Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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Em nossa obra sobre A Gênese, desenvolvemos a teoria da geração espontânea como uma hipótese provável. Alguns partidários absolutos dessa teoria admiraramse que não a tenhamos afirmado como princípio. A isto respondemos que se a questão está resolvida para uns, não o está para todos, e a prova é que a esse respeito a Ciência ainda está dividida. Ademais, ela é do domínio científico, onde o Espiritismo não pode colher e onde nada lhe cabe resolver de maneira definitiva, naquilo que não é essencialmente do sua competência.

Pelo fato do Espiritismo assimilar todas as ideias progressistas, não se segue que ele se faça campeão cego de todas as concepções novas, por mais sedutoras que se apresentem à primeira vista, com o risco de mais tarde receber um desmentido da experiência e de se dar ao ridículo de haver patrocinado uma obra inviável. Se ele não se pronuncia abertamente sobre certas questões controvertidas, não é, como poderiam supor, para manejar os dois partidos, mas por prudência, e para não se adiantar levianamente num terreno ainda não suficientemente explorado. Eis por que ele não aceita as ideias novas, mesmo as que lhe parecem justas, inicialmente sob reserva, para efeito de futura ponderação, e de maneira definitiva apenas quando chegaram ao estado de verdades reconhecidas.

A questão da geração espontânea se enquadra neste caso. Pessoalmente é para nós uma convicção, e se tivéssemos que tratá-la numa obra comum, tê-la-íamos resolvido pela afirmativa; mas numa obra constitutiva da Doutrina Espírita, as opiniões individuais não podem fazer lei. Não sendo a doutrina baseada em probabilidades, não poderíamos resolver uma questão de tal importância tão logo tenha surgido, e que ainda está em litígio entre os especialistas. Afirmar a coisa sem restrição, teria sido comprometer a Doutrina prematuramente, o que não fazemos nunca, nem mesmo para fazer prevalecerem as nossas simpatias.

O que, até aqui, deu força ao Espiritismo; o que dele fez uma ciência positiva e de futuro, é que ele jamais avançou levianamente; que não se constituiu sobre nenhum sistema preconcebido; que não estabeleceu nenhum princípio absoluto sobre a opinião pessoal, nem de um homem, nem de um Espírito, mas somente depois que esse princípio recebeu a consagração da experiência e de uma demonstração rigorosa, resolvendo todas as dificuldades da questão.

Quando formulamos um princípio, portanto, é que previamente nos asseguramos do assentimento da maioria dos homens e dos Espíritos. Eis por que não temos tido decepções. Esta é, também, a razão pela qual nenhuma das bases que constituem a Doutrina, e isto há cerca de doze anos, recebeu desmentido oficial; os princípios de O Livro dos Espíritos foram sucessivamente desenvolvidos e completados, mas nenhum caiu em desuso, e nossos últimos escritos não estão, em nenhum ponto, em contradição com os primeiros, a despeito do tempo decorrido e das novas observações que foram feitas.

Certamente assim não teria sido se tivéssemos cedido às sugestões dos que incessantemente nos gritavam para ir mais depressa; se tivéssemos esposado todas as teorias que eclodiam de todos os lados. Por outro lado, se tivéssemos escutado os que nos pediam que fôssemos mais lentamente, ainda estaríamos observando as mesas girantes. Vamos em frente quando sentimos que o momento é propício e vemos que os espíritos estão maduros para aceitar uma ideia nova; detemo-nos quando vemos que o terreno não é bastante sólido para aí fincar o pé. Com a nossa aparente lentidão e nossa circunspecção muito meticulosa para o gosto de certas pessoas, avançamos mais do que se nos tivéssemos posto a correr, porque evitamos tropeçar no caminho. Não tendo motivo para lamentar a marcha que temos seguido até agora, não a alteraremos.

Dito isto, completaremos com algumas observações o que dissemos em A Gênese sobre a geração espontânea. Sendo a Revista um terreno de estudo e de elaboração de princípios, nela dando claramente a nossa opinião, não tememos empenhar a responsabilidade da doutrina, porque a doutrina a adotará se ela for justa e a rejeitará se for falsa.

É um fato hoje cientificamente demonstrado que a vida orgânica nem sempre existiu na Terra, e que ela aí teve um começo. A Geologia permite seguir o seu desenvolvimento gradual. Os primeiros seres do reino vegetal e do reino animal que apareceram, então, devem ter-se formado sem procriação, e pertencer às classes inferiores, como o constatam as observações geológicas.

À medida que se reuniram os elementos dispersos, as primeiras combinações formaram corpos exclusivamente inorgânicos, isto é, as pedras, as águas e os minerais de toda espécie. Quando esses mesmos elementos se modificaram pela ação do fluido vital ─ que não é o princípio inteligente ─ eles formaram corpos dotados de vitalidade, de uma organização constante e regular, cada um na sua espécie. Ora, assim como a cristalização da matéria bruta não ocorre senão quando uma causa acidental não vem opor-se ao arranjo simétrico das moléculas, os corpos organizados se formam desde que as circunstâncias favoráveis de temperatura, de umidade, de repouso ou de movimento, e uma espécie de fermentação permitem que as moléculas da matéria, vivificadas pelo fluido vital, se reúnam. É o que se vê em todos os germes em que a vitalidade pode ficar latente durante anos e séculos, e se manifestar num dado momento, quando as circunstâncias são propícias.

Os seres não procriados formam, pois, o primeiro escalão dos seres orgânicos, e provavelmente um dia serão contados na classificação científica. Quanto às espécies que se propagam por procriação, uma opinião que não é nova, mas que hoje se generaliza sob a égide da Ciência, é que os primeiros tipos de cada espécie são o produto da espécie imediatamente inferior. Assim estabeleceu-se uma cadeia ininterrupta, desde o musgo e o líquen até o carvalho, e depois o zoófito, a minhoca e o oução até o homem. Sem dúvida entre a minhoca e o homem, se considerarmos apenas os dois pontos extremos, há uma diferença que parece um abismo; mas quando se aproximam todos os elos intermediários, encontramos uma filiação sem solução de continuidade.

Os partidários desta teoria que, repetimo-lo, tende a prevalecer, e à qual nos ligamos sem reserva, estão longe de ser todos espiritualistas, e ainda menos espíritas. Não considerando senão a matéria, eles fazem abstração do princípio espiritual ou inteligente. Essa questão nada prejulga, pois, sobre a filiação desse princípio da animalidade na Humanidade; é uma tese da qual não vamos tratar hoje, mas que já se debate em certas escolas filosóficas não materialistas. Não se trata, pois, senão do envoltório carnal, distinto do Espírito, como a casa o é de seu habitante. Então o corpo do homem pode ser perfeitamente uma modificação do corpo do macaco, sem que se siga que o seu espírito seja o mesmo que o do macaco (A Gênese, Cap. XI, nº. 15).

A questão que se liga à formação deste envoltório não deixa de ser muito importante, primeiro porque resolve um sério problema científico, porquanto destrói preconceitos de longa data arraigados pela ignorância, e depois porque os que a estudam exclusivamente chocar-se-ão com dificuldades insuperáveis quando quiserem dar-se conta de todos os efeitos, absolutamente como se quisessem explicar os efeitos da telegrafia sem a eletricidade; eles não encontrarão a solução destas dificuldades senão na ação do princípio espiritual que deverão admitir, afinal de contas, para sair do impasse em que estarão empenhados, sob pena de deixar sua teoria incompleta.

Deixemos, pois, o materialismo estudar as propriedades da matéria; esse estudo é indispensável, e isso será feito, efetivamente: o espiritualismo não terá mais que completar o trabalho no que lhe concerne. Aceitemos suas descobertas e não nos inquietemos com suas conclusões absolutas, porque uma vez demonstrada a sua incapacidade para tudo resolver, as necessidades de uma lógica rigorosa concluirão forçosamente pela espiritualidade; e sendo a própria espiritualidade geral incapaz de resolver os inúmeros problemas da vida presente e da vida futura, será encontrada a única chave possível nos princípios mais positivos do Espiritismo. Já vemos uma porção de homens chegarem por si mesmos às consequências do Espiritismo, sem conhecê-lo, uns começando pela reencarnação, outros pelo perispírito. Eles fazem como Pascal, que descobriu os elementos da geometria sem estudo prévio, e sem suspeitar que aquilo que ele acreditava ter descoberto era uma obra concluída. Dia virá em que os pensadores sérios, estudando esta doutrina com a atenção que ela comporta, ficarão muito surpresos de nela encontrar o que procuravam, e proclamarão abertamente um trabalho cuja existência eles não suspeitavam.

É assim que tudo se encadeia no mundo; da matéria bruta saíram os seres orgânicos, cada vez mais aperfeiçoados; do materialismo sairão, pela força das coisas e por dedução lógica, o espiritualismo geral, depois o Espiritismo, que não é outra coisa senão o espiritualismo estabelecido com precisão, apoiado nos fatos.

O que se passou na origem do mundo para a formação dos primeiros seres orgânicos acontece em nossos dias, pela via do que se chama a geração espontânea? Eis a questão. De nossa parte, não hesitamos em pronunciar-nos pela afirmativa.

Os partidários e os adversários confrontam reciprocamente experiências que deram resultados contrários; mas estes últimos esquecem que o fenômeno não se pode produzir senão em condições adequadas de temperatura e aeração; buscando obtê-las fora dessas condições, eles devem necessariamente fracassar.

Sabe-se, por exemplo, que para a eclosão artificial dos ovos, há necessidade de uma temperatura regular determinada, e certas precauções minuciosas especiais. Quem negasse tal eclosão porque não a tivesse obtido com alguns graus a mais ou a menos, e sem as precauções necessárias, estaria no mesmo caso daquele que não obtém a geração espontânea num meio impróprio. Parece-nos, pois, que se essa geração forçosamente se produziu nas primeiras idades do globo, não há razão para que ela não se produza em nossa época, se as condições forem as mesmas, como não há razão para que não se formem calcários, óxidos, ácidos e sais, como no primeiro período.

Está hoje constatado que os pêlos do mofo constituem uma vegetação que nasce sobre a matéria orgânica que atingiu um certo estado de fermentação. O mofo nos parece ser o primeiro, ou um dos primeiros tipos da vegetação espontânea, e essa vegetação primitiva, que persiste, revestindo formas diversas, conforme o meio e as circunstâncias, nos dá os liquens, os musgos, etc. Querem um exemplo mais direto? Que são os cabelos, a barba e os pêlos do corpo dos animais, senão uma vegetação espontânea?

A matéria orgânica animalizada, isto é, contendo uma certa porção de azoto, dá origem a vermes que têm todos os caracteres de uma geração espontânea. Quando o homem ou um animal qualquer está vivo, a atividade da circulação do sangue e o funcionamento incessante dos órgãos mantêm uma temperatura e um movimento molecular que impedem os elementos constitutivos dessa geração de se formar e se reunir. Quando o animal está morto, a parada da circulação e do movimento, o abaixamento da temperatura num certo limite, produzem a fermentação pútrida e, em consequência, a formação de novos compostos químicos. É então que se veem todos os tecidos subitamente invadidos por miríades de vermes que neles se repastam, sem dúvida para apressar a sua destruição. Como seriam procriados, se antes não havia traços deles?

Objetarão, sem dúvida, que são os ovos das moscas depositados na carne morta. Mas isto nada provaria, porque os ovos das moscas são depositados na superfície, e não no interior dos tecidos, e porque a carne, posta ao abrigo das moscas, ao cabo de um certo tempo não está menos pútrida e cheia de vermes; muitas vezes eles são vistos invadindo os corpos antes da morte, quando há um começo parcial de decomposição pútrida, notadamente nas feridas gangrenosas.

Certas espécies de vermes se formam durante a vida, mesmo num estado de saúde aparente, sobretudo nos indivíduos linfáticos, cujo sangue é pobre, e que não têm a superabundância de vida que se nota em outros. São as lombrigas ou vermes intestinais; as tênias ou solitárias que por vezes atingem sessenta metros de comprimento, e se reproduzem por fragmentos, como os pólipos e certas plantas; os dragonneaux, peculiares à raça negra e a certos climas, de um comprimento de trinta a trinta e cinco centímetros, finos como um fio de linha, e que saem através da pele, pelas pústulas; os ascarídeos, os tricocéfalos, etc. Muitas vezes eles formam massas consideráveis a ponto de obstruir o canal digestivo, sobem ao estômago e até à boca; atravessam os tecidos, alojam-se nas cavidades ou em volta das vísceras, enovelamse como ninhos de lagarta e causam graves desordens na economia. Sua formação bem podia ser devida a uma geração espontânea, tendo sua fonte num estado patológico especial, na alteração dos tecidos, no enfraquecimento dos princípios vitais e em secreções mórbidas. Poderia dar-se o mesmo com os vermes do queijo, o ácaro da sarna, e numa porção de animálculos que podem nascer no ar, na água e nos corpos orgânicos.

É verdade que se poderia supor que os germes dos vermes intestinais são introduzidos na economia com o ar que se respira e com os alimentos, e que aí se desenvolvam. Mas, então, surge outra dificuldade: perguntar-se-ia por que a mesma causa não produz o mesmo efeito sobre todos; por que nem todo mundo tem solitária, nem mesmo lombrigas, quando a alimentação e a respiração em todos produzem idênticos efeitos fisiológicos. Ademais, esta explicação não seria aplicável aos vermes da decomposição pútrida que vêm após a morte, nem aos do queijo e tantos outros. Até prova em contrário, somos levados a considerar como sendo, ao menos em parte, um produto da geração espontânea, do mesmo modo que os zoófitos e certos pólipos.

A diferença de sexos que se reconheceu, ou pensou reconhecer em certos vermes intestinais, notadamente no tricocéfalo, não seria uma objeção concludente, visto que eles não deixam de pertencer à ordem dos animais inferiores, e, por isso mesmo, primitivos. Ora, como a diferença dos sexos deve ter tido um começo, nada se oporia a que nascessem espontaneamente macho ou fêmea.

Aí não estão, portanto, hipóteses, mas que parecem vir em apoio ao princípio. Até onde ele estende a sua aplicação? É o que não se poderia dizer. O que se pode afirmar é que ela deve ser circunscrita aos vegetais e aos animais de organização mais simples, e não nos parece duvidoso que assistamos a uma criação incessante.

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