Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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Deus na natureza

(Por Camille Flammarion) *

Como se sabe, depois de haver tratado, do ponto de vista científico, da questão da habitabilidade dos mundos, que se liga intimamente ao Espiritismo, o Sr. Flammarion hoje aborda a demonstração de uma outra verdade, sem contradita a mais importante, porque é a pedra angular do edifício social, e ainda aquela sem a qual o Espiritismo não teria razão de ser: A existência de Deus. O título de sua obra ─ Deus na Natureza ─ resume tudo; ele diz, antes de mais nada, que não é um livro litúrgico nem místico, mas filosófico.

Do ceticismo de um grande número de sábios, concluiu-se erradamente que, por si mesma, a Ciência é ateísta, ou conduz fatalmente ao ateísmo. É um erro que o Sr. Flammarion cuida de refutar, demonstrando que se os sábios não viram Deus em suas pesquisas, foi porque não quiseram vê-lo. Ademais, estão longe de ser ateus todos os sábios, mas muitas vezes se confunde o ceticismo relativo aos dogmas particulares de tal ou qual culto com o ateísmo. O Sr. Flammarion se dirige especialmente à classe dos filósofos que abertamente fazem profissão de materialismo.

“O homem, diz ele, traz em sua natureza uma tão imperiosa necessidade de se deter numa convicção, particularmente do ponto de vista da existência de um ordenador do mundo e do destino dos seres, que se nenhuma fé o satisfaz, ele sente necessidade de demonstrar a si mesmo que Deus não existe, e busca o repouso de sua alma no ateísmo e na doutrina do nada. Assim, a questão atual que nos apaixona não é mais saber qual a forma do Criador, o caráter da mediação, a influência da graça, nem discutir o valor dos argumentos teológicos. A verdadeira questão é saber se Deus existe ou não existe.”

Nesse trabalho o autor procedeu da mesma maneira que na sua Pluralidade dos Mundos Habitados; colocou-se no próprio terreno de seus adversários. Se ele tivesse buscado seus argumentos na Teologia, no Espiritismo ou em doutrinas espiritualistas quaisquer, teria estabelecido premissas que teriam sido rejeitadas. Eis por que toma as dos negadores e demonstra, pelos próprios fatos, que se chega a uma conclusão diametralmente oposta; ele não invoca novos argumentos controversíveis; ele não se perde nas nuvens da metafísica, do subjetivo e do objetivo, nas argúcias da dialética, mas fica no terreno do positivismo. Ele combate os ateus com suas próprias armas. Tomando seus argumentos um a um, os destrói com o auxílio da mesma ciência que eles invocam. Não se apoia na opinião de homens; sua autoridade é a Natureza e aí mostra Deus em tudo e por toda parte.

“A Natureza explicada pela Ciência, diz ele, no-la mostrou num caráter particular. Ele lá está, visível, como a força íntima de todas as coisas. Nenhuma poesia humana nos pareceu comparável à verdade natural, e o verbo eterno nos falou com mais eloquência nas mais modestas obras da Natureza do que o homem nos seus mais pomposos cantos.”

Dissemos os motivos que levaram o Sr. Flammarion a colocar-se fora do Espiritismo, e não podemos senão aplaudi-lo. Se algumas pessoas pensaram que foi por antagonismo à Doutrina, bastaria, para desiludi-lo, citar a passagem seguinte:

“Poderíamos acrescentar, para fechar o capítulo da personalidade humana, algumas reflexões sobre certos assuntos de estudo ainda misteriosos, mas não insignificantes. O sonambulismo natural, o magnetismo, o Espiritismo, oferecem aos experimentadores sérios que sabem examiná-los cientificamente, fatos característicos que bastariam para demonstrar a insuficiência das teorias materialistas. Confessamos que é triste, para o observador consciencioso, ver o charlatanismo desavergonhado deslizar sua avidez pérfida em causas que deveriam ser respeitadas; é triste constatar que noventa e nove fatos em cem podem ser falsos ou imitados; mas um único fato bem constatado derruba todas as negações. Ora, que partido tomam certos doutos personagens diante desses fatos? Simplesmente os negam.



“A Ciência não duvida, disse em particular o Sr. Buchner, que todos os casos de pretensa clarividência não sejam efeitos de charlatanice e de conluio. A lucidez é, por razões naturais, uma impossibilidade. Está nas leis da Natureza que os efeitos dos sentidos sejam limitados a certa extensão do espaço que eles não podem transpor. Ninguém tem a faculdade de adivinhar os pensamentos, nem de ver com os olhos fechados o que se passa em torno de si. Estas verdades são baseadas nas leis naturais, que são imutáveis e sem exceção.”

“Ora, senhor juiz, então vós conheceis bem as leis naturais? Homem feliz! Como sucumbis sob o excesso de vossa ciência! Mas, que? Volto duas páginas e eis o que leio:

“O sonambulismo é um fenômeno do qual infelizmente não temos senão observações muito inexatas, conquanto fosse desejável que dele tivéssemos noções precisas, por força de sua importância para a Ciência. Contudo, sem ter dele dados certos (escutai!) podemos relegar entre as fábulas todos os fatos maravilhosos que se contam dos sonâmbulos. Não é dado a um sonâmbulo escalar muros, etc. Ah! senhor, como raciocinais com sabedoria, e como vos teria feito bem, antes de escrever, saber um pouco o que pensais!”

Um relato analítico da obra exigiria desenvolvimentos que a falta de espaço nos interdiz e, aliás, seria supérfluo. Bastaria mostrar o ponto de vista em que se colocou o autor para compreendermos a sua utilidade. Reconciliar a Ciência com as ideias espiritualistas é aplainar as vias de sua aliança com o Espiritismo. O autor fala em nome da ciência pura e não de uma ciência fantasista ou superficial, e o faz com a autoridade que lhe dá seu saber pessoal. Seu livro é um desses que têm um lugar marcado nas bibliotecas espíritas, porque é uma monografia de uma das partes constituintes da doutrina, onde o crente encontra para se instruir tanto quanto o incrédulo. Teremos mais de uma vez ocasião de a ele voltar.

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* Um grosso volume in-12. Preço, 4 francos. Paris Didier & Comp. Quai des Grands-Augustins, 35.


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