Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1868

Allan Kardec

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Eis um pequeno livro muito curioso, escrito por um aldeão de Saint-Sauflieu. É verdade que o autor morou muito tempo em Paris, e foi nessa cidade que ele pôde entrar em contato com os apóstolos do Espiritismo.

Como damos importância a todas as publicações de nossa terra, quisemos travar conhecimento com essa obra. Tinham-nos dito que a obra do Sr. Florent Loth havia sido posta no índex nas comunas vizinhas de sua aldeia; esta notícia aguçou a nossa curiosidade e decidimo-nos a ler o Abrégé de la Doctrine Spirite. A gente gosta mesmo do fruto proibido.

Quanto a nós, que não temos o menor interesse em censurar ou aprovar a obra do autor, diremos francamente, para nos pormos à vontade, que não acreditamos no Espiritismo; que não damos o menor crédito às mesas girantes ou falantes, porque à nossa razão repugna admitir que objetos materiais possam ser dotados da menor inteligência. Também não cremos no dom da segunda vista, ou, para dizer melhor, na faculdade de ver através de paredes espessas ou de distinguir a grandes distâncias o que se passa ao longe, isto é, a centenas de léguas. Enfim, para continuar nossas confissões preliminares, ajuntamos que não temos nenhuma fé nos Espíritos que voltam, e que o homem, mais ou menos inspirado, não tem o poder de evocar e, sobretudo, de fazer falar a alma dos mortos.

Dito isto, para desembaraçar o terreno de tudo o que não entra em nossos pontos de vista, reconhecemos que o livro do Sr. Florent Loth não é um mau livro.

Sua moral é pura, o amor ao próximo ali é recomendado, a tolerância para as crenças alheias nele é defendida, e isto explica a venda dessa obra.

Mas dizer que adeptos convencidos da Doutrina Espírita, com todas as suas partes admitidas, serão formados por força da leitura da obra do nosso compatriota, seria sustentar um fato que não se realizará. No que nos parece razoável e, digamos a palavra, ter senso comum, segundo a melhor acepção destes termos, ali há coisas excelentes. Assim, certos abusos são repelidos com razões claras, limpas e precisas; e se o autor procura convencer, é sempre pela suavidade e pela persuasão.

Portanto, pondo de lado tudo quanto se liga às práticas materiais do Espiritismo, práticas nas quais não acreditamos absolutamente, poderíamos retirar da leitura do livro em questão muito boas noções de moral, de tolerância e de amor ao próximo. Sob esses pontos de vista, aprovamos inteiramente o Sr. Florent Loth e não compreendemos o interdito lançado contra o seu opúsculo.

O Resumo da Doutrina Espírita será um dia proibido pela congregação do Index, cuja sede está em Roma? É uma questão ainda não resolvida, porque este livrinho não está destinado a transpor as nossas fronteiras picardas. Contudo, se o fato ocorresse, o Sr. Florent Loth recolheria por sua obra uma notoriedade com a qual jamais deverá ter sonhado.

Quanto às experiências físicas do Espiritismo, cremos que devemos deixar falar aqui o Sr. Georges Sauton, um dos nossos confrades, o qual, na Liberté de quartafeira, 14 de setembro de 1867, assim se exprimia sobre uma sessão espírita que se tinha realizado em Paris, na casa de um doutor em Medicina:

“O doutor F... amealhou uma certa fortuna. Ele a consome fazendo sessões de Espiritismo, que lhe custam muito caro em velas e em médiuns.

“Ontem à noite ele havia convidado a imprensa para a sua reunião mensal. Esses Espíritos deviam ser interrogados a respeito do zuavo Jacob e dizer sua maneira de pensar relativamente a esse interessante militar. O Sr. Babinet, do Instituto ─ escusai o pouco! ─ tinha prometido honrar a reunião com a sua presença; pelo menos o anfitrião, pelas cartas de convite, deixou isto a entender.

“Albert Brun, Victor Noir e eu fomos à casa do doutor. Nada do Sr. Babinet.

“Dez pessoas em volta de uma mesa faziam girar o móvel, que girava mal; trinta outras, entre as quais muitas figuras decorativas as olhavam.

“Os Espíritos, sem dúvida indispostos, só falaram depois de lhes puxarem as orelhas. Apenas se dignaram imitar o ruído da serra, dos martelos dos toneleiros e do ferreiro batendo nos tonéis e na bigorna. Pediram-lhes que cantassem A. Mulher de barba e Tenho bom tabaco, mas eles não cantaram. Intimaram-nos a fazer uma pera saltar no ar e a pera não saltou.”

Nada acrescentaremos a este pequeno relato espirituoso.

Terminemos por um resumo do prefácio do autor, no qual a parte moral de suas ideias é exposta:

“O Espiritismo não tem a pretensão de impor a sua crença; só pela persuasão é que ele espera chegar ao seu objetivo, que é o bem da Humanidade. Liberdade de consciência: assim, creio firmemente na existência da alma e na sua imortalidade; creio nas penas e recompensas futuras; creio nas manifestações dos Espíritos, isto é, nas almas dos que viveram nesta Terra e em outros mundos; creio nisto em virtude do direito que tem o meu vizinho de não crer; mas me é tão fácil provar-lhe a minha afirmação quanto lhe é impossível me provar a sua negação, porque a negação dos incrédulos não é uma prova. O fato, dizem eles, é contrário às leis conhecidas. Pois bem! É que ele repousa sobre uma lei desconhecida: não podemos conhecer todas as leis da Natureza, porque Deus é grande e ele tudo pode!...

“Pessoas malévolas espalharam o boato de que o Espiritismo era um obstáculo ao progresso da religião. Essas pessoas, mais ignorantes do que realmente piedosas, desconhecendo absolutamente a doutrina, não podem apreciá-la nem julgá-la.

“Nós dizemos, e ainda provamos, que o ensino dos Espíritos é muito cristão, que ele se apoia na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus e na moral do Cristo.”

A citação desta profissão de fé pelo autor será suficiente para dar a conhecer a sua maneira de ver. Cabe ao leitor apreciar a obra de que falamos.

Fazendo este relato, apenas quisemos constatar um fato: é que na nossa província de Picardia o Espiritismo tinha encontrado um defensor fervoroso e convicto.

Não admitimos todas as ideias do autor. Esperamos que, em virtude de sua suavidade, ele não se aborreça com a nossa franqueza. Enquanto a paz pública não for perturbada por doutrinas ímpias, e enquanto a ordem social não for abalada por máximas subversivas, nossa tolerância fraterna nos fará dizer o que aqui dizemos do livro do Sr. Florent Loch:

Paz às consciências! Respeito às crenças do próximo!

M. A. GABRIEL REMBAULT.


“Senhor diretor,

“Eu vos serei grato se quiserdes inserir no vosso jornal minha resposta à crítica do Sr. Gabriel Rembault ao meu Resumo da Doutrina Espírita, artigo que apareceu a 29 de dezembro último.

“Não quero travar polêmica com o Sr. Gabriel Rembault; não estou à altura de seu talento de escritor, incontestável e que todos lhe reconhecem, mas que ele me permita demonstrar-lhe as razões que me fizeram escrever meu livro.

“Antes de tudo devo reconhecer que a crítica do Sr. Gabriel Rembault é cortês e polida; ela emana de um homem convicto, mas não irritado. Bem! Não posso dizer outro tanto de outros críticos, que lançam o anátema aos espíritas por insultos e palavras grosseiras! Nada compreendo desse extravasamento de ódio e de injúrias, dessas palavras dissonantes de loucos e mal-educados que nos lançam à face e que às pessoas decentes só inspiram um profundo desgosto. Entretanto, esses homens intolerantes bem sabem que, segundo os princípios de nossa sociedade moderna, todas as consciências são livres e têm direito a um respeito inviolável.

“Perdoai-me esta digressão, Sr. Diretor, como perdoo a esses insultadores. Eu os perdoo de todo o coração e peço a Deus se digne esclarecê-los sobre a caridade.

Eles deveriam praticar melhor essa virtude evangélica para com seu próximo.

“Volto ao meu assunto:

“Foi pelo estudo, pela meditação e sobretudo pela prática, que adquiri a prova de certos fatos físicos, até agora olhados como sobrenaturais; é pelo fluido universal que se podem explicar os fenômenos do magnetismo. Estes fenômenos não mais podem ser contestados seriamente; é graças ao mesmo fluido que o Espírito transpõe o espaço, que ele possui a dupla vista, que ele é dotado da penetração etérea, à qual não poderia opor-se a opacidade dos corpos. Esses fenômenos não passam da libertação momentânea do Espírito. É certo que a incredulidade não quer admitir esses fenômenos, mas constatações autênticas e numerosas não mais permitem pôlos em dúvida.

“Assim, todas as maravilhas de que acusam o Magnetismo e o Espiritismo não passam de efeitos cuja causa reside nas leis da Natureza.

“E desde que o Sr. Gabriel Rembault citou um artigo do jornal Liberté permitirme-ei, por minha vez, fazer uma citação de um livro novíssimo (La Raison du Spiritisme), fruto de longos estudos de um honrado magistrado. Diz ele à página 216: “Jamais Deus derrogou as leis que instituiu para levar sua obra a bom fim? Aquele que tudo previu não proveu a tudo? Como poderíeis pretender que a mediunidade, a comunicação dos Espíritos não estejam conforme às leis da natureza do homem? E se a revelação é a consequência necessária da mediunidade, por que diríeis que é uma derrogação da lei de Deus, quando ela entraria ostensivamente nas vistas da Providência e da economia humana?”

“Paro após esta citação. É um argumento no sentido oposto às ideias do Sr. Gabriel Rembault, e que submeto à apreciação dos vossos leitores.

“Em resumo, estou de acordo com ele quando diz: “Paz às consciências!

Respeito às crenças do próximo!”

“Recebei, senhor Diretor, meus cumprimentos respeitosos.

“FLORENT LOTH


“Saint-Sauflieu, 16 de janeiro de 1868.”

Ressalta do relato acima que o autor do artigo não conhecia uma palavra da Doutrina; ele a julgava, como tantos outros, por ouvir dizer, sem se ter dado ao trabalho de ir ao fundo da questão e de levantar o manto do ridículo com o qual a crítica malévola ou mais ou menos interesseira houve por bem cobri-la. Ele fez como o macaco da fábula, que rejeitava a noz porque ele havia mordido apenas na casca verde. Se ele tivesse tomado conhecimento dos seus primeiros elementos, não teria suposto os espíritas tão simplórios para acreditarem na inteligência de uma mesa, como ele próprio não acredita na inteligência da pena que, em suas mãos, transmite os pensamentos de seu próprio espírito. Como ele, os espíritas não admitem que objetos materiais possam ser dotados da menor inteligência; mas, como ele, sem dúvida, admitem que esses objetos podem ser instrumentos a serviço de uma inteligência. O livro do Sr. Loth não o convenceu, mas lhe mostrou o lado sério e as tendências morais da doutrina, e isto lhe bastou para compreender que a coisa tinha algo bom e merecia ao menos o respeito devido às crenças do próximo. Ele deu prova de uma louvável imparcialidade, inserindo imediatamente a retificação que lhe foi remetida pelo autor.

O que o tocou não foram os fatos de manifestações, dos quais aliás pouco se trata no livro, foram as tendências liberais e anti-retrógadas, o espírito de tolerância e de conciliação da doutrina. É essa, com efeito, a impressão que ela produzirá sobre todos os que se derem ao trabalho de estudá-la. Sem aceitar a sua parte experimental, que para os espíritas é a prova material da verdade de seus princípios, eles aí verão um poderoso auxiliar para a reforma dos abusos contra os quais se levantam todos os dias. Em vez de fanáticos de um novo gênero, eles verão em todos os espíritas, cujo número aumenta dia a dia, um exército que luta pelo mesmo objetivo, é verdade que com outras armas, mas que lhes importam os meios, se o resultado é o mesmo?

Sua ignorância das tendências do Espiritismo é tamanha que nem mesmo sabem que se trata de uma doutrina liberal, emancipadora da inteligência, inimiga da fé cega, que vem proclamar a liberdade de consciência e o livre exame como base essencial de toda crença séria. Eles nem mesmo sabem que ele foi o primeiro a inscrever em sua bandeira esta máxima imortal: Fora da caridade não há salvação, princípio de união e de fraternidade universais, o único que pode pôr um termo aos antagonismos dos povos e das crenças. Enquanto eles o creem puerilmente absorvido por uma mesa que gira, não suspeitam que o menino deixou os brinquedos pela armadura, que cresceu e que agora abarca todas as questões que interessam ao progresso da Humanidade. Aos seus adversários desinteressados e de boa fé só falta conhecê-lo para julgá-lo de modo diferente do que o julgam. Se atentassem para a sua velocidade de propagação, que nada pode deter, eles se diriam que isso não pode ser efeito de uma ideia completamente oca e que, mesmo que ele não encerrasse senão uma verdade, se essa verdade é capaz de mexer com tantas consciências, merece ser levada em consideração; que se ele causa tanto pavor a certa gente, é que não o consideram como uma fumaça à toa.

O artigo acima transcrito constata, além disso, um fato importante: é que o interdito lançado contra esse pequeno livro pelo clero do interior serviu para propagá-lo, o que não podia deixar de ocorrer, tão poderosa é a atração do fruto proibido. O autor do artigo pensa, com razão, que se fosse condenado pela congregação do Index, sediada em Roma, adquiriria uma notoriedade não pretendida pelo Sr. Loth. Ele ignora que as obras fundamentais da Doutrina tiveram esse privilégio, e que foi pelos raios lançados contra a Doutrina em nome desse índex que esses livros foram procurados nos meios onde eram desconhecidos. As pessoas fizeram esta reflexão muito natural: Quanto mais forte trovejam, mais importante a coisa deve ser. Leram os livros primeiro por curiosidade, depois, como ali encontrassem boas coisas, os aceitaram. Eis a história.

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