Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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A propósito das poesias do Sr. Marteau

É uma coisa realmente curiosa ver os mesmos que repelem o nome do Espiritismo com a maior obstinação, semearem suas ideias em profusão. Não há um dia em que, na imprensa, nas obras literárias, na poesia, nos discursos, até mesmo nos sermões, não se encontrem pensamentos pertinentes ao mais puro Espiritismo. Perguntai a esses escritores se eles são espíritas, e responderão com desdém que se guardam de ser; se disserdes que o que escreveram é Espiritismo, responderão que não pode ser, pois não é a apologia dos Davenport e das mesas girantes. Para eles, aí está todo o Espiritismo, e daí não saem, nem querem sair. Já se pronunciaram: seu julgamento é inapelável.

Contudo, ficariam muito surpresos se soubessem que a cada instante fazem Espiritismo sem o saber; que o acotovelam sem notar que estão perto! Mas, que importa o nome, se as ideias fundamentais são aceitas! Que vale a forma da charrua, se ela prepara o terreno? Em vez de chegar de uma vez, a ideia vem por fragmentos, eis toda a diferença. Ora, quando mais tarde virem que os fragmentos reunidos não são outra coisa senão o Espiritismo, forçosamente renegarão a opinião que dele haviam feito. Os espíritas não são tão pueris para ligar mais importância ao nome do que à coisa. É por isto que se felicitam por ver suas ideias se espalhando sob uma forma qualquer.

Os Espíritos que conduzem o movimento se dizem: Considerando-se que eles não querem a coisa com este nome, vamos fazê-los aceitá-la em detalhes sob outra forma; julgando-se inventores da ideia, eles próprios serão seus propagadores. Faremos como com os doentes que não querem certos remédios, e que os fazemos tomar sem que o suspeitem, mudando-lhes a cor. Os adversários em geral conhecem tão pouco o que constitui o Espiritismo, que temos por certo que o mais fervoroso espírita que não fosse conhecido como tal, poderia, com o auxílio de algumas precauções oratórias, e desde que se abstivesse de falar em Espíritos, desenvolver os mais essenciais princípios da doutrina e ser aplaudido pelos mesmos que não lhe teriam concedido a palavra se se tivesse apresentado como adepto.

Mas, de onde vêm essas ideias, porquanto aqueles que as emitem não as beberam na doutrina que desconhecem?

Já o dissemos várias vezes: quando uma verdade chega a termo e o espírito das massas está maduro para assimilá-la, a ideia germina em toda parte: ela está no ar, levada a todos os pontos pelas correntes fluídicas; cada um lhe aspira algumas parcelas e as emite como se tivessem brotado de seu cérebro. Se alguns se inspiram na ideia espírita sem o confessar, certamente é que em muitos ela é espontânea. Ora, o Espiritismo, achando-se na coletividade e na coordenação dessas ideias parciais, pela força das coisas um dia será o traço de união entre os que as professam. É questão de tempo.

É notório que quando uma ideia deve tomar lugar na Humanidade, tudo concorre para franquear-lhe caminho. É assim com o Espiritismo. Observando o que se passa no mundo neste momento, os grandes e pequenos acontecimentos que surgem ou se preparam, não há um espírita que não diga que tudo parece feito de propósito para aplainar as dificuldades e facilitar o seu estabelecimento. Seus próprios adversários parecem impelidos por uma força inconsciente a limpar o caminho e a cavar um abismo sob seus passos, para melhor fazer sentir a necessidade de enchê-lo.

E não se creia que os contrários sejam prejudiciais. Longe disto. Jamais a incredulidade, o ateísmo e o materialismo levantaram a cabeça mais atrevidamente e proclamaram suas pretensões. Não se trata mais de opiniões pessoais, respeitáveis como tudo quanto é da competência da consciência íntima, são doutrinas que querem impor e com o auxílio das quais pretendem governar os homens contra a vontade deles. O próprio exagero dessas doutrinas é o seu remédio, porque se pergunta o que seria a Sociedade se um dia elas viessem a prevalecer. Era necessário esse exagero para fazer melhor compreender o benefício das crenças que podem ser a salvaguarda da ordem social.

Mas, que cegueira estranha! ou melhor, que cegueira providencial! Aqueles que querem ocupar o lugar do que existe, como aqueles que querem opor-se às ideias novas, no momento em que surgem as mais graves questões, em vez de atrair para si, de angariar simpatias pela doçura, pela benevolência e pela persuasão, parece que se empenham em tudo fazer para inspirar a repulsa; não encontram nada de melhor do que impor-se pela violência, comprimir consciências, chocar as convicções, perseguir. Singular meio de se fazerem bem-vistos pelas populações!

No estado atual do nosso mundo, a perseguição é o batismo obrigatório de toda crença nova de algum valor. Recebendo o seu o Espiritismo, é a prova da importância que a ele atribuem.

Mas, repetimos, tudo isto tem sua razão de ser e sua utilidade: é preciso que assim seja, para preparar os caminhos. Os espíritas devem considerar-se como soldados num campo de batalha; eles se devem à causa e não podem esperar repouso senão quando a vitória for conquistada. Felizes os que tiverem contribuído para a vitória com o preço de alguns sacrifícios.

Para o observador que contempla a sangue-frio o trabalho de nascimento da ideia, é algo de maravilhoso ver como tudo, mesmo o que à primeira vista parece insignificante, ao contrário, converge em definitivo para o mesmo objetivo; ver a diversidade e a multiplicidade dos expedientes que as potências invisíveis põem em jogo para atingir esse objetivo; tudo lhes serve, tudo é utilizado, mesmo o que nos parece mau.

Não há, pois, que se inquietar com as flutuações que o Espiritismo pode experimentar no conflito das ideias que estão em fermentação; é um efeito da própria efervescência que ele produz na opinião geral, na qual ele não pode encontrar simpatias por toda parte; é preciso atentar para essas flutuações, até que seja restabelecido o equilíbrio. Enquanto esperamos, a ideia avança. É o essencial. Como dissemos no começo, ela surge por todos os poros; todos, amigos e inimigos, nela trabalham como que por prazer, e não podemos duvidar que sem a ativa colaboração involuntária dos adversários, os progressos da Doutrina, que jamais fez propaganda para se tornar conhecida, não teriam sido tão rápidos.

Creem abafar o Espiritismo proscrevendo-lhe o nome. No entanto, como ele não consiste em palavras, se lhe fecham a porta por causa de seu nome, ele penetra sob a forma impalpável da ideia. E o que há de curioso é que muitos daqueles que o repelem, não o conhecendo, não querendo conhecê-lo, ignorando, por consequência, o seu objetivo, suas tendências e seus mais sérios princípios, aclamam certas ideias que por vezes são as suas, sem suspeitar que muitas vezes elas fazem parte essencial e integrante da doutrina. Se eles soubessem disso, é provável que se absteriam.

O único meio de evitar o equívoco seria estudar a doutrina a fundo, para saber o que ela diz e o que não diz. Mas então surgiria outro embaraço: o Espiritismo toca em tantas questões, as ideias que se agrupam em torno dele são tão múltiplas, que se eles quisessem abster-se de falar de tudo quanto lhe diz respeito, encontrar-se-iam muitas vezes singularmente impedidos, e, muitas vezes mesmo, tolhidos nos impulsos das próprias inspirações; porque, por esse estudo, convencer-se-iam que o Espiritismo está em tudo e por toda parte e ficariam surpreendidos de encontrá-lo em escritores dos mais acreditados; mais ainda, surpreender-se-iam, eles próprios, a fazê-lo em muitas circunstâncias, involuntariamente. Ora, uma ideia que se torna patrimônio comum é imperecível.

Por várias vezes já reproduzimos pensamentos espíritas que encontramos em profusão na imprensa e nos escritos de todo gênero, e continuaremos a fazê-lo de vez em quando, sob o título de O Espiritismo em toda parte. O artigo seguinte, sobretudo, vem em apoio às reflexões acima. É extraído do Phare de la Manche, jornal de Cherbourg, de 18 de agosto de 1867.

O autor aí dá conta de uma coletânea de poesias do Sr. Amédée Marteau[1] e, a respeito, assim se exprime:

“Há dois mil anos, algum tempo antes do estabelecimento do Cristianismo, a casta sacerdotal dos druidas ensinava aos seus adeptos uma estranha doutrina. Ela dizia: Nenhum ser acabará jamais; mas todos os seres, exceto Deus, começaram. Todo ser é criado no mais baixo grau da existência. Inicialmente a alma não tem consciência de si mesma; submetida às leis invariáveis do mundo físico, espírito escravo da matéria, força latente e obscura, ela sobe fatalmente os degraus da natureza inorgânica, depois da natureza organizada. Então o relâmpago cai do céu, o ser se conhece, é homem.

“A alma humana começa numa alvorada as provas de seu livre-arbítrio; ela própria faz o seu destino, avança de existência em existência, de transmigração em transmigração, pela libertação que lhe dá a morte; ou, então, volta-se sobre si mesma, cai de degrau em degrau, se não tiver merecido elevar-se, sem que nenhuma queda, nada obstante, seja para sempre irreparável.

“Quando a alma tiver chegado ao mais alto ponto da ciência, da força, da virtude, de que é susceptível a condição humana, ela escapa ao círculo das provas e das transmigrações, atinge o termo da felicidade: o Céu. Uma vez chegado a esse termo, o homem não cai mais; sobe continuamente, eleva-se para Deus por um progresso eterno, sem contudo jamais confundir-se com ele. Bem longe de no Céu perder a sua atividade, a sua individualidade, é lá que cada alma adquire a sua plena posse, com a memória de todos os estados anteriores pelos quais passou. Sua personalidade e sua natureza própria aí se desenvolvem cada vez mais distintas, à medida que ela sobe na escada infinita, cujos degraus não passam de realizações de vida que não são mais separados pela morte.

“Tal era a concepção que o Druidismo tinha da alma e de seus destinos. Era a ideia pitagórica ampliada, transformada em dogma e aplicada ao infinito.

“Como esta opinião, depois de ter dormido tantos séculos nos limbos da inteligência humana, desperta hoje? Talvez ela tenha a sua razão de ser na revolução que, a partir de Galileu, se operou no sistema astronômico; talvez ela deva sua ressurreição às sedutoras perspectivas que apresenta aos devaneios dos filósofos e dos pensadores, ou, enfim, a essa curiosidade inata que incessantemente leva o homem para o desconhecido.

“Seja como for, Fontenelle foi o primeiro cuja pena espirituosa renovou estas questões na sua encantadora brincadeira sobre a pluralidade dos mundos.

“Da habitabilidade dos mundos à transmigração das almas, a rampa é escorregadia, e nosso século aí se deixou arrastar. Ele apoderou-se dessa ideia e, esteando-se na Astronomia, tenta elevá-la às alturas de uma ciência. Jean Reynaud a desenvolveu, sob forma magistral, em Ciel et Terre; Lamennais a adota e generaliza no Esquisse d’une Philosophie; Lamartine e Hugo a preconizam; Maxime Ducamp a popularizou num romance; Flammarion publicou um livro em seu favor; enfim, o Sr. Amédée Marteau, numa obra poética que lemos com o mais vivo interesse, reveste com as cores de sua palheta sedutora essa vasta e magnífica utopia.

“O Sr. Marteau é o poeta da ideia nova; é um crente entusiasta e devotado da transmigração das almas em corpos celestes, e é preciso convir que ele conseguiu tratar com mão de mestre este esplêndido assunto. Deus, o homem, o tempo, o espaço são os inspiradores de sua musa. Abismos vertiginosos, elevações incomensuráveis, nada o detém, nada o apavora. Ele se joga na imensidade, bordeja sem empalidecer as barrancas do infinito. Ele viaja nos astros, como uma águia sobre os altos cimos. Ele descreve numa linguagem harmoniosa, com uma precisão matemática, suas formas, sua marcha, sua cor, seus contornos.”

Depois de citar um fragmento de uma das odes dessa coletânea, acrescenta o autor do artigo:

“O Sr. Marteau não é apenas um poeta de alta distinção, ele é, ainda, um filósofo e um sábio. A Astronomia lhe é familiar; ele embeleza a sua poesia com o pó de ouro que faz cair das esferas siderais. Não saberíamos dizer o que mais nos cativou, se o interesse da dicção, se a originalidade do pensamento. Tudo isto se ajusta, se coordena de maneira tão límpida, tão clara, tão natural, que se fica como que fascinado sob o encanto.

“Não conhecemos o Sr. Marteau, mas pensamos que, se para compor um livro como este é preciso ser dotado de um grande talento, também é preciso ser dotado de um grande coração, porquanto nesse autor tudo respira o amor ao homem e o amor a Deus.

“Assim, não podemos deixar de recomendar a todos aqueles que não se consomem nas preocupações e nos interesses materiais, que lancem um olhar sobre a obra do Sr. Marteau. Eles aí encontrarão consolações e esperanças, sem contar os prazeres intelectuais que faz experimentar a leitura de uma poesia generosa, rica de concepções, ideal e destinada ─ disto não duvidamos ─ a um brilhante sucesso.

DIGARD.


A exposição da doutrina druídica sobre os destinos da alma, pela qual começa o artigo, é, como se vê, um resumo completo da Doutrina Espírita sobre o mesmo assunto. O autor sabe disso? Permitimo-nos duvidar, do contrário seria estranho que se tivesse abstido de citar o Espiritismo, a menos que tivesse temido fazê-lo participar dos elogios que prodigaliza às ideias do autor. Não lhe faremos a injúria de supor tal parcialidade pueril; preferimos julgar que até ignore a sua existência. Quando ele se pergunta: “Como esta opinião, depois de ter dormido tantos séculos nos limbos da inteligência humana, desperta hoje?” se tivesse estudado o Espiritismo, o Espiritismo lhe teria respondido, e ele teria visto que essas ideias são mais populares do que se pensa.

“O Sr. Marteau, dizia ele, é o poeta da ideia nova; é um crente entusiasta e devotado da transmigração das almas em corpos celestes e convenhamos que conseguiu tratar com mão de mestre este esplêndido assunto.” Mais adiante acrescenta: “Se para compor um livro como este é preciso ser dotado de um grande talento, também é preciso ser dotado de um grande coração, porque, neste autor, tudo respira o amor ao homem e o amor a Deus.” Então o Sr. Marteau não é um louco por professar semelhantes ideias? Jean Reynaud, Lamennais, Lamartine, Victor Hugo, Louis Jourdan, Maxime Ducamp, Flammarion, então não são loucos por tê-las preconizado? Fazer o elogio aos homens não é elogiar os seus princípios? Ademais, pode-se fazer um elogio maior a um livro do que dizer que os leitores aí beberão esperanças e consolações? Considerando-se que essas doutrinas são as do Espiritismo, não é avalizá-las perante a opinião? Assim, eis um artigo onde diríamos que o nome do Espiritismo é omitido de propósito, e onde são aclamadas as ideias que ele professa sobre os pontos mais essenciais: a pluralidade das existências e os destinos da alma.



[1] Espoirs et Souvenirs, Hachette, Boulevard Saint-Germain, 77.


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