pouco de vossa mesa, nem deixastes um pedaço de vossas roupas no campo de batalha? Que fizestes durante esse tempo, enquanto os vossos irmãos marchavam ao encontro do perigo? Mantiveste-vos de lado, para deixar passar a tempestade e vos mostrar depois do perigo, ao passo que os vossos irmãos subiam resolutamente para a estacada.

Pensai nos mártires cristãos! Eles não tinham, como vós, as comunicações incessantes do mundo invisível para reanimar a sua fé, contudo, não recuavam ante o sacrifício, nem de sua vida, nem de seus bens. Ademais, já passou o tempo dessas provas cruéis; os sacrifícios sangrentos, as torturas, as fogueiras não mais se renovarão; vossas provas são mais morais do que materiais; elas serão, por consequência, menos penosas, mas não serão menos meritórias, porque tudo é proporcional ao seu tempo. Hoje é o espírito que domina, eis por que o espírito sofre mais do que o corpo. A predominância das provas espirituais sobre as provas materiais é um indício do adiantamento do espírito. Além disto, vós sabeis que muitos dos que sofreram pelo Cristianismo vêm concorrer para o coroamento da obra, e são eles que sustentam a luta com mais coragem; eles juntam, assim, uma palma às que já haviam conquistado.

O que vos digo, meus amigos, não é para vos decidir a entrar estouvadamente na luta, de cabeça baixa, não; ao contrário, eu vos digo: Agi com prudência e circunspecção, no próprio interesse da Doutrina, que sofreria por causa de um zelo irrefletido. Mas se um sacrifício for necessário, fazei-o sem murmurar e pensai que uma perda temporal nada é ao lado da compensação que por isso recebereis.

Não vos inquieteis com o futuro da Doutrina. Entre os que hoje a combatem, mais de um será seu defensor de amanhã. Os adversários se agitam; em dado momento quererão reunir-se para desfechar um grande golpe e derrubar o edifício começado, mas seus esforços serão vãos, e a divisão afetará as suas fileiras. Aproximam-se os tempos em que os acontecimentos favorecerão o desabrochar do que semeais. Considerai a obra na qual trabalhais, sem vos preocupardes com o que possam dizer ou fazer. Vossos inimigos fazem tudo o que podem para vos empurrar para além dos limites da moderação, a fim de poder dar um pretexto às suas agressões. Seus insultos não têm outra finalidade, mas a vossa indiferença e a vossa longanimidade os confundem. À violência, continuai, pois, a opor a suavidade e a caridade; fazei o bem aos que vos querem mal, a fim de que mais tarde eles possam distinguir o verdadeiro do falso. Tendes uma arma poderosa: a do raciocínio. Servivos dela, mas não a mancheis jamais pela injúria, o supremo argumento dos que não têm boas razões para dar. Esforçai-vos, enfim, pela dignidade de vossa conduta, para fazer respeitar em vós o título de espírita.

São Luís.

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