Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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Num grupo espírita de Marselha, a Sra. T..., médium, escreveu espontaneamente a seguinte comunicação:

Escutai um infeliz que foi arrancado violentamente do meio de sua família, e que não sabe onde está... Em meio às trevas em que me encontro, pude seguir um raio luminoso de um Espírito, ao que me dizem; mas não creio nos Espíritos. Sei bem que é uma fábula inventada por cabeças débeis e crédulas... De minha parte não compreendo mais nada... Vejo-me duplo; um corpo mutilado jaz ao meu lado, contudo, estou vivo... Vejo os meus parentes que se desolam, sem contar meus companheiros de infortúnio, que não veem tão claramente quanto eu. Assim, aproveitei a luz que me conduziu até aqui, para vir colher informações junto de vós.

Parece-me que não é a primeira vez que vos vejo. Minhas ideias ainda estão confusas... Permitem-me voltar outra vez, quando eu estiver mais habituado à minha posição atual... Para mim dá na mesma, eu me vou com pesar; encontrava-me em meu centro... mas sinto que é preciso obedecer. Este Espírito me parece bom, mas severo. Vou esforçar-me para ganhar as suas boas graças, para poder falar mais vezes convosco.

Um operário do curso Lieutaud.

No desmoronamento de uma ponte que ocorreu poucos dias antes, seis operários tinham morrido. Foi um desses que se manifestou.

Depois desta comunicação, o guia do médium lhe ditou o seguinte:

Cara irmã, este Espírito infeliz foi conduzido a ti para exercitares a tua caridade. Como nós a praticamos para com os encarnados, a vossa deve exercer-se para com os desencarnados.

Embora esse infeliz seja sustentado por seu anjo da guarda, este lhe deve ficar invisível, até que ele se reconheça bem na sua situação. Para isto, cara irmã, toma-o sob tua proteção, que reconheço ser ainda fraca; mas, sustentado por tua fé, esse Espírito em breve verá reluzir a aurora de um novo dia, e o que recusou reconhecer depois de sua catástrofe, em breve tornar-se-á para ele um motivo de paz e de alegria. Tua tarefa não será muito difícil, porque ele tem o essencial para te compreender: a bondade do coração.

Escuta, cara irmã, os impulsos do teu coração, e sairás vitoriosa da prova que tua nova missão te impõe.

Sustentai-vos mutuamente, caros irmãos e muito amadas irmãs, e a nova Jerusalém que estais a ponto de atingir vos será aberta com cantos de triunfo, porque o cortejo que vos seguirá vos tornará vitoriosos. Mas para bem combater os obstáculos exteriores, antes de tudo é preciso ter vencido a si mesmo. Deveis manter uma disciplina severa para o vosso coração. A menor infração deve ser reprimida, sem buscar atenuar a falta, senão não sereis jamais vencedores dos outros. Entre vós, é preciso rivalizar em virtudes e vigilância.

Coragem, amigos; não estais sós; sois sustentados e protegidos pelos combatentes espirituais que esperam em vós e chamam sobre vós a bênção do Altíssimo.

Vosso guia.

Como se vê, este fato tem alguma analogia com o precedente. É igualmente um Espírito que não se reconhece, que não compreende sua situação, mas é fácil de ver qual dos dois sairá primeiro da incerteza. Pela linguagem de um, se reconhece o sábio orgulhoso que racionalizou sua incredulidade, que, ao que parece, nem sempre fez de sua inteligência e de seu saber o melhor uso possível. O outro é uma natureza inculta, mas boa, à qual, sem dúvida, só faltou uma boa direção. Nele a incredulidade não era um sistema, mas uma consequência da falta de ensinamento conveniente. Aquele que em vida pudesse ter tido piedade do outro, bem que poderia tê-lo visto mais cedo numa posição mais feliz que ele. Que possa Deus pôlos em presença um do outro para sua mútua instrução, e o sábio bem poderia sentirse feliz em receber as lições do ignorante.

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