Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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Numa série de conferências feitas em abril último, pelo Sr. Chavée, no Instituto Livre do Boulevard des Capucines, nº. 39, o orador fez, com tanto talento quanto verdadeira ciência, um estudo analítico e filosófico dos Vedas indianos e das leis de Manu, comparados com o livro de Jó e os Salmos. Esse tema conduziu a considerações de um elevado alcance, que tocam diretamente os princípios fundamentais do Espiritismo. Eis algumas notas, colhidas por um ouvinte dessas conferências. Não são senão pensamentos apanhados a esmo, que necessariamente perdem ao serem destacados do conjunto e privados de seu desenvolvimento, mas que bastam para mostrar a ordem de ideias seguidas pelo autor:

“De que serve lançar um véu sobre o que é? De que serve não dizer bem alto o que se pensa baixinho? É preciso ter a coragem de dizer. Quanto a mim, terei esta coragem.”

“Nos Vedas indianos está dito: ‘Temos os nossos pares lá no alto’, e eu sou desta opinião.”

“Com os olhos da carne não se pode ver tudo.”

“O homem tem uma existência indefinida, e o progresso da alma é indefinido. Seja qual for a soma de suas luzes, ela tem sempre a aprender, porque tem o infinito à sua frente e, embora não possa atingi-lo, seu objetivo será sempre dele aproximarse cada vez mais.

“O homem individual não pode existir sem um organismo que o limite no seio da criação. Se a alma existe após a morte, então tem um corpo, um organismo que chamo de organismo superior, em oposição ao corpo carnal, que é o organismo inferior. Durante a vigília, esses dois organismos estão, por assim dizer, confundidos; durante o sono, o sonambulismo e o êxtase, a alma não se serve senão de seu corpo etéreo ou organismo superior; nesse estado ela é mais livre; suas manifestações são mais elevadas, porque ela age sobre esse organismo mais perfeito, que lhe oferece menos resistência; ela abarca um conjunto e relações que admira, o que não pode fazer com o seu organismo inferior, que limita a sua clarividência e o campo de suas observações.”

“A alma não tem extensão; ela não é estendida senão por seu corpo etéreo, e circunscrita pelos limites desse corpo, que São Paulo chama organismo luminoso.”

“Um organismo, etéreo nos seus elementos constitutivos, mas invisível e atingível apenas pela indução científica, em nada contraria as leis conhecidas da Física e da Química.”

“Há fatos que a experimentação sempre pode reproduzir, constatando no homem a existência de um organismo interno superior, que deve suceder ao organismo opaco habitual, no momento da destruição deste último.”

“Depois que a morte separa a alma de seu organismo carnal, ela continua a vida no espaço, com seu corpo etéreo, assim conservando a sua individualidade. Entre os homens, dos quais temos falado e que estão mortos segundo a carne, certamente há alguns aqui entre nós, que assistem, invisíveis, às nossas conversas; eles estão ao nosso lado e planam acima de nossas cabeças; eles nos veem e nos escutam. Sim, eles estão aqui, eu vos asseguro.

“A escala dos seres é contínua; antes de ser o que somos, passamos por todos os graus dessa escala que estão abaixo de nós, e continuaremos a subir os que estão acima. Antes que o nosso cérebro fosse réptil, ele foi peixe, e foi peixe antes de ser mamífero.

“Os materialistas negam estas verdades; são gente honesta; são de boa-fé, mas enganam-se! Desafio um materialista a vir aqui, a esta tribuna, provar que tem razão e que estou errado. Que venham provar o materialismo! Não, não o provarão; apenas emitirão ideias apoiadas no vazio; apenas oporão negativas, ao passo que vou demonstrar por fatos a verdade de minha tese.”

“Há fenômenos patológicos que provam a existência da alma após a morte? Sim, há e vou citar um. Vejo aqui doutores em medicina, que pretendem que isto não se dá. Responder-lhes-ei apenas isto: Se não o vistes, é porque olhastes mal. Observai, buscai, estudai e encontrareis, como eu próprio encontrei.

“É ao sonambulismo e ao êxtase que vou pedir as provas que vos prometi. ─ Ao sonambulismo? perguntar-me-ão. Mas a Academia de Medicina ainda não o reconheceu. ─ Que me importa isto? Nada tenho com a Academia de Medicina e a dispenso. ─ Mas o Sr. Dubois, de Amiens, escreveu um grosso volume in-8º contra essa doutrina. ─ Isto também não me importa: são opiniões sem provas, que desaparecem diante dos fatos.”

“Dir-me-ão ainda: ‘Já não está em moda defender o sonambulismo.’ Responderei que não me preocupo em estar na moda, e que se poucos homens ousam professar verdades que ainda atraem o ridículo, sou daqueles a quem o ridículo não pode atingir, e que o enfrentam de boa-vontade, para dizer corajosamente o que julgam ser a verdade. Se cada um de nós agisse assim, em breve a incredulidade perderia todo o terreno que ganhou há algum tempo, e seria substituída pela fé. Não a fé que é filha da revelação, mas a fé mais sólida, filha da ciência, da observação e da razão.”

O orador cita numerosos exemplos de sonambulismo e de êxtase, que lhe deram a prova, de certo modo material, da existência da alma, de sua ação isolada do corpo carnal, de sua individualidade após a morte, e, finalmente, de seu corpo etéreo, que não é senão o envoltório fluídico ou perispírito.

Como podemos ver, a existência do perispírito, suspeitada por inteligências de escol desde a mais alta Antiguidade, mas ignorada pelas massas, demonstrada e vulgarizada nestes últimos tempos pelo Espiritismo, é toda uma revolução nas ideias psicológicas e, consequentemente, na Filosofia. Admitido este ponto de partida, chega-se forçosamente, de dedução em dedução, à individualidade da alma, à pluralidade das existências, ao progresso indefinido, à presença dos Espíritos entre nós, numa palavra, a todas as consequências do Espiritismo, até ao fato das manifestações, que se explicam de maneira toda natural.

Por outro lado, demonstramos em tempo que, partindo do princípio da pluralidade das existências, hoje admitido por numerosos pensadores sérios, mesmo fora do Espiritismo, chega-se exatamente às mesmas consequências.

Portanto, se homens cujo saber tem autoridade professam abertamente, pela palavra e pelos escritos, mesmo sem falar do Espiritismo, uns a doutrina do perispírito sob um nome qualquer, outros a pluralidade das existências, na realidade professam o Espiritismo, porquanto são duas rotas que forçosamente a ele conduzem. Se eles beberam essas ideias em si mesmos e nas próprias observações, isto prova melhor que elas estão na Natureza e quão irresistível é o seu poder. Assim, o perispírito e a reencarnação são, de agora em diante, duas portas abertas para o Espiritismo, no domínio da filosofia e nas crenças populares.

As conferências do Sr. Chavée são, pois, verdadeiras conferências espíritas, menos a palavra. E, sob este último aspecto, diremos que elas são, no momento, mais proveitosas para a doutrina do que se ele arvorasse abertamente a bandeira. Elas popularizam as suas ideias fundamentais sem ofuscar aqueles que, por ignorância da coisa, tivessem prevenção contra o nome. Uma prova evidente da simpatia que estas ideias encontram na opinião é o acolhimento entusiasta que é feito às doutrinas professadas pelo Sr. Chavée, pelo numeroso público que se comprime em suas conferências.

Estamos persuadido que mais de um escritor que põe os espíritas em ridículo aplaude o Sr. Chavée e suas doutrinas, que acha perfeitamente racionais, sem suspeitar que elas não são nada mais nada menos que puro Espiritismo.

O jornal la Solidarité, em seu número de 1º de maio, que citamos acima, traz um relato dessas conferências, para o qual chamamos a atenção dos nossos leitores, porquanto ele completa sob outros pontos de vista os ensinamentos acima.

NOTA: A abundância de matérias nos força a adiar para o próximo número o relato de dois interessantíssimos folhetins do Sr. Bonnemère, autor do Romance do futuro, publicados no Siècle de 24 e 25 de abril de 1868, sob o título de Paris sonâmbulo. O Espiritismo aí é claramente definido.

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