Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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(Sociedade de Paris - Médium: Sr. Morin em sonambulismo espontâneo)

Um médico, que designaremos sob o nome de doutor Claudius, conhecido de alguns dos nossos colegas, cuja vida tinha sido uma profissão de fé materialista, morreu há algum tempo de uma afecção orgânica que ele sabia ser incurável. Chamado, sem dúvida, pelo pensamento dos que o haviam conhecido e que desejavam conhecer sua posição, manifestou-se espontaneamente por intermédio do Sr. Morin, um dos médiuns da Sociedade, em estado de sonambulismo espontâneo. Já várias vezes esse fenômeno se produziu por esse médium e por outros adormecidos no sono espiritual.

O Espírito que assim se manifesta apodera-se da pessoa do médium e se serve de seus órgãos como se ele ainda estivesse vivo. Então não mais é uma fria comunicação escrita, porquanto o que temos diante dos olhos é a expressão, a pantomima e a inflexão de voz do indivíduo.

Foi nestas condições que se manifestou o doutor Claudius, sem ter sido evocado. Sua comunicação, que publicamos textualmente a seguir, é instrutiva sob vários aspectos, principalmente porque descreve os sentimentos que o agitam; a dúvida ainda constitui o seu tormento e a incerteza de sua situação que o mergulha numa terrível perplexidade, e aí está a sua punição. É um exemplo a mais que vem confirmar o que se viu muitas vezes em casos semelhantes.

Após uma dissertação sobre outro assunto, o médium absorvido se recolhe alguns instantes, depois, como se despertasse penosamente, assim se exprime, falando consigo mesmo:

Ah! Ainda um sistema!... Que há de verdadeiro e de falso na existência humana, na criação, na criatura, no criador? ... A coisa existe?... A matéria é mesmo verdadeira?... A ciência é uma verdade?... O saber, uma aquisição?... A alma... a alma existe?

O criador, a divindade não é um mito?... Mas... que digo eu?... Por que essas blasfêmias multiplicadas?... Por que, em face da matéria, não posso crer, ó meu Deus, não posso ver, sentir, compreender?...

Matéria!... Matéria!... Mas, sim, tudo é matéria... Tudo é matéria!!!... Entretanto, a invocação a Deus veio-me à boca!... Por que, então, disse eu: Ó meu Deus?... Por que esta palavra, se sei que tudo é matéria?... Sou eu?... Não é um eco do meu pensamento que raciocina e que se escuta?... Não são os últimos repiques do sino que eu tocava?

Matéria!... Sim, a matéria existe, eu o sinto!... A matéria existe; eu a toquei!... mas!... nem tudo é matéria, e contudo... contudo, tudo foi auscultado, apalpado, tocado, analisado, dissecado fibra a fibra, e nada!... Nada senão a carne, sempre a matéria que desde o instante em que o grande movimento parou, parou também!... O movimento para, o ar não chega mais... Mas!... se tudo é matéria, por que ela não mais se põe em movimento, porquanto tudo o que existia quando ela se agitava existe ainda?... E contudo... ele não mais existe!...

Mas sim, eu existo!... Nem tudo acabou com o corpo!... Na verdade... estou mesmo morto?... Entretanto, esse roedor que alimentei, que cuidei com minhas mãos, ele não me perdoou!... É verdade; estou morto!... Mas essa doença que vi nascer... crescer... tinha uma alma?

Ah! a dúvida! sempre a dúvida!... em resposta a todas as minhas secretas aspirações!... Mas, se eu sou, ó meu Deus, se eu existo... ah! fazei que eu me reconheça!... fazei-me vos pressentir!... porque se eu sou, que longa sucessão de blasfêmias!... que longa negação de vossa sabedoria, de vossa bondade, de vossa justiça!... Que imensa responsabilidade do orgulho assumi sobre minha cabeça, ó meu Deus!... Mas sim, eu ainda tenho um eu, eu que nada queria admitir que não fosse possível tocar... Duvidei de vossa sabedoria, é meu Deus! É justo que eu duvide!... Sim, eu duvidei; a dúvida me persegue e me castiga.

Oh! Mil mortes antes que a dúvida em que vivo!... Eu vejo. Eu encontro velhos amigos... e contudo, todos eles morreram antes!... Méry! Meu pobre louco!... mas o louco não sou eu?... o epíteto de louco se adapta à sua personalidade?

─ Vejamos, então. O que é a loucura?... A loucura!... A loucura!... Decididamente, a loucura é universal!!! Todos os homens são loucos num grau maior ou menor... mas a sua loucura, a dele, não era sabedoria ao lado de minha própria loucura?... Para ele, os sonhos, as imagens, as aspirações ao além da... mas, é justiça!... Conhecia eu esse desconhecido que a mim se apresenta inopinadamente?... Não, não, o nada não existe, porque se existisse, esta encarnação de negação, de crimes, de infâmias, não me torturaria assim!... Eu vejo, mas vejo demasiado tarde, todo o mal que fiz!... Vendo-o hoje, e reparando-o pouco a pouco, talvez um dia eu seja digno de ver e fazer o bem!...

Sistemas!... Sistemas orgulhosos, produtos de cérebros humanos, eis para onde nos conduzis!... Num, é a divindade; noutro, a divindade material e sensual; num terceiro, o nada, nada!... Nada, divindade material, divindade espiritual, são palavras?... Oh! Eu peço para ver, meu Deus!... E se eu existo, e se vós existis, concedei-me o favor que vos peço; aceitai minha prece, porque vos peço, ó meu Deus, que me façais ver se eu existo, se eu sou!... (Estas últimas palavras foram ditas com um tom dilacerante).

OBSERVAÇÃO: Se o Sr. Claudius perseverou até o fim na sua incredulidade, não foram os meios de se esclarecer que lhe faltaram. Como médico, tinha, necessariamente, o espírito cultivado, a inteligência desenvolvida, um saber acima do vulgo e, contudo, isto não lhe bastou. Em suas minuciosas investigações da natureza morta e da natureza viva, ele não entreviu Deus, não entreviu a alma! Vendo os efeitos, não soube remontar à causa! ou melhor, ele havia imaginado uma causa à sua maneira, e seu orgulho de sábio o impedia de confessá-lo a si próprio, de confessar sobretudo à face do mundo que ele podia ter-se enganado.

Circunstância digna de nota, ele morreu de um mal orgânico que ele sabia, por sua própria ciência, ser incurável; esse mal, que ele tratava, era uma advertência permanente; a dor que lhe causava era uma voz que lhe gritava sem cessar que pensasse no futuro. Entretanto, nada pôde triunfar sobre sua obstinação. Ele manteve os olhos fechados até o último momento.

Será que esse homem algum dia poderia ter-se tornado espírita? Certamente não. Nem fatos, nem raciocínios teriam podido vencer uma opinião estabelecida a priori, e da qual ele estava decidido a não se desviar. Ele era desses homens que não se querem render à evidência, porque neles a incredulidade é inata, como a crença em outros. O sentido pelo qual um dia poderão assimilar os princípios espirituais ainda não eclodiu; eles são, para a espiritualidade, o que os cegos de nascença são para a luz: não a compreendem.

Portanto, a inteligência não basta para conduzir pelo caminho da verdade; ela é como o cavalo que nos carrega, e que segue a rota que lhe traçamos. Se essa rota conduz a um pântano, ela aí precipita o cavaleiro; mas, ao mesmo tempo, dá-lhe os meios de se erguer.

Tendo o Sr. Claudius morrido voluntariamente como cego espiritual, não é de admirar que não tenha visto a luz imediatamente; que ele não se reconheça num mundo que não quis estudar; que, morto com a ideia do nada, duvide de sua própria existência, incerteza pungente que constitui o seu tormento. Ele caiu no precipício para onde impeliu sua montaria-inteligência. Mas ele pode erguer-se dessa queda e parece já entrever um clarão que, se o seguir, o conduzirá ao porto. É em seus louváveis esforços que é preciso sustentá-lo pela prece. Quando tiver gozado dos benefícios da luz espiritual, ele terá horror às trevas do materialismo; e se um dia voltar à Terra, será com intuições e aspirações muito diversas das que tinha nesta última existência.

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