Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1867

Allan Kardec

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A Sociedade de Bordéus, reconstituída, como dissemos no último número, reuniu-se este ano, como no ano passado, num banquete no dia de Pentecostes. Banquete simples, digamo-lo logo, como convém em semelhante circunstância, e para pessoas cujo objetivo principal é encontrar uma ocasião para se reunir e estreitar os laços de confraternidade, porquanto a pesquisa e o luxo aí seriam uma insensatez. Malgrado as ocupações que nos retinham em Paris, foi-nos possível atender ao gentil e instante convite que nos foi feito para nele tomar parte. O do ano passado, que era o primeiro, só havia reunido uns trinta convivas; no deste ano havia quatro vezes mais, dos quais alguns vindos de grande distância. Toulouse, Marmande, Villeneuve, Libourne, Niort, Blaye e até Carcassonne, que fica a 80 léguas, aí tinham seus representantes. Todas as classes da Sociedade aí estavam confundidas numa comunidade de sentimentos; aí se encontravam o artífice, o agricultor ao lado do burguês, do negociante, do médico, dos funcionários, dos advogados, dos homens de ciência, etc.

Seria supérfluo acrescentar que tudo se passou como devia ter se passado entre gente que tem por divisa: “Fora da caridade não há salvação,” e que professa a tolerância por todas as opiniões e todas as convicções. Assim, nas oportunas alocuções que foram pronunciadas, nem uma palavra foi dita que pudesse ferir a mais sombria suscetibilidade. Se os nossos maiores adversários estivessem presentes, não teriam uma palavra ou uma alusão à sua atitude.

A autoridade se havia mostrado plena de benevolência e de cortesia em relação a essa reunião, pelo que lhe devemos agradecer. Ignoramos se ela aí estava representada de maneira oculta, mas certamente pôde convencer-se, como sempre, que as doutrinas professadas pelos espíritas, longe de ser subversivas, são uma garantia de paz e de tranquilidade; que a ordem pública nada tem a temer de gente cujos princípios são os do respeito às leis, e que em nenhuma circunstância cedeu às sugestões dos agentes provocadores que procuravam comprometê-la. Eles sempre foram vistos retirando-se e abstendo-se de toda manifestação ostensiva, todas as vezes que temeram ser tomados como um motivo de escândalo.

É fraqueza de sua parte? Certamente não; ao contrário, é a consciência da força de seus princípios que os torna calmos, e a certeza que eles têm da inutilidade dos esforços empreendidos para abafá-los; quando se abstêm não é para pôr-se em segurança, mas para evitar o que poderia refletir sobre a sua doutrina. Eles sabem que ela não necessita de demonstrações exteriores para triunfar. Eles veem suas ideias germinarem por toda parte e propagar-se com uma força irresistível. Por que precisariam fazer barulho? Deixam essa necessidade aos seus antagonistas que, por seus clamores, ajudam na propagação. As próprias perseguições são o batismo necessário de todas as ideias novas um pouco grandes. Em vez de prejudicá-las, dãolhes brilho. Mede-se a sua importância pelo encarniçamento com que a combatem. As ideias que não se aclimatam senão à força de reclames e de exibições têm apenas uma vitalidade factícia e de curta duração; as que se propagam por si mesmas e pela força das coisas têm vida em si, e são as únicas duráveis. É o caso em que se encontra o Espiritismo.

A festa terminou por uma coleta em benefício dos infelizes, sem distinção de crenças, e com uma precaução cuja sabedoria só merece elogios. Para deixar toda liberdade, não humilhar ninguém e não estimular a vaidade daqueles que dariam mais que os outros, as coisas foram dispostas de maneira a que ninguém, nem mesmo os coletores, soubessem quanto cada um havia dado. A receita foi de 85 francos, e encarregados foram designados imediatamente para fazer a sua aplicação.

Malgrado nossa curta demora em Bordéus, pudemos assistir a duas sessões na Sociedade: uma consagrada ao tratamento de doentes e outra a estudos filosóficos. Assim pudemos constatar por nós mesmo os bons resultados que sempre são o fruto da perseverança e da boa vontade. Pelo relato que publicamos em nosso número precedente sobre a Sociedade Bordelesa, podemos, com conhecimento de causa, acrescentar nossas felicitações pessoais. Mas ela não deve dissimular que quanto mais prosperar, mais estará exposta aos ataques de nossos adversários. Que ela desconfie sempre das manobras surdas que contra ela poderiam ser urdidas e dos pomos de discórdia que, sob a aparência de um zelo exagerado, poderiam lançar em seu seio.

Sendo limitado o tempo de nossa ausência de Paris, pela obrigação de aí estar de volta em dia fixo, não pudemos, para nosso grande pesar, ir aos diversos centros que nos convidaram. Não pudemos parar senão alguns instantes em Tours e Orléans, que estavam em nosso caminho. Também aí pudemos constatar o ascendente que adquire a doutrina dia a dia na opinião pública, e seus felizes resultados que, a despeito de serem ainda individuais, não são menos satisfatórios.

Em Tours, a reunião devia ter cerca de cento e cinquenta pessoas, tanto da cidade quanto das cercanias, mas em consequência da precipitação com que foi organizada a convocação, só dois terços puderam comparecer. Uma circunstância imprevista não tendo permitido aproveitar a sala que fora escolhida, reunimo-nos, em noite magnífica, no jardim de um dos membros da Sociedade. Em Orléans, os espíritas são menos numerosos, mas nem por isso esse centro deixa de ter bom número de adeptos sinceros e devotados, cujas mãos tivemos o prazer de apertar.

Um fato constante e característico, e que devemos considerar como um grande progresso, é a diminuição gradativa e mais ou menos geral das prevenções contra as ideias espíritas, mesmo entre os que delas não compartilham. Agora se reconhece a cada um o direito de ser espírita, como o de ser judeu ou protestante. Já é alguma coisa. As localidades onde, como em Illiers, no departamento de Eure-et-Loir, estimulam os garotos a corrê-los a pedradas, são exceções cada vez mais raras.

Um outro sinal de progresso não menos característico é a pouca importância que, por toda parte, os adeptos, mesmo nas classes menos esclarecidas, ligam aos fatos de manifestações extraordinárias. Se efeitos desse gênero se produzem espontaneamente, constatam-nos, mas não se comovem, não os procuram e, ainda menos, tratam de provocá-los. Apegam-se pouco àquilo que apenas satisfaz aos olhos e à curiosidade; o objetivo sério da doutrina; suas consequências morais; os recursos que ela pode oferecer para alívio do sofrimento; a felicidade de reencontrar parentes ou amigos que se perdeu, conversar com eles, escutar conselhos que vêm dar, constituem o objetivo exclusivo e preferido das reuniões espíritas. Mesmo no campo e entre os artífices, um poderoso médium de efeitos físicos seria menos apreciado que um bom médium escrevente que desse, por comunicações raciocinadas, o consolo e a esperança. O que se busca na doutrina é, antes de tudo, o que toca o coração. É uma coisa notável a faculdade com que mesmo as pessoas mais iletradas[1] compreendem e assimilam os princípios desta filosofia. É porque não é necessário ser sábio para ter sentimento e raciocínio. Ah! dizem eles, se sempre nos tivessem falado assim, jamais teríamos duvidado de Deus e de sua bondade, mesmo nas maiores misérias.

Sem dúvida, crer é alguma coisa, porque já é um pé no bom caminho, mas a crença sem a prática é letra morta; ora, sentimo-nos feliz em dizer que, em nossa curta excursão, entre numerosos exemplos de efeitos moralizadores da doutrina, encontramos bom número desses espíritas de coração que poderíamos dizer completos se fosse dado ao homem ser completo no que quer que fosse, e que podem ser olhados como os tipos da geração futura transformada; há representantes de ambos os sexos, de todas as idades e condições, desde a juventude até o limite extremo da idade, que a partir desta vida compreendem as promessas que nos são feitas para o futuro. Eles são fáceis de reconhecer; há em todo o seu ser um reflexo de franqueza e de sinceridade que a confiança impõe; desde logo sente-se que não há nenhuma segunda intenção dissimulada sob palavras douradas e cumprimentos hipócritas. Em torno deles, e mesmo nas classes menos favorecidas, sabem fazer reinar a calma e o contentamento. Nessas abençoadas regiões interioranas respira-se uma atmosfera serena que nos reconcilia com a Humanidade, e compreendemos o reino de Deus sobre a Terra. Felizes os que sabem gozá-lo por antecipação! Em nossas excursões espíritas, o que mais nos satisfaz não é o número dos crentes que contamos. O que mais nos satisfaz são esses adeptos que são a honra da doutrina e que são, ao mesmo tempo, os mais firmes esteios, porque fazem-na estimada e respeitada por eles mesmos.

Vendo o número de felizes que faz o Espiritismo, esquecemos facilmente as fadigas inseparáveis de nossa tarefa. Eis uma satisfação, um resultado positivo que a malevolência mais encarniçada não nos pode roubar. Poderiam tirar-nos a vida, os bens materiais, mas jamais a felicidade de ter contribuído para reconduzir a paz a corações ulcerados. Para quem quer que sonde os motivos secretos que fazem certos homens agirem, há lama que suja as mãos dos que a atiram e não aqueles em quem é lançada.

Que todos os que nos deram, nessa última viagem, tão tocantes testemunhos de simpatia, recebam aqui nossos mui sinceros agradecimentos e estejam certos de que receberão sua retribuição na mesma moeda.



[1] No original constou ilustres, falha corrigida através de erratum inserido na última página da Revista Espírita de janeiro de 1868. Nota da equipe revisora.


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